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Greve Global pelo Clima | “Nossa estratégia para ativar o freio de emergência é ao lado da classe trabalhadora” disse Luiza da UnB

Na Plenária Aberta da Juventude Faísca discutindo o manifesto “O capitalismo e seus governos destroem o planeta: destruamos o capitalismo!”, Luiza, estudante de serviço social da UnB, interveio afirmando que para acabarmos com a crise climática precisamos construir uma alternativa socialista e dos trabalhadores, lutando como os petroleiros de Grandpuits na França, os estaleiros da Irlanda e os trabalhadores da Madygraf na Argentina.

sábado 25 de setembro | Edição do dia

Leia aqui o manifesto apresentado: O capitalismo e seus governos destroem o planeta: destruamos o capitalismo!

Como parte da abertura das discussões de apresentação do Manifesto acima, reproduzimos aqui a transcrição na íntegra a fala da militante da Faísca, Luiza Eineck, estudante de Serviço Social da UnB:

Foi muito boa a fala da Vit, vou tentar contribuir um pouquinho também, porque queremos ouvir todos! Bom, como muito bem colocou a Vit na fala dela, as mudanças climáticas já estão gerando catástrofes e efeitos sociopolíticos inevitáveis dos quais as grandes potências e as corporações capitalistas não são apenas as mais responsáveis, mas também estão plenamente conscientes disso. É mais claro do que nunca que o problema é o capitalismo e não a humanidade.

Frente a isso, a juventude tem o direito inquestionável de se rebelar contra um sistema baseado no lucro de um punhado de parasitas que está literalmente tirando o futuro da nossa e próximas gerações. Mas pra que toda essa revolta que se expressou nas ruas desde 2018 triunfe precisamos de uma organização independente da classe trabalhadora e juventude, de explorados e oprimidos, que defenda um programa e uma estratégia consequente para lutar para conquistar um governo de trabalhadores e povos oprimidos em ruptura com o capitalismo. E, isso eu queria colocar um pouquinho pra gente pensar.

Bom, nós entendemos que precisamos acabar com o capitalismo. A Vit explicou muito bem que esse sistema é completamente incompatível com a natureza e a sociedade e que precisamos destruí-los junto de seus governos. E muito pelo contrário daqueles que dizem que essa perspectiva é utópica, defendemos que, na realidade, é a mais realista: sem planejar racionalmente a economia e acabar com a dinâmica eco destrutiva do capitalismo que está nos levando à catástrofe, não seremos capazes de parar esse ecocídio.

Esse desastre precisa de medidas urgentes e efetivas. E o como fazer isso é o que está colocado hoje no movimento: um debate de estratégias, com todas as visões dentro movimento ambientalista, estudantil e operário, debatendo todas as divergências abertamente para avançarmos em comum na luta de classes.

Dado isso, certamente saídas como de um “capitalismo mais verde” de Biden ou reformistas como o Green New Deal não passam de remendos em um sistema podre baseado na exploração e opressão da maioria da sociedade e que não mudam absolutamente nada na prática, pois o modo de produção capitalista desenfreado e devastador se mantém.

E de forma totalmente “domesticada” por esses “imperialistas verdes”, há setores que reforçam a necessidade de promover mudanças individuais, por exemplo, modificando hábitos de consumo, um trabalho de formiguinha que aos poucos cada um vai tomando consciência e assim mudaremos o mundo. Mas essa estratégia de saídas individuais para mudar o mundo, nos leva a uma armadilha: entender que o problema é o ser humano e não o capitalismo. E isso a burguesia adora! Pois, enquanto isso, ela tem governos, Estados e organizações internacionais para promover seus negócios. Algumas mudanças de hábitos, ainda que sejam importantes, são inofensivas ao motor da crise que é o sistema. E ainda ela se utiliza disso para vender produtos mais verdes.

Essa tendência no movimento tem um forte componente anti político e anti-crítica em relação a qualquer tipo de organização política, sem delimitação de classe ou distinção se são partidos ou organizações ligadas ao interesse burguês, Estados e governos, ou ações e organizações dos próprios jovens e das maiorias exploradas e oprimidas. E isso inclui tanto grupos ambientais quanto as ONGs que não querem denunciar partidos e governos para não perderem seu apoio nesses setores, mesmo dando-lhes seu apoio "crítico". As ONGs, que graças ao stalinismo - vou comentar melhor mais à frente - ganharam um peso considerável como as verdadeiras defensoras do meio ambiente, ajudam que a classe dominante tenha hegemonia sobre questão ambiental.

