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O Outubro alemão: lenda ou revolução falida?

Juan Dal Maso

Ilustração retirada do livro de Broué, Révolution en Allemagne.
Tradução de Paula Almeida.

O Outubro alemão: lenda ou revolução falida?

Juan Dal Maso

Devido à importância da revolução alemã para a expansão da revolução internacional e o destino da União Soviética, o equilíbrio do processo de 1923 e sua derrota ocupa uma parte importante da reflexão de Trótski (mas também de outros marxistas). Tem, ainda, um impacto significativo no problema da estratégia para a revolução no Ocidente.
Em Estratégia Socialista e Arte Militar, Emilio Albamonte e Matias Maiello [1] retomam discussões sobre esse processo, vinculando-os a uma reflexão sobre a relação entre a teoria de Trótski e a de Karl von Clausewitz. Neste artigo, retornaremos a alguns pontos do processo, poucos conhecidos, a fim de comentar certos detalhes específicos em que fazem um balanço histórico e estratégico.

A crise

Os eventos de 1923 na Alemanha são precipitados pela ocupação em janeiro da bacia do Ruhr por tropas francesas, alegando violação do Tratado de Versalhes (que impunha uma custosa compensação pela Alemanha em favor das potências vencedoras da I Guerra Mundial).

O governo de Wilhelm Cuno (representante direto das grandes empresas) votou uma “resistência passiva” no Parlamento alemão por 284 a 12 votos. As manifestações operárias começaram a crescer, com picos importantes nos meses de março e abril, com confrontos entre as tropas de ocupação e os operários, que lutavam pela distribuição de alimentos, contra o desemprego e em defesa das condições de vida e de trabalho.

A inflação destruiu o poder de compra de salários e aposentadorias. Como Pierre Broué conta em seu livro Revolution in Germany:

O dólar valia 1.000 marcos em abril de 1922, 2.000 em outubro e 6.000 em novembro do mesmo ano. Em 4 de janeiro de 1923, a cotação era de 8.000, no dia 10 já era 10.000, e no dia 15 chegou a 56.000 marcos. A partir desse momento, a curva se acentuou de maneira vertiginosa, com pousos mais ou menos efêmeros, freadas repentinas, retrocessos espasmódicos seguidos de acelerações brutais. A cotação do dólar era de 96 mil marcos em 17 de maio de 1923, cerca de 200 mil em 10 de julho, 400 mil em 23 de julho e 1 milhão em 28 de julho. Ultrapassou 2 milhões em 7 de agosto [...]. O aumento de preço seguiu a mesma curva. Um ovo custava 300 marcos em 3 de fevereiro de 1923, e 420 dois dias depois; já era 3.400 em 10 de julho, e subiu para 4.400 no dia seguinte; custava 7.000 em 27 de julho, 12.000 em 5 de agosto e 30.000 em 8 de agosto. [2]

O Partido Comunista no desenrolar dos acontecimentos

Embora atravessado por uma intensa luta fracionária, o Partido Comunista Alemão (KPD, na sigla original) ganhou peso durante a crise. Desde 1920, entrara em uma luta interna em relação à política da Frente Única Operária — que em 1921 o III Congresso da Internacional Comunista adotaria como própria — para desenvolver a unidade de ação com os operários social-democratas e seu partido (o SPD) por demandas elementares. Essa política teve continuidade na tática “Governo Operário” votada no IV Congresso da Internacional Comunista em 1922, que colocava a possibilidade de um governo entre o PC e a ala esquerda da social-democracia como uma antessala da luta pelo poder (para mais detalhes sobre esses debates, consulte “Uma escola de pensamento estratégico”).

O sindicalismo social-democrata tradicional atravessava uma grande crise devido à impossibilidade de negociações “normais” com as empresas e o governo. Os setores das camadas urbanas médias foram atingidos em cheio pelo impacto da crise.

A classe trabalhadora fortaleceu suas ações de protesto. De 16 a 29 de maio, ocorreu uma “greve selvagem” (imposta pelas bases aos sindicatos e com um comitê de greve com um peso determinante da militância comunista) contra a desvalorização dos salários e o aumento do custo de vida, que se encerrou com um contrato de aumento salarial de 52%.

