Educação

Novo dia de mobilizações em todo o país contra a crise na educação

André Bof

São Paulo

Juan Chirioca

RIO DE JANEIRO

sexta-feira 15 de maio de 2015| Edição do dia

A crise que atualmente afeta à educação no Brasil continua se aprofundando.

Enquanto o governo por um lado, publica o documento "Brasil, Patria Educadora", por outro implementa cortes (de R$7 bilhões de reais) afetando o conjunto do ensino público, além de cortar pela metade as verbas para o FIES.

Nesse sentido, as mobilizações dos trabalhadores contam com greves de professores do estado de São Paulo - que já supera os 2 meses-, Paraná e do município de Macapá, mas também houve hoje paralisações do setor da educação nas principais cidades do Brasil.

Os docentes votaram para hoje 14 de Maio um dia nacional de paralisação nas IFES em defesa da carreira-salário, dos direitos de aposentadoria e contra os cortes de verbas na educação e possibilidade de terceirização das funções docentes e de administração na educação federal.

Em Brasília, servidores públicos federais de todo o país realizaram um ato frente ao Ministério de Planejamento e o Fórum das Entidades Nacionais dos Servidores Públicos se reuniu com representantes do Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão para discutir a campanha salarial de 2015, direitos de aposentadoria e contra os cortes de verba da educação pública. A reunião não apresentou avanços nas negociações.

Segundo nota da ANDES "Não houve nenhuma resposta à pauta apresentada e à metodologia acordada na última mesa", e "ainda termina a reunião sem apresentar uma nova data". Depois, os representantes do Fórum se reuniram para decidir próximos passos.

Em Minas Gerais, os Docentes e técnico-administrativos da Universidade Federal de Lavras também aderiram ao dia nacional de paralisação. Na UFF, no Rio de Janeiro, os professores aprovaram paralisação de 24 horas, com atividades nos campi da federal fluminense e durante a tarde aderiram o ato na Cinelândia junto com os professores da UFRJ que também aderiram à jornada e paralisação.

A crise é estrutural e generalizada

Como produto da política demagógica de vender a imagem de uma “Pátria Educadora”, enquanto é na educação que se corta como nunca antes, temos visto uma grave situação se desenvolver nas universidades em todo país.

Como ponto máximo da crise nacional da educação vemos os enormes cortes realizados no programa de financiamento estudantil do Governo, o FIES, que teve sua verba cortada em mais de 2,5 bilhões além de apresentar as novas regras muito mais restritivas para sua obtenção e problemas técnicos ao longo de todo o ano.

Com todos estes problemas, o programa “esgotou suas verbas”, deixando centenas de milhares de estudantes, que já sofriam com este programa baseado no endividamento da juventude, sem nenhuma alternativa para estudar e, em alguns casos, perderam sua graduação, mas seguem tendo de pagar a dívida acumulada pelo FIES.

As paralisações, atos e mobilizações que hoje se expressam em diversas universidades federais que sofreram um corte de mais de 30% das verbas de seu orçamento, se dão em resposta aos numerosos atrasos de pagamento, demissões de milhares de trabalhadores terceirizados e o ataque as mínimas condições de assistência estudantil, como bolsas, moradia e creches, todos direitos atacados para pagar a crise.

É por isto que além das manifestações dos Servidores das Universidades Federais, estudantes também protestaram e no marco das paralisações na UFRJ, aproximadamente 120 estudantes se manifestaram no CONSUNI (Conselho Universitário da UFRJ) e realizaram ocupação do prédio da Reitoria exigindo o pagamento dos trabalhadores terceirizados da universidade e melhoras na assistência e políticas de permanência estudantil. Com a mesma pauta estudantes da UERJ realizaram na quarta feira- 13 de Maio- um “trancaço” de portões, exigindo o imediato pagamento dos salários dos trabalhadores terceirizados da universidade.

Da mesma forma, tem se dado um ataque profundo nas universidades estaduais paulistas, 3 das principais do país (USP, UNESP e UNICAMP) que, além das demissões de trabalhadores, sobrecarga de trabalho, demissão de terceirizados e corte de bolsas, restaurantes universitários e creches para permanência estudantil, ainda enfrentam a tentativa de corte em seu orçamento.

