Teoria

TEORIA

Lukács, a lógica dialética e os limites do pensamento cientifico no capitalismo

Gilson Dantas

Brasília

sábado 2 de maio de 2015| Edição do dia

Existe uma enorme pressão da cultura burguesa e do próprio pensamento cientifico dominante na sociedade capitalista induzindo a parcialização do modo de pensar. No caso dos próprios cientistas, não apenas possuem escassa formação filosófica, dialética, como muito frequentemente, adotam, fora do laboratório (ou quando vão atribuir interpretações mais teóricas às suas experiências) uma linha de pensamento cartesiana, linear, próxima do senso comum tipicamente antidialético. Muitos arrematam suas conclusões contrariando a própria experiência, outros adotam explicações reducionistas e metafísicas para o universo ou para a matéria dos seus estudos.

Lukács polemizou com esse tipo de pensamento e procurou reafirmar os postulados dialéticos do materialismo. Esse debate já clássico se deu nos marcos dos novos avanços das ciências naturais do seu tempo, sobretudo da física atômica e sub-atômica, da mecânica quântica avançada. Tais debates continuam atuais, como se viu outro dia a polêmica em torno da “partícula de Deus1 ” e recorrentemente se vê com aqueles que concebem a matéria como algo incorpóreo, metafísico e se autoproclamam “quânticos”.

Como foi dito de início, o peso da cultura dominante, inclusive nos meios científicos, é tão colossal – e mais ainda em épocas conservadoras como foram os anos chamados neoliberais – que aqueles avanços das ciências da natureza reforçaram a visão filosófica antidialética de boa parte do mundo cientifico.

O motivo básico que fez com que avanços científicos na compreensão da estrutura da matéria impulsionassem toda uma onda metafísica, irracionalista e até agnóstica em amplos meios intelectuais, tem a ver com a tendência que assume o materialismo a operar de forma mecanicista. E portanto, com sua tendência a não se assumir – como na proposta de Marx e Engels – na condição de materialismo dialético, portanto não dando conta da lógica materialista da matéria.

Ou nas palavras de Lukács,

“A grande subversão da física moderna, essa subversão cujo resultado concreto não se manifesta para nós senão há pouco, data, como se sabe, da primeira década do nosso século. (...) Essa transformação manifestara-se, antes de mais nada, pela derrocada “brusca” de concepções consideradas inabaláveis há décadas e mesmo há séculos, sobre as qualidades e a estrutura da matéria. A dualidade clássica da matéria e da energia, da matéria e do movimento tornou-se “de repente” vacilante. A necessidade de noções físicas novas apresentava-se ao mesmo tempo motivada pela vontade de dar aos fenômenos que se acabava de descobrir, uma expressão adequada no plano do pensamento. Ora, sem o recurso do método dialético, a grande maioria dos físicos filósofos, como dos pensadores especializados em comentar a evolução das ciências naturais, recuava em desordem diante dessas questões, decididamente insolúveis. Essa fuga em pânico para o idealismo reacionário deveria arrastar inclusive certos físicos que permaneceram no entanto materialistas nos seus trabalhos científicos.

A crise teórica das ciências da natureza apresentava-se de um lado sob o aspecto de uma crise das concepções estabelecidas e, de outro, – sobretudo no domínio especulativo – como uma crise do materialismo. A transformação da física significava, para alguns, o desaparecimento da matéria, e, portanto, a derrocada da ideologia materialista. Sabemos que essa crise da filosofia não deixou de causar estragos nos meios marxistas: mais ou menos em toda parte, na II Internacional, o materialismo perdia terreno, enquanto o revisionismo filosófico, o kantismo, a doutrina de Mach encontravam adeptos”.

Mais adiante Lukács continua argumentando que,

“A crise da física é ao mesmo tempo a do antigo materialismo mecanicista. Não é a matéria que desaparece, não é a categoria gnosiológica da matéria que muda, mas é o método teórico do materialismo mecanicista que desmorona por causa da incapacidade em apreender fenômenos novos de uma maneira adequada. As causas de sua falência são antes de mais nada, a rigidez dogmática de suas categorias, a preponderância da doutrina mecanicista, a incompreensão do relativismo das teorias da ciência e, enfim, a ausência do método dialético. (...) A negação da imutabilidade da estrutura e das qualidades até então conhecidas da matéria conduziu-os à negação da própria matéria, em outras palavras, à negação da realidade objetiva do mundo físico. A negação do caráter absoluto das leis fundamentais mais importantes levou-os a colocar em dúvida a existência de toda lei objetiva na natureza e declarar que as leis naturais eram simplesmente “convenções”, “necessidades lógicas” etc.2 .”

