ATOS DE DOMINGO

Não existe isolamento social nas favelas pelo Brasil: a importância dos atos de domingo

Frente ao chamado dos atos antirracistas neste domingo muitos tem argumentado sobre a possibilidade do aumento do contágio fruto da participação nestas mobilizações. No entanto não entendem que para grande parte da população pobre e negra o contágio já é uma dura realidade imposta pelos capitalistas. Como apontam as manifestações nos EUA e pelo mundo ir para as ruas é única forma de combater o racismo, as milhares de mortes pela violência policial e o descaso capitalista frente à pandemia.

sábado 6 de junho| Edição do dia

Dados mostram que no Brasil, para grande parte da população pobre, em sua grande maioria negros e negras, o isolamento social se torna um enorme desafio frente às condições de vida impostas pelos capitalistas. Cerca de 31,3 milhões de brasileiros não possuem água encanada, 48% da população não possui rede para a coleta de esgoto, 11,6 milhões estão em casas consideradas “superlotadas” (vivem em imóveis com mais de 3 moradores por dormitório) o que impede que possam se proteger do contágio do coronavírus.

Uma pesquisa realizada no Rio de Janeiro pela organização Viva Rio mostrou que 75,5% das pessoas com sintomas de covid-19 nas favelas não procuraram atendimento médico e que metade conhece alguém próximo que morreu da doença. A pesquisa revela ainda que 10% das mortes ocorreram dentro de casa, sem qualquer assistência médica. Nas favelas do Rio ao fim do mês de maio o número de mortes dobrou em 15 dias.

Em São Paulo, um dos epicentros da doença no país, o risco de morrer por coronavírus pode ser dez vezes maior para as pessoas que vivem nas regiões com os piores indicadores de qualidade de vida. Uma análise da prefeitura realizada no começo do mês de maio apontava como os negros possuíam uma chance 62% maior de serem vítimas do vírus do que os brancos.

Um levantamento feito pelo grupo de pesquisadores Ação Covid-19 mostra que as condições das favelas brasileiras elevam a taxa de letalidade e apontam que mesmo que o confinamento fosse igual ao de bairros ricos essas comunidades teriam até o triplo de mortes.

Todos estes dados, claro, não levam em conta a imensa subnotificação de casos e óbitos diante da ausência de testes massivos para a população. Enquanto isso os trabalhadores negros e negras que ocupam os postos de trabalho mais precários sequer tem a possibilidade de ficar em casa já que precisam seguir trabalhando, como os entregadores de aplicativos que realizaram uma manifestação ontem na Paulista contra as péssimas condições de trabalho e como mostra o odioso caso da morte do menino Miguel de apenas 5 anos pois sua mãe continuava trabalhando como doméstica.

E mesmo quando estão em suas casas tentando se proteger da pandemia os negros sofrem com a brutal violência da polícia racista que nos assassina diariamente e que foi responsável por tirar a vida de João Pedro no Rio de Janeiro, e Juan em São Paulo. Também assistimos nos EUA a violenta morte de George Floyd por um policial branco e que resultou na fúria negra que tomou conta daquele país, mas também estendeu novos ares da luta de classes internacionalmente, com atos sendo realizados em Londres, Berlim, Paris contra o racismo capitalista.

Justamente por entender que as condições que nos impõe os capitalistas estão nos levando à morte para garantir seus lucros é que precisamos seguir o exemplo das massivas manifestações nos EUA que perceberam que para proteger suas próprias vidas a melhor forma pra isso era justamente indo às ruas, era lutando nas ruas contra o estado racista e capitalista, contra a polícia assassina, por justiça por Floyd.

Batalhamos para que os atos neste domingo possam ser o início de uma mobilização no Brasil que ligue os combates ao racismo com uma saída independente dos trabalhadores frente a pandemia e a crise econômica, exigindo que os sindicatos saiam da "quarentena", por medidas como a reconversão da industria sob controle dos trabalhadores para a produção de todos os insumos necessários no combate a pandemia, como testes massivos, respiradores, abertura de leitos de UTI, a proibição das demissões, um auxilio de R$ 2 mil pelo tempo necessário. A fúria negra que despertou nos EUA deve ser o combustível para que aqui no Brasil também possamos nos enfrentar com este governo racista de Bolsonaro, lutando por uma assembleia constituinte, livre e soberana que imponha o Fora Bolsonaro, Mourão e os militares e um enfrentamento direto com o capitalismo.




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