Em resposta a tal situação e construindo a mobilização da campanha salarial, hoje, em São Paulo, foi realizada uma paralisação nas 3 estaduais paulistas para realizar um ato que contou com cerca de 500 pessoas, na reunião de negociação com o CRUESP (Conselho de Reitores) para negociação salarial e maior repasse de verbas para as universidades estaduais paulistas USP, UNICAMP e UNESP.

Com os prédios de Letras e História “piquetados” em apoio a paralisação, esteve presente a participação de centenas de estudantes da USP que, unindo-se com outros da UNESP e Unicamp, neste momento tem se levantado contra os cortes na permanência estudantil e pela instauração de Cotas na USP.

Segundo Marcelo Pablito, diretor do SINTUSP que também aderiu à mobilização "tanto no país como no estado de São Paulo a falta de verbas é o argumento para justificar os cortes e cortar direitos dos setores mais vulneráveis, como estudantes de baixa renda e trabalhadores terceirizados. O projeto de lei de Alckmin é um ataque à autonomia das universidades e a qualidade do ensino e das condições de trabalho nas estaduais paulistas. Precisamos construir um movimento de estudantes trabalhadores e professores unificado das 3 universidades para barrar esta tentativa de colocá-las ainda mais a serviço das grandes empresas e de costas a maioria do povo que é quem a financia".

Além da situação paulista, também no Estado da Bahia, professores das quatro universidades estaduais (Uneb, Uefs, Uesb e Uesc) estão em greve contra a redução de verbas às universidades estaduais demonstrando que o ataque a educação é generalizado.

Construir a unidade para barrar os ataques

A crise na educação tem encontrado expressão quase cotidiana nos grandes meios e jornais e é um dos principais pontos que unificam as ações dos Governos de PT e PSDB, além de todos os aliados menores, nacionalmente contra o direito dos trabalhadores e da juventude.

Uma enorme politização tem sido gerada ao redor deste tema, pois aí se localiza o debate sobre a falta de futuro e oportunidades para milhões de jovens e trabalhadores da Educação, ainda mais diante do cinismo da “Pátria Educadora”.

Se, por um lado, todos os partidos tradicionais capitalistas estão unidos como “unha e carne” para atacar, é necessário já construir, passo a passo, a unificação da juventude e dos trabalhadores para, assim como o inimigo, golpear como “um só punho” e definitivamente deixar claro que, aqui, o problema é a oposição de interesses: de um lado o do povo trabalhador; do outro o dos banqueiros, empresários e o governo.

Neste mês de Junho haverão duas oportunidades únicas de buscar a unificação dos estudantes em todo o país. Se realizará o CONUNE (Congresso da União Nacional dos estudantes) e da ANEL (Assembléia Nacional dos Estudantes - Livre) dentro dos quais será possível debater de que forma organizar a resistência da juventude.

Diante da burocracia estudantil representada pela UJS (União da Juventude Socialista) financiada a peso de ouro pelo governo federal para calar os estudantes, setores do PSOL e do PSTU, que compõe ambas as entidades, deveriam colocar todas as suas energias para que estes congressos rumem para uma só política: organizar ações, atos, manifestações, escrachos e, centralmente, um encontro nacional para construir um plano de lutas e greve para barrar os cortes e avançar em direitos na educação.

Para isto, é preciso sair da rotina da autoconstrução e dedicar especial energia e atenção para, com este plano, entrar de cabeça na disputa pela consciência dos milhões de jovens nas universidades privadas que, hoje, mais do que nunca, começam a ver os limites da “benevolência” PTista graças a seus cortes.

Esta aliança “perigosa” de toda a juventude estudantil seria um ponto de apoio fortíssimo para os trabalhadores e docentes nas universidades não apenas barrarem os cortes orçamentários, como para barrar as demissões de terceirizados, a penetração nas universidades das fundações privadas milionárias, conquistarem aumentos salariais e de benefícios que ampliem a qualidade do serviço e condições de trabalho.

Por fim, contribuiria para tornar possível a emergência de uma “terceira via” para fazer frente aos ataques mais profundos do governo, como as MP’s 664 e 665 e a tentativa de terceirização generalizada.




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