Teoria

Michael Lowy e Karl Marx: ruídos

O Manifesto Comunista é um texto antiecológico?

Há determinadas leituras e resenhas do Manifesto Comunista que criticam Marx como antiecológico. A ideia geral desses leitores é a de que Marx teria se deixado levar pelo progresso tecnológico trazido pelo capitalismo; e em sequência, ele teria relativizado os males do capitalismo, algo assim como um “Marx tecnológico”.

Gilson Dantas

Brasília

domingo 22 de novembro de 2015| Edição do dia

O problema de tais leituras é sua parcialidade e ligeireza. Por isso chegam a uma espécie de Marx transportado para uma posição que, nos termos de hoje, seria antiecológica. Quando Marx faz qualquer menção à chamada dominação da natureza, este elemento é tomado simplisticamente por aqueles autores. Perde-se em dialética. Justamente o resgate mais dialético é o que já foi levantado por The domination of nature, de 1974, de William Leiss. Este conceito aparece ali em toda sua complexidade dialética, portanto, fora de uma polarização pouco marxista entre conquista humana da natureza versus adoração da natureza/santuário. E portanto oposta ao tipo de relação que o capital [e sociedades burocráticas] estabelece com a natureza.

No Manifesto Marx afirma, ao final, que o proletariado, como classe dominante, é quem pode ir abolindo gradualmente a oposição entre cidade e campo através da integração virtuosa dos empreendimentos da agricultura e indústria. No entanto, ecologistas como Collin Fry, de Marxism versus ecology (revista The ecologist, 1976), analisando o Manifesto e considerando as práticas antiambientalistas da URSS stalinista, chega à afirmação non-sense de que “Marx era um chauvinista urbano”. Este autor, depois de dar exemplos – que toda pessoa bem informada conhece – do ecocídio praticado pelo stalinismo na URSS, rapidamente desqualifica e distorce Marx. Esta é uma prática comum.

E por essa via, deixam de ver que a proposta de Marx, na verdade, coincide com a dos melhores ecologistas. E que jamais, nem na mais desesperada fantasia [pesadelo, na verdade], se pode imaginar convergência entre a perspectiva de sociedade comunista entre Marx e Stálin.

A outra crítica antiecológica a Marx, inclusive par¬tindo de ecologistas de esquerda (e que se desprende de certo trotskismo como o de Michael Lowy) é a do “otimismo tecnológico’ ou produtivismo. Essa crítica imagina que Marx, supos¬tamente refém do otimismo técnico do século XIX, defen¬deria o desenvolvimento das forças produtivas como a base ou o pressuposto quase mecânico de uma nova socia¬bilidade, do comunismo. Novamente se passa ao largo de que a concepção marxista pensa nos produtores associados controlando a relação sociedade-natureza e não burocratas, estes sim, produtivistas, stakanovistas.

Eventualmente fala-se no prometeísmo de Marx. E isso não apenas pela sua suposta adesão mecanicista ao progresso técnico, mas também imaginando erradamente que, em Marx, a ideia de Prometeu pudesse ter outro sentido que não fosse aquele inscrito na obra Prometeu acorrentado de Ésquilo, onde Prometeu, desafiando abertamente aos deuses, trazia o fogo (o conhecimento) para a humanidade. Para quem leu a crítica de Marx ao prometeísta Proudhon, este sim, mecanicista em sua ideia da tecnologia, isto fica bem claro. Para o próprio estudioso do assunto, Foster, “a ima¬gem posterior de Prometeu como representante do meca¬nicismo” só aparece em Marx “no contexto da sua crítica do prometeísmo mecanicista de Proudhon”. Valendo lembrar que Foster é crítico explícito de Lowy.