Outra alternativa que muitos confiam é o próprio PT, que a Vit tbm já comentou um pouco, mas que não passam de utopias reformistas de conforto dentro do capitalismo. Sem contar que o PT e sua política de conciliação de classes não apresentam de fato uma alternativa independente dentro do movimento operário, muito menos no ambiental, o partido que dirige a maior Central Sindical do país a CUT e milhares de sindicatos, hoje ao invés de atuar para organizar a classe trabalhadora para se aliar aos indígenas, usando seus próprios métodos, contra os ataques em em defesa do meio ambiente, não faz nada disso, como sempre, sequer convocaram ou estiveram ontem nos atos pelo clima. Eles atuam para conter a potência que tem a classe trabalhadora para que essa força operária se expresse nas eleições e não na luta de classes. Por que? Porque a estratégia do PT é administrar o capitalismo, então não pode responder à crise ambiental. Nos seus governos negociou e deu um enorme espaço pro agronegócio fazer a festa. Esse mesmo agronegócio assassina os povos originários e destrói nosso meio ambiente. Vocês sabiam que na Chapada dos Veadeiros aqui no Cerrado, que tá queimando há quase duas semanas, nos últimos 20 anos, nos quais 13 foram governos petistas, teve um crescimento 300% do agronegócio na área? Sem mencionar desastres históricos nesses mesmo governos petistas como Belo Monte que devastou a área do Xingu e, inclusive, comunidades indígenas e ribeirinhas. E os trabalhadores que lutaram nas greves de Belo Monte, que de tão forte eram conhecidas como “greves selvagens” da construção civil, foram duramente reprimidos pelo governo.

Outras organizações de esquerda, inclusive dentro do PSOL, como a Resistência, o Subverta, e até o MES/Juntos em alguma medida, que podem até falar palavras bonitas contra o sistema, mas na prática atuam com políticas que não são consequentes e que não tem um combate decidido a derrotar o capitalismo, como deveria ser a batalha para a organização da classe trabalhadora a fim de responder todas as mazelas do capitalismo e da crise ambiental, isso acontece justamente por que não enxergam a classe trabalhadora como o único sujeito capaz de levar a frente essa transição verdadeiramente ecológica à frente, em aliança com os indígenas, a juventude mais oprimidos. Elas apostam no trabalho de formiguinha e em diversas iniciativas desarticuladas, expressando seu ecletismo teórico, à espera da tão falada revolução verde. Inclusive na luta contra Bolsonaro e o agronegócio terminam por comemorar sem nenhuma delimitação de classe as iniciativas do capitalismo verde e imperialista de Biden. Vocês lembram quando o asqueroso do Ministro do Meio Ambiente, o Ricardo Sales foi demitido pela pressão do Biden? Essas organizações comemoram acriticamente como uma vitória, como se o problema fosse apenas quem administra o Ministério do Meio Ambiente e não que no Estado Burguês esse ministério, seja com um negacionista odioso como Sales, seja com os governos ditos "progressistas" como a Vit falou da Argentina e do Estado Espanhol, sempre vai servir para garantir os interesses dos capitalistas e isso se choca com abertamente com a defesa do meio ambiente. Inclusive essa prática política parte muito de uma confiança no papel e em saídas por dentro dos Estados capitalistas como agentes de cuidado e redistribuição, o que significa que as mudanças necessárias para superar essa crise são inteiramente possíveis dentro das democracias burguesas, ignorando tanto a experiência histórica quanto a potencialidade da auto-organização do proletariado.

Há ainda aqueles que acreditam que para vencer a crise ambiental, o caminho é a construção de um movimento que faça ações assistenciais, também por fora de organizar a classe trabalhadora em aliança com setores oprimidos, se dissolvendo nos movimentos sociais como os sem terra. E de pouco em pouco, como com construção de hortas solidárias orgânicas e comunidades agroecológicas chegaríamos a uma revolução ecológica. Como é o caso do Bem Viver de Thiago Ávilla.

Pegando outro ponto, que é importante, essas mesmas organizações que citei há bastante referência no Ecossocialismo, onde um dos principais teóricos é o Michel Lowy, e aqui no Brasil há figuras da esquerda como Sabrina Fernandes que defendem essa visão. Essa concepção parte, em primeiro lugar, de uma amálgama entre o que é stalinismo e o que é marxismo, e apesar de retomar as enormes contribuições do marxismo para o tema da crise ecológica global, termina por caracterizar o marxismo como “produtivista”, dizendo então o socialismo não basta, é preciso um "ecossocialismo", ou seja, com a ecologia no centro. O que significa a ecologia no centro? Na nossa interpretação, é uma concepção que conduz à uma conclusão, que é expressada abertamente pela Sabrina Fernandes, de que é preciso quase que uma “etapa pré-socialista”, uma espécie de “revolução ecológica”, porque “não existe socialismo em terra arrasada”. O erro aí é achar que vai existir algo diferente de terra arrasada se não formos até o final desde já na luta pelo socialismo, e com isso alguns defensores dessas concepções terminam por… defender o green new deal, e elaborar pontos de programa que têm como sujeito… os estados, governos e até empresas. E esse é um debate importantíssimo.

