Juventude

OPINIÃO

O mal-estar no movimento estudantil

Onde está aquele movimento estudantil combativo, pró-operário, subversivo, que mostrou sua força ao lado dos trabalhadores em vários momentos históricos colocando em xeque o capitalismo? É de se questionar.

Luiza Eineck

Estudante de Gestão de Políticas Públicas na UnB

terça-feira 23 de março| Edição do dia

Uma trabalhadora, ano passado, em um ato da greve contra a privatização da CEB (Companhia de Energia de Brasília) falou para mim que ver estudantes ali com eles era o que dava mais forças para continuarem lutando, também me contou rapidamente sobre os anos que esteve na universidade, disse para aproveitarmos cada momento, pois aquelas paredes gritavam histórias de luta, a gente só precisava saber ouví-las.

Leia mais sobre a luta contra a privatização da CEB aqui e aqui.

A UnB, assim como outras universidades do país, foi palco de grandes embates entre a juventude e ditadura militar. Em 68, começava o início de um dos maiores ascensos da classe trabalhadora, as barricadas na UnB se inspiravam na grande barricada que foi a exemplar aliança operário-estudantil na França naquele ano. Os estudantes sabiam que a luta francesa mostrava o caminho a ser seguido, aqui no Brasil, na luta contra o golpe militar (hoje, podemos pensar na luta contra Bolsonaro, Mourão e todo o regime do golpe institucional), contra a repressão, o assassinato de inúmeros jovens, como o Edson Luís, que no próximo domingo, 28, completam-se 53 anos, contra a exploração da massa dos trabalhadores e da juventude, por isso sabiam que essa luta não podia se separar da luta por alimentação, empregos, qualidade de vida, acesso massivo dos filhos dos trabalhadores às universidades, públicas e gratuitas, e que tudo isso e mais só poderiam se conquistar com força da nossa luta com os trabalhadores em enfrentamento direto com os capitalistas.

É nesse momento, em meio ao segundo ano de pandemia, o país beirando o caos, com Bolsonaro, Mourão e toda sua corja golpista preocupados apenas em atacar os trabalhadores e a juventude em nome de mais e mais lucros, que precisamos ouvir as histórias de luta e recuperar seus legados e lições como um guia de ação para nos enfrentarmos com esse sistema e superá-lo.

O mal-estar em que a juventude se encontra hoje é fruto de uma rotina massacrante, sem estimulação crítica, um ensino produtivista e protocolar que não dialoga com as demandas reais da população; as relações que já eram atomizadas nas universidades, estão ainda mais, os sentimentos de impotência, falta de perspectiva se acentuam com essa rotina e lógica. Um ponto importante para se pensar é uma juventude anestesiada é totalmente funcional para esse sistema nojento, ainda mais em meio a uma crise dessa proporção, afinal o que é melhor para o capitalismo do que uma juventude que não pense, não critique, não sinta, não se emocione, não se levante, não se encoraje a reagir como um só corpo? Eles sabem(e morrem de medo) que o terreno da luta de classes é o único que pode mudar rumo das coisas e dar uma resposta real para a crise, e, detalhe, esse terreno é extremamente fértil para o movimento estudantil.

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E as burocracias das organizações estudantis e sindicais colaboram com tudo isso, aplicam a anestesia, não mobilizam seriamente as bases dos estudantes, não promovem debates, reações, não recuperam o legado histórico de nossas lutas, não dialogam com os problemas reais da juventude e da população, fazem o contrário, naturalizam o Ensino Remoto produtivista e massacrante, não impulsionam a organização de todos os estudantes desde cada sala de aula, CA, departamento, colocando uma perspectiva de aliança com trabalhadores para sermos sujeitos políticos ativos na transformação desse cenário caótico, recuperando a força e o papel incendiário que podemos cumprir de enfrentamento com a ordem imperialista como mostramos no maio de 68, na ditadura militar, mais recentemente em junho de 2013, nos Estados Unidos, ano passado, com o Black Lives Matter, e agora como são os jovens que se levantam massivamente no Paraguai, as mulheres em Mianmar contra o golpe militar, porém nem se falam dessas lutas.

Em tempos de mortes no chão de hospitais, falta de leitos nas UTIs, testes, EPIs, de colapso no sistema de saúde. Ataques, reformas, cortes, perseguição com lei da ditadura. Fome, demissões em massa, recorde de desemprego, salários congelados até 2036, auxílio de 150 reais, cada vez mais jovens com uma bag nas costas. Privatizações, retirada de direitos, maior precarização da vida, do trabalho e da educação. Trabalhos presenciais no pior momento da pandemia, recordes de mortes, outras cepas. Mortes pelas balas da polícia racista. Aumento nos índices de violência doméstica contra a mulher, feminicídios. Marmitas com larvas sendo entregue aos estudantes, não pagamento da assistência estudantil. Aumento na evasão das universidades. Despejo de famílias por ações higienistas, mais de 3 mil mortes por dia. É preciso dar uma resposta a altura. Responder o mal-estar que o capitalismo nos coloca com organização e unidade dos trabalhadores com a juventude, mulheres, negros, LGBTs com uma estratégia socialista e revolucionária.

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Porém, as organizações estudantis e sindicais preferem atuar na “miséria do possível”, de forma burocrática e descolada da realidade dos estudantes e dos trabalhadores, a UNE, a UBES(dirigidas pelo PT e PCdoB) e a ANPG preferiram convocar suas jornadas de luta, dia 30, que poucos sabem como vai ser, com seis dias de diferença do dia convocado pelas Centrais Sindicais, 24, como a CUT e a CTB também dirigidas pelos mesmos partidos.

Separar as nossas lutas é o que menos precisamos nesse momento, apenas com essa unidade poderemos impor com a nossa luta um plano emergencial agora de enfrentamento com a pandemia, a fome e o desemprego, não podemos esperar 2022. Para além disso,lutar pela anulação imediata da Lei de Segurança Nacional autoritáriae herdeira da ditadura e contra Bolsonaro, Mourão, governadores, todos os golpistas e militares. A história nos mostra que não precisamos começar do zero para derrubar esse sistema de miséria, para recuperar um movimento estudantil combativo, pró-operário e subversivo e nossas entidades estudantis como instrumentos de luta. Basta saber “ouvir” os gritos históricos da nossa classe.

Leia mais: Um debate com a Oposição de Esquerda da UNE: unidade pela base contra Bolsonaro, Mourão e golpistas

É com essa perspectiva, a do marxismo revolucionário, que nós do MRT e Esquerda Diário lutamos, convido a todos a participarem da live de lançamento da nossa mais nova contribuição teórica “Mulheres Negras e Marxismo”, livro organizado por Letícia Parks, Carolina Cacau e Odete Assis, ocorrerá nesta sexta, 26/03, às 19h. Confira as convidadas e mais informações aqui.




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