O KPD, cuja juventude agrupava 70.000 militantes, também fez progressos significativos nos sindicatos. Broué assinala:

Entre julho e outubro, o número de "frações comunistas" no interior dos sindicatos reformistas passou de 4.000 para 6.000. Foi preciso mudar os métodos de organização, já que o departamento sindical de Fritz Heckert não podia mais assegurar uma coordenação conveniente por si só: a partir de julho, o partido criou os “cartéis vermelhos”, que reagrupavam no plano local os dirigentes das frações comunistas nos sindicatos reformistas e os militantes comunistas responsáveis em todos os sindicatos. Existiam 1.100 desses cartéis em julho e 2.100 em outubro, data na qual o departamento sindical mantinha relações com frações de 3.460 localidades. Ao Executivo Ampliado [órgão da Internacional Comunista], em junho, Jacob Walcher estimou em 2.433.000 o número de trabalhadores influenciados e diretamente colocados sob a autoridade dos militantes comunistas nos sindicatos.

Entre eles, destaca-se o trabalho no sindicato metalúrgico, com 1.600.000 trabalhadores influenciados pela oposição comunista. Os conselhos de fábrica também são desenvolvidos e o KPD promove a criação de “séculos proletários” (milícias) que organizam uma manifestação armada em 1º de maio de 1923 em Berlim, com 25.000 membros.

A política do KPD estava atravessada por importantes tensões. Enquanto a ala esquerda (Ruth Fischer, Arkadi Maslow e outros) apontava para a ação direta e sabotava a política de Frente Única, a ala direita (Heinrich Brandler, August Thalheimer) desenvolvia a política da Frente Única, mas também flertava, por impulso de Karl Radek (delegado da Internacional Comunista), com o nacionalismo de direita. Esta era a chamada “Linha Schlageter” [3]. Essa política tentava relacionar a luta dos trabalhadores com a “libertação nacional” da Alemanha e sugeria uma distinção entre a burguesia francesa e a alemã. O partido buscava se aproximar da base dos fascistas, “dialogando” com seus temas e com palavras de ordem semelhantes, mas a política não produziu resultados positivos em relação ao crescimento do KPD nas camadas intermediárias.

Enquanto isso, as lutas operárias continuavam a se desenvolver. Durante o mês de junho, ocorreram greves em Dresden, Leipzig, Alta Silésia, com uma forte participação de 100 mil mineiros e metalúrgicos. Em 11 de junho, 100 mil trabalhadores rurais entraram em greve na Silésia, seguidos pelos jornaleiros de Brandemburgo. Os marinheiros mercantes pararam na mesma data em Emden, Bremen, Hamburgo e Lübeck. Em Berlim, os metalúrgicos despontaram: de 250 mil trabalhadores, 153 mil eram sindicalizados. Os não sindicalizados também apoiavam a greve. Os metalúrgicos conquistaram um aumento de 38% no salário. O KPD participou ativamente desses movimentos, promovendo a organização de base e os plebiscitos em favor da greve da qual a base não sindicalizada também participou.

Durante esse mesmo mês, o KPD se dispôs a organizar um dia de mobilização antifascista em 29 de julho, o que foi desencorajado pelo Comitê Executivo da Internacional Comunista, sendo a mobilização substituída por grandes atos, principalmente em locais fechados, com a maior concentração em Berlim, com 200 mil pessoas.

O governo de Cuno acabou ficando sem apoio. Em 8 de agosto, o Parlamento se reuniu, enquanto manifestações operárias exigiam a renúncia do governo. No dia 11 de agosto, foi iniciada a greve geral, com confrontos com a polícia em diferentes cidades e um saldo de 30 mortos. No dia 12, o governo do “populista” Gustav Stresemann foi formado. No dia 15, se levantou uma greve que tomou todo o país, com fortes confrontos com a polícia.

