Internacional

DEBATE

O que as eleições na Argentina têm a dizer? Um debate com a esquerda brasileira

Diante da profunda crise pela qual passa a Argentina, em que vimos a população rechaçar massivamente o projeto neoliberal de Macri nas eleições, se faz necessário abrir a discussão com a esquerda brasileira. O caminho está em apoiar alguma variante burguesa como faz PT, PCdoB e PCB apoiando o liberal Alberto Fernandez, ou na luta dos trabalhadores contra o saque imperialista?

segunda-feira 9 de setembro| Edição do dia

Nas eleições prévias realizadas em agosto, milhões de argentinos votaram contra o atual presidente, Maurício Macri, e sua política de ajustes neoliberais. Apenas 32% da população votou pela continuidade de seu governo. É um acontecimento de maior importância para a esquerda no Brasil pois mostra limites para a direitização no subcontinente, colocando a perspectiva de que essa tendência de rechaço a uma política de ataques aos trabalhadores possa se expressar também no Brasil em relação a Bolsonaro.

Macri e o FMI endividaram a Argentina em níveis astronômicos em uma tentativa frustrada de resolver a crise econômica, impondo uma agenda neoliberal similar à dos golpistas no Brasil, com reformas trabalhista e da previdência. A inflação galopante, o dólar a 60 pesos e o desemprego colocam os argentinos em uma situação dramática. Nesse sentido as eleições polarizaram o país e passaram uma forte mensagem, ainda que distorcida: as massas argentinas rejeitam os ajustes que Macri impõe em nome do lucro dos capitalistas, especuladores e do FMI(Fundo Monetário Internacional).

Aqui no Brasil Bolsonaro também se manifestou sobre o fato com a asquerosa declaração de que a Argentina viraria uma “nova Venezuela”. Não lhe agrada ver a derrota iminente de seu aliado estratégico do cone sul e “companheiro de armas” na aplicação de ajustes contra os trabalhadores em prol dos capitalistas.

Mas se a derrota de Macri já é quase certa, outros problemas compõem essa situação. Alberto Fernandez, o candidato favorito para vencer a eleições canalizando o rechaço aos ataques de Macri, é um político tradicional na Argentina que tem ótima relação com as patronais. Ao longo da campanha eleitoral vem se reunindo com diferentes setores, incluindo o próprio Macri (de quem é amigo pessoal) e as associações ruralistas e trabalhou para o governo neoliberal de Carlos Menem durante a década de 90. A sua Frente Para Todos tem como parte de sua base diversos governadores que apoiaram os ataques de Macri, além de políticos liberais e conservadores como Sergio Massa. Sua vice é a peronista Cristina Kirchner, ex-presidente da Argentina, que agrada os setores do petismo no Brasil e entra com tudo nessa frente com neoliberais e conservadores. Ou seja, Fernandez e Kirchner deixam claro desde já que um provável futuro governo deles vai se manter fiel aos mercados e aos ditames do FMI.

Eles já declararam abertamente que não vão romper com o FMI e buscarão renegociar a dívida. Um governo que não rompa com este saque imperialista que é a dívida pública só significa uma coisa para os trabalhadores: mais ataques! Fernandez e Kirchner, ao contrário de apontarem uma saída de esquerda, indicam um caminho de continuação da sangria dos trabalhadores para alimentar a sede de lucro do imperialismo. Frente ao "golpe de mercado" resultante das eleições, com o capital financeiro punindo o povo argentino por seu voto, Fernandez declarou que o dólar a 60 pesos é “razoável”, reafirmando a continuidade da submissão ao FMI.

Uma alternativa de esquerda radical para os trabalhadores

Há ainda outro fenômeno que não pode passar despercebido àqueles que acompanham a situação na Argentina. Se consolida neste país, ocupando o 4° lugar nas eleições prévias, uma esquerda que, sem abrir mão de um programa revolucionário, consegue atingir amplos setores de massas. É a Frente de Esquerda e dos Trabalhadores – Unidade (FIT-U, na sigla em espanhol), frente dos partidos de esquerda com independência de classe que é encabeçada por Nicolás Del Caño, do Partido de los Trabajadores Socialistas (PTS, organização irmã do MRT na Argentina).

Desde o início da campanha eleitoral, a Frente de Esquerda vem defendendo romper com o FMI e não pagar a ilegítima dívida pública, assim como a redução da jornada e a divisão das horas de trabalho para combater o desemprego, entre outras medidas para atacar o lucro dos capitalistas, como a expropriação de grandes empresas e latifúndios e a estatização com controle dos trabalhadores de setores estratégicos que o FMI quer privatizar. É uma força política que além de contar com centenas de milhares de votantes, é enraizada na classe trabalhadora, tendo uma campanha ativa nos locais de trabalho e estudo, que está na linha de frente das principais lutas no país vizinho. Conquista resultados, por exemplo, bastante superiores aos do PSOL aqui no Brasil, que abre mão de um programa revolucionário para se mostrar como gestor viável do Estado capitalista, tal como vimos na campanha de Boulos, que não defendeu o não pagamento da dívida pública e disse não querer "demonizar os empresários".

Desde o início desta nova etapa da crise, com os especuladores abalando a economia argentina, a FIT-U levanta a necessidade de uma paralisação nacional ativa, exigindo que as centrais sindicais a organizem desde as bases, para dar um basta na piora das condições de vida do povo argentino, defendendo a ocupação das fábricas que quiserem demitir ou fechar, e um plano emergencial de reajuste de salários e aposentadorias de acordo com a inflação. Ou seja, uma política de independência de classe que faça com que o FMI e os capitalistas paguem pela crise, do lado oposto de Fernandez, Kirchner e da cental sindical peronista CGT, que pedem “calma” enquanto os trabalhadores e trabalhadoras da Argentina passam fome.

A esquerda brasileira deve estar atenta a tais fenômenos do país vizinho. A FIT-U alcançou mais de 700 mil votos nessas primárias, um resultado importante tendo em vista que muitos argentinos optaram pelo "mal menor" para punir Macri na urna. O resultado eleitoral não resolve e nem vai resolver os problemas das massas argentinas, mas indica uma força que, se organizada nas ruas e locais de trabalho e estudo, pode enfrentar os ataques. O PTS na Argentina se utiliza dessas posições para se enraizar ainda mais entre a classe operária e a juventude, debatendo a construção de um partido unitário que seja uma alternativa política revolucionária e faça contraponto à direita neoliberal, para superar as organizações peronistas que seguem se alinhando com os capitalistas. Nesse sentido, todos que desejam construir uma esquerda revolucionária no Brasil devem extrair as melhores lições da Argentina.

Alguns setores da esquerda apontam em sentido oposto, como PT e PCdoB que reivindicam a chapa de Alberto Fernandez. Da mesma forma que aqui no Brasil os governadores do PT no nordeste apoiaram a reforma da previdência de Bolsonaro, muitos governadores da Frente de Todos kirchnerista no comando de províncias argentinas foram aliados de primeira mão dos ajustes de Macri. Querem se apoiar na vitória peronista na Argentina para alimentar ilusões eleitorais aqui no Brasil, após atuarem através das centrais sindicais como freio da luta dos trabalhadores deixando passar sem uma grande batalha a reforma da previdência. Querem que esperemos com resignação até 2020 e 2022.

Mas outros nomes chamam atenção também, como o PCB, que comemorou entusiasticamente a vitória do liberal Alberto Fernandez. O PCA, partido irmão do PCB, escreve em nota recente sobre o amigo de Macri: “felicitamos Alberto Fernández pela clareza de seu discurso e seus esforços para promover uma construção frentista e pela ex-presidente Cristina Kirchner, por seu gesto em favor da unidade do campo popular e nacional”. É um verdadeiro absurdo qualquer organização comunista ou socialista que verdadeiramente deseja construir uma alternativa anticapitalista na Argentina e no mundo tomar tal posição. Junto de governadores reacionários, de setores do agronegócio, de amigos do FMI e de ex-aliados do Macri, o PCB faz jus ao seu histórico stalinista ao apoiar alternativas burguesas mundo afora. No discurso, muitas palavras vermelhas, na prática, alianças e apoio a setores burgueses e liberais em nome do “campo popular e nacional”. Uma política muito semelhante a do PT, PCdoB, Levante Popular…

Abrimos esse debate com o PT, o PCdoB e, especialmente o PCB e outras organizações de esquerda que vêm apoiando Alberto Fernández, por entender que o processo argentino é de grande interesse para nós no Brasil. Bolsonaro está de olho na Argentina, Trump está de olho na Argentina, o FMI está de olho na Argentina, e nós, jovens que buscam os caminhos para dar uma resposta anticapitalista à crise, devemos olhar para lá também. Com os cortes na educação ameaçando a universidade, Bolsonaro e o agronegócio queimando a Amazônia e destruindo nossos poucos direitos, o rechaço das massas argentinas à política de ataque de Macri pode antecipar experiências assim aqui também. Parte de nos preparar para estes momentos é fazer desta uma discussão viva na universidade e na esquerda para tirarmos as melhores lições estratégicas para a luta contra Bolsonaro.




Tópicos relacionados

FIT-U   /    PCB   /    Mauricio Macri   /    PT   /    Debates na esquerda   /    Internacional

Comentários

Comentar