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O Legado de Mãe Jones: Entrevista com a esposa de um mineiro de carvão do Alabama

Left Voice, portal norte-americano da rede de diários Esquerda Diário, fala com a esposa de um dos mineiros que estão atualmente em greve por um contrato melhor na Warrior Met Coal em Brookwood, Alabama.

sábado 17 de abril| Edição do dia

The Daughters of Mother Jones (As filhas de Mãe Jones) eram um grupo de familiares que se organizaram em solidariedade com os mineiros em greve na Virgínia em 1989. Elas se inspiraram na organizadora sindical radical Mãe Jones.

Qual papel as famílias dos mineiros em greve estão cumprindo?

Acho que o importante é que entendemos como usar as redes sociais e como isso é importante. As redes sociais são o meio de passar uma mensagem adiante agora. Portanto, temos sido ativas nisso. Muitas das esposas que realmente vão para a linha de frente não têm filhos pequenos. Na verdade, essas mulheres estão na linha de frente quase todos os dias, mas muitas de nós não podemos ir por causa das obrigações de nossa família.

Na verdade, temos um grupo para estarmos todas em sintonia. Então postamos qualquer novidade sobre a greve, o sindicato e a empresa. Se houver algum lugar que precise do reforço de mais homens na linha de frente, nós coordenaremos junto aos nossos maridos. O sindicato conta com muitos moradores da nossa região, então nós meio que trabalhamos em contato com todos eles e dando as informações para que todos possam ficar em sintonia sobre tudo o que está acontecendo.

Temos grupos de bate-papo comuns e estamos tentando trazer de volta as alas femininas do sindicato. Houve uma grande luta em 1989, conhecida como a greve Pittston Coal (uma greve de mineiros também), que durou mais de 10 meses e resultou na prisão de milhares de trabalhadores. Nessa luta, formou-se o grupo “Filhas de Mãe Jones”. Foi um grupo de mulheres que ajudou a organizar os piquetes, ajudou os trabalhadores e dirigiu comitês. A partir daí, a UMWA (o Sindicato dos Mineiros) formou uma ala feminina e estamos trabalhando para que ela se restabeleça para auxiliarmos a greve e o sindicato.

Como isso contribuirá para tornar a luta mais forte?

Uma das coisas que temos monitorado é quando há atualizações sindicais, também ajudamos a organizar os piquetes, conversamos com a comunidade sobre a greve. Muitas vezes temos que explicar o que é um sindicato, que se você gosta de trabalhar no máximo 40 horas semanais, se você gosta de folga remunerada, se você gosta de ter condições de trabalho seguras, tudo isso acontece por causa de um sindicato. Quer você seja um trabalhador sindicalizado ou não, o sindicato define o padrão para o local de trabalho em todos os setores. Portanto, acho que parte do nosso trabalho é tentar educar as pessoas sobre o que é exatamente a greve e por qual razão é tão importante.

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O bom da greve é que aproximou as mulheres porque, se você não tem um familiar ou marido que trabalha na mina, talvez você não entenda como é. Como nossos maridos trabalhavam 12 horas por dia e alguns deles dirigiam para casa por até duas horas, víamos eles apenas por uma ou duas horas por dia. E nos preocupava que nada tivesse acontecido com eles no trabalho, porque esse tipo de trabalho é perigoso. Isso se soma a todas as outras preocupações cotidianas que uma família teria. Então, estamos tentando usar tudo isso para unir as famílias.

Como as políticas de ter apenas quatro vezes o direito de faltar o trabalho por emergências antes de poder ser demitido por justa causa afetam sua família?