Cabe levar em conta, por outro lado, que, em sua obra, Marx não se coloca na perspectiva da nostalgia – como nos lembra Bensaid no seu Marx, o intempestivo – de “uma humanidade original vivendo em harmonia elementar com a natureza”, mas nem por isso, arremata Bensaid, Marx “se lança a uma apologia cega do ‘progresso’ que ele denuncia como regido pelo capital que desenvolve carências e consumo por métodos e finalidades capitalistas. O capital desenvolve consumo e economia mundial (mundializa a economia industrial), o que é ‘civilizatório’, mas ao mesmo tempo travado pelas relações mercantis”, conclui ele.

No caso particular de Lowy ele imagina que Marx adotou uma visão otimista em termos do “desenvolvimento ilimitado das forças produtivas” que seria indefensável (em Against the Current, vol 12, n. 5, de 1997, conforme citado por Foster). É a crítica ao suposto Marx prometéico. Uma dessas críticas vem, também, do autor de Small is beautiful, publicado em Londres em 1980, onde Schumacher, um economista liberal e de viés orientalista, pensa que o marxismo se prende apenas à sociedade, e que só “valoriza aquilo que nós mesmos fazemos” através do trabalho, da indústria, relegando a natureza. Novamente se deixa de lado as críticas à relação capitalismo-agricultura, ao “roubo do solo” analisado por Marx a partir de dados de químicos alemães e onde ele conclui que capitalismo e agricultura não combinam em termos da saúde do solo.

Para autores brasileiros, maus leitores (ou leitores reducionistas) de O capital, como Paiva Duarte (Marx e a natureza em O capital, 1986, Loyola), lado a lado com J.Pierre Dupuy, Marx teria sido um “crédulo incondicional” da “missão civilizadora do capitalismo”. Neste caso, o problema de Marx teria sido o de destacar a “grande influ¬ência civilizadora do capital” (segundo observa Paiva Duarte). Deixa de levar em conta que houve um tempo do capitalismo relativamente reacionário, tempos de Marx, e outro, o nosso, do capitalismo imperialista, decadente, reacionário em toda linha, destruidor em escala planetária, da terra, dos ares e dos mares.

Mas o mais curioso é que o Manifesto está todo argumentado no sentido de conduzir à conclusão de que a nova sociabilidade deve ser fundada na auto-organizacão e auto-emancipacão do proletariado, na perspectiva de novo poder como classe, de sua instituição como direção política e social da sociedade. E não na saída “civilizatória” pelas mãos do capital. Aliás, nem seria preciso lembrar essa obviedade.

Confundindo stalinismo com socialismo, Marx com Stalin, certos autores imaginam que o socialismo para Marx – e na obra de Marx – subentende ou conduz à máquina, à produção pela produção, ao ecocídio. Bensaid, no acima citado Marx, o intempestivo já observara que é equivocado pensar em Marx como um pregador da “industrialização a qualquer preço”. E na prática da democrática proletária, isso seria semelhante a imaginar que o proletariado irá dirigir a grande indústria contra si, que vai aceitar a barbárie de um Cubatão ultrapoluído ou de uma Mariana em Minas Gerais [catástrofes ambientais produzidas pela organização capitalista da grande indústria]. Como vai aceitar isso justamente quando tiver em suas mãos a direção da sociedade através de planos, estabelecidos democraticamente pelas massas e não mais com o objetivo da acumulação do capital?

Obras de pesquisa na produção teórica de Marx, especialmente nas últimas décadas, têm desconstruído essa imagem equivocada do marxismo. Um marxismo mutilado do qual são também porta-vozes Anthony Giddens (uma estrela acadêmica nos anos neoliberais que posava como neo-marxista), John Clark, Leszek Kolakowski, Ted Benton, Reiner Grundmann o citado, Michael Lowy (For a critical marxism, texto de 1997) e até Roy Bhaskar, todos estes fazendo parte do espectro dos que enxergam “prometeísmo tecnológico” nas obras de Marx maduro. São ampla e fundamentadamente contes¬tados por autores como John Bellamy Foster, Paul Burkett (em seu Marx and nature de 1999), Walt Sheasby e outros.

