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FRANÇA | Militantes do MRT de todo o país se reúnem para debater o surgimento de uma nova organização revolucionária na França

No último domingo, militantes e aliados do MRT se reuniram para debater os desafios da esquerda internacionalmente a partir de aprofundar nossa reflexão sobre o processo de expulsão de 300 militantes do NPA que agora se unem na batalha pela construção de um partido revolucionário na França, país que concentra o mais avançado da organização consciente da classe trabalhadora hoje no mundo, após uma sequência de processos na luta de classes.

Lina HamdanEstudante de Artes Visuais na UFMG

quarta-feira 16 de junho | Edição do dia

No mesmo dia em que o Esquerda Diário publicou um Dossiê sobre a crise do Nouveau Parti Anticapitaliste (NPA), nós militantes do Movimento Revolucionário de Trabalhadores (MRT) e convidados realizamos uma plenária nacional para discutir o tema, na medida em que o episódio concentra grande importância para as organizações que se reivindicam socialistas internacionalmente, em especial para nós que somos da mesma organização internacional que a CCR-Révolution Permanente, segunda maior corrente do NPA, expulsa deste partido por se colocar como principal barreira à evolução à direita da ex-majoritária do partido que quer fazer acordos com o reformismo e até sociais liberais.

Revolução Permanente torna-se uma organização independente.

A plenária teve um informe de abertura de Diana Assunção e André Barbieri, contando com dezenas de militantes de São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Norte entre outros estados. No informe, Diana deu um panorama geral dos acontecimentos mais recentes quanto à crise do NPA e a política levada à frente pela CCR-Révolution Permanente junto aos demais militantes que também foram expulsos do partido. André concentrou sua reflexão sobre a esquerda de tradição trotskista internacionalmente e seus posicionamentos políticos frente a essa crise.

“É a primeira vez na França que o mandelismo está em uma forte decomposição, mas que existe uma alternativa revolucionária que pode aproveitar essa crise” - Jean-Phillippe Divès, militante trotskistas há décadas, agora ex-militante do NPA, que se tornou colaborador do Révolution Permanente no último ano devido à intervenção dessa corrente na luta de classes e contra a ida ainda mais à direita da direção do NPA.

Não tem como ouvir essa frase e não se sentir interpelada a buscar ter um pensamento internacionalista integrado, de realmente fazer o exercício de pensar qual a política correta para outros países, pensando em como Trotski nunca deixou de pensar a política concreta internacionalmente. E essa interpelação nos implica em particular por sermos da Fração Trotskista (FT), a organização da qual também pertence o Révolution Permanente, que agora passa a ter nível concreto de influência na realidade na França, Chile e Argentina. Mesmo que ainda pequeno ou médio, dependendo da situação concreta, é um passo determinante para a reconstrução de uma esquerda revolucionária que atue com centralidade na luta de classes e não por vias institucionais e eleitorais, o que nos prepara melhor para intervir nos processos no Brasil, em que vemos toda uma gama de organizações da esquerda seguindo essas vias.

O cenário debatido neste domingo gira em torno da importante decomposição do NPA, partido cuja direção vem consolidando um giro à direita desde sua formação, em 2009. O principal entrave a esse giro sempre foi uma (a princípio) pequena corrente interna que se colocou diretamente contrária a todos os processos em que a ala direita do partido, a maioria, buscava o caminho da conciliação de classes. Sua expulsão se dá justamente porque essa majoritária viu a perspectiva de não conseguir concluir sua aliança com os reformistas soberanistas de esquerda do La France Insoumise de Mélenchon. Surgia pela primeira vez bem concretamente dentro do partido a possibilidade da ex-majoritária perder o completo controle da organização que ela mesma havia criado e que viu se esvair cerca de 80% de seus militantes.

Como se pode ver no dossiê, que reúne notas de militantes de outras organizações inclusive, Diana retomou alguns dos acontecimentos que não deixam dúvidas de que o que se forjou foi a expulsão, às vezes com frases públicas mais ou menos maquiadas de “não podemos mais conviver juntos no mesmo partido”, às vezes no âmbito mais “privado” com anúncios ainda mais explícitos.

André completou localizando como também não há dúvidas de que o discurso daqueles que expulsaram já está sendo de que o Révolution Permanente decidiu se retirar do partido por vontade própria. Mesmo aqui no Brasil, já estão compartilhando a versão da ex maioria do NPA, completamente fantasiosa, afinal de contas não podem dizer que defendem a política de seus aliados franceses de retirada progressiva dos direitos democráticos de uma tendência de um partido, culminando com sua expulsão. Essa falsa versão da história está sendo compartilhada pelas alas brasileiras ligadas ao Secretariado Unificado (SU) como o MES e Insurgência, correntes internas do PSOL.

Não é à toa essa ligação entre França e Brasil. O NPA é um partido cuja fundação, pelos mandelistas do SU, está ligada ao desenvolvimento de uma teoria de criação de partidos amplos, sem delimitação entre revolucionários e reformistas, que reunisse “toda a esquerda” por uma ideia de “democracia até o final”, que teve Bensaid à frente, teoria da qual o PSOL foi uma espécie de laboratório de implementação em 2004.

Dezenas de militantes intervieram, após as falas de abertura, buscando exercitar o internacionalismo revolucionário, refletindo sobre o processo francês e seus desencadeamentos internacionalmente, na medida que a sua importância leva a toda a esquerda trotskista ter que acompanhá-lo, mesmo que na maioria das vezes não se posicionem publicamente.

Nas intervenções do plenário, militantes ressaltaram como hoje a crise que se expressa no PSOL, com o partido indo cada vez mais à direita e se confundindo politicamente com o PT, perdendo seu sentido de existência, se assemelha muito à do NPA com a diferença de que dentro do partido francês havia uma corrente trotskista que deu ao longo de 12 anos duras e intransigentes batalhas em defesa do seu caráter de independência de classe e contrário à que a política do partido estivesse unicamente centrada ao âmbito eleitoral e institucional. Não é uma coincidência que, no Brasil, as correntes majoritárias do PSOL negaram a entrada do MRT em 2015 e 2017. A conclusão disso foi uma condução desenfreada à direita no interior do partido brasileiro.

Diana ressaltou como na França, país que nos últimos 5 anos viu o desenrolar de intensos processos de luta de classes, uma política ligada à intervenção nestas lutas em defesa da auto organização dos trabalhadores fez o Révolution Permanente se fundir com os principais setores da vanguarda em luta e também de dentro do NPA, mesmo aqueles que vêm de diferentes tradições, que viram o problema da política da majoritária e das correntes de centro do partido, como l’Étincelle e Anticapitalisme et Révolution, que se adaptaram completamente à política eleitoralista e ainda se recusaram a se posicionar contrários à expulsão dos militantes da oposição, com exceção da pequena tendência CLAIRE, que segue no NPA, mas defendeu os 296 militantes de serem expulsos.

Assim, André lembrou como a “última advertência" (tomando o termo que Trotski usou aos partidos de esquerda na Espanha de 1937) que a CCR deu às correntes minoritárias do NPA, serve a todas as organizações brasileiras que se colocam à esquerda do PT sobre qual partido e qual a estratégia frente ao crescimento da extrema-direita e à necessidade dos trabalhadores recuperarem a confiança em suas próprias forças. Confiança essa perdida por anos de traições das burocracias sindicais às quais as correntes de esquerda no Brasil e na França se adaptam, sequer fazendo exigências para que não dividam a luta ou para que coordenem uma paralisação nacional. Na França, a experiência na explosão anti burocrática dos Coletes Amarelos em 2018 foi a pólvora para emergir todo um novo setor antiburocrático na classe trabalhadora, cuja vanguarda se aproxima e integra hoje à organização que consequentemente confiou o futuro da classe trabalhadora na sua própria auto-organização, através da intervenção consciente de militantes revolucionários organizados em partido com estratégia clara e não dúbia, no calor da luta de classes.

Desde a fundação do NPA, o Révolution Permanente adentrou o partido com todas suas bandeiras claramente expostas, em particular denunciando a contradição desse tipo de partido guarda-chuva de correntes de esquerda, não assinando os princípios fundadores do NPA e advogando a batalha por constituir um partido leninista de combate na França. Guardadas as diferenças entre os países, algumas dessas organizações que se dizem anticapitalistas e pela independência de classe, na política caminham sempre para uma aceitação passiva ou uma reação meramente eleitoreira contra uma direção reformista e culminam como hoje o NPA e o PSOL em concretizar alianças de conciliação de classes, com partidos diretamente dispostos a administrar a miséria capitalista em meio à crise econômica mundial. A falência desse tipo de partido, com a expulsão de 30% dos militantes do NPA, todos de oposição à direção majoritária, se consagra mais uma vez, agora em seu berço de origem.

Hoje, como há muito não ocorria, acirram-se publicamente as diferenças de estratégias, e acompanhar a reorganização da esquerda na França é mais do que crucial a todos aqueles militantes que buscam uma saída revolucionária da classe trabalhadora. A reflexão e o pensamento político internacional hoje é nossa tarefa essencial na perspectiva desses processos serem os passos substanciais para a reconstrução da IV Internacional.

A crise terminal do NPA e a atuação da CCR-Révolution Permanente colocam uma chance de colocar para fora nossa estratégia através da concretude de um processo intenso que está acontecendo agora. Momento em que fica claro como os trotskistas se desenvolvem quando a classe operária emerge como sujeito organizado, encarnado no Révolution Permanente nas figuras que se destacaram como dirigentes operários dos seus processos de luta, em particular, o ferroviário Anasse, de origem marroquina que se tornou porta voz nacional do melhor da vanguarda operária da luta de classe e de diferentes tradições do trotskismo.

Debater esse momento histórico para o trotskismo neste domingo à noite, fez cada um de nós sentir a responsabilidade de levar esse acontecimento para cada um à nossa volta, porque sabemos que sem nossa voz reverberando, tentará ser abafado o processo de surgimento de uma nova organização revolucionária com influência nos setores mais chaves da classe operária e que atrai setores amplos da juventude, de imigrantes, negros, LGBTs. Mais um domingo para intensificar o vívido peso de carregar uma partícula do futuro da humanidade nas costas.

Veja também, Editorial do MRT: A esquerda institucional e a busca de um caminho de subordinação ao PT




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