Essa greve geral pegou de surpresa os líderes soviéticos, mas também os do KPD. Lembremos de que, naquele momento, o presidente da Internacional Comunista era Zinóviev (que mantinha uma aliança com Kámenev e Stálin contra Trótski sobre os problemas internos da URSS, especialmente a política econômica e os problemas da relação entre o partido, o aparato estatal em processo de burocratização e as massas).

O bureau político do partido russo se reuniu em 23 de agosto e tomou a decisão de promover a insurreição na Alemanha com uma comissão especial do Comitê Executivo da Internacional Comunista. Durante semanas, debateu-se em Moscou a organização da insurreição. Trótski é um dos mais convencidos a seguir em frente na preparação da insurreição, oferecendo-se até para participar diretamente, com o qual a maioria da liderança soviética não concorda.

No final de setembro, foi definida a entrada do KPD nos governos social-democratas de esquerda da Saxônia e da Turíngia. Em 10 de outubro, o governo dos trabalhadores foi formado com representantes comunistas na Saxônia e em 13 de outubro os representantes do KPD entram no governo da Turíngia. A estratégia era usar essa posição para armar a classe trabalhadora e preparar a insurreição.

Em 18 de outubro, o governo de Stresemann decidiu mobilizar o Exército para “dissuadir os elementos extremistas” na Saxônia e na Turíngia. O KPD faz preparativos militares frenéticos, calculando em 60 mil o número de membros das centúrias [milícias] proletárias apenas na Saxônia. Menor, é claro, era o número de espingardas, já que eram necessários uma série de movimentos clandestinos para alcançá-las.

O plano de ação incluía a votação da greve geral (a ser realizada em 23 de outubro) em uma conferência nacional do Conselho de Fábricas, que aconteceu em 21 de outubro em Chemnitz. Nessa conferência, de acordo com o plano traçado, Heinrich Brandler iniciaria a greve geral em defesa dos governos dos trabalhadores da Saxônia e da Turíngia. O ministro do trabalho do governo saxão, Georg Graup, social-democrata de esquerda, argumentou que a greve geral seria a desculpa perfeita para o Exército avançar com seu plano repressivo, porque o “governo republicano e de defesa dos trabalhadores” parecia ceder o poder para os conselhos de fábrica e “fazia o jogo dos comunistas”. Ele propôs que a proposta de Brandler fosse retirada sob a ameaça de se retirar da Conferência junto a todos os que respondiam à sua corrente. Brandler cedeu a essa abordagem, retirando sua moção. O plano insurrecional naufragou estrepitosamente, saindo à luta apenas os comunistas em Hamburgo, os quais não foram avisados pela direção do KPD sobre a retirada, e foram ferozmente reprimidos.

Thalheimer e a “lenda do Outubro Alemão

August Thalheimer, membro do grupo dirigente encabeçado por Heinrich Brandler, escreveu em 1931 um artigo sobre o balanço da revolução alemã de 1923 [4], que resume as principais posições dessa corrente sobre o desenvolvimento de eventos e sua interpretação.

Parte de afirmar que existe uma “lenda” sobre a oportunidade perdida em 1923, criada pela ultraesquerda do próprio KPD e posteriormente amplificada pela liderança da Internacional Comunista para a luta fracionária contra Trótski.

Segundo Thalheimer, no momento imediatamente posterior, os dirigentes soviéticos não questionaram a política de recuar do fracasso da Conferência de Chemnitz. No entanto, ele ressalta que, em dezembro de 1923, Radek disse em um debate em Moscou que se a maioria da Internacional Comunista se opusesse a Trótski (eles eram o começo da “luta contra o trotskismo”), ela também se voltaria contra as direções dos partidos francês e alemão.

Thallheimer continua relatando que, dias após o evento (do qual soube posteriormente), Zinóviev escreveu uma carta criticando o desempenho da liderança alemã. Ou seja, ele se apressou em remover uma direção à qual não aderia usando o balanço de 23 como desculpa, embora Brandler e a liderança alemã nunca tivessem tomado partido de Trótski, pois alegavam ignorar o alcance das diferenças naquele momento entre a maioria da liderança soviética.

