POLÊMICA

Manifesto do PT, PDT, PSOL e outros partidos, na prática, clama por Mourão na presidência

Uma demonstração cabal de para que serve a chamada “Frente Ampla” dos opositores a Bolsonaro sem qualquer distinção: lança um manifesto que por trás da demanda de “renúncia” de Bolsonaro, na prática é um chamado a que os militares tomem de uma vez por todas para si a presidência e os rumos do país, com ninguém menos que Mourão à cabeça, que saudou o aniversário do golpe militar de 64 novamente.

quinta-feira 2 de abril| Edição do dia

O manifesto é assinado pelos ex-presidenciáveis Fernando Haddad (PT-SP), Ciro Gomes (PDT) e Guilherme Boulos (PSOL), por Manuela Davila e Flávio Dino (PCdoB), Roberto Requião (MDB-PR), Gleisi Hoffmann (PT), Carlos Siqueira (PSB), Carlos Lupi (PDT), Edmilson Costa (PCB) e outros referências destes partidos.

O manifesto não somente pede a renúncia de Bolsonaro, que na prática é um chamado à Mourão se transformar em presidente e se consolidar o autoritarismo (bonapartismo) militar no país, ele apresenta “pontos de programa” que seria para um governo militar absolutamente reacionário aplicar. Trata-se de uma política nefasta, que propõe um país liderado pelos militares golpistas e gera ilusões de que poderiam adotar (melhor que Bolsonaro) medidas “progressistas”. Um caminho que deveria ser absolutamente rechaçado pela esquerda, mas que é vergonhosamente endossado por Boulos, figuras importantes do PSOL, e pelo próprio PCB. Um abandono até mesmo das bandeiras democráticas mais elementares, para não falar da independência de classe, que é um princípio que faz muita falta mas que estes partidos nunca tiveram nenhum apreço. Uma proposta política que coloca o destino da crise sanitária, econômica, política e social no Brasil nas mãos dos nossos algozes, ao passo que o próprio Bolsonaro e os militares já demonstraram temer e se preparar para uma revolta popular, o que deixa claro que teremos de nos enfrentar também com estes “opositores” para poder dar uma saída para a crise no Brasil.

Um manifesto que leva o sentimento das massas pelo “Fora Bolsonaro” para o pior caminho possível

Cresceu nas massas em meio à crise sanitária o descontentamento com Bolsonaro. A raiva das amplas massas que vão às janelas pedir por “Fora Bolsonaro” é não só legítima, como correta, frente ao absurdo que são as políticas do governo para enfrentar a crise. Trata-se de um ódio contra um governo que menospreza vidas humanas.

Esse sentimento é extremamente progressista e uma das bases para dar uma saída progressista para a enorme crise que ocorre no Brasil, que é sanitária, econômica, política e social e está incubando uma revolta popular, como já prevê o próprio Bolsonaro e diversos analistas, em pânico.

Mas este manifesto mostra que este sentimento, se canalizado por trás de tais lideranças e da “Frente Ampla” em formação, levará as massas para o abismo, para um país governado diretamente pelos militares.

Já não se trata sequer de denunciarmos que estão fazendo uma frente que rompe com qualquer perspectiva de independência de classe, unificando-se com partidos burgueses. Não podemos considerar esta “frente” sequer como “democrática”, porque convenhamos, não se pode falar de “democracia” e defender um governo de Mourão e militares. Da parte de “nacionalistas” burgueses como Ciro Gomes e Requião, de partidos de conciliação de classes como o PT e PCdoB, não surpreende, apesar de não ser menos repudiável. Aqueles que denunciavam o golpe institucional no Brasil, alguns que denunciavam que Mourão era um “jumento de carga”, agora o chama para liderar o país. Mas o pior é a adesão de setores da esquerda como do PSOL e PCB. A política proposta no manifesto não é sequer de impeachment, o que já teria o mesmo problema que apontamos acima, mas um “pedido de renúncia” de Jair Bolsonaro! Podemos chamar isso de “oposição”?

Não é difícil ver que a política concreta que esse manifesto propõe é uma política que resultaria em Mourão na presidência e um fortalecimento muito profundo das Forças Armadas no país - esses que já vem cumprindo um papel de “mediadores” entre os conflitos de Bolsonaro e Congresso - em uma defesa de “união” com atores reacionários da institucionalidade burguesa como resposta ao bolsonarismo. Ou seja, uma política que aponta como saída o vice que, ainda ontem, 31/03, teve a audácia de, em meio a uma crise como essa, declaradamente defender a sanguinária ditadura militar brasileira e suas atrocidades.

