Mundo Operário

SEGURANÇA DO TRABALHO

O que é Segurança do Trabalho?

terça-feira 16 de junho de 2015| Edição do dia

José Carlos, trabalhador da indústria de alimentos

Esses dias li um livro que chama “O que é Segurança do Trabalho?”. Gostei que ele começa falando que é simplista a segurança do trabalho olhar só o espaço dentro da fábrica, do momento do acidente (ato inseguro e condição insegura). Uma prevenção séria tem que ver as condições de vida do trabalhador, as condições de moradia, transporte e alimentação. Se você dorme na rua ou não come, por exemplo, como vai trabalhar? Vai ficar tão cansado, distraído, sem reflexo, vai ser fácil acontecer um acidente.

Outra coisa interessante que ele fala é que como a garantia das condições de vida (moradia, alimentação etc.) é o salário, então arriscar a vida no trabalho, pelo salário, é a única forma de garantir as condições de vida. Quer dizer, o que está por trás do que chamam de “ato inseguro”, como causa de acidentes, é a luta pela sobrevivência. Todo mundo sabe que dentro de uma fábrica a verdadeira regra que conta é bem simples, “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. Outra coisa que favorece a ocorrência de acidentes é que quem planeja e organiza o local de trabalho nunca é alguém que vai de fato trabalhar ali. O clima de cobrança e assédio moral contra os trabalhadores, que deixa a pessoa desnorteada, abalada psicologicamente também faz mais fácil de sofrer um acidente.

Depois ele conta como o direito à insalubridade, que nem sempre é pago como deve (como no nosso caso, por exemplo), é uma coisa que nem existe mais nos países de primeiro mundo. É como se você estivesse vendendo a sua saúde, já que o pagamento da insalubridade é para funções nas quais é certo que terá sequelas para a saúde do trabalhador, mas a saúde e a vida não fazem parte do contrato de trabalho. Por último, é interessante quando fala de um pesquisador (H. W. Henrich) que mostrou com estatísticas que para cada 300 acidentes sem lesão, acontecem outros 29 com lesão leve e 1 grave ou fatal. Por exemplo, se um tijolo cai de um prédio numa construção, pode não acontecer nada, mas se isso acontece bastante, uma hora acerta alguém e vai machucar muito ou matar. Isso é mais grave ainda com as nossas leis, que não reconhecem como acidente de trabalho quando não tem lesão.

E sobre o papel das CIPA’s?

Então, o ponto fraco desse livro é justamente quando fala que as CIPA’s têm que ajudar a empresa a prevenir os acidentes. Mas como ajudar alguém que não tem de fato esse objetivo? Se algum gerente ou coordenador priorizar a segurança e saúde dos funcionários ao invés do seu lucro, perderá seu emprego, já que a empresa existe é para dar lucro e não para ser segura. Com tudo o que o livro fala antes, não tem como acreditar no que ele mesmo defende no final. Com as condições de vida precárias que muitos trabalhadores levam e com a maneira como estão organizadas as fábricas, vemos que aquilo que chamam de “acidentes de trabalho”, na verdade são violências previsíveis, são uma praga criada pelas condições de trabalho, organizadas de tal forma que os acidentes regularmente mutilam e matam trabalhadores. Sendo evitáveis, deixam de ser acidentes. Diante disso, a única saída para evitar de fato esses acidentes é que os próprios trabalhadores organizem e controlem a produção, ditando o ritmo e as normas em que devem trabalhar.

Como uma CIPA que colabora com a empresa pode melhorar as condições de vida dos trabalhadores, se os baixos salários pagos são opção da própria empresa? O mesmo para a jornada e o ritmo do trabalho pesados, assim como as cobranças e assédio moral da chefia, são todos determinados pela empresa. A falta de segurança e a “contabilidade dos acidentes” são opções da empresa. O fato de que metade da CIPA são pessoas indicadas pela chefia, inclusive o presidente, faz com que ela seja uma comissão bastante limitada, que não pode realmente cumprir um papel significativo em defesa dos trabalhadores, sem medo de enfrentar a empresa.

Precisaria existir uma CIPA mais democrática, na qual os trabalhadores fossem a maioria, assim como são na produção. É só assim que a gente consegue as coisas, batendo de frente, organizando a revolta, fazendo protesto. É isso que acho que todo cipeiro deve fazer.

*CIPA: Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. Órgão interno às empresas, composto por metade de membros eleitos pelos trabalhadores e metade indicados pela diretoria, assim como o presidente.




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