Além disso, para Thallheimer, a “lenda” é baseada em uma homologação errônea entre a Revolução Russa de 1917 e a situação da Alemanha em 1923. Destaca três diferenças substanciais: a questão da guerra, a questão nacional e a questão agrária. Ressalta que, enquanto a crise do Ruhr envolvia mobilização militar, não era exatamente uma guerra e que não havia movimentos e reivindicações na Alemanha em torno de problemas como os de nacionalidades oprimidas pelo tsarismo ou pela reforma agrária, com as quais os bolcheviques ganharam o apoio de outros setores oprimidos. Argumenta, por sua vez, que o principal mecanismo da luta de classes na Alemanha durante 1923 foi o processo inflacionário, mas que isso foi controlado quando a burguesia estabilizou a moeda. Também afirma que a situação era muito diferente nas áreas ocupadas pela França e naquelas não ocupadas. Na parte ocupada, os trabalhadores podiam fazer greve e protestar com a aprovação dos chefes alemães, que até pagavam os dias da greve, enquanto nas áreas desocupadas a inflação pulverizava os salários, enquanto a burguesia retomava a acumulação de capital por meio de exportações e a baixa do custo do trabalho. Para piorar a situação, os EUA e o Reino Unido apoiavam a burguesia e, na ausência de um exército de recrutas, o proletariado não estava armado em massa.

Thalheimer alega a política seguida pelo KPD durante o desenvolvimento da crise, mas, por sua vez, relativiza sua influência política:

O que fez o partido? Nessa situação, levantou uma série de slogans e demandas parciais [...] Que o peso da luta do Ruhr recai sobre a burguesia, o confisco de bens tangíveis, o controle da produção, a criação de comitês de controle de preços para a mercadoria [...] as Centurias proletárias na zona desocupada, o partido propôs um programa de dez pontos, incluindo a distribuição de carvão do Ruhr, 6 horas de trabalho, o aumento do salário de acordo com o aumento do custo de vida [ ...] Foi tão bem sucedido que séculos se expandiram rapidamente. O Partido estava orientado para a luta pelo poder. […] Foi assim que as coisas se desenvolveram até o ataque contra Cuno. Este foi o ponto mais alto do movimento de massas em 1923. Naquela época, o partido tinha a ilusão de ter iniciado e dirigido o ataque contra Cuno. Se o assunto for examinado, percebe-se que a principal causa foi a quebra da oferta de alimentos, causada pela aceleração da inflação.

Ele também acrescenta que o apoio oficial do SPD ao governo Stresseman gerou expectativas na classe trabalhadora.

Para Thallheimer, o principal problema era que o plano insurrecional havia sido elaborado em Moscou, não com base em fatos, mas através de um projeto improvisado em tempo real, com a suposição de que entre agosto e outubro aconteceria na Alemanha em 1923 o mesmo que na Rússia em 1917. Ele também aponta que a entrada nos governos da Saxônia e da Turíngia foi decidida contra Brandler e que o plano insurrecional exagerou a possibilidade de os conselhos de fábrica substituírem os sovietes (sobre o que falaremos mais adiante), sem serem organismos de alcance equivalente do ponto de vista político e territorial.

Juntamente com esses elementos, afirma que a situação vinha se retirando do ponto de vista revolucionário devido à ação do governo Stresseman, que se apressou em negociar com a França, pôs fim à resistência passiva e reintroduziu o padrão ouro para estabilizar a inflação.

Para Thalheimer, o principal erro foi “esquerdista” e não um “desvio da direita”: a preparação da luta pelo poder se limitou à preparação técnico-organizacional. Em relação à conferência de Chemnitz, ele ressalta que ninguém defendeu os movimentos de Brandler, que indicou que a situação havia se estabilizado e que não havia condições para uma ofensiva revolucionária.