Cientistas, filosóficos e marxistas se viram surpreendidos com o relativismo dos conceitos da física, portanto, da natureza da matéria, e de certos conhecimentos; muitas partículas descobertas ora se comportavam como matéria, ora como energia. Escândalo: a matéria se desvanecia, desaparecia. A realidade objetiva aparecia como problemática, como ultra-relativa, como irracional, como campo do supremo arbítrio. Ganhou terreno, nestes marcos, toda uma onda subjetivista. Leis, para muitos desses intelectuais, dariam lugar ao cálculo de probabilidades.Onde está a necessidade se o acaso parece prevalecer? Nos seus termos teríamos a danação da lógica, o advento do império da ambiguidade, da incerteza.

O campo se torna fertilíssimo para o reacionarismo e irracionalismo filosófico. Portanto, aberto a teorias estapafúrdias que incorporam religião, metafísica, e em lugar do materialismo, a energia vital. Até ideias mirabolantes como a asa da borboleta que bate do outro lado do mundo e impacta o universo, começam a ter estatuto de pensamento sério.

O conhecimento tem, sim, seu momento relativo; mas com isso, não se perde nem desaparece seu momento absoluto, isto é, a validade de determinações necessárias, de níveis alcançados do conhecimento. Se não fosse assim – ou seja, se o conhecimento fosse arbitrário, ultrarrelativo - não faríamos um avião voar e nem jamais se consolidaria a técnica de uma operação cirúrgica de precisão

Por outro lado, é válido dizer que por meio das leis da atomística, da física quântica, não se pode localizar um elétron em determinado momento. Mas quem esperaria isso? O materialismo mecanicista. O materialismo dialético não tem tal pretensão: tem noção de que a causalidade não é tudo, que existe oposição dos contrários, que existem múltiplas determinações para um fenômeno concreto, singular. Como diz Lukács, a lei tendencial da queda da taxa média de lucro não nos permite determinar se o capitalista fulano ou beltrano terá êxito ou fracasso. Não nos permite localizar um capitalista singular em suas particularidades. Ou no outro exemplo também dele: a lei objetiva de que a maioria dos casamentos na roça se dão no período da colheita não nos permite saber se fulano se casará com beltrana e, no entanto, isso não nega aquela lei, não significa que reina o arbítrio, que não há necessidade etc.

O fenômeno, na verdade, deve ser situado dentro da realidade concreta e de acordo com suas determinações, com as leis tendenciais que explicam seu movimento. Trotski explica muito bem essa questão com sua teoria da “unidade diferenciada” como foi bem destacado por Rees3 .
Portanto, o avanço do conhecimento da natureza da matéria, conforme explicado por Lukács, só pode servir de estopim para uma crise teórica das ciências da natureza na mesma medida em que seus pensadores e cientistas não estão acostumados a se colocar numa perspectiva dialética de pensamento. Ao contrário, por inércia filosófica e por pressão do senso comum burguês, dominante, dualista, mergulham em uma monumental crise de identidade, de enxergar a realidade objetiva como “probabilística”, como regida, em última instância, pelo acaso ou por uma liberdade subjetivista, absoluta. Ora, o caráter ao mesmo tempo absoluto e relativo da consciência conforma uma unidade dialética indivisível, dizia Lukács. Por isso, acrescentamos, os aviões voam, os computadores funcionam, a ecografia localiza e visualiza um fígado.

Consideramos da maior importância que cada revolucionário desenvolva constantemente o exercício do pensamento dialético sobre sua área de atuação; como faz o pianista no treino dos dedos; é uma forma também de treinar o pensamento para se conseguir chegar a trabalhar a tática estrategicamente e para conceber cada pequena luta política ou sindical nos marcos da grande política, nos marcos do pensamento dialético de conjunto, onde múltiplas determinações, grandes e pequenas, visam elevar o proletariado a sujeito político da sociedade.


Notas

1- Em versão curta, o “bóson de Higgs” é uma partícula descoberta em 2012 que recebeu esse nome místico pela grande mídia comercial. Peter Higgs, da Universidade de Edinburgo, e o belga François Englert ganharam o Nobel de física de 2013 por causa disso. Na escola aprendemos que existem ao menos 12 partículas mínimas da matéria; o bóson seria o responsável pela massa de todas elas.

2- Citação do livro Materialismo e dialética: crise teórica das ciências da natureza, 2011, disponível diretamente com Luciane no e-mail centelhaculturallivros@gmail.com .

3 - Trotski utiliza o conceito de “unidade diferenciada”, para distinguir o enfoque materialista dialético do reducionista e determinista. Conceito que é crucial para a compreensão da relação dialética entre as várias esferas ou níveis de complexidade na natureza, entre as ciências. E que é particularmente útil para o exame da relação entre a dialética na