Leia mais: O marxismo é produtivista? Debate com o ecossocialismo de Michael Löwy

E mencionando o stalinismo. O stalinismo significou a derrota e sufoco das revoluções mundiais no século passado e da maior experiência revolucionária do mundo a Revolução Russa com a degeneração burocrática da democracia soviética e do Estado operário que promoveu. Para além de causar gigantescos desastres ecológicos como Chernobyl e a seca do Mar de Aral, sua prática de censura, perseguição e morte foram aplicados contra cientistas que defendiam uma perspectiva ecológica marxista de fato. Esse é o legado decadente defendido por organizações da esquerda como o PCB e a UP. Por tudo isso é bem importante dizer: o stalinismo é e sempre foi AVESSO à luta ambientalista, deixando essa pauta, assim como demandas democráticas das mulheres, LGBTs, negros etc, sempre ÚLTIMO plano. Nossa luta nem se trata de uma etapa verde antes do socialismo, e nem do socialismo antes da luta ambiental: os dois estão juntos, e a teoria da revolução permanente e o programa de transição do Leon Trotski são um grande patrimônio do marxismo revolucionário que deveria ser retomado por todos aqueles que defendem o marxismo em todas as suas contribuições, inclusive no campo da ecologia, e não aceitam repetir as experiências trágicas do stalinismo.

Então pra ir finalizando. Todas essas estratégias que acabam por desviar da teoria marxista, suas práticas políticas negam a centralidade da classe trabalhadora para levar consigo o conjunto dos oprimidos e revolucionar a sociedade e estabelecer uma relação harmônica entre a sociedade e a natureza. Inclusive isso pode ser evidenciado, para além dos exemplos que já falamos, com a adaptação à burocracia sindical e do movimento estudantil, ou seja, essa organização não a questionam e nem batalham para superá-las. As burocracias são um entorpecente para a luta dos trabalhadores, da juventude e mais oprimidos. Atuam como os melhores parceiros dos capitalistas dentro dos nossos movimentos, pois estão na direção de diversos CAs, DCEs e sindicatos pelo Brasil e mundo e não organizam a luta pela base, sendo um verdadeiro freio às nossas lutas. Justamente por isso defendemos a auto organização dos trabalhadores ao lado dos estudante, indígenas, mulheres, lgbts, negros, por ser um antídoto à burocracia e o capaz de levar nossa luta à frente.

É nesse sentido que quando dizemos que é hora de continuar a trazer à tona as táticas da greve, tanto estudantis quanto de trabalhadores, como um método de luta para tornar nossas demandas visíveis. Principalmente frente ao movimento de juventude, que tem se destacado ao redor do mundo nos últimos anos, demonstrou uma determinação em denunciar a crise climática como ninguém teve. Que ontem tomou as ruas em várias cidades do mundo. A única maneira de atacar as causas da catástrofe ambiental global que nos ameaça é que a maioria da população esteja envolvida na luta com a classe trabalhadora.

A necessidade da classe trabalhadora se integrar à luta climática com suas próprias demandas e seus próprios métodos de luta é fundamental para o desenvolvimento do movimento. E, acima de tudo, é necessário confrontar e denunciar o papel reacionário desempenhado pela maioria dos sindicatos burocratizados. Muitas vezes se opõem a qualquer medida de transição ecológica, ainda que superficial, sob o argumento de "salvar empregos", quando o que eles escondem na realidade é uma política para salvar os lucros dos capitalistas, amarrando o destino da classe trabalhadora ao bom negócio dos empreendedores. Qualquer semelhança com a CUT e a CTB não é mera coincidência.

E ao contrário do que dizem a classe trabalhadora tem mostrado, em muitas ocasiões, seu potencial para encontrar uma saída para a catástrofe ambiental, unindo suas demandas às do movimento ambientalista, como foi na greve da refinaria Total em Grandpuits na França no qual participamos com nossos cmds de lá; ou no estaleiro Harland e Wolff, na Irlanda, que foi declarado falido, mas seus trabalhadores assumiram as instalações exigindo sua nacionalização e a implementação de energia limpa; ou com a participação de setores de trabalhadores nas lutas contra a mega mineração na Argentina que também participamos como PTS, unindo-se ao movimento ambientalista e aos jovens que enfrentam o extrativismo. Mas que isso o Pedro jajá vai falar mais um pouquinho para a gente. Essas experiências incipientes são uma tendência que precisa ser desenvolvida por meio da promoção de corpos de luta auto-organização que unam a classe trabalhadora com os movimentos da juventude e do meio ambiente, e nós como revolucionários defendemos que apenas um programa político operário pode responder concretamente para tudo isso, e esse é a minha deixa para o Pedro.

Veja também: Balanço da luta de petroleiros em Grandpuits, na França: “nossa luta fincou as bases para o conjunto da classe trabalhadora”




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