O balanço estratégico de Trótski

Trótski faz uma leitura bastante diferente do processo. Citaremos uma passagem um tanto extensa de um artigo em que sintetiza os primeiros argumentos dos erros estratégicos do KPD:

Qual foi a causa fundamental da derrota do Partido Comunista Alemão? O surgimento de uma crise revolucionária desde a ocupação da bacia do Ruhr e, principalmente, o fim da resistência passiva (janeiro a junho de 1923) não foi apreciado a tempo. Faltou o momento crucial. É muito difícil para um partido revolucionário passar de um período de agitação e propaganda prolongado por anos para uma luta direta pelo poder através da organização da insurreição armada. Essa virada invariavelmente causa uma crise dentro do partido. [...] Fez falta uma mudança tática acentuada. Era preciso mostrar às massas, e antes de tudo ao próprio partido, que se tratava agora da preparação imediata para a tomada do poder. Era necessário consolidar a crescente influência organizativa do partido e estabelecer as bases de apoio a um ataque direto contra o Estado. Era preciso transformar toda a organização do partido sobre as bases das células de fábrica. Era preciso instalar de maneira séria a questão do trabalho no exército. Era preciso organizar as células nas ferrovias. Era necessário, sobretudo, adaptar plena e completamente a tática da frente unida a essas tarefas, dando-lhes um ritmo mais firme e determinado, e um caráter mais revolucionário. Nesta base, deveríamos ter dirigido um trabalho técnico-militar. [...] A preparação militar técnica do partido começou em uma velocidade frenética, separada da atividade do partido, que continuou no mesmo ritmo que em tempos de paz. As massas não entenderam o partido e não marcharam no seu passo. O partido sentiu esse corte das massas e ficou paralisado. Por isso, a retirada sem combate de posições de primeira ordem foi a mais amarga das derrotas possíveis. [5]

A leitura de Trótski abrange vários problemas importantes. Antes de tudo, uma avaliação incorreta dos tempos do processo de luta de classes pelo partido que implica falta de preparação. Quando já tinha que estar se preparando para uma ação decisiva na luta pelo poder, ainda não se havia colocado a possibilidade. Uma vez estabelecido esse objetivo, Trótski ressalta que ele não modificou a atividade política do partido, mas uma parte dele se dedicou aos preparativos militares, enquanto o restante continuou com a tática habitual. Isso determinou o desencontro com as massas, coroado pela retirada sem combate (combate que já havia sido, todavia, anunciado).

Partindo desse contexto e considerando acertadas as críticas de Trótski, tentaremos aprofundar um pouco mais a análise das características do plano insurrecional para ver se esse plano realmente correspondia ao objetivo de conquista do poder.

Um plano insurrecional sem auto-organização nem objetivos políticos

Como dissemos anteriormente, no plano do KPD, a greve geral seria votada na reunião nacional do Conselho de Fábrica em 21 de outubro, para lançar a insurreição no dia 23, o que, como vimos, não aconteceu.

Os dados sobre a composição da conferência oferecidos por Thalheimer e Broué não coincidem exatamente. Segundo o primeiro, a Conferência de Chemnitz tinha esta composição: 140 representantes dos conselhos de operários de fábrica, 15 representantes de comitês de ação, 26 delegados de cooperativas, 102 representantes de sindicatos, 16 desempregados, 7 delegados do Partido Social Democrata Alemão, 60 representantes do KPD, 1 delegado oficial do USPD (ruptura da social-democracia), 102 representantes dos cartéis sindicais (aqui os representantes sindicais aparecem repetidos). Broué oferece outros números, mas as proporções são semelhantes e coincidem com o número de representantes diretos das fábricas. Esses 140 delegados são o maior grupo, mas são menores que os outros grupos adicionados e os critérios de composição da conferência não acabam sendo os de uma organização de base ou de uma frente de organizações políticas, mas sim uma mistura de ambas as instâncias.

Aqui surge um problema muito claro. O plano foi organizado de tal maneira que a ação que cobriria a insurreição (a greve geral) dependia de um organismo (Conferência de Chemnitz), no qual o KPD não possuía maioria.

