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No pico da pandemia e sem vacina, Faculdade de Odontologia da USP convoca trabalhadores ao retorno presencial

No dia 20/04, os trabalhadores da Faculdade de Odontologia da USP receberam um Comunicado da Diretoria da FOUSP e Presidência da Comissão de Graduação reforçando o retorno às atividades presenciais práticas (laboratorial e clínica) do Curso de Graduação a partir do dia 26/04/2021, segunda-feira.

quinta-feira 22 de abril| Edição do dia

Estamos em um momento extremamente crítico da pandemia. O Brasil é o líder disparado no mundo em mortes diárias pela COVID-19, podendo alcançar a trágica marca de 400 mil mortos (quase meio milhão de pessoas) antes de terminar o mês de abril. Somente o Estado de São Paulo é responsável por 25% desse número assustador. O Brasil é visto mundialmente como um laboratório produtor de novas cepas do vírus exatamente pela falta de uma política eficiente de controle e isolamento social.

A nível nacional, o governo negacionista de Bolsonaro é o principal responsável por essa catástrofe humanitária ao não garantir nenhuma medida séria de contenção da pandemia. A nível estadual, o governo Dória também não age de maneira diferente, com sua demagogia barata, não garante vacina para todos, proíbe a abertura de restaurantes, bares e igrejas, enquanto os trabalhadores seguimos nos aglomerando em transportes escassos e lotados, porque não temos a garantia do emprego e do salário para podermos cuidar da segurança de nossas vidas e de nossa famílias.

O que poderia ser uma surpresa é ver surgir de dentro da Universidade de São Paulo, cujo Reitor e professores titulares se dizem defensores da ciência, a adoção das mesmas medidas irresponsáveis dos governantes. Mas nem isso é um surpresa, considerando que a Reitoria e a Universidade de São Paulo tem dado mostras desde o início da pandemia da discriminação com que tratam os trabalhadores terceirizados da Universidade, que seguiram trabalhando sem direito à quarentena, do descaso com as trabalhadoras linha de frente do Hospital Universitário, que não tiveram condições adequadas de trabalho com máscaras e cujos trabalhadores do grupo de risco seguiram expondo suas vidas sem contratação de novos funcionários. Além de que, é recente a tentativa da Reitoria de impor o retorno compulsório em novembro do ano passado, tendo que recuar após os trabalhadores terem iniciado uma greve sanitária.

O argumento que tem sido utilizado em relação ao retorno das atividades presenciais na Faculdade de Odontologia é de que ela seria área de saúde, e portanto um serviço "essencial". Uma definição bastante questionável, considerando que as atividades de saúde da Faculdade estão subordinadas às atividades de ensino, e só existem na medida em que servem à formação acadêmica dos estudantes. Existe uma banalização do termo "essencial", que deveria tratar unicamente de atividades mínimas indispensáveis para a sobrevivência da sociedade no marco da necessidade imperante da quarentena e do isolamento social. Claramente o retorno de atividades presenciais de graduação não é prioridade em relação à exposição de centenas de trabalhadores e milhares de familiares e parentes ao risco de se contaminarem e falecerem.

Mas não bastasse isso, o que se vê é uma tremenda hipocrisia da parte daqueles que obrigam os trabalhadores ao retorno presencial com a afirmação de que a Faculdade de Odontologia seria área e saúde, mas na prática não garantem o mínimo para segurança destes trabalhadores, que seria a vacinação dos setores de saúde, por serem essenciais. Com isso fica evidente que os trabalhadores da Odontologia são essenciais até a segunda página: quando é pra se expor ao risco de se contaminar, adoecer a si e a sua família, são "essenciais", mas quando é pra conseguir prioridade na vacinação para poder exercer as suas atividades com riscos reduzidos, aí deixam de ser "essenciais".

De acordo com a Administração da FOUSP, o problema estaria com a Secretaria de Saúde da Prefeitura de São Paulo, que não reconhece a Faculdade de Odontologia como área da saúde. Mas então a Direção da FOUSP e a Reitoria, se assim querem tratar a Faculdade de Odontologia, deveriam primeiro resolver essa situação e garantir o direito à vacinação para todos os trabalhadores e para a comunidade FOUSP e não impor o retorno presencial sem essa mínima garantia.

Adriano Favarin, trabalhador da Faculdade de Odontologia da USP comentou que “nenhum trabalhador dever ser obrigado a retornar ao trabalho presencial enquanto sua vida estiver sendo exposta ao risco e que, de acordo com comunicado da própria Reitoria, qualquer retorno deve ser voluntário e não compulsório. Mas sabemos que várias chefias usam de chantagem e ameaças pra impor sua vontade contra os trabalhadores. Em relação a esse assédio, o SINTUSP orienta que qualquer pedido, ameaça ou exigência das chefias ao retorno seja denunciado para o sindicato”.

Os trabalhadores afirmaram para a reportagem do Esquerda Diário que estão planejando uma reunião junto do SINTUSP entre todos aqueles que estão sendo coagidos ao retorno presencial para discutirem as medidas a serem tomadas diante desse evidente descaso com o qual a Diretoria da FOUSP e a Presidência da Comissão de Graduação estão tratando a vida dos trabalhadores da Faculdade de Odontologia. da USP.




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