Teoria

IMPERIALISMO

O militarismo funciona como estímulo ou como problema para a economia norte-americana? [Parte II]

Impasses e limites do desproporcional setor bélico na economia norte-americana [Parte II].

Gilson Dantas

Brasília

sábado 5 de dezembro de 2015| Edição do dia

Portanto, cresce exponencialmente a dívida pública, ao mesmo tempo em que se afirmam as tendências estagnacionistas da economia capitalista.

Ao mesmo tempo, no orçamento dos Estados Unidos para 2016, os gastos militares são a segunda grande despesa (AMADEO, 2015), precedida apenas por Seguridade Social, ambas alcançando em torno de um trilhão de dólares, para um PIB que girou, em 2015, próximo de 16 trilhões de dólares. Podemos presumir então, que sem o impulso representado pelo complexo militar-industrial, o quadro seria calamitoso.

A taxa de investimentos brutos vem declinando: esta tendência secular vem se tornando um dos mais eloquentes indicadores de que a economia normal, não mais reencontrou níveis parecidos àqueles do boom do pós-II Guerra. Precisamente essa é a base que se relaciona diretamente com a grande concentração dos ativos financeiros, da chamada economia “fictícia” (GILL, 1996) (HUSSON, 2008).

Tomados de conjunto, por outro lado, os países mais ricos passaram a funcionar movidos a dívida pública. Ora, economia da dívida pública é economia onde a especulação tende a se deslocar fortemente para o papel de principal ator econômico: o Estado toma emprestado dos grupos financeiros, ao se lançar no mercado financeiro oferecendo juros altos, impulsionando uma dinâmica na qual a tendência dos agentes econômicos é a de “optar” por seguir lucrando na esfera do capital financeiro. Financeirização empresarial, preocupação por estratégias de lucro de curto prazo, eis o processo subsequente: os investimentos produtivos, já na defensiva no quadro geral da crise, vão cedendo lugar aos ativos financeiros.

Os gastos militares são parte inseparável desse processo. Ao mesmo tempo em que a dívida pública norte-americana ultrapassa os 15 trilhões de dólares (do tamanho do PIB), simultaneamente, eis que continua a todo vapor a dependência da economia bélica em relação à dívida.

De acordo com Marx, a dívida pública corresponde a uma riqueza parasitária que precisa repousar, em alguma medida, na produção, no trabalho vivo (pela via da carga fiscal sobre os salários, por exemplo), e é chave, no pensamento marxista, a ideia de que o capital só pode valorizar-se através do contato com o trabalho humano. E este vem sendo um candente problema do capitalismo do nosso tempo: sua tendência a “descartar” o trabalho vivo, a fazer crescer o exército industrial de reserva.

Levando-se em conta este dado e considerando que a economia armamentista tem recebido os maiores, mais pesados e mais duradouros “subsídios” do Estado nos últimos 60 anos (superlucros, encomendas bilionárias de longa maturação e os altos investimentos em pesquisa etc.), e, portanto, o quanto os Estados Unidos dela dependem (é seu segundo gasto orçamentário), pode-se deduzir o quanto é profunda a tendência à estagnação do capitalismo do nosso tempo.

Apesar de toda a transferência de riqueza da periferia, dos superlucros na China [mais valia absoluta], apesar da mundialização e consolidação da presença do capital financeiro em todas as economias, do aumento geral de gastos e endividamento público para salvar grandes empresas, as economias centrais do capitalismo não cessaram de declinar e, ao mesmo tempo, de desenvolver oscilações conjunturais, bolhas de crescimento, reequilíbrios, mas sempre dentro de uma tendência geral à estagnação.

Há dois outros sinais daquilo que Lênin chamaria decomposição ou putrefação de um sistema em sua fase imperialista, decadente.

O primeiro deles é o crescimento da narcoeconomia e do tráfico de mercadorias como armas, órgãos humanos, crianças, mulheres e outras que fazem parte da economia ilícita, que não deixa de incorporar elementos da moderna penetração imperialista. Autores que pesquisaram a respeito, mostraram que o tamanho desse “PIB” não é nada desprezível.

Petras demonstrou em estudos as dimensões monumentais e decisivas da “lavagem” de dinheiro pelos grandes bancos privados dos Estados Unidos. Ele argumenta ali que a presença dessa lavagem ilegal de dinheiro vem se tornando um elemento decisivo no mundo das finanças. Principalmente o dinheiro criminoso que é drenado da periferia para os países centrais (PETRAS, 2002).

Como forma de prosperidade capitalista esse processo assume bem mais o perfil de um crescimento de natureza parasitária, um crescimento entre aspas [por conta de sua base duvidosa, porosa, historicamente decadente e instável].

E como já foi dito, e é importante reafirmar, tanto esses números quanto os da economia bélica ficam ocultos, engordando o PIB oficial, aquele que será usado, depois, pelos economistas da ordem para medir o crescimento econômico e a economia capitalista de conjunto.

Outro elemento é o da elevação da produtividade do trabalho bem detrás das possibilidades; o capital resiste, retarda e pouco utiliza as novas tecnologias para não desvalorizar seu capital fixo, suas máquinas e equipamentos que estão em função, por exemplo. Mesmo com a composição orgânica do capital crescendo continuamente, a produtividade não vem crescendo no ritmo dos anos 50 e 60, estando abaixo daquela taxa, e, ao contrário, a taxa da produtividade despencou desde 73, e está pior que a da Grande Depressão (COGGIOLA, 1998).

