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Notas sobre as divisões no Agronegócio, paralisação de caminhoneiros e a crise política

João Salles

Ilustração: Juan Chirioca | @macacodosul

Notas sobre as divisões no Agronegócio, paralisação de caminhoneiros e a crise política

João Salles

Tendo a crise política no Brasil passado por um arrefecimento recente, contando com a participação ativa do ex-presidente golpista, Michel Temer (MDB), na elaboração da “Carta à Nação” de Bolsonaro, a mesma está longe de uma resolução. As disputas entre projetos autoritários, os atos do último dia 7 e as tensões institucionais geraram movimentações de setores graúdos dos capitalistas, expressando divisões e contradições mais profundas. Trataremos no seguinte artigo mais detidamente sobre estes elementos em relação ao Agronegócio, principal fortaleza de classe do projeto bolsonarista que enfrenta turbulências.

Quem vê a cena grotesca do jantar de empresários junto a Temer, onde divertem-se com a miséria social e a imitação dos “excessos” de Bolsonaro, percebe que a crise política no país parece ter encontrado um momento de diminuição das disputas e tensões palacianas. O forte recuo na retórica golpista do atual presidente, contando com notas de humilhação para desescalar o conflito com Alexandre de Moraes do STF, tiveram efeitos concretos: O fortalecimento do regime político do golpe institucional e suas instituições degradadas; a desmoralização notória em setores mais duros da base social de extrema-direita do bolsonarismo; o debilitamento do governo e uma estabilização relativa e precária para o avanço da agenda econômica neoliberal dos capitalistas.

Mas, para além da conjuntura do Brasil depois do 7 de Setembro, voltemos a um momento anterior aos atos, onde Bolsonaro esticou a corda das tensões ao máximo, e também nas divisões que se expressaram entre setores burgueses em torno da convocação para as caravanas bolsonaristas e sobre os rumos das crises política, econômica e social latentes. Crises que foram geradas pelos próprios capitalistas e que são incapazes de serem resolvidas por esta classe parasitária, necessitando de uma resposta urgente da classe trabalhadora em aliança com os setores oprimidos da sociedade na luta contra a exploração e a opressão desenfreadas em que nos encontramos. O sentido de retornar a este momento é mais do que simplesmente analisar a realidade pelo que de fato representa, sendo também de suma importância para entender qual é o projeto de país em curso, dando maior clareza aos elementos mais estruturais de para onde caminha o Brasil e para onde deve apontar nossa luta.

Um breve panorama da desindustrialização e do Agronegócio no Brasil

É sabido que o setor do Agronegócio é um dos que mais cresce no país, e acompanhado de um intenso processo de desindustrialização e reprimarização da economia. Segundo estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), de 1970 até hoje, o Brasil é o terceiro país que mais se desindustrializou no mundo dos 30 analisados, apontando que a participação da indústria no PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro despencou de 21,4% para 12,6%, entre a década de 70 e 2017. Ainda que haja diferença setorial neste processo, já que setores da indústria como alimentos, fumo, bebida, celulose e papel (indústria de baixa complexidade e ligada também ao Agronegócio) são os que mantêm os maiores índices de participação no PIB em 2016 e enquanto tendência. Como comparativo, em 1970, a participação do Agronegócio no PIB nacional era de 7,5%. Em 2020, já como maior produtor de soja do mundo, a participação subiu para 26,6%, conforme o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP).

Sendo assim, é nítido que o projeto de transformar o Brasil na “grande fazenda do mundo” não é de hoje, tendo sido inclusive intensificado durante os anos de governo do PT. Com o boom das commodities, o aumento da demanda chinesa por grãos e matérias primas, entre outros fatores da dinâmica internacional, empurraram a que o PT fortalecesse os setores do Agronegócio, criando uma das bases de sustentação mais sólidas do próprio bolsonarismo e do peso da reação no país. Uma vez fortalecido, este setor foi entusiasta do golpe institucional em 2016 que avançou ainda mais neste projeto de país. Logo em seguida, embarcaram na manipulação das eleições de 2018, com a prisão arbitrária de Lula e na candidatura de Bolsonaro, que tem cumprido com as promessas de regalias maiores aos ruralistas.

