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Lula apoia descaradamente Mandetta e governadores, palavras ao vento sobre Estado forte para aplaudir Doria e Witzel

Na última quarta-feira, em entrevista online, com discurso pela quarentena Lula defendeu a política de Mandetta e dos governadores contra Bolsonaro, chegando até a reivindicar o reacionário Doria, governador de São Paulo, que aplaudiu a MP de Bolsonaro que permitia a suspensão de salário dos trabalhadores por 4 meses e até agora não garantiu testes massivos, nem sequer a construção de leitos e contratação emergencial de pessoal de saúde para poder colocar recursos a serviço de salvar vidas.

sexta-feira 3 de abril| Edição do dia

Com um discurso pela quarentena e máximo isolamento social, na live Lula deixou explícito o seu apoio à política do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Como saída, colocou a importância do protagonismo dos governadores, se posicionando contra os atritos com o governo federal. Para sustentar sua posição Lula chega a reivindicar o absurdo governo Doria, que segundo ele está respondendo seriamente a crise, mas que sabemos que não responde às necessidades do povo, pois continua subnotificando os casos de coronavírus e escondendo os casos, inclusive as mortes, ao não oferecer testes massivos para todos que apresentam sintomas e os que tiveram contato com eles. 

Além disso, é impossível esquecer que Doria foi parte dos que aplaudiram a MP da morte de Bolsonaro que permitia a suspensão de contrato de trabalho por 4 meses durante essa crise, e também quem colocou ainda em 2020 a tropa de choque para reprimir os professores da rede pública que estavam protestando contra a reforma da previdência estadual na Alesp. Hoje ele se diz oposição ao governo federal, mas para se eleger chegou até a usar o slogan “BolsoDoria”. Lula pode discursar de outro modo mas alinha-se integralmente detrás daqueles que falam em salvar vidas mas estão tomando medidas completamente insuficientes para isso e ainda são ferrenhos apoiadores de ataques como reforma da previdência e MP da morte, fazendo com que a classe trabalhadora pague a conta da pandemia. 

Durante seu discurso, Lula citou diversas medidas de combate à crise, dentre elas a reconversão de algumas indústrias para produzir o que mais é necessário nesse momento: álcool gel, máscaras, respiradores, dentre outras coisas. Fez uma comparação com a guerra do Paraguai, na qual o custo com materiais bélicos foi 11 vezes maior que o orçamento da União daquele período. Colocou que até agora não viu Bolsonaro sentando com nenhum industrial para debater como determinadas fábricas podem servir para a produção de insumos básicos agora.

Ao invés de recomendar que Bolsonaro sentasse com os industriais, por que o Lula não recomenda aos sindicalistas da CUT que organizem os trabalhadores nas fábricas para impor aos industriais a reconversão das fábricas? Prefere, tal como um Doria, um Bolsonaro ou um Trump falar de reconversão mas o fazer somente no ritmo que as patronais e seus lucros quiserem. O que dita os ritmos são os limites do que é possível agradando os capitalistas e não o que é necessário para salvar vidas. 

Medidas como a reconversão da indústria seriam de extrema importância no momento que estamos para que o máximo de testes, reagentes para testes, respiradores, máscaras e álcool em gel fossem produzidos, colocando as necessidades da população acima do lucro dessas grandes empresas. A grande questão, no entanto, é que Lula defende que essa medida seja tomada desde o Estado, deixando em primeiro plano o lucro dos patrões e os interesses da classe dominante, que como estamos vendo nesse momento colocam o lucro acima da vida. Essas medidas, se não forem tomadas sob controle dos trabalhadores, como aconteceu em fábricas sob controle operário na Argentina, não garante que os trabalhadores sejam favorecidos e colocados como prioridade. Não será das mãos da FIESP e seu “convencimento” que haverá uma reconversão para salvar vidas.

Além disso, Lula defende a necessidade da realização de testes na população, afirmando que essa é uma medida eficaz que foi implementada na Coreia do Sul e na Alemanha e que é essencial para sabermos o mapa da contaminação. De fato, testes massivos para combater a pandemia e pôr um fim a essa “navegação de olhos vendados” que o governo nos coloca, que permita uma quarentena racional que ofereça também locais adequados para quem vive em condições precárias, é uma medida urgente e necessária para esse momento. 