Muitas de nós já entramos em trabalho de parto sozinhas, fomos para a UTI sozinhas, lidamos com abortos espontâneos sozinhas, se acontecer alguma coisa com nossos filhos, se houver uma emergência temos que pensar duas vezes antes de ligarmos para nossos maridos, porque mesmo saindo cedo do trabalho pode conta como uma advertência. Então, por exemplo, se acontecer alguma emergência com seus filhos, você tem que fazer uma escolha. Eu ao menos ligo e digo a ele, porque como homem, como marido, como pai, você vai querer estar ao lado de seus filhos. Mas, muitas vezes, nem ligamos para eles se não for uma emergência terrível, porque sabemos o que vai acontecer. Portanto, são realmente esses tipos de condições de trabalho que colocam uma pressão em toda a família e porque a todo momento temos que fazer esse tipo de escolha. E também há vezes que os filhos estão doentes, nossos maridos não podem faltar ao trabalho e nós também porque trabalhamos em tempo integral.

Os trabalhadores estão enfrentando uma liminar que permite apenas seis trabalhadores guardem as linhas de frente no piquete. Como você acha que isso afeta a greve?

Bem, a empresa entrou com um mandado de segurança, acho que com o fundamento de que éramos violentos e que as pessoas se sentiam ameaçadas de entrar no trabalho. Como você pode limitar o direito de reunião de alguém com esse fundamento? Não houve nada violento acontecendo. Já temos mais policiais do que trabalhadores em alguns piquetes. Sem falar da segurança privada para nos intimidar. Colocaram segurança armada na área privada da empresa antes mesmo de começar a greve, colocaram barreiras de concreto e tudo estava trancado. Esse era o plano deles o tempo todo.

Esta é uma questão fundamental. Na verdade, isso é uma supressão de um direito constitucional. Temos o direito de nos reunir e de protestar. A liminar impede que as pessoas venham para os piquetes, é muito difícil planejar turnos porque não conseguimos estar todos juntos para decidir. Portanto, é difícil coordenar porque você tem que dividir as pessoas entre vários locais. Então você não pode simplesmente dizer a todos: "Ei, vocês apareçam aqui no portão principal, e então vamos dividir todos vocês, certo?" Tudo tem que ser feito com antecedência e organizado por texto e grupos. Isso é uma grande desvantagem porque você não pode simplesmente ter o grupo todo junto e dividir as pessoas de acordo com onde precisam ir.

Muitos moradores da comunidade mostraram seu apoio. Tivemos pessoas deixando comida na linha de frente, restaurantes oferecendo descontos e uma tonelada de mineiros de Oak Grove trazendo comida em solidariedade também. Mas muitas pessoas estão com medo de ir para os piquetes porque parece um estado policial com segurança armada e guardas armados. E tudo para nos controlar, para pintar a narrativa de que o sindicato e os trabalhadores estão sendo violentos. É por isso que temos sido tão dedicados e estamos tentando aparecer lá, tirar fotos e levar nossos filhos. É porque tudo isso se contrapõe à falsa narrativa e à imagem que a empresa está tentando retratar de nós.

Que outras medidas podem ser tomadas para fortalecer a greve?

Precisamos ter mais iniciativa, trazer mais pessoas de outros sindicatos, precisamos entrar em contato com alguns dos outros sindicatos no Alabama e fazer uma declaração de que todos apoiamos uns aos outros. Precisamos participar de outras manifestações operárias, como a organizada pelos trabalhadores da Amazon. E nós, como esposas, precisamos continuar apoiando a greve. Precisamos continuar chamando a atenção da mídia e garantir que a greve não se torne isolada. É fácil que as pessoas fiquem presas em suas próprias bolhas, levando a muitas pessoas nem mesmo saberem que existem minas de carvão em Brookwood.
Seria ótimo se a mídia local viesse a público e se pudéssemos conseguir mais repórteres aqui para divulgar essas histórias para o mundo ver o que está acontecendo. Porque eu acho que muitas pessoas ficariam chocadas se soubessem o que estamos passando ou se soubessem sobre a ordem judicial para preencher a área com polícia. Acho que muitas pessoas ficariam indignadas em ver o que está acontecendo aqui, mas não conseguimos fazer com que a mídia local cubra isso, o que simplesmente não consigo entender por quê.

Agradeço toda a cobertura que vocês estão fazendo. Obrigado por seu apoio.

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