Informações da Comtrade (2020) apontam que a tendência da exportação anda ligada à produção no país e bens não manufaturados ou de baixa-tecnologia representam 81% do valor total das exportações. Isto enquanto 60% do valor importado pelo país tem sido alocado em bens de média-alta e alta tecnologia. Aqui, mais uma vez, há a representação gráfica da dependência estrutural da nossa economia e dos traços semi-coloniais (latifúndio em particular) que se aprofundam desde o golpe institucional e aumentam a subordinação do país aos interesses do imperialismo, sobretudo de Washington. No ano passado, 48% das exportações totais brasileiras tiveram origem no agronegócio e, agora, esse percentual pode subir mais.

E não é somente a extrema-direita bolsonarista que possui relações umbilicais com o setor Agro, basta lembrarmos do recente escândalo do “tratoraço”, no qual o governo liberou 3 bilhões em emendas parlamentares via orçamento secreto, favorecendo o Centrão para obter sustentação, e que um dos elementos centrais foi justamente o superfaturamento na aquisição de maquinaria.

Em dados concretos, no início deste ano, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) estimou um faturamento, ou Valor Bruto da Produção (VBP), no valor recorde de R$1,142 trilhão em 2021. Isso representará, caso se confirme a projeção, um aumento de 15,8% em relação ao ano de 2020. Esse crescimento se dá por um aumento na produção e também pela alta no preço de certas commodities, como a soja, o milho, o arroz e também a carne bovina, sendo o Brasil o maior produtor e exportador mundial de muitas destas (no caso da soja, da carne bovina, além de ser um dos maiores produtores de milho no mundo). A tendência, segundo o Cepea/USP, é que em 2021, o PIB do agro continue crescendo. No acumulado do ano, já avançou 9,81% sobre o mesmo período do ano passado.

Uma consequência nefasta deste maior faturamento é o aumento exponencial das queimadas no país. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o ano de 2020 registrou o maior índice de focos de queimadas desde 1998, 6123 focos no total, e, neste ano ainda em Setembro, os números já estão em 4840. Essa é a base de expansão da fronteira agrícola no país para o Norte amazônico e o Pantanal (não sem contradições), combinada ao aumento da grilagem de terras, da concentração fundiária, expulsão de camponeses e indígenas, bem como às medidas criminosas que unificam os capitalistas, tais quais o PL490 e o Marco Temporal.

A alta das commodities como a soja e o milho impactam as projeções sobre a produção. Em matéria recente, o jornal Folha de S. Paulo aponta que, pela alta de preços, a soja e o milho avançarão sobre as áreas de cultivo de arroz, feijão e cana. A estimativa é de crescimento em 3,7 milhões de hectares na safra 2021/22, totalizando 40,3 milhões de hectares para soja e 22 milhões para milho - considerando as três safras.

Para além da problemática das queimadas, este fenômeno se liga também ao aumento exponencial da fome no país, bem como à alta de preços nos grãos da alimentação básica da população. A questão é que este aumento na produção não implica em um maior abastecimento do mercado interno brasileiro - isto porque a desvalorização do Real na taxa cambial com o Dólar empurra a produção para a exportação. Com a predileção pelas exportações, há uma menor oferta desses produtos no mercado interno, o que colabora para a alta de preços e se combina com o crescente desemprego e inflação (desvalorização do poder de compra da moeda devido à alta no custo de produtos e serviços), que dificultam a aquisição de bens básicos. E agora, com a diminuição dos hectares para cultivo, é provável que dependamos de importação destes grãos (arroz e feijão), que pela alta do dólar levará a um aumento ainda maior nos preços.

Outro elemento que acrescenta no cálculo da inflação e do aumento dos preços nos alimentos é a extinção dos estoques públicos de alimentos operada pelos governos de turno, inclusive petistas, mas que tem avançado para extinção generalizada nos governos Temer e Bolsonaro. A diminuição dos estoques, ou até mesmo a extinção, deixa os preços reféns da flutuação do Dólar, favorecendo a especulação do Agronegócio e seus lucros enquanto a população é quem paga a conta.

Combinado a esses fatores, avança cada vez mais a financeirização do agronegócio. No ano passado, foi aprovada a Lei do Agro, que estimula o financiamento estrangeiro do Agronegócio brasileiro via mercado de capitais. Na mesma toada, o governo sancionou neste ano o Fundo de Investimento do Agronegócio (FIAgro), que aprofunda ainda mais esta tendência, permitindo que investidores nacionais e estrangeiros atuem em fundos operantes na aquisição e arrendamento de terra, além do investimento em setores localizados da cadeia produtiva (insumos, estocagem, distribuição etc). A novidade, por assim dizer, é que atualmente a maior parte do financiamento do setor se dá pela via de crédito dos grandes bancos, já com a mudança não haveria necessidade de captação de recursos pela via de empréstimos, mas sim com o investimento direto - ou até mesmo indireto nos fundos. O resultado prático é um controle maior do mercado financeiro internacional nos rumos do agronegócio e a especulação da terra, que, por sua vez, estimulam a grilagem e ameaçam povos originários e agricultores familiares.

