Sociedade

TRIBUNA ABERTA

Manaus em dois tempos

Vera Ceccarello é doutoranda em Sociologia pela Unicamp e trabalha com as áreas de Sociologia da Cultura e Pensamento Social Brasileiro.

segunda-feira 23 de janeiro de 2017| Edição do dia

Ao contrário do ostracismo geográfico e social que geralmente ronda Manaus nos noticiários, nas últimas semanas a cidade ganhou notoriedade em duas circunstâncias bem diferentes. O primeiro momento foi a rebelião em um presídio manauara logo nos primeiros dias de janeiro, que resultou na morte de mais de 60 pessoas e deflagrou uma das maiores crises do sistema prisional brasileiro desde o Massacre do Carandiru, em 1992. O segundo caso, menos grave e esteticamente palatável, foi com relação à série Dois irmãos, baseada no romance homônimo de Milton Hatoum.

A relação entre os dois eventos parece não ser tão fortuita quanto aparenta, uma vez que, em recente entrevista, Luiz Fernando Carvalho, diretor da adaptação, relatou que mudou a edição final dos últimos capítulos da serie por causa desse que foi o maior massacre carcerário ocorrido em Manaus. Muitos anos separam a tragédia prisional da decadência da família de libaneses. Mas na periferia da periferia do sistema a decadência e a barbárie estiveram sempre presentes.

A trajetória conflituosa dos gêmeos Yaqub e Omar serve como uma possibilidade de entender o desenvolvimento da sociedade brasileira. Em meados dos anos 1950, o irmão calculista e afeito aos números decide abandonar a província para se tornar um engenheiro de sucesso em São Paulo: Yaqub sai de Manaus literalmente para construir cidades, juntamente com a ideia de progresso apregoada na época. Naquele momento, a saída para resolver os problemas nacionais era modernizar, urbanizar e construir prédios e cidades para que o subdesenvolvimento fosse, de alguma forma, superado.

Atualmente, a equivocadíssima saída para resolver a questão penitenciária é também construir, só que neste caso presídios e mais presídios. Tal alternativa pressupõe que a policia prenda mais e permite que o Estado punitivista encarcere qualquer um por qualquer crime a qualquer momento. Esse processo ocorreu nos Estados Unidos e vem ocorrendo aqui também. A população carcerária do Brasil alcança níveis alarmantes e já é a quarta maior do mundo. É preocupante o fato de que 40% das prisões efetuadas são provisórias e mais um sem número de outras poderiam ser tratadas de outra maneira. Além disso, o encarceramento em massa beneficia sobremaneira dois outros grupos: quem almeja a privatização dos presídios, já que sobrevive de licitações fraudulentas e o crime organizado que estende seus tentáculos dentro das prisões.

A política de construção de presídios, a chamada guerra às drogas e o encarceramento em massa se colocam como formas arcaicas e ineficientes de combater os problemas da insegurança da população nas metrópoles brasileiras. Medidas preventivas, penas alternativas às prisões, audiências de custódia e mediação de conflitos já são alternativas que deveriam ser utilizadas para combater crimes leves e evitar o encarceramento desnecessário. No Brasil, o problema da carência de investimento atrelada à superpopulação carcerária é responsabilidade do Estado que não se coloca como mediador dessa situação. O vácuo deixado pelo Estado abre a possibilidade de facções criminosas dominarem as prisões. Essa espécie de caos estruturado do crime organizado passou a gerir os presídios e, o que era algo característico de São Paulo – encarceramento em massa, rebeliões e facções - se federalizou e ganhou proporções nefastas, tais como a guerra entre facções em Manaus.

A distância que na narrativa de Dois irmãos colocava entre Manaus e São Paulo passa a ser tragicamente encurtada agora. Naquele momento, em meados do século XX, a separação geográfica de Yaqub e Omar reforçou as diferenças de personalidade e de caráter dos gêmeos. Acentuou também tantas outras polaridades presentes na sociedade brasileira: cultura e natureza; ideologia liberal e favor; civilização e barbárie. Nesse contexto, o atraso e o moderno pareciam se digladiar no solo da romantizada unidade nacional. O futuro e o progresso se alinhavam de forma a promover e a propagandear o fim das regiões atrasadas para que o país pudesse seguir o rumo da modernidade tão almejada. O dualismo se esqueceu que o Brasil estava inserido dentro do sistema capitalista e a manutenção combinada, porém desigual dessa dualidade, ocorria tanto interna quanto externamente.