Mas além dessa questão (fundamental, sem dúvida), há outra que vai além do plano insurrecional específico e tem a ver com o desenvolvimento do movimento de massas. A Conferência não era de fato um organismo de democracia direta. Porque tinha uma composição e um critério de representação em que políticos reformistas poderiam ter mais peso do que representantes de base. Tanto o é que quem quebrou o plano do KPD foi ninguém menos que um ministro do “governo operário”. Tanto Brandler quanto Trótski haviam compartilhado a rejeição de criar sovietes artificialmente, isto é, conselhos de trabalhadores eleitos com base em fábricas e estruturados territorialmente com plenos poderes para discutir problemas políticos e econômicos. A aposta era que os conselhos de fábricas pudessem desempenhar na revolução alemã um papel semelhante ao dos sovietes na Revolução Russa. Mas para que os conselhos alemães desempenhassem esse papel, precisavam de um desenvolvimento que não os subordinasse a outras instâncias, como frentes sindicais ou tendências políticas, como de fato aconteceu na Conferência de Chemnitz. Em um artigo de 23 de setembro de 1923, intitulado “É possível fazer uma revolução ou uma contra-revolução em uma data fixa?” [6], Trótski havia apontado, em debate com a liderança alemã, que para estabelecer um plano de ação insurrecional precisava ter claros o objetivo político, a data em que se passaria à ação e os indicadores sociais e políticos de que as massas haviam passado para o lado do partido. Falando hipoteticamente, ele assinalou que, se não tivesse havido conselhos de trabalhadores na Revolução Russa, outros elementos poderiam ter sido indicadores da influência do partido: sindicatos, greves, manifestações de rua etc. Se naquele momento o partido convocasse a formar sovietes, surgiria diretamente um cenário de confrontos militares, que por sua vez levaria à qual plano de ação, o que suscita o problema do poder, que é a segunda questão fundamental a ser considerada no processo alemão.

O país estava dividido entre o governo burguês de Berlim, apoiado pelo SPD, os fascistas na Baviera e os comunistas e social-democratas de esquerda na Saxônia e na Turíngia. O plano insurrecional baseava-se na hipótese de desencadear ações insurrecionais como parte de uma greve geral em defesa dos governos operários da Saxônia e Turíngia. Do ponto de vista militar, isso envolvia a tomada de prédios públicos, delegacias, redes de comunicação, mas não está claro como o problema do poder político era pensado. Em suas conversas com Isaac Deutscher [7], Brandler comenta que, durante os debates em Moscou, Zinóviev insistiu fortemente que o KPD mudasse seu quartel general para a Saxônia, uma questão da qual o líder alemão não estava convencido. Mas, então, a ideia era conquistar o poder na Saxônia, abrindo uma situação de dualidade de poderes territoriais com o governo central? Ou o plano era estabelecer um governo revolucionário em Berlim como produto da insurreição em todo o país? Essas duas opções não são teoricamente exclusivas, mas na prática significam ações bem diferentes. E não está claro a que opção o plano estava inclinado.

Ao refletir sobre esses processos e problemas, surgem duas possíveis dificuldades. Uma é fazer uma espécie de história contrafactual, na qual outros caminhos que seriam possíveis são apresentados com resultado positivo quase garantido. O outro é se limitar a reconstruir os debates sem problematizar os fatos. Aqui tentamos, com os limites do caso, explorar uma terceira opção, ou seja, retomar o equilíbrio estratégico, apresentando os principais elementos do processo, reconstruindo as posições mais significativas em debate. Por fim, procuramos reexaminar aspectos que talvez não tenham peso suficiente na discussão daquele momento, mas que tornam inexploradas as possibilidades: a auto-organização além dos vários dispositivos ligados de uma maneira ou de outra ao Estado e a questão da dinâmica concreta de uma revolução e seu centro (ou seus centros) de poder.

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FOOTNOTES

[1Edições Iskra, 2019, no prelo

[2Cf. https://www.marxists.org/francais/broue/works/1971/00/broue_all.htm. Esta e as citações de Broué a seguir foram traduzidas do espanhol, conforme aparecem no artigo original.

[3Em alusão a um militante fascista executado em 1923, pela força de ocupação francesa em Ruhr, após realizar atos de sabotagem,

[5Trata-se de “A responsabilidade do Partido Comunista Alemão, disponível em espanhol em: https://www.marxists.org/espanol/trotsky/1924/19240621.htm.

[7Isaac Deutscher, “Record of a Discussion with Heinrich Brandler”, New Left Review, n. 105, 1977, p. 51-52.
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