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MARIA EDUARDA | Maria Eduarda, presente: crônica de uma dor incurável

Éramos para estar em chamas diante de toda a covardia que enfrentamos. É ínfimo um relato da perspectiva indignada de quem lê a notícia, mas ainda mais covarde é fingir não ver, é deixar de sentir.

domingo 2 de abril de 2017 | Edição do dia

Olhos fixos e incrédulos.
Mãos trêmulas.
Coração acelerado.
Sangue esquenta.
Sangue esfria.
Esquenta, esfria.

Todas as sensações.
Sensação nenhuma.
O ódio de tudo.
O rombo no peito dilacerado num vazio de nada.

Silencia a mente.
Paralisa o corpo.
Por mais que seja recorrente, mesmo que frequente, é sempre indigesto.
Nem água passa.

Todas as vezes, por alguns instantes, o fôlego some e parece que não vai voltar.

Já virou ritual olhar as notícias e começar o dia chorando as vidas perdidas.

Já é cotidiano habitual passar pela banca de jornal e voltar a caminhar com o nó atravessado na garganta, ouvir as conversas de conhecidos e amigos ou andar pelas ruas e ver as desgraças e injustiças feitas pelo Estado genocida.

Não tenho mãos para contar quantos poemas e desabafos escrevi em vômito de lágrimas e gritos estrangulados pra tentar contornar os desejos mórbidos e encontrar algum fragmento de esperança pra prosseguir em luta pelo dia que vem.

Mais ainda.
Não tenho mãos para contar quantas vezes não consigo alcançar a dor inimaginável das mães e pais que sangram e choram pelos seus filhos, o vazio no peito de ver suas vidas, esforços e sonhos destruídos por um sistema violentamente imundo, o sofrimento que rasga a existência de quem labuta exaustivamente e ao chegar em casa encontra seu filho estirado na rua, na calçada ou DENTRO DA ESCOLA, assassinado por mãos corruptas e sujas, nessa realidade fétida que estamos entranhados.

Éramos para estar em chamas diante de toda a covardia que enfrentamos.
É ínfimo um relato da perspectiva indignada de quem lê a notícia, mas ainda mais covarde é fingir não ver, é deixar de sentir.

Em meio a toda descrença na humanidade, o enorme vazio no peito e a imensa vontade de desistência e sumir, o fôlego que vem é pra fazer um pedido.
Que toda a nossa dor se transforme em luta.

Que toda falta de esperança e ódio se transforme em fome por justiça, porque a Maria Eduarda, todas as crianças e jovens negros e pobres, e tantos outros, não se tornarão apenas estatísticas, mas lembraremos sempre desses guerreiros e vingaremos suas vidas interrompidas.

Toda solidariedade às famílias.




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