A noção de modernidade sempre esteve atrelada à ideia de progresso. Só que progresso econômico nem sempre significa progresso político e social. Uma passagem fundamental de Dois irmãos se dá durante a chegada da ditadura militar em Manaus. Omar sofreu com a prisão e morte do poeta Laval, um crítico ferrenho do regime. Nael, o narrador e filho de um dos gêmeos com a índia Domingas, empregada da casa, observava tudo atônito e descrente da violência que tomara a cidade. Violência hoje que, apesar de encarcerada, às vezes insiste em romper os muros da cadeia e atrapalhar o bom andamento da sociedade. Já Yaqub, que vestia a máscara da modernidade e do progresso, andava em meio aos tanques com a calma dos que acreditam que é aquele tipo de “ordem” que garante o progresso.

Manaus agora está pronta para crescer, diz Yaqub em certo momento. Crescer aqui também significa se modernizar e atingir os patamares civilizatórios das sociedades ocidentais. De forma cruel é possível perceber que o que ocorreu em Manaus no início de janeiro de 2017 foi justamente uma relação dialeticamente nefasta entre civilização e barbárie. O Brasil não tem espaço para polaridades isoladas. A trajetória econômica, política e social do país consolidou elementos antagônicos entre si, porém intrínsecos e inseparáveis. Moderno e atraso não passam de duas faces da mesma moeda que se confundem dentro da falácia do discurso do desenvolvimento.

A relação entre Nael e os gêmeos é uma alegoria, uma representação dos gêmeos e das regiões brasileiras. Não só em termos de comportamentos diversos, mas da ida a São Paulo e da permanência em Manaus. Essa separação representa o desenvolvimento da sociedade brasileira no século XX. Porém, nem as regiões nem os irmãos podem ser considerados antípodas. Ambos mantém entre si uma relação de interdependência que garante os laços de formação da nação e da família. Nael é fruto de violências – sexual, porque a mãe foi estuprada e social porque nunca teve seus diretos garantidos – e ele é o resultado desse conflito. Nael também representa a complexa síntese entre índios e brancos, imigrantes e brasileiros, locais e estrangeiros, patrões e empregados, classes trabalhadoras e classes dominantes. Ou seja, fruto de um processo civilizatório parcial e que alijou imensa parcela da população brasileira de direitos civis, sociais e humanitários mais básicos.

A relação sempre tumultuada no Brasil entre o moderno e o atraso nunca se deu de forma tranquila, muito menos de forma isolada e sempre fez parte do projeto de desenvolvimento capitalista no país. Em momentos de tenebrosas transações, opta-se pela manutenção da dependência, vinculada às empresas privadas e transnacionais do que por uma tentativa de autonomia do poder público. No caso dos presídios, por exemplo, muito se fala sobre as vantagens das privatizações e de como isso deixaria o Estado desafogado. Pouco se diz quem ganha com as licitações de forma geral. O sistema prisional deveria levar o cidadão à convivência social novamente e não penalizar por penalizar. Mais do que temer acidentes pavorosos é preciso, acima de tudo, combater descasos, maus tratos e atitudes negligentes do poder público.

A serie Dois irmãos é belamente exasperada no estilo do diretor, no choro da mãe, na animalidade dos filhos e no conflito trágico até o fim. Trouxe a ditadura de forma caricata, mas mostrando que a violência é um elemento sempre presente nessa terra em transe. Assim, Manaus reapareceu no cenário brasileiro em dois tempos e em duas cores: o sépia da série se chocando com o vermelho da realidade das chacinas. Na periferia da periferia do sistema, nem tudo são peixes e lendas. Pois como diria Roberto Piva, toda metrópole é uma necrópole.




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