As características apresentadas acima demonstram o desenvolvimento desigual e combinado no país, onde as estruturas arcaicas e de formação pré-capitalista (como é o latifúndio) se combinam com aquilo que há de mais avançado em termos de técnica e mecanização - completamente dependentes do capital estrangeiro, é claro - e com a especulação financeira no mercado de ações, privilegiando os investidores representantes do capital financeiro imperialista. Como conclusão, temos uma alteração na relação e dinâmica de classes, marcada pela crise orgânica [1] que atravessa o país e que alça novas frações da burguesia e da pequena-burguesia no interior do Brasil, bem como o surgimento de seu próprio coveiro, isto é, o proletariado que se forma na cadeia produtiva do Agronegócio e se concentra nos centros urbanos decorrentes deste processo de deslocamento do eixo central da atividade econômica do país para a região Centro-Oeste.

Este processo está melhor analisado no artigo O PT plantou e Bolsonaro colheu: agronegócio e classes sociais no interior do país.

O que expressam o “caso Sérgio Reis’’ e a nota da Abag sobre as divisões no setor?

Evidentemente que, ao tratar da categoria genérica de Agronegócio não damos conta de esmiuçar cada uma das particularidades do segmento. Fundamentalmente, podemos pensar uma divisão da categoria nos seguintes ramos: Agroprodução, Agroindústria e Agrocomércio. Na realidade, todos estes ramos estão imbricados em uma mesma cadeia produtiva e de comercialização. Todavia, para entender as disputas mais recentes, com declarações públicas das entidades para cada um dos lados na crise política institucional, podemos observar uma diferença, especialmente entre os reacionários produtores ruralistas e latifundiários nacionais e os representantes ligados aos outros dois ramos do Agro e sua crescente financeirização.

Um dos elementos que pesa na conta da divisão, para além da crise política perene provocada por Bolsonaro, é a Moratória da Soja. O pacto ambiental criado em 2006, em teoria, impede a compra de soja oriunda de áreas desmatadas da Amazônia e teve a Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (ABIOVE) como uma das duas principais idealizadoras do projeto. Não é mero detalhe que a ABIOVE é signatária da carta publicada pela Associação Brasileira do Agronegócio (ABAg) recentemente em crítica à postura desestabilizadora do governo, ainda que de maneira indireta, sem citar Bolsonaro nominalmente.

O presidente do conselho da ABIOVE é ninguém menos do que o bilionário Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso (2003-2010) e também ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no governo golpista de Michel Temer. Maggi é herdeiro do grupo Amaggi, que está na lista da Forbes Agro como o 14° principal grupo de atuação no setor brasileiro em 2020. Além de ser o maior produtor de soja com capital 100% nacional, a Amaggi atua fortemente como trader, isto é, negociadora no mercado internacional, exportando soja, milho e distribuindo insumos agrícolas. É notório também que o grupo tenha escritório e representação na China, e, consequentemente, laços comerciais estreitos com a burocracia autocrática do PCCh.

Quando o cantor e ex-deputado Sérgio Reis veio a público convocar os atos golpistas de Bolsonaro no dia 7 de Setembro, dizendo estar representando os caminhoneiros, chamando a paralisarem e ameaçando invadir o STF e “quebrar tudo” contra os 11 Ministros do Supremo, Blairo Maggi já havia se pronunciado em tom de crítica. Não exatamente sobre o caso Sérgio Reis, mas sobre o representante de classe por trás desta convocatória reacionária: O presidente da Aprosoja Brasil - e bolsonarista de carteirinha - Antonio Galvan. Tanto Reis, quanto Galvan respondem à acusação de serem financiadores dos atos bolsonaristas, e no dia 23/08, dia de seu depoimento na PF, organizou junto a outros ruralistas uma espécie de passeata com tratores em Sinop (MT). Há rumores de que Galvan estaria pleiteando uma vaga no Senado esperando contar com apoio do atual presidente.

