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DENÚNCIAS OPERÁRIAS | Morre mais uma trabalhadora do hospital da USP: Até quando?

Babi DellatorreTrabalhadora do Hospital Universitário da USP, representante dos trabalhadores no Conselho Universitário

quarta-feira 31 de março | Edição do dia

Na última sexta-feira, 26 de março, perdemos mais uma companheira de trabalho para a covid-19. Uma trabalhadora que esteve por 30 anos no Hospital Universitário da USP (HU), acolhendo os pacientes e seus familiares que chegavam em busca de atendimento. Era uma trabalhadora querida por todos. Ela tinha nome, tinha história e nos deixa saudade.

Sentimos muita tristeza com a sua morte. Mas também sentimos muita revolta. Nos corredores frios do HU se ouvia: “Ela trabalhou por 30 anos aqui e não teve direito nem a um leito aqui.” Foram 30 anos nesse hospital, onde a sua vida e seu trabalho se misturavam . Nos plantões que dividiu com tantas pessoas, não se falava apenas de trabalho, se falava da vida, se criavam laços de afeto e de companheirismo. Não era só um local de trabalho, assim como ela não era uma máquina sem sentimentos, sem vida nas 12 horas que passava ali.

À administração do Hospital que, durante toda a pandemia, foi negligente com os trabalhadores, que nos negou máscaras, nos deixando desarmados no combate à pandemia, coube mandar um frio e-mail informando e lamentando a morte, “para constar” apenas. Da parte das chefias, nenhuma homenagem, nem um minuto para solidarizar. É porque essa dor é nossa, não deles. Essa perda é mais uma que se acumula na história da nossa classe, de tantos trabalhadores que todos os dias se arriscam para ter seu ganha pão.

Como um grito entalado, o desabafo: Quando foi que os trabalhadores deixaram de ser pessoas, seres humanos, para serem vistos apenas como uma peça no quadro de funcionários? Uma peça que não sente medo, que não fica doente, que não sente a dor do trabalho repetido, a dor da tragédia assistida.

Quando foi que a sobrecarga de trabalho passou ser responsabilidade dos funcionários e não dá administração que não contrata? Por que é que nossas chefias aceitam vestir a roupa de insensíveis criaturas que "dão conta" de fazer os setores funcionarem independente da dor física e emocional dos trabalhadores, independente da negligência que todo o hospital é tratado por essa administração? Aceitam porque não são mais um dos nossos. Não dá para naturalizar tudo isso, não dá para naturalizar os pequenos assédios morais feitos na "amizade".

Mal sofremos essa perda, já estamos acompanhando dia a dia outra trabalhadora que luta pela sua vida, que luta contra a covid-19. Ela também não está internada aqui no HU, não lhe concederam um leito no hospital em que trabalhava todos os dias. Ela é terceirizada, a empresa tenta esconder que continuou trabalhando mesmo sendo do grupo de risco.

O que me conforta e me dá força são os exemplos de solidariedade e de luta que as trabalhadoras do HU me mostraram desde que cheguei aqui. Lutamos para defender o hospital do sucateamento planejado por governos e gestores que transformaram a saúde em mercadoria. Lutamos por contratações, para que o hospital pudesse atender em sua plena capacidade toda a população sem que isso custasse a saúde física e mental de um trabalhador. Lutamos por vacinação a todos do hospital, médicos, funcionários, residentes e trabalhadoras terceirizada da higienização e da segurança. Todo trabalhador do hospital, de todos os setores, são parte da linha de frente.

Não somos lembrados nos discursos do reitor da USP, que acredita que só estamos fazendo a nossa obrigação como funcionários do hospital, arriscando nossas vidas por um salário para não morrer de fome. O reitor que diz demagogicamente que as vidas negras importam, não se importa com as trabalhadoras negras da USP que estão se contaminando, sofrendo as sequelas desse vírus e as consequências do trabalho precarizado. Nem Bolsonaro ou Dória lembrarão de nós trabalhadores e trabalhadoras da linha de frente. Não se importam nem com os mais de 310 mil mortos, que são nossos amigos, familiares, colegas de trabalho.

Por isso, lembrar das nossas lutas, nos inspirar por elas e por todas as lutas da nossa classe! Porque choramos os nossos mortos, mas lutamos pela vida! Vidas que valem mais que os lucros dos capitalistas. E a força do nosso ódio contra essa miséria que querem nos impor é nosso combustível. Esse exército de mulheres trabalhadoras e guerreiras que levantam a cabeça e como podem fazem história. Elas são a nossa classe, a linha de frente da construção de um novo futuro.


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