Sociedade

TRIBUNA ABERTA

O que gera mais de 12horas de conflito na favela da Maré?

domingo 22 de janeiro de 2017| Edição do dia

A delinquência, ilegalidade dominada, é um agente para a ilegalidade dos grupos dominantes. (Michel Foucault)

Projete uma cena de filme, uma que talvez você não queira que a sua filha (o) assista na esperança de cessar em algum grau essa cultura louca da violência que vive, cenas que são difíceis de vê, até mesmo em meio ao glamour Hollywoodiano. Imagine você saindo de casa, são 6h da manhã e você tem que ir ao seu trabalho, desce a escada, abre o portão e assim logo de cara você se depara com um homem fardado, com uma roupa do exército, mas sabido que ele faz parte da polícia.

Resolve então entrar para casa, já que você não se sente segura em continuar a jornada para o trabalho. Manda uma mensagem pro chefe, tenta explicar que vai se atrasar devido a situação, e depois de 8h de um intenso tiroteio, desde o momento que você entrou em casa, começa a se convencer que ir ao trabalho já não será algo tão fácil, resolve assim tirar a roupa do serviço e aguardar que as coisas se acalmem, é aí que nesse exato momento o mesmo homem fardado que se diz "representante da lei", arromba a sua casa pela janela, entra no seu quarto, mexe no seu celular, joga as suas roupas para fora do seu guarda roupa, rouba o seu único dinheiro para pagar o aluguel e ainda diz que se você falar algo vai morrer.

Quando ele vai embora, como qualquer outro ser humano, você entra em um verdadeiro estado de choque, angústia, desespero, medo, indignação são alguns dos vários sentimentos que rondam pelo seu corpo durante as próximas mais de 5 horas de conflito dos mais pesados disparos possíveis. Mais de doze horas de tiroteio, essa foi a realidade de um dia que definitivamente ninguém queria ter vivido. O mais inacreditável é que essa história foi real, vivida por uma moradora do conjunto de favelas da Maré nessa quinta de véspera de feriado.

Me pergunto, em meio as falas de toda essa história, o que justifica a ação da polícia em fuzilar toda uma favela, em mais de 12 horas de operação na véspera de feriado? A prisão de alguns varejistas do tráfico de drogas? A captura de um único homem, o "dono" da favela? Ou então o simples prazer da humilhação daqueles que moram ali, como o caso descrito acima? O mais difícil de entender de tudo isso, é que esse mesmo fato nunca ocorreria em Copacabana, falas que são inclusive do ex-secretário de segurança pública do Rio de Janeiro Beltrame.

Na procura de revelarmos possíveis respostas para essas perguntas, nos deparamos com conceitos como o estigma (Goffman) e o estereótipo (Chapman). Protagonizadas pelo Estado desde antes do império, sua função é de atribuir "desvalores" a certos grupos sociais com o único propósito de criar o "inimigo social" que por definição histórica é desumanizado, foi assim no período do surgimento dos presídios no Brasil, na pós abolição da mão de obra escrava, e é agora quando falado sobre periferia.

Goffman ao estudar a "identidade deteriorada" tratou de definir o criminoso (desviante) como um indivíduo estigmatizado, portador de um atributo profundamente depreciativo, que o torna diferente dos outros. Ao utilizar o estigma como um atributo profundamente depreciativo em alguém, um ser estigmatizado se encontra na verdade com um traço, que segundo Goffman, poderia ter sido facilmente recebido dentro das relações sociais quotidianas se não fosse por esse traço, que o afasta daqueles que ele encontra. Esse traço, criado pelo próprio Estado, externa o propósito dele de ter o total controle sobre certos grupos sociais. A fala "eu sou meio coxinha sobre isso. Sou filho de polícia, né? Tinha era que matar mais. Tinha que fazer uma chacina por semana." do Bruno Júlio, ex-secretário nacional de juventude do Temer, revela um pouco da lógica pensada por parte do Estado para as consequências desse grupo, de maioria negra, que vive no morro.

Em paralelo temos as contínuas proposições da grande mídia em dizer que a favela é um espaço extremamente hostil, mostram também o esforço desse segmento da burguesia em legitimar ações como essa realizados pelo BOPE. Ora, quando ligamos o telejornal nos Datenas da vida, a rotulação da favela como o espaço que deve ser diariamente combatido, é mais que claro quando a única notícia apresentada é colocando a favela como um espaço perigoso, truculento, tomado por grupos que merecem ser classificados como algo tão monstruoso que sentimentos como compaixão, tolerância e compreensão, são inexistentes a eles. A luta para uma outra narrativa dos fatos, distante da retratada do asfalto para o morro, somados com a luta do fim da polícia, é a luta para que o direito a vida seja algo garantido por aqueles que historicamente foram e ainda são negados pelas mais de 12 horas de pura barbárie.




Tópicos relacionados

Sociedade   /    Racismo   /    violência policial   /    Rio de Janeiro

Comentários

Comentar