Aquelas críticas só funcionam se a obra de Marx não for estudada com a devida atenção, a começar do próprio Manifesto ou, por outro lado, se houver confusão no sentido de imaginar que a queda do muro enterra algum legado de Marx. Enterra o chamado “socialismo de caserna”, mas não a perspectiva do socialismo e nem o legado de Marx e Engels.

O ecologista anarquista Bookchin chega a falar que, para Marx, a natureza é o “escravo” da sociedade harmô¬nica. Alfred Schmidt – que influenciou certos ecologistas contemporâneos – fez crítica similar. Ele pensa que através do poder técnico-industrial sobre a natureza os homens erguem-se de servos a maus senhores de seu destino histórico. São extrapolações problemáticas (e incorretas) que Marx jamais formulou. E que não coincidem com a ideia de controle da sociedade e natureza pelos produtores associados. Na verdade, o conjunto do pensamento e da obra marxista vai em direção contrária a qualquer “marxismo tecnológico”.

Procurando ser mais preciso, Foster observa que justamente Marx formula sua concepção materialista da história pela primeira vez na crítica não apenas ao malthusianismo mas também ao prometeísmo mecanicista de Proudhon; é Proudhon quem fetichiza a máquina, o desenvolvimento técnico, é Proudhon quem imagina o capitalismo como algo que possa existir depurado das suas mazelas (“socialismo burguês”). A imagem de Prometeu em Proudhon é carregada da ambivalência Deus e não-Deus, burguês e proletário. Esta não é, em absoluto, a ideia de Prometeu em Marx. O Prometeu de Marx é o de Bacon, isto é, associado ao desenvolvimento da ciência e do materialismo, bem distinto do Prometeu alegórico e místico do último Proudhon.

Quanto ao Manifesto, a avaliação de Foster é relevante: “O Manifesto, apesar do seu intento popular, polêmico, já trazia implícito em si uma compreensão da relação entre a concepção materialista de natureza e a concepção materialista de história, bem como importantes ingredientes de uma perspectiva ecológica – oposta ao prometeísmo mecanicista do Proudhon mais tardio – que enfatizavam a necessária unidade da existência humana e natural”.

E, uma vez tendo entendido que a acumulação do capital engendrava pobreza relativa e absoluta para a maio¬ria da população e também que a sujeição das forças da natureza havia sido acompanhada de alienação da natureza, manifesta na divisão cidade-campo, central no capitalismo, nos escritos posteriores ao Manifesto, acrescenta Foster, “significativamente, Marx e Engels iriam fazer da consideração dessas contradições ecológicas uma parte central da sua crítica da civilização moderna (e particularmente da sociedade capitalista)”.
Eles se dão conta que a relação homens-natureza é formatada pelo capital e não por qualquer coisa parecida com racionalidade humana ou social. A indústria, no capitalismo, visa o lucro. A maior catástrofe ecológica do Brasil é fruto da acumulação do capital, do lucro e não de qualquer erro de planejamento ou coisa parecida.

A natureza está sendo submetida aos propósitos do capital. Com isso se terá a consequente catástrofe, por exemplo, da construção de metrópoles monstruosas onde a qualidade de vida decai na mesma proporção em que tais cidades cresçam e mais trabalhadores e suas famílias sejam amontoados na insalubre geografia urbana. Para Foster, o argumento de Marx e Engels “sempre envolvia a abolição da relação antagônica entre cidade e campo através da integração da agricultura e indústria, dispersão da população e o que Marx se referia como ‘a restauração’ da relação metabólica entre os seres humanos e a terra”.

[Esta nota, em versão extensa, consta do livro Natureza atormentada, marxismo e classe trabalhadora, 2012, disponível no www.centelhacultural.com.br e com Lúcia: contato@centelhacultural.com.br]

Bibliografia: Foster, J Bellamy, A ecologia de Marx, 2005. Bensaid, Daniel, Marx o intempestivo, 1999.




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