Esse discurso, no entanto, é totalmente incoerente com sua defesa política de ter os governadores à frente para conter a crise, sem “disputas mesquinhas” de Bolsonaro, pois nenhum desses governadores reivindicados por Lula até agora sequer ofereceu a oportunidade de testes para quem apresenta os sintomas. Quanto mais, então, também para quem teve contato com os que testaram positivo. Em São Paulo, por exemplo, a primeira pessoa que morreu pelo coronavírus só foi testada depois de morta. Ou seja, precisou perder a vida para entrar nas estatísticas. Para completar, seus familiares, que estavam na mesma casa, também não foram testados. 

E os governadores do nordeste, onde o PT governa, estão tomando que medidas para levar todo esse discurso defendido por Lula em frente? Nem no plano da emergência sanitária, garantindo testes e leitos nem do ponto de vista econômico, ou por acaso algum governo do nordeste tomou alguma medida para proibir demissões? Não, muito pelo contrário, Camilo Santana não poupa esforços para atender às patronais, enquanto isso, dia a dia vão aumentando o número de infectados e mortos, mesmo levando em conta a hiper-subnotificada estatística oficial. 

A CUT e as centrais sindicais publicaram uma nota recentemente na qual pedem que “o congresso assuma o protagonismo”, mesmo congresso que eles reconhecem ser o mais conservador dos últimos anos, e propondo uma articulação “com o Congresso Nacional e todos os governadores, independentemente da filiação política e ideológica”. Essa é a mesma política que aparece em carta que todos os governadores do nordeste assinam. 

Ou seja, longe de colocar uma saída efetiva para os trabalhadores, Lula e o PT depositam todo seu apoio político a um congresso e a governadores que não priorizam as vidas da população e que não oferecem testes massivos. Sua intenção é manter os lucros dos banqueiros, dos empresários com os quais ele disse que a CUT está em diálogo, e de todos os patrões. Lula, ao apoiar os governadores e congresso, é parte fundamental de incentivar que inimigos da classe trabalhadora ganhem mais força. Assim Lula está ajudando golpistas de uma laia de Doria ou de Skaf e seus patos da FIESP.

Ele não coloca uma saída concreta que poderia de fato tornar possível a reconversão da indústria sob controle operário para termos produção de todo material de prevenção necessários, nem sequer cogita a isenção do pagamento das contas de luz, água, gás, aluguel e telefone, além do aumento da remuneração do auxílio emergência para R$ 2.000,00 que é o valor médio de salário de trabalhadores com carteira assinada, ou Lula e seus elogiados governadores se sustentariam com R$600? 

Essas medidas poderiam ser disponibilizadas com uma total reorganização dos gastos do Estado a partir do não pagamento da dívida pública, da taxação dos lucros dos bancos (para ilustrar, em 2019 o Itaú lucrou R$ 26,583 bilhões, o que daria para 354 milhões de testes ou sustentar 2,2 milhão de pessoas sem renda nesse momento com R$2000 por 6 meses), e das grandes fortunas, que Lula na live defendeu não ser uma medida efetiva por demorar muito, deixando evidente seus verdadeiros interesses. Efetivo é na opinião dele esperar que Mandetta, Doria e Witzel salvem empregos e vidas. Assim nota-se que tudo que ele fala de Estado forte é mera palavra ao vento. É o Estado de Doria e pouco mais que isso. E mesmo hipoteticamente, um “estado forte” de Doria seria o que para os trabalhadores. Os professores sabem, com gás de pimenta na tua cara.

As ações operárias que começam a acontecer pelo mundo, como nos EUA, Estado Espanhol, França e a mais contundente até agora, que foi a dos trabalhadores italianos gritando em alto e bom som que “nossa saúde vale mais que seus lucros” devem ser os maiores exemplos a se apoiar nesse momento, e não o congresso conservador, ou os governadores que apesar de aparecerem como oposição estão rifando as nossas vidas, do contrário ficamos, tal como Lula estritamente no papel de aplaudir aqueles que se diferenciam de Bolsonaro na quarentena mas fazem estritamente o mesmo no descaso em garantir testes, leitos, e empregos. 




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