Noutros termos, estamos, em parte, diante daquele paradoxo já analisado por Letizia de que lado a lado com os computadores não cresce na mesma proporção o uso da tecnologia na produção e sim a precarização do trabalho: naqueles “mesmos anos 80 em que se ameaçavam os assalariados com a obsolescência do trabalho, começaram a multiplicar-se as constatações de reaparecimento de práticas de trabalho de tipo escravista ou semi-escravista, juntamente com uma grande expansão do trabalho infantil, enquanto milhões de trabalhadores regulares eram demitidos ou tinham seus salários rebaixados por meio da terceirização ou de expedientes diversos. Quem ainda tinha olhos para ver conseguia notar que o que estava se tornando “obsoleto” não era o trabalho, mas sim o nível salarial e as conquistas sociais do segundo pós-guerra” (LETIZIA, 2002).

Essa tendência corresponde àquele duplo movimento do capital: por um lado descartar força de trabalho em massa e, por outro, extrair a maior massa possível de mais-valia absoluta dos trabalhadores “economicamente ativos”. E novamente: em que pese tudo isso, em que pese a colossal – e obviamente contraditória - presença da China nesse processo, o capitalismo não consegue se manter crescendo em taxas que apontem para saída da grave crise rastejante instalada desde 2008.

E com isso se pode afirmar, com certa margem de certeza, que os limites da economia armamentista ou do militarismo como estímulo econômico estão dados não tanto pelas intenções políticas e militaristas do imperialismo americano, mas, antes de tudo, pelo tamanho e pela profundidade da crise global capitalista.

Sua tendência à estagnação persistente parece refratária a qualquer estímulo que não passe pela destruição muitíssimo mais profunda de forças produtivas, para além do papel funcional, nesse sentido, apresentado até aqui pelo desproporcional setor bélico.

O qual, por sua vez, parece ter se esgotado em seu papel em tempos “de paz” [desde a II Guerra Mundial] ou, pelo menos, esbarrado em sua própria ineficiência em termos capitalistas: depois dos maciços gastos públicos na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã; e mesmo computando as importantes guerras localizadas posteriores, como as desfechadas no Oriente Médio, na Iugoslávia (Clinton), as guerras de W Bush a Obama, o fato mais importante é que a tendência recessiva, agora, desde 2008, incluindo as economias centrais, não encontra solução em forma de equilíbrio estável.

A burguesia interveio maciçamente, depois da II Guerra Mundial, para se contrapor à queda tendente da taxa de lucro (centralizando os capitais, expandindo-se pelo mundo, rebaixando os direitos trabalhistas etc.), mas os meios de intervenção estatal “não tiveram nenhum êxito em eliminar as contradições no modo de produção capitalista”. Os gastos militares cresceram, mas atravessando picos irregulares, bolhas e abalos como o de 1997 [crack asiático] e mesmo o decantado crescimento dos anos 90, mas o fato é que se acumulou a já citada tendência permanente à queda, explicitada de forma historicamente marcante desde 2008.

Há um processo que já não parece encontrar resposta nem mesmo no elixir bélico, nem mesmo no chamado “consumo destrutivo”, mais ou menos como se a economia armamentista com a intensidade que vem sendo adotada e nos marcos da crise global, teria se somado para complicar o problema da estagnação – por exemplo, no impacto sobre a dívida pública - ao qual ela veio responder como contratendência. Temos, por um lado, o aspecto contraditório dos gastos militares (como punção sobre a economia produtiva). Mas temos, de fundo, o grande impasse alcançado pela economia capitalista global, onde relação de forças e os conflitos entre política, tensões geopolíticas e economia não se definiram no sentido de liberar o militarismo no seu pleno papel destrutivo, de barbárie que é, por sua natureza, funcional à sobrevivência do sistema capitalista.

Cabe aos movimentos sociais e, sobretudo, à classe trabalhadora barrar esse arremedo de política neokeynesiana – como tantas outras de perfil do tipo gastos públicos - à qual o capital recorre como parte do processo de descarregar sua crise e suas guerras sobre a classe trabalhadora.

Referências = AMADEO, Kimberly, 2015. US Military budget: components, challenges, growth. Disponível em: http://useconomy.about.com/od/usfederalbudget/p/military_budget.htm / BEINSTEIN, Jorge, 2001. Capitalismo senil: a grande crise da economia global. Rio de Janeiro: Record. / COGGIOLA, Osvaldo (org), 1998. A crise estrutural do capital. In Revista Estudos, Faculdade Filosofia, Letras e Ciências Humanas/USP, n.1 (jun 1998), São Paulo, Humanitas, p 317-351. / GILL, Louis, 1996. Fondements et limites du capitalismo. Montreal, Quebec: Boreal. / HUSSON, Michel, 2008. Un pur capitalisme. Paris: Editions Page Deux. / / LETIZIA, Vito, 2002. A difícil construção do saber econômico, mimeo, 27p. / OECD, 2014. OECD-Rate of change of Gross domestic product, world andOECD, since 1961. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Economic_growth / PETRAS, James, 2002. Império e políticas revolucionárias na América Latina. São Paulo: Xamã.




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