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Minicurso “1968 e o movimento estudantil”: após 53 anos, sejamos realistas, exijamos o impossível

Vitória Camargo

Minicurso “1968 e o movimento estudantil”: após 53 anos, sejamos realistas, exijamos o impossível

Vitória Camargo

“O direito a viver não se mendiga, se toma”. Essa frase, que caberia perfeitamente em um grito de revolta da juventude e dos trabalhadores de 2021 no Brasil e no mundo, pertence ao Maio de 68. “1968 e o movimento estudantil” é o tema de mais um Minicurso do Campus Virtual do Esquerda Diário, protagonizado por jovens estudantes marxistas e revolucionários da Faísca, buscando extrair lições das experiências da luta de classes do passado, no Brasil e na França, para apontar uma saída ao presente. Ainda mais diante dos cortes e ataques às universidades federais e das reformas e privatizações contra os trabalhadores na pandemia que já ceifou centenas de milhares de vidas, esse Minicurso é uma ferramenta para pensarmos nossos desafios hoje, na luta contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas.

Em 68, a poesia estava nas ruas, em forma de barricadas, de ocupações de universidades, escolas e fábricas, de greves e de uma potente aliança entre um movimento estudantil subversivo e uma classe operária que se levantava, incendiada pela revolta da juventude. O poder e o regime de exploração capitalistas, assim como os velhos costumes, hábitos e tradições, estavam em xeque.

De norte a sul, de leste a oeste, internacionalmente, o anti-imperialismo ganhava corpo em uma juventude que protestava contra os horrores da Guerra do Vietnã, que assistira ao avanço colonialista atroz de Israel contra os palestinos na Guerra dos Seis Dias, que se levantava contra as arbitrariedades do degenerado “socialismo real” no Leste Europeu, que se inspirava na poderosa luta negra nos Estados Unidos. Se, da saída da Segunda Guerra Mundial, passara a reinar a Ordem de Yalta, assegurando entre os Estados Unidos e a burocracia stalinista a paz nos países centrais e revoluções que já nascem deformadas em países atrasados, em um mundo dividido por zonas de influência, é preciso ver que o ano de 68 marca o início de um ciclo internacional da luta de classes. É esse o ponto de partida desse Minicurso, com a primeira aula de Odete Cristina, mestranda da UFMG.

Na França, Maio de 68 começava com milhares nas ruas contra a Reforma da Previdência e Universitária no maior Primeiro de Maio de décadas. Nos dias seguintes, Sorbonne sofria ataques fascistas e, em resposta, novas jornadas estudantis se davam em Nanterre, uma universidade localizada em meio a um bairro de imigrantes argelinos. Os estudantes eram reprimidos pela polícia, vários, detidos, e a universidade, fechada. O 10 de Maio é a data da famosa “Noite das Barricadas”, com Paris tomada por mais de 60 barricadas. Maio é o mês de um intenso processo de greves com ocupações de fábricas, envolvendo mais de 8 milhões de operários. Há 53 anos, em 22 de Maio, o processo chegava a seu auge. Entretanto, pela falta de uma direção revolucionária, as burocracias, com peso do Partido Comunista Francês, stalinista, que atuou a todo momento para buscar separar a juventude e a classe trabalhadora, conseguiram podar a força dessa enorme luta e canalizar para a conquista de reajuste salarial e flexibilização das reformas universitárias. É isso o que nos conta, em detalhe, Mariana Duarte, estudante da USP, na segunda aula do Minicurso.

Internacionalmente, no boom do pós-guerra, os universitários triplicam no mundo, e isso é parte do que explica o crescente protagonismo do movimento estudantil nos processos de luta. Nos anos 60, os “contra-cursos” que ocorriam nas universidades francesas, como questionamento aos ultrapassados currículos, davam-se também no Brasil. Desde o pré-golpe de 64, que marcou o início da ditadura militar, havia uma demanda crescente por uma Reforma Universitária. Por um lado, era necessário às burguesias garantir a formação de mão-de-obra especializada - em consonância com o que seria o “milagre econômico” - o rebaixamento dos salários dos trabalhadores e mais submissão ao imperialismo. Por outro lado, havia um potencial no movimento estudantil, que demandava mais vagas, questionava os currículos e queria mais participação nas decisões, passando do questionamento à universidade de classes para o questionamento à sociedade de classes. Os acordos imperialistas MEC-USAID, com a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos, foram rechaçados pela juventude que se colocava em luta contra a ditadura militar. Em 1968, garantindo a repressão, o regime finalmente aprova sua paradoxal reforma universitária, com expansão com contenção, mais autoritarismo na estrutura de poder e privatização. Esse é o tema da nossa terceira aula, com Vitória Camargo, estudante da Unicamp.

Como pano de fundo, em 68, os estudantes brasileiros poderiam transformar o Tietê no Sena, dizia, pela negativa, o Ministro do Trabalho de então, Jarbas Passarinho, no governo Costa e Silva, atualmente homenageado por diversas universidades, como expressão das heranças da ditadura. Nesse ano, o arrocho salarial e a Reforma Universitária da ditadura inquietavam estudantes e trabalhadores, que enfrentavam a repressão dos militares. Em 28 de Março, morria Edson Luís, secundarista do Rio de Janeiro. Em Abril, iniciava-se a greve de Contagem, que chegou a contar com 16 mil operários de braços cruzados, apoiados por estudantes. Fizeram o governo recuar. O Primeiro de Maio, articulado para ser uma expressão da harmonia entre as burocracias sindicais e a ditadura, é vaiado pela vanguarda operária de Osasco, que expulsa o governo e os burocratas, apedreja e incendeia o palanque. Em meio à greve da USP, com 10 mil braços cruzados, eclode a greve de Osasco, que conta com reconhecido apoio estudantil. Contagem e Osasco demonstram também no Brasil o forte potencial de unir estudantes e trabalhadores. O auge desse ano é a poderosa Passeata dos Cem Mil. Também no Brasil, essa potência esbarra na política das direções, incapazes de traçar a estratégia correta. Enquanto o PCB aposta na conciliação com a burguesia nacional, culpabilizando os setores mobilizados por “atiçar a repressão”, as organizações à sua esquerda seguiram o caminho das guerrilhas urbanas, abandonando a estratégia marxista de aliança operário-estudantil. Giovana Pozzi, da UFRGS, trata de 1968 no Brasil na quarta aula desse Minicurso.

A batalha da Rua Maria Antônia, no dia 3 de Outubro de 1968, é um episódio especial desse tema. Confrontando-se fisicamente estudantes da Filosofia da USP e da Faculdade do Mackenzie por dois dias, a organização paramilitar CCC, Comando de Caça aos Comunistas, enfrenta de maneira sangrenta militantes da esquerda. O apoio da polícia civil e militar estava, obviamente, ao lado dos apoiadores da ditadura, e foi decisivo. O prédio da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas é fechado e transferido para a cidade universitária em construção. A Reforma Universitária se materializa na USP com repressão e punição. Pedro Cheuiche, mestrando da UFF, narra essa batalha.

Por fim, quando a arte toma os muros das ruas, das universidades e das fábricas, vemos a confluência entre a luta de classes e a criação. Junto ao despertar político, 1968 se dá no caldo da inovação estética, expressa no cinema de Goddard e no Cinema Novo brasileiro, no rock dos Rolling Stones, na Tropicália, na poesia de Allen Ginsberg. O ano de 1968 antecipa Woodstock. Abordando 1968 na arte e na cultura, Lina Hamdan encerra o Minicurso.

Lições para hoje: o que nos parece “impossível” é realista, a conciliação é utópica

Sob o regime do golpe institucional de 2016, com um governo de extrema direita repleto de militares saudosistas da ditadura, que elegeu as universidades, a ciência e a arte como inimigos, esse Minicurso pretende ser uma ferramenta para jovens que despertam à vida política na pandemia, fragmentados em suas casas e sem experiência concreta com as potencialidades do movimento estudantil. Também pretende inspirar, a partir de uma visão consciente dos acertos e erros, a juventude que imagina que os nossos obstáculos hoje são intransponíveis, como se estivéssemos em um beco sem saída. É necessário organizar a luta e tomar as ruas, universidades, escolas e fábricas contra Bolsonaro, Mourão e todos os golpistas. Algumas lições de 68 nos são válidas.

O internacionalismo proletário, anti-imperialista e centrado na luta de classes como aspecto preponderante, deve ser uma marca também do movimento estudantil atual, como mostrou a juventude de 68. Nossos irmãos colombianos colocaram em cena o enfrentamento ao governo de Ivan Duque e sua repressão policial e novamente escancaram a luta de classes explosiva na América Latina, como mais um alerta a Bolsonaro e a todos os golpistas. A juventude nos Estados Unidos se solidariza com os palestinos, oprimidos pelo colonialismo de Israel há décadas. As bombas e ocupação sionistas contam com o apoio de Biden e Kamala Harris, assim como de Bolsonaro. A solidariedade aos palestinos, pelo fim do Estado de Israel, por uma Palestina livre, mas também operária e socialista, é uma tarefa dos dias de hoje. Um movimento estudantil que não se contaminar com a luta de classes internacional e quiser tomar parte das batalhas dos trabalhadores e povos no mundo está pior preparado para enfrentar Bolsonaro e todos os nossos inimigos.

Junto a isso, se 1968 e os debates quanto à reforma universitária reafirmam que as universidades burguesas são moldadas, em diferentes épocas, pelas mudanças capitalistas, o projeto de universidade sob cortes e ataques em curso não pode ser descolado das transformações capitalistas. Diante da pandemia e da fome, há um rebaixamento ainda maior das condições de vida da classe trabalhadora e de uma importante parcela da juventude, que enfrenta a uberização do trabalho, os efeitos da Reforma Trabalhista, o desemprego e a informalidade. No ciclo lulista, houve uma expansão precária das universidades, com o REUNI, ligada a um crescimento exponencial dos monopólios privados da educação, com selos como Kroton-Anhanguera e Estácio avançando como tubarões do ensino superior. Desde o início dos efeitos da crise capitalista no Brasil, já no governo Dilma e sua “pátria educadora”, as universidades federais sofreram cortes, assim como o FIES e o PROUNI.

O capitalismo, enquanto com seus “coaches” faz propaganda do esforço para o sucesso, mostra sua irracionalidade, desenvolvendo, por exemplo, a noção de “sobrequalificação”, transformando uma camada de profissionais supostamente “muito qualificados”, inclusive em países marcados pelo atraso, em um problema. Isso revela um mercado de trabalho mais precário que não consegue absorver os recém-formados, enquanto a massa da juventude tem seu acesso ao Ensino Superior barrado pelo vestibular e também está ameaçada pelo desemprego, entre a fome e a Covid. Essa contradição capitalista aponta, na crise, à necessidade de reverter parcialmente uma expansão limitada, pouco sólida e em chave precária que não mais se sustenta, seja no orçamento, que paga fielmente a dívida pública ao imperialismo, seja no projeto de país, que se aprofunda. O ciclo econômico excepcional que foi bases às concessões do gradualismo lulista há mais de uma década chegou ao fim, ao passo que hoje a pandemia alimenta as tendências que deram origem à crise de 2008. Não à toa, o ano de 1968 também marcou o fim do ciclo de acumulação capitalista na França, chamado de “trinta anos gloriosos”.

Daí também derivam os cortes. O regime do golpe, com o Teto de Gastos e, ainda mais, com Bolsonaro aprofunda esse processo já iniciado nos governos petistas de ataque às universidades. Descarregam a crise capitalista sobre os trabalhadores e a juventude. Mas sabemos que os ataques às universidades não se dão sem contradições, lutas e embates, com fissuras e divisões no próprio regime e possibilidade de emergir o movimento estudantil. Após o Tsunami da Educação, as universidades demonstraram enorme potencial a partir dos hospitais universitários e da relação com a pesquisa científica na pandemia, relegitimando-se diante de uma importante parcela da população, mesmo com os ajustes que as reitorias e burocracias acadêmicas vieram gerindo contra a permanência estudantil, contra os trabalhadores, em sua maioria mulheres, terceirizadas, e contra as pesquisas.

Nesse sentido, há alas burguesas embandeiradas da ciência, que ao mesmo tempo em que se beneficiaram de todas as reformas e ataques, buscam se diferenciar de Bolsonaro nos cortes atuais e ataques ideológicos, pretendendo também desgastá-lo. Este, por sua vez, atende aos interesses do agronegócio, em seu projeto de “fazenda do mundo”. Por distintas vias, ambas as alas são submissas ao imperialismo e querem garantir melhores condições de exploração da juventude, diferenciando-se nos cálculos eleitorais para 2022. Por isso, a batalha do movimento estudantil contra os cortes tem o desafio de se enfrentar com o conjunto do regime golpista, que agora se articula em torno da teatral CPI da Covid, para desgastar Bolsonaro, enquanto se beneficia das privatizações e ataques que esse governo aprova. Alimentam, com isso, a ilusão em um processo de impeachment, que colocaria o general Mourão no poder, um racista entusiasta da ditadura inimiga do movimento estudantil, e salvaria as instituições do golpe.

A única saída, como apontaram os estudantes franceses em Maio de 68 e os estudantes brasileiros de Osasco e Contagem, é a aliança explosiva entre o movimento estudantil e a classe trabalhadora, batalhando pela necessidade de superação das burocracias. Com os trabalhadores na fome e na miséria, com a juventude mais precarizada, e novos ares de mobilização, que não alteram ainda o conjunto da situação reacionária, mas com destaque para a recente e importante greve dos metroviários, que contou com o apoio popular, esse é o caminho. O mais explosivo de 68, quando o poder foi questionado na França, foi o encontro de estudantes e operários, enquanto as burocracias queriam impedir que os estudantes falassem com os trabalhadores. “Os operários se negam a se deixar explorar pelo regime e nós estudantes nos negamos a nos transformar em dirigentes de um sistema baseado em exploração”, dizia a juventude em 1968.

Nesse cenário, estão sendo convocados protestos no próximo dia 29. Enquanto isso, a CUT novamente divide e contém, chamando um dia 26 simbólico. Assim como se mostrou em 1968 e também, em outro contexto, em 2019 no Tsunami da Educação, as burocracias, materializadas hoje no papel da UNE e das centrais sindicais, mostram-se como um obstáculo ao desenvolvimento da luta e para que ocorra essa aliança explosiva e de maneira independente do regime que veio nos atacando. Por isso, a principal lição de Maio de 68, mais atual do que nunca 53 anos depois, é a necessidade de construção de uma direção revolucionária, para que sejam os capitalistas a pagarem pela crise, sem conciliação, quando esse sistema em crise expressa cada vez mais podridão ao futuro, com balas da polícia, destruição ambiental e miséria para a juventude. A defesa da auto-organização dos estudantes, com assembleias democráticas, está inscrita na batalha para que os estudantes decidam o rumo de suas lutas e tomem suas entidades como ferramentas. Tirando lições do movimento estudantil entre 1964 e 1968 no Brasil, os revolucionários de hoje não podem abdicar da construção de alas revolucionárias em cada local de trabalho e estudo que, com paciência revolucionária e nenhum ceticismo, seja um motor consciente pró-operário, anti-burocrático e anticapitalista, pela independência política dos trabalhadores, como fizeram uma parte dos que queriam superar a conciliação do PCB com a burguesia nacional, optando pela estratégia da guerrilha.

Por isso, ao contrário do PT que proclama seu perdão aos golpistas, com Lula, e também do PSOL, do PCB e da UP que o seguem na política, não é possível confiar em nenhuma figura ou instituição que é parte desse regime do golpe para aprofundar a exploração capitalista. Uma política revolucionária hoje passa por defender a educação e todos os direitos dos trabalhadores, combater Bolsonaro e Mourão e demonstrar as armadilhas das saídas institucionais, como o impeachment, e motorizar a luta para que o povo decida, não os golpistas, com uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Esse grito, que, apesar do desvio subsequente, se ouviu no Chile, no Brasil poderia ser uma alavanca para revogar as reformas, varrer os militares da política, enfrentar o agronegócio e a submissão ao imperialismo. Nesse processo, uma juventude marxista defenderia a necessidade de um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo para abrir caminho à superação da exploração, das amarras ao conhecimento, à libertação da arte, ao fim da miséria sexual, do patriarcado e do racismo.

É essa a perspectiva das autoras e autores desse Minicurso, jovens trotskistas que defendem o melhor da tradição do marxismo revolucionário contra as deturpações stalinistas.

O que parece “impossível” é realista, a conciliação é utópica. A luta de classes abre o caminho.

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