Elencando um trecho do manifesto: “Frente a um governo que aposta irresponsavelmente no caos social, econômico e político, é obrigação do Congresso Nacional legislar na emergência, para proteger o povo e o país da pandemia. É dever de governadores e prefeitos zelarem pela saúde pública, atuando de forma coordenada, como muitos têm feito de forma louvável. É também obrigação do Ministério Público e do Judiciário deter prontamente as iniciativas criminosas de um Executivo que transgride as garantias constitucionais à vida humana. É dever de todos atuar com responsabilidade e patriotismo.”

Deliberadamente depositam todas as forças de combate a Bolsonaro nas mãos do Congresso, palco das reformas neoliberais, do Judiciário, ator central no golpe institucional de 2016 que abriu caminho para Bolsonaro e para estas mesmas reformas.

O próprio Lula em vídeo recente se apoia no Congresso para se “enfrentar” com Bolsonaro - este Congresso, de composição de parte do que há de mais reacionário e que representa os interesses dos principais capitalistas do país. Além disso, em sua live, e em posts de Twitter, colocou que "A gente tem que reconhecer que quem tá fazendo o trabalho mais sério nessa crise são os governadores e os prefeitos ", reivindicando a atuação de ninguém mais ninguém menos que o reacionário João Doria em São Paulo. São com essas caras que PT, e a esquerda estão querendo canalizar a raiva crescente ao bolsonarismo.

Esse manifesto ainda saúda a atuação dos governadores, que implementam uma política radicalmente distante de conter minimamente as mortes e os impactos da crise sanitária e econômica que estão colocadas, não garantindo nos estados testes massivos, leitos e equipamentos básicos às categorias que seguem trabalhando, sem contratações de profissionais, sem oferecer garantia de não demissão, sem oferecer a garantia dos salários, sendo coniventes com demissões e diretamente deixando em risco a saúde e a vida de milhões de trabalhadores e famílias.

Até onde vai a esquerda que se diz “socialista”?

Ou seja, o programa político contido nesse manifesto que figuras do PSOL e PCB assinam não apresenta uma saída alternativa que não seja fortalecer atores burgueses do regime. Não é apenas Bolsonaro o ator de uma política que tem como objetivo fazer os trabalhadores e a população pobre pagarem por essa crise com suas vidas. De “mal menor” em “mal menor”, estamos chegando na beira do abismo.

Essa política de buscar permanentes acordos com estes partidos de “oposição” a Bolsonaro, em detrimento de buscar construir qualquer perspectiva de frente única dos trabalhadores, é algo que a maioria do PSOL vem insistindo faz tempo. E cada dia essa política leva a um ponto mais grave, como se vê. O PCB mostra mais uma vez o seu DNA de conciliação de classes, que nunca deixou de ter.

Não pode ser esse o caminho que a esquerda aponta para a classe trabalhadora, para a juventude que arrisca suas vidas em trabalhos ultra precários, e à população pobre. Esse caminho aponta para atores burgueses, dispostos antes e dispostos agora a salvar os mercados ao invés de salvar vidas.

Por uma política independente dos militares e golpistas, que trabalhe para a mobilização independente dos trabalhadores e do povo

Nós do MRT e do Esquerda Diário dizemos “Fora Bolsonaro, os militares e os golpistas”. A batalha por uma resposta independente tem de passar pelo enfrentamento com estes setores, que estão em franca disputa dentro do regime, se opondo com um programa que atenda às demandas da classe trabalhadora frente a crise sanitária e a crise econômica.

Levantamos “Fora Bolsonaro, militares e os golpistas”, e por um gabinete de emergência composto por trabalhadores da saúde, especialistas sanitários, sindicatos e demais organizações operárias e populares para dar conta das respostas emergenciais à crise atual. Esse gabinete de emergência teria como uma das suas tarefas centrais a convocação e organização de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que concentre todos os poderes legislativos, executivos e judiciário, onde pudessem ser debatidos democraticamente toda a reconfiguração do país para responder não apenas à questão imediata de garantir empregos e vidas, mas todas as questões estruturais que condenam a imensa maioria a levar uma vida de miséria desde sempre. Na luta por este programa, defendemos o desenvolvimento dos mais amplos organismos de auto-organização, que são a única garantia de uma saída democrática para essa crise, e ao mesmo tempo a base para que possamos avançar para um governo operário de ruptura com o capitalismo.

Uma política como essa é a única saída à altura de se preparar para as perspectivas que se avizinham de uma revolta popular com a crise desse sistema decadente.




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