De qualquer forma, é notório que as paralisações de caminhoneiros que acometeram o país nos dias 7 e 8 de setembro, agitadas por uma figura obscura conhecida como Zé Trovão, refletiram tais divisões do agronegócio. Enquanto o CNTRC (Conselho Nacional do Transporte Rodoviário de Cargas) declarava não apoiar uma paralisação de caminhoneiros em defesa de Bolsonaro, seguida por muitas outras associações como a dirigida por “Chorão” que esteve à frente do movimento de 2018, setores ligados às patronais do agronegócio foram flagrados distribuindo dinheiro para que manifestantes aderissem ao dia 7 de setembro. O valor do combustível soma-se à projetos que privilegiam outros modais de transporte, numa clara tentativa de diminuir a dependência logística do país dos caminhoneiros, e que vem gerando fissuras no apoio deste setor a Bolsonaro. Não à toa que durante as paralisações que cortaram as estradas diversos registros publicados na imprensa davam conta de que grande parte da composição das ações era de empresários do transporte de cargas, e não de caminhoneiros autônomos.

Um fato digno de nota é que os sojeiros têm suas próprias disputas com o STF. Como, por exemplo, a questão da Ferrogrão que já sofreu interferência do Ministro do STF Alexandre de Moraes, fato que gerou críticas abertas via declaração da Aprosoja de Mato Grosso. O projeto de infraestrutura ferroviária é o maior da história no segmento, incutindo em desmatamento da floresta amazônica e invasão de terras indígenas, e tem como objetivo conectar o estado do Mato Grosso ao Pará para o escoamento das safras ao Norte, acompanhando a tendência de expansão da fronteira agrícola. O leilão da malha ferroviária, sem o qual é impossível dar início a construção, é defendido ferrenhamente por Bolsonaro, seu ministro da Infraestrutura Tarcísio Gomes de Freitas - militar da reserva - e pelos militares do governo que hoje detém controle da floresta amazônica pela via do Conselho Nacional da Amazônia Legal, cujo presidente é ninguém menos que o reacionário Mourão.

O projeto da Ferrogrão tem gerado preocupação na monopolista Cosan (terceiro maior grupo da lista Forbes Agro, atuando fortemente como trader do setor de bioenergia). Isto porque hoje a única via ferroviária de escoamento das safras do Centro-Oeste se dá pela Ferronorte que conecta Mato Grosso ao porto de Santos em SP, cuja proprietária é a Rumo, empresa logística da Cosan - e que possui relações com a imperialista Shell na joint-venture que formou a Raízen.

Ou seja, o favorecimento dessa nova burguesia latifundiária produtora do Centro-Oeste no plano logístico, bem como de outras traders gigantes, entra em choque com os interesses monopolistas da Cosan, onde a competição poderia levar a uma diminuição nos custos do frete consideráveis, além de diminuir a dependência do transporte rodoviário de caminhões que com a alta no preço dos combustíveis também se torna uma pedra no sapato. Segundo uma consultora da CNA, a estimativa é que até 2030 a Ferrogrão transporte 20 milhões de toneladas, e a cada “pernada” leve 16 mil toneladas de grãos, o equivalente a 400 caminhões.

Na toada do reacionarismo de Galvan, outras entidades ligadas ao ramo da Agroprodução também se manifestaram, como foi o caso da Farsul no Rio Grande do Sul e do deputado Frederico D’ávila (PSL-SP) - ligado à Sociedade Rural Brasileira (SRB). Um fio condutor desta divisão é justamente o fato dos produtores rurais estarem fechados com Bolsonaro sem maiores contradições, diferentemente da Agroindústria e do Agrocomércio.

Basta vermos algumas das entidades que assinaram a carta da Abag: Além da própria, temos a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia em Nutrição Vegetal (Abisolo), Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Croplife Brasil (que representa empresas de defensivos químicos, biológicos, mudas, sementes e biotecnologia), Indústria Brasileira de Árvores (Ibá) e Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg).

O diretor-executivo da Croplife Brasil, Christian Lohbauer, deu uma declaração, veiculada no UOL, que apresenta maiores pistas para pensar a divisão. Importante ressaltar que Lohbauer foi vice na chapa com João Amoêdo para as eleições de 2018, mas que saiu recentemente do partido pelas críticas a Bolsonaro. Ele diz que o setor defende, em conjunto, pautas como as relativas às questões fundiárias, terras indígenas, invasão de terras, “sustentabilidade” e cadastro ambiental rural, entre outras, mas as demais agendas que geram rupturas institucionais, como as ameaças ao STF ou o bloqueio de rodovias por caminhoneiros, não são do setor.

Mas então, se estão alinhados em pautas fundamentais, para além dos elementos da crise política, quais as razões mais de fundo para a divisão? Retomando a questão da Moratória da Soja, podemos dizer o seguinte: Essas entidades têm em comum o fato de congregarem principalmente empresas da Agroindústria, que produzem itens de maior valor agregado a partir de matéria-prima animal ou vegetal, com grande impacto exportador. Este tipo de empresa tende a sofrer mais com danos à imagem do país provocados pelo governo em comparação com o grupo dos produtores rurais, que atuam mais diretamente no campo e são mais próximos dos grupos chamados de “ruralistas”. Atuam no mercado interno ou vendem sua produção para a Agroindústria.

Os produtores se mostram, além de reacionários nos valores sociais, seguidores fiéis de Bolsonaro e sua política ambiental, do desmatamento intensivo e legalização da grilagem. O governo atrai também por flexibilizar a liberação e ampliação dos chamados “defensivos agrícolas”, com maior acesso a armas e redução da máquina de fiscalização de sua matança no campo. Isto porque, para estes produtores, pouco importa a imagem do Brasil para fora, querem mesmo aumentar a concentração de terras em suas mãos para aumentar sua produção em grãos, se aproveitando da alta de preços em commodities como a soja e o milho para venderem os grãos da forma que for. As preocupações maiores ficariam a cargo das traders.

E é verdade, já que a demagogia do capitalismo verde do imperialista Biden já vem de uma pressão forte em relação ao governo também na questão ambiental. Basta lembrarmos que com a ingerência direta foi que exigiram a cabeça de Ricardo Salles, o ex-ministro do Meio Ambiente defensor dos ruralistas, no movimento de destrumpização da gestão Bolsonaro. As traders no Brasil são quase que exclusivamente empresas multinacionais do capital imperialista, expressas na fórmula “ABCD” (ADM, Bunge, Cargill e Dreyfus). Estas empresas realizam investimentos pesados na Agroindústria: são detentoras dos silos, da maquinaria de transformação dos grãos em óleos e de diversos segmentos da indústria de transformação de baixa complexidade. Além disso são também dependentes das relações internacionais de comércio com o Brasil e podem ver tanto a importação de insumos, bem como suas exportações pela via do Agrocomércio, sofrerem retaliações dos países imperialistas devido à política ambiental de destruição desenfreada.

A expansão da fronteira agrícola por parte dos produtores individuais bolsonaristas é um aspecto que preocupa Biden e o imperialismo norte americano de conjunto. O Brasil é responsável por 135 milhões de toneladas de uma oferta mundial de 363 milhões de toneladas da oleaginosa, tendo uma produção 17% maior que o segundo colocado, os EUA. Uma maior autonomia do Brasil neste sentido poderia levar a um estreitamento das relações comerciais com a China, por exemplo, ou o oferecimento de um mercado alternativo à forte oferta agrícola dos ianques. De todo modo, frear o avanço do Agronegócio brasileiro, ou ao menos condicioná-lo mais fortemente à agenda imperialista dos EUA, é de extrema importância para Biden.

Contra a disputa entre a direita e a extrema-direita: precisamos de uma resposta pela via da luta de classes

Agora, após a realização de atos consideravelmente menores por parte do PT e da oposição de esquerda ao governo no último dia 7, bem como o fracasso dos atos da direita neoliberal no último dia 12, estão sendo convocadas novas manifestações pelo Fora Bolsonaro para o dia 02/10. Mas o caminho trilhado é, mais uma vez, o da derrota por parte das direções do movimento de massas. Já havíamos presenciado a bizarrice da nota conjunta assinada por todas as Centrais Sindicais, incluindo a CSP-Conlutas e as Intersindicais, convocando os atos opositores no dia 07. Nela, está expresso que: “É preciso que o legislativo e o judiciário em todos os níveis, os governadores e prefeitos, tomem à frente de decisões importantes em nome do Estado Democrático de Direito, não apenas para conter os arroubos autoritários do presidente, mas também que disponham sobre questões urgentes como geração de empregos decentes, a necessidade de programas sociais e o enfrentamento correto da crise sanitária.”

Agora, aparentemente há uma articulação com setores da direita neoliberal para também comporem os atos do dia 02/10, o que significaria um retrocesso de proporções estratosféricas. Fora que o conteúdo político é a pressão para que avance um processo de impeachment contra Bolsonaro, o que colocaria o reacionário e saudosista da ditadura Mourão na presidência. Não seria novidade por parte do PT essa aliança com a direita. Os mesmos vem costurando acordos em torno da candidatura de Lula para as eleições presidenciais do ano que vem com aquilo que há de mais podre na política nacional. Esta é mais uma expressão da linha conciliatória do petismo, que, como desenvolvemos neste artigo, foi parte fundamental de fortalecer os setores da direita, como o Agronegócio, que se postularam como base da reação no golpe institucional de 2016 e posteriormente para o próprio bolsonarismo.

É urgente que possamos apresentar uma resposta independente dos trabalhadores, contando com a força do proletariado urbano que se concentra na cadeia produtiva do Agronegócio, e é a representação em vértice oposto - inclusive de classe, dos interesses da burguesia latifundiária em ascensão: um proletariado majoritamente negro e feminino, contra a herança escravista burguesa, branca e patriarcal do latifúndio. É preciso organizar esta força em aliança com os povos originários que protagonizam uma luta heróica contra o Agronegócio, o STF e Bolsonaro, em defesa de suas terras contra o Marco Temporal.

Desta aliança, na qual devemos depositar todas as nossas energias, é preciso que se discuta um programa e uma estratégia operários que articulem elementos fundamentais, tais como o repasse das verbas milionárias destinadas ao Agronegócio para um plano de reflorestamento e gestão das florestas. Por uma reforma agrária radical que varra a herança escravista e colonial do país, garantindo terra e crédito para todos que queiram trabalhar, com o incentivo para a criação de fazendas coletivas geridas pelos próprios trabalhadores rurais. Pelo monopólio da comercialização de grãos como soja e milho, por uma empresa estatal gerida pelos trabalhadores rurais. Medidas essas que vão no sentido de se chocar com o lucro e com a ganância capitalistas.

O desenvolvimento desigual e combinado do capitalismo, com maior proletarização no campo, maior dependência de todo país ao agronegócio, entrelaçou ainda mais as tarefas democráticas – extinção do latifúndio, independência do imperialismo – com a luta por um governo operário de ruptura com o capitalismo. O combate ao bolsonarismo, a todo atraso e subordinação propagado pelo STF, pelo Congresso, por Mourão e os militares, só podem ser protagonizados pelas mãos da classe trabalhadora brasileira tomando posse das imensas possibilidades naturais e humanas que permitam estabelecer um novo metabolismo com a natureza e também entre os seres humanos, colocando as riquezas do solo a serviço das infinitas possibilidades no desenvolvimento de uma sociedade livre da exploração e opressão capitalistas.

Para responder às profundas crises política, econômica e social em curso no país, devemos apostar na independência de classe, sem qualquer ilusão em um suposto progressismo e nacionalismo de setores burgueses. É neste sentido que a unificação e coordenação das lutas em curso no país contra o aumento da carestia de vida possam se desenvolver para aspectos mais profundos de um novo projeto de país. Uma luta unificada de todos os trabalhadores e setores oprimidos pelo Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, contra o conjunto dos ataques capitalistas do regime do golpe institucional, que possa impor pela força da mobilização uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que permita apresentar os elementos de programa citados acima e muito mais, abrindo espaço para a luta por um governo dos trabalhadores em ruptura com o capitalismo, por uma nova sociedade verdadeiramente socialista.

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FOOTNOTES

[1..seja porque a classe dirigente fracassou em alguma grande empresa política para a qual tenha solicitado ou imposto pela força o consenso das grandes massas (como a guerra), ou porque vastas massas (especialmente o campesinato e os intelectuais pequeno burgueses) tenham passado bruscamente da passividade política a uma certa atividade, e levantam reivindicações que em seu conjunto não orgânico constituem uma revolução. Fala-se de ‘crise de autoridade’, e isso é precisamente a crise de hegemonia, ou crise do Estado em seu conjunto”.
A. Gramsci, Cadernos do Cárcere, Volume 3.!/4[rosto]/2[_idContainer002]/2/2/1:0)] Caderno 13, Notas sobre Maquiavel, § 23. Edição Civilização Brasileira, 2017.
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João Salles

Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP
Estudante de História da Universidade de São Paulo - USP
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