Sociedade

Metrô de SP convoca lactantes a voltarem ao trabalho

Reproduzimos relato de Marília, metroviária e mãe do João Pedro de 21 meses, sobre sua convocação para retornar ao trabalho presencial

sábado 26 de setembro| Edição do dia

Semana passada voltei ao trabalho presencial, após mais de 5 meses afastada pela condição de lactante. As lactantes não são oficialmente parte do grupo de risco para a covid-19, porém não existem estudos suficientes para descartar o grau de vulnerabilidade que a mãe que amamenta se encontra em relação ao vírus (já que a amamentação consome muito da mãe e pode em alguns casos afetar a sua imunidade) e o risco de transmissão aos bebês, que tem respondido bem quando contaminados, mas por outro lado ao serem assintomáticos se tornam um importante vetor da doença. Por esses motivos, o Conselho Nacional de Saúde (CNS) considera as lactantes como "vulneráveis" orientando as empresas ao afastamento do trabalho sem prejuízo algum a trabalhadora.

No início da pandemia nós, mães metroviárias lactantes, conquistamos o afastamento para home office e o Metrô igualou a situação das lactantes à das gestantes. Após mais de 5 meses, sem que a quarentena oficialmente tenha terminado nem no estado e nem na cidade de São Paulo, o metrô, de forma totalmente arbitrária e contrariando as recomendações da OMS¹ de amamentação ate 2 anos de idade ou mais, começou a convocar as lactantes com bebês maiores de 1 ano para voltar ao trabalho presencial - o que em muitos casos é um contra senso já que algumas de nós já tinham bebês maiores de 1 ano na data do afastamento, como é o meu caso. Não deram nenhuma justificativa plausível que explique o que mudou de lá pra cá. Agora nos faz ter que escolher entre seguir a recomendação da OMS de amamentar até os 2 anos de idade ou mais, colocando nossos bebês em risco, ou impor um desmame precoce para não expor nossos filhos ao vírus, já que no nosso ambiente de trabalho existe um dos maiores índices de contaminação.

Sabemos que a convocação das lactantes para voltar ao trabalho está ocorrendo por pressão da patronal e dos governos pela reabertura econômica, que traz uma ilusão de "normalização", naturalizando as mais de 34 mil mortes no estado de São Paulo (onde inclusive voltou a subir o número de mortes na última semana) e as mais de 140 mil mortes por Ccovid-19 no país.

Seria fundamental termos testes massivos para ter uma quarentena de fato inteligente, além do afastamento do grupo de risco (que oMetrô de forma irresponsável já veio convocando para retornar ao trabalho presencial, como os maiores de 60 anos), sem prejuízos salariais, e do pagamento do auxílio emergencial no valor de 2000 reais para os trabalhadores sem renda.

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O Sindicato dos Metroviários já se posicionou contrário ao retorno das lactantes e enviou um ofício ao Metrô se baseando nos próprios Atos do Presidente da Companhia, documentos oficiais e recomendações de diversos órgãos de saúde, mas o Metrô sequer respondeu ao ofício e manteve a convocação(procurar link posicionamento sindicato).

A empresa também ignora o fato de que, com a ausência de creches e escolas, as lactantes e demais mães trabalhadoras não tem com quem deixar seus filhos para trabalhar, e com os bebês pequenos e que ainda mamam é ainda mais difícil. O Metrô e outras empresas deveriam liberar ao menos um responsável por criança para ficar em home office enquanto a comunidade escolar não decidir que é seguro retomar as aulas presenciais, pois a reabertura das creches e escolas nesse momento, ainda mais nas condições que sabemos que já eram precárias nas escolas públicas antes da pandemia, pode aumentar a transmissão do vírus. De qualquer forma, esse momento de pandemia só evidenciou a necessidade das empresas e o governo fornecerem creches 24h para todas as crianças que necessitem, para seus pais poderem trabalhar.

Eu continuo amamentando, seguindo o que melhor para o desenvolvimento e nutrição do meu filho, vamos nos virando como dá, com medo de trazer o vírus para casa, enquanto insistimos para que o Metrô reverta a convocação das lactantes, assim como dos demais grupos de risco, para manter a segurança das mães e dos bebês

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¹ https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/infant-and-young-child-feeding




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