TRIBUNA ABERTA

O poder do Caos! e das flores...(alguém morreu hoje) [para Manoel Nunes de Souza]

Texto de estudante da Letras USP em homenagem a Manoel Nunes de Souza, trabalhador terceirizado que morreu de COVID-19 em decorrência da absurda imposição de que seguisse trabalhando, mesmo sendo idoso e parte do grupo de risco.

quinta-feira 9 de abril| Edição do dia

Veja aqui relato sobre a criminosa e trágica morte de Manoel Nunes de Souza:“Estou trabalhando, a empresa não está liberando os idosos”, escreveu trabalhador terceirizado da USP morto pela COVID-19

O poder do Caos!
e das flores...

(Alguém morreu hoje.)
Alguém morreu hoje. Você não se importa. Esse alguém tem nome. Mas é isso que o faz ser importante? Acho que sim. Talvez seja o pronome possessivo aquilo que mais vale... Se digo que um pai morreu hoje, é incômodo. Se digo que meu pai morreu hoje, é trágico. Se digo que o teu pai morreu hoje, é o fim. Quem é seu pai pro sistema? Ninguém. Um Manoel morreu hoje, vítima de uma pandemia aí. Ele tinha 71 anos. Continuava trabalhando. Não pôde parar, essa opção não lhe foi dada. O presidente não liga pro Manoel. Mas ele tinha filho, o filho de Manoel, ligava pro Manoel. Se pudéssemos guardar as pedras que nos foram jogadas, poderíamos com elas enfeitar um jardim de flores que cultivávamos enquanto o sangue era derramado. O nosso sangue. Será que precisamos de um jardim vermelho pra parar o genocídio? Um jardim de todas as cores? Eu não sei. Eu venho plantando flores. Mas deixa eu te contar um segredo, um devaneio meu, eu acho que já estamos prontos...

1:17h.

Eu vejo um cais no caos.




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