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SEMANÁRIO

O discreto desencanto da burguesia

Paula Bach

Imagem: Mar Ned - Enfoque Rojo

O discreto desencanto da burguesia

Paula Bach

Agosto de 2020. A pandemia da Covid-19 continua açoitando o planeta. Sua letalidade é baixa, mas já infectou cerca de 15 milhões e levou centenas de milhares. Uma pergunta insólita atormentou – e, até certo ponto, continua atormentando - a maioria dos governos: “a economia ou a vida?”. Grande parte dos que optaram pela “economia” depois tiveram que se adaptar um pouco mais aos requisitos da “vida” e os que optaram – de uma maneira condescendente – pela “vida” mais tarde tiveram que se inclinar para a “economia”. Todas estas mudanças, não obstante, expressam os elementos mais pragmáticos e, em muitas oportunidades, respondem essencialmente às “relações de forças” e não a algum tipo de avaliação científica de “algo”. Dito mais prosaicamente, respondem, em boa medida, ao temor dos governos de que “morram as empresas”.

O certo é que as idas e voltas de um vírus – com comportamento ainda desconhecido pelas ciências médicas - paralisaram uma porção significativa a economia capitalista mundial, colocando em cena uma crise pior que a de 2008/09 e a mais profunda desde a Grande Depressão da década de 1930. Uma questão que já é manifestada em termos de queda do PIB global ou do emprego – no que observamos até o momento, ao menos, em países como Estados Unidos ou Espanha – e ainda está por se ver em relação à contração de crescimento do comércio mundial [1]. Como resultado, o planeta está tomado de uma incerteza profunda, mescla de catástrofe de aparência “natural” com uma hecatombe econômica que desnuda a vulnerabilidade do sistema. Um sistema que apesar do desenvolvimento das “redes neurais”, a robótica e os avanços da manipulação genética – que por momentos o faziam irradiar invencivelmente- fica submetido a opções que mais vem parecem da Idade Média.

Se olhamos um pouco antes, vemos que este choque dual e entrelaçado de pandemia e crise se combina com o estancamento relativo, à debilidade endêmica e a particular falta de forças que a economia capitalista vinha arrastando no curso dos últimos dez anos, ou seja, no período da recuperação pós 2008/09. Não é uma questão menor este encadeamento. Os ritmos da pandemia determinarão, em parte, os tempos e a dinâmica de uma recuperação econômica que, naturalmente, emergirá em algum momento. Contudo, diversas circunstâncias [2] fazem esperar que seja – ao menos no médio prazo - ainda mais débil que a do período pós Lehman, sem que a economia consiga retornar à tendência prognosticada antes da crise. Se no curso da década passada emergiram de maneira aberta os limites do neoliberalismo e a globalização – que construíram, vale recordar, as condições da saída da economia capitalista da crise da década de 1970, esses limites são ampliados sob as condições atuais. Uma das definições mais interessantes do período atual reside na constatação de que o capitalismo se encontra com falta de uma estratégia clara de substituição. A debilidade econômica lacerante e a ausência de estratégia, reforçadas agora pela pandemia e o Grande Confinamento, vem dando lugar a duas circunstâncias que, consideradas conjuntamente, tem o aspecto de novidade histórica.

Incertezas

A primeira consiste no fato de que a classe dominante deixa transparecer, através de muitos de seus ideólogos, uma perda de confiança ou de certeza em relação a infinitude, a eternidade ou, se queremos, das forças internas do capitalismo. Uma questão que se revela ao menos em três dimensões.

Primeiro, na tese do “estancamento secular”. Sustentada fundamentalmente pelo ex Secretário do Tesouro de Bill Clinton, Lawrence Summers, constata essencialmente que a diferença do que sucedeu nos melhores momentos das décadas neoliberais, os gigantescos volumes de dinheiro introduzidas desde a crise de 2008/09, não conseguiram que a economia voltasse à tendência prognosticada previamente. Ou seja, verifica o fato novo e alarmante de que a economia capitalista não encontra uma força que a dinamize sequer ao ritmo da moderação das décadas prévias. Há alguns anos, Paul Krugman, referindo-se a esta “falta de motor” e imaginando algum tipo de impulso comparável ao da Segunda Guerra Mundial ironizava sobre a necessidade de uma “invasão alienígena” nos Estados Unidos [3]. É de se esperar que a debilidade endêmica da economia continue reinando ao menos no médio prazo do mundo pós pandemia.

Segundo, na famosa tese do “fim do trabalho”. Um conceito que ainda que mereça ser discutido desde a sua própria definição – devido ao fato de que carrega um teor propagandístico poderoso e defendido nos estreitos limites do capitalismo é falsa - também guarda um elemento de verdade. Jeremy Rifkin, autor da velha tese homônima – em voga na década de 1990 [4] – e membro permanente do establishment da União Europeia, escreveu há poucos anos um livro intitulado The zero marginal cost Society (A sociedade do custo marginal zero sem tradução para o português) [5]. Nesse livro – no qual, vale dizer, “o eclipse do capitalismo” aparece mencionado desde o sub-título – Rifkin alerta que grande parte da “velha guarda” no âmbito comercial não pode imaginar como procederia a vida econômica num mundo em que a maioria dos bens e serviços serão quase gratuitos, os lucros cessarão, a propriedade perderia sentido e o mercado seria supérfluo [6]. O autor se refere a que seria a consequência lógica do desenvolvimento livre e acabado das novas tecnologias que, ao menos no terreno digital, mostram a capacidade de reproduzir certos serviços – músicas, filmes, livros etc – sem necessidade de incorporar trabalho e quase sem gasto de capital, o que em termos neoclássicos, se define como “custo marginal zero”. Ainda que não iremos desenvolver este complexo tema aqui são necessárias duas observações.

A primeira consiste em que não se pode pensar o desenvolvimento “livre” das tecnologias sob condições capitalistas. A propriedade privada dos meios de produção molda e até certo ponto restringe o desenvolvimento tecnológico, adaptando-o – até onde lhe é possível- a suas necessidades. As patentes, as “remunerações de royalties” [7], entre outros mecanismos, são parte das múltiplas formas através das quais o capital consegue converter em valor aquilo que não o era ou colocar preço àquilo que não o tem.

A segunda consiste em constatar a parte da verdade relativa contida no raciocínio de Rifkin, porque se as tecnologias não estivessem sujeitas aos condicionamentos do capital, efetivamente seu desenvolvimento livre exigiria cada vez menos esforço de trabalho humano, suportando uma maior abundância de bens e serviços e o avanço para a gratuidade, a perda de sentido da propriedade privada e do mercado e, junto com eles, dos lucros. Advertimos que, ainda que em absoluto se trate de um fenômeno inteiramente novo – “abundância” e “escassez” constituem termos relativos e determinados socialmente, o certo é que se torna muito mais agudo e contraditório para o próprio capital desde o momento no qual é possível a reprodução gratuita de determinados serviços digitais. A ideia geral do “fim do trabalho” que possui como tendência e como substrato a eliminação progressiva do valor, os preços e a propriedade privada dos meios de produção é, para falar a verdade, original de Marx e está expressa há muitas décadas nos Grundrisse [8]. Os ideólogos do capital a revivem de uma maneira dual: por um lado, como propaganda e ameaça com pretensões disciplinadoras daquilo que poderia suceder sob condições de produção capitalistas e, por outro lado, como percepção da força de uma tendência histórica. Vale destacar que, inclusive na sua acepção propagandística, a ideia de fim do trabalho pressupõe de algum modo a segunda acepção, deixando transparecer a impressão de um sistema que se imagina impotente para garantir por seus próprios mecanismos internos a subsistência das maiorias. Uma questão que se aprecia com bastante clareza na difusão da ideia da Renda Básica Universal (RBU). Proposta sujeita a múltiplas interpretações e cada vez mais “candente” no contexto pandêmico. É bom ressaltar, não obstante, que os debates mais atuais sobre a RBU derivaram das consequências da crise econômica e não precisamente das do “desemprego tecnológico”.

Terceiro, na constatação do crescimento aberrante da desigualdade social que – com muito atraso - comoveu o mundo acadêmico e o establishment. Constatação teorizada e popularizada nos últimos anos por Thomas Piketty [9], economista francês que segue os postulados do Mainstream – ainda que na atualidade vem mostrando um relativo giro a esquerda [10]. A tese de Piketty consiste essencialmente em demonstrar que o aumento da desigualdade patrimonial e de renda – característica das décadas neoliberais - se deriva da combinação de uma alta taxa de rendimento do capital e uma baixa taxa de investimento que dá origem ao crescimento atrasado de uma economia ascendentemente “rentista”. Nos seus termos, esta realidade conjunta representa a “norma” do capitalismo que foi limitada só excepcionalmente depois de grandes choques como as duas guerras mundiais do século XX, a revolução russa de 1917 e a crise dos anos 1930. O retorno da “norma” determina que a desigualdade tenda a recuperar no presente século os níveis paradigmáticos de finais do século XIX. O problema para Piketty é que, como resíduo da excepcionalidade do pós guerra, ainda persiste uma “classe média patrimonial” ameaçada de empobrecimento que suscitará fortes reações políticas.

A tese de Robert Gordon, economista de Harvard e integrante por décadas de distintos órgãos de conselho estatal, possui pontos de contato com a de Piketty, ainda que seu objeto de estudo se encontra na histórica das tecnologias, da produtividade e o crescimento da economia norte-americana. A partir de uma visão da economia na qual a especificidade histórica do capital e do capitalismo desaparecem quase por completo, Gordon remete a uma maioria da existência humana caracterizada por uma “normalidade” de baixo crescimento. Status quo sacudido só pelo “século revolucionário” que se estende da Guerra Civil norte-americana a década de 1970 ainda que, muito particularmente, pela Segunda Guerra Mundial e o pós Guerra. A partir dos anos 1970 a economia perde força e – com a exceção do período 1994-2004 - tende a se reestabelecer a “normalidade” de baixo crescimento que se intensifica no período pós Lehman. Para o próximo quarto de século, Gordon – opositor ferrenho da tese de uma “Quarta Revolução Industrial” – vaticina um crescimento da produtividade e do produto claramente abaixo da média dos anos 1970-2014. Uma situação que inclusive poderia piorar devido ao que denomina “ventos contrários” conformados pela desigualdade crescente, o lento aumento do nível educativo, o baixo crescimento populacional e a aposentadoria de uma geração de baby boomers e, finalmente, a trajetória ascendente e insustentável da relação dívida/PIB [11].

Em termos mais gerais, a constatação da debilidade de crescimento econômico e de investimento “real” junto com o aumento de todo tipo de dívidas – pessoais, públicas, corporativas, a “ameaça” tecnológica e o aumento acelerado da desigualdade, transcende distintas vertentes ideológicas [12] e emerge como uma espécie de “nova normalidade”. Uma de suas consequências mais inquietantes reside na destruição das “classes médias” – eufemismo que normalmente se emprega para fazer referência a amplos setores das classes trabalhadoras [13] ou de seu símbolo mais acabado, o “sonho americano”, como base necessária de sustentação das “democracias capitalistas”. Um tema já recorrente que, ao calor da pandemia, emerge como mais urgente e preocupante no pensamento de diversos autores como, por exemplo, no do principal comentarista econômico do Financial Times, Martin Wolf.

Falsas promessas (ou o fim do “progresso”)

A segunda circunstância surge do modo no qual estas vulnerabilidades do capital se traduzem na sensibilidade de milhões de trabalhadores e setores populares dos países centrais e não centrais.

O certo é que a debilidade econômica do pós crise 2008/2009 aniquilou o substituto débil do “progresso” oferecido pelo neoliberalismo em troca da “globalização” e a destruição das conquistas do chamado “Estado do Bem-Estar”. De alguma maneira e em particular no curso das décadas de 1990 e 2000, a proliferação do crédito ao consumo – incluídas as hipotecas subprime, a mitigação da desigualdade entre países – habilitada pelo ascenso dos chamados BRICS, a redução relativa da pobreza – entendida em termos do Banco Mundial [14], o “sonho chinês”, o indiano e até certo ponto o brasileiro, entre outros, atuaram como fatores compensatórios frente ao aumento – global e no interior da maioria dos países - da desigualdade. Este “intercâmbio diabólico” é o que, no curso da última década, foi diluindo primeiro no “centro” e mais tarde na “periferia”.

Chama um tanto de atenção o fato de que, depois de tantas décadas neoliberais atravessadas pelo aumento da desigualdade – que originou múltiplos estudos sobre o tema, só recentemente, há poucos anos, o assunto alcançara o centro das preocupações de boa parte do mainstream, inclusive do Fundo Monetário Internacional. Mas isso não é tão estranho, o que mobilizou esta mutação é a circunstância de que, desde o ponto de vista dos “setores menos favorecidos”, é mais tolerável a desigualdade que a ideia da impossibilidade de progresso ou pior ainda, a do próprio retrocesso. Como aponta Wolf, em determinadas sociedades a desigualdade como tal pode não ser tão social ou politicamente desestabilizadora. Mas a sensação de deterioração das perspectivas para si mesmo e para os filhos, certamente importa como também cria uma forte sensação de “injustiça”. O mesmo Wolf apontava, há alguns anos e em base a um informe do Instituto Global Mckinsey que, à direita e à esquerda, comovem há vários anos as elites ou as estruturas tradicionais em uma grande quantidade de países. Inclusive, pouco antes da pandemia assistimos a fenômenos abertos de luta de classes que percorreram grande parte do planeta.

A comunhão entre pandemia e Grande Confinamento (denominação argentina a “quarentena” N.d.T) incrementa de uma maneira bastante literal esta sensação de ausência de perspectivas. Ainda que – até certo ponto - também atual como fator disciplinador somado à contenção das políticas bilionárias implementadas pelos Estados. Não obstante, aquilo que Wolf denomina “uma forte sensação de injustiça” desatou, depois do assassinato de George Floyd, um movimento profundo e integrador de múltiplas decepções e opressões de negros e brancos no coração do império.

Por sua vez, a letárgica e lacerante distopia do “fim do trabalho” – uma espécie de golpe final na ideia de “progresso” – adquire uma muito particular tripla manifestação no contexto da crise pandêmica. Por um lado, a perda direta de milhões de postos de trabalho não aparece associada ao “desemprego tecnológico” senão ao Grande Confinamento como imagem da fusão entre a doença e a crise econômica. Por outro, as “quarentenas” como elemento central de paralisação econômica, atuam como prova definitiva e “auto percepção” global de que – ao menos pelo momento - os trabalhadores e não os robôs agem como a força fundamental que move a economia. Finalmente e muito significativo, as “empresas tecnológicas” – entre elas Paypal, Alphabet, Facebook, Tencent, Tesla, Apple, Microsoft, Amazon- são as que mais aumentaram seu valor de mercado nas condições de pandemia. Também o boom alcançou outras menores como Rappi, Glovo ou Pedidos Ya (plataforma de entrega argentina, N.d.T), de entrega de comida a domicílio. Mas, longe de não necessitar de trabalho, estas empresas emergem como núcleos do chamado “trabalho essencial” e se consolidam como áreas de vanguarda da precarização laboral. Inclusive aqueles “unicórnios” [15] que despediram trabalhadores não o fizeram em função da mudança tecnológica, mas sim de sua reestruturação devida a própria crise.

De conjunto, a pandemia e a crise econômica agudizaram o sentimento de decepção e falta de expectativas em um sistema que, se percebe, não tem muito para oferecer. O politólogo estadunidense, Ian Bremmer, alertava sobre este sentir há não muito tempo no seu livro Us vs. Them: The Failure of Globalism [16], onde incorpora o conceito de “globalismo” como tentativa das elites de transmitir a ideia de que a “globalização” acarreta uma melhora para todos os setores sociais. Essa é, efetivamente, a “crença” que desapareceu do imaginário e se distancia ainda mais com os efeitos econômicos da pandemia. Questão que, certamente, gera bastante pavor no establishment. Somente para colocar uma metáfora dos novos ventos de época vale a pena observar que Fukuyama, por exemplo, volta e evocar – a seu modo - a ideia de luta de classes.

Volta ao “Estado de Bem-Estar”?

Já não é novidade alguma o fato de que a intervenção estatal sobre a economia – fundamentalmente nos casos estadunidense, dos países da União Europeia e Japão, em termos de magnitude - superou amplamente os estímulos monetários fiscais implementados na crise 2008/2009. A União Europeia, inclusive, acaba de aprovar um “plano anticrise” de 750 bilhões de euros financiados com dívida comum e dirigidos, sob a modalidade de empréstimos e subsídios, aos países mais afetados do bloco.

A conjunção do impulso econômico catastrófico da pandemia, a crise do esquema neoliberal – visualizado, antes de tudo, como incapacidade de contenção sanitária – e a situação social e política descrita acima, não pode, claro, se desvincular desta macro intervenção. Tampouco pode pensá-la abstraindo das diferenças imediatas entre os países centrais – que com taxas de juros zero ou negativas possuem maior capacidade de endividamento- e os países dependentes ou semicoloniais dos quais saíram nos últimos meses mais de 100 bilhões de dólares. A reflexão mais interessante se concentra, contudo, nos prognósticos pós pandemia. Diversos setores concluem que, a partir desta intervenção estatal, poderia abrirse passo uma espécie de “estatismo reformista”. Mas o problema é que esta perspectiva não pode ser imaginada por fora nem da debilidade que a economia capitalista arrasta há mais de 10 anos encadeada sem solução de continuidade com a convulsão atual, sem da crise do neoliberalismo e os limites da globalização, nem da decadência e incógnita sobre a “estratégia de substituição”, temas aos quais fizemos referência mais acima. Nos propomos aqui só a deixar colocadas algumas linhas para a reflexão.

Em primeiro lugar, consideramos que as formas particulares que adota a atual intervenção estatal não se derivam essencialmente de uma “opção política” senão que das necessidades da estrutura mesma do capital no período presente. Tomemos, por exemplo, o caso paradigmático dos Estados Unidos. O economista marxista Robert Brenner aponta que dos ao redor de 6 trilhões de dólares de estímulo fiscal implementados – segundo seus cálculos - nos últimos meses pelo Estado norte-americano, 75% - equivalente a aproximadamente 4,5 trilhões - foi destinado ao “cuidado” das maiores e melhores companhias enquanto somente 25% restante teve como destino pagamentos diretos a indivíduos e famílias, seguro desemprego adicional e empréstimos estudantis. Da sua parte, a maior parcela daqueles 75% com destino às grandes empresas carece de restrições para ser utilizado em recompra de ações, bonificações aos CEO, etc. [17]. Por um lado, ainda que evidente a notável desproporção, vale observar que inclusive esse 25% não são pouca coisa e seu dispêndio se encontra indissoluvelmente associada às necessidades de contenção do “estado de ânimo” do qual falávamos na seção anterior. Mas por outro lado, o que mais interessa ressaltar aqui é a ausência de restrições para o destino da maior parte daquele 75% - que habilita, por exemplo, a recompra de ações como explícita contracara da debilidade do investimento- responde estritamente a uma modalidade de “acumulação” do capital exacerbada no curso da última década. A ação do Estado tem por objeto garantir esse padrão, do mesmo modo que o faz a compra ilimitada de dívida corporativa garantida pela Reserva Federal desvinculando – transitoriamente- as capitalizações financeiras das tendências da “economia real”. Trata-se de “formas” cujo desenfreio – tanto como necessidade estatal de sustentá-las - não é derivado, no essencial, de “decisões políticas” senão do esgotamento das novas fontes para acumulação de capital conquistada sob o auge das décadas neoliberais. As crescentes tensões sino-estadounidenses expressam, justamente, uma faceta fundamental desse esgotamento.

Em segundo lugar, e em estreita relação com o ponto anterior, refletimos sobre o lugar do New Deal nos anos 1930, é mister observar sua possibilidade como estreitamente associada à circunstância de que Estados Unidos, apesar da grande crise, já era a nação economicamente mais pujante do planeta. Para colocar apenas um exemplo, em 1929 produzia 80% dos veículos automotores do mundo [18]. A lei Glass Steagall – que desvinculou os bancos de investimento dos bancos comerciais - é emblemática por não pode se desassociar das possibilidades de acumulação “produtiva” do capital de uma nação que se abria espaço como o poder industrial do mundo. Muito longe se localizam as características de poder financeiro que, em sua decadência, distinguem os Estados Unidos de hoje. Neste contexto destas condições econômicas específicas na qual deve ser interpretada a frouxa e ambígua lei Dodd-Frank – aprovada em 2010 e impulsionada por Elizabeth Warren, da ala esquerda do Partido Democrata - como a restrição financeira mais audaz que deu lugar ao desastre desencadeado pela queda do Lehman. As relações inquebráveis entre os bancos comerciais e de investimento, respondem às características de um capitalismo extremamente financeirizado.

Em terceiro lugar e aprofundando o contraste com o New Deal, sua implementação tampouco pode afastar-se das tensões sociais insuportáveis geradas pela Grande Depressão combinadas com a pressão exercida pela presença da Revolução Russa. Circunstâncias que converteram a década de 1930 na de maior agitação operária dos Estados Unidos. Claro que se, como é esperável, uma maior luta de classes dá lugar no período pós pandemia, não se pode descartar que – mesmo que se transforme em uma ameaça para as bases do capital - a distribuição entre aqueles “75% e 25%” se modifiquem parcialmente nem que, inclusive, se coloque algum tipo de limitação mais firme às operações financeiras das grandes corporações e dos bancos. Mas inclusive eventuais medidas reformistas tímidas para conter processos de luta de classes muito provavelmente sejam contestadas com maior violência pelos setores dominantes de um capital que adoece de novas fontes rentáveis para sua acumulação ampliada. Nesse contexto, as novas tecnologias também serão utilizadas – muito provavelmente e como sempre o foram - como arma contra a resistência e para incrementar a exploração e a flexibilização do trabalho, longe de eliminá-lo. Vale recordar que, ainda nas mencionadas condições excepcionais da década de 1930, o New Deal foi impotente para que a economia estadunidense retornasse à tendência pré-crise. Inclusive, em 1937 o parlamento e o establishment econômico vetaram sua continuidade e se produziu uma nova queda abrupta. Somente o “milagre econômico” [19] da Segunda Guerra Mundial resgatou – como aponta Gordon - a economia norte-americana do “estancamento secular” dos tardios anos 1930 [20].

Para além das medidas imediatas – que variarão também segundo os ritmos da pandemia, da crise e das diversas tensões que ocorram nos cenários eleitorais - é de esperar que sob as condições de sua realidade atual o capital reforce a agressividade. De fato, já o estamos presenciando através das novas modalidades de flexibilização do trabalho implementadas sob a desculpa da pandemia. Do mesmo modo, o mais breve possível, voltarão a emergir novas tentativas de reformas previdenciárias com a desculpa dos enormes déficits fiscais acumulados. Por sua vez, os limites do neoliberalismo que se expressam – em grande medida - em contradições crescentes entre os Estados, muito provavelmente conduzirão a diversas expressões de maior belicismo ainda que não possamos definir suas expressões concretas. É de esperar que a ausência de uma “estratégia de substituição” e a grande dependência econômica que ainda tem relação a relação sino-estadunidense se traduza, dentre outras coisas, em uma ofensiva mais violenta estadunidense não só para dobrar a China como competidora senão também para aumentar a liberdade de ação de seus capitais no país. Os métodos que serão utilizados, assim como os resultados, estão em aberto. Mas seja qual forem os cenários, cabe poucas dúvidas de que não é um panorama de “estatismo reformista” o que se abre para o período próximo. Assumir estas circunstâncias constitui um elemento fundamental da preparação e da estratégia necessárias para atuar nos próximos acontecimentos se se deseja evitar novas catástrofes para os trabalhadores e os setores popular, ou seja, para a enorme maioria da humanidade.

Tradução: Daphnae Helena e Caio Melo

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FOOTNOTES

[1A Organização Mundial do Comércio possui um prognóstico de contração para 2020 entre 13% e 32%. O intervalo ainda é demasiado amplo para que possamos realizar comparações históricas factíveis.

[2Por um lado, se as mesmas políticas estatais que a partir de 2008/9 buscaram conter a crise, limitaram a destruição do capital e assim, paradoxalmente, limitaram a força da recuperação, é de se esperar que esse efeito se repita hoje devido à políticas de contenção significativamente maiores, ver Juncal Santiago, “Pandemia y crisis: ¿adónde va la economía global?”, Entrevista em La Izquierda Diario, 01/07/2020. Por outro lado, é de se esperar que a redução qualitativa da renda sofrida por amplas faixas de trabalhadores e setores populares, somada aos temores instaurados pela pandemia, limite a recuperação do consumo. Além disso, os tempos desiguais da pandemia nos diferentes países atrasam naturalmente o retorno à "normalidade" das relações econômicas internacionais. Além disso, e como fator essencial, as condições para a cooperação interestadual que foram fundamentais no pós-2008/9 estão hoje significativamente mais prejudicadas e enfrentam profundas contradições estruturais, ver, Bach, Paula. Crisis económica mundial: ¿escaparán los espíritos subterrâneos?, Ideas de Izquierda, 15-03-2020.

[3Veja, Krugman, Paul, Acabad ya con esta crisis!, Madrid, Crítica, 2012.

[4Rifkin, Jeremy, El fin del trabajo. Nuevas tecnologías contra puestos de trabajo: el nacimiento de una nueva era, Madrid, Paidós, 2014.

[5Rifkin, Jeremy, The zero marginal cost society. The internet of things, the collaborative commons, and the eclipse of capitalism, Nueva York, Palgrave Macmillan, 2014.

[6Rifkin, Jeremy, op. cit.

[7Véase, Srnicek, Nick, Capitalismo de plataformas, Buenos Aires, Caja Negra, 2018.

[8Ver MARX, K. Grundrisse – manuscritos econômicos de 1857-1858: esboços da crítica da economia política. Tradução: Maria Duayer e Nélio Shneider. São Paulo: Boitempo, 2011. Antonio Negri revalorizou os Grundrisse e desenvolveu, nos anos 90, uma interpretação dessa tendência formulada por Marx. Para uma exposição sintética da abordagem de Negri e uma crítica, ver, BACH, Paula, “Valor, forma y contenido de la riqueza en Marx y en Antonio Negri: Una diferencia sutil pero esencial”, Estrategia Internacional 17, outono de 2001.

[9Veja PIKETTY, Thomas. O Capital no Século XXI. 1. ed. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014. 669p. Veja também Esquenazi, Matías y Hernández, Mario (compiladores), El debate Piketty. Sobre El capital en el siglo XXI, Provincia de Buenos Aires, Metrópolis, 2014.

[10Veja Piketty, Thomas, Capital e ideología, Buenos Aires, 2019. Para una crítica, véase entre otras, Mercatante, Esteban, “Algo huele a podrido en el capitalismo: comentarios sobre lo nuevo de Thomas Piketty”, Ideas de Izquierda, 27/10/19.

[11Veja GORDON, Robert, The rise and fall of American growth.The U.S. standard of living since the Civil War, Princeton, Princeton University Press, 2016.

[12Veja por exemplo, Streeck Wolfgang, ¿Cómo terminará el capitalismo? Ensayos sobre un sistema en decadencia, Madrid, Traficantes de sueños, 2017, o Harvey, David, Marx, El capital y la locura de la razón económica, Buenos Aires, Akal, 2019.

[13O Banco Mundial define “classe média” como famílias que têm baixa probabilidade de cair na pobreza, mas não são ricas e cuja renda varia entre 13 e 70 dólares por dia (PPC 2011). Laboratório de equidade lac: pobreza, Banco Mundial, disponível online.

[14O Banco Mundial coloca na categoria de "extremamente pobres" aqueles que vivem com menos de US$ 1,9 por dia. De acordo com um relatório da instituição, nos 25 anos entre 1990 e 2015, a taxa de pobreza extrema - o que significa, acrescentamos, de ser muito pobre para se tornar apenas pobre - caiu globalmente, em média, em um ponto percentual. por ano - de quase 36% para 10% - o que significa que cerca de 1 bilhão de pessoas deixaram aquele estado. No entanto, a pobreza extrema diminuiu apenas um ponto percentual entre 2013 e 2015. Banco Mundial, comunicado à imprensa, setembro de 2018, disponível online. Ver também a crítica metodológica do jurista australiano Philip Alston, relator especial das Nações Unidas sobre pobreza extrema e direitos humanos, às investigações do Banco Mundial. Alston, Philip, "O lamentável estado de erradicação da pobreza", Conselho de Direitos Humanos da ONU, julho de 2020, disponível online.

[15As chamadas “unicornios” são empresas emergentes, do ramo de tecnologia, avaliadas em 1 bilhões de dólares ou mais

[16Bremmer, Ian, Us vs. Them: The Failure of Globalism, Nueva York, Penguin, 2018.

[17Brenner, Robert, “Escalating Plunder”, New Left Review 123, mayo-junio 2020, disponible online.

[18Gordon, Robert, op. cit.

[19“Milagre” que, como se sabe, envolveu mais de 60 milhões de mortos, a destruição de grande parte da Europa, Hiroshima e Nagasaki, entre muitos outros acontecimentos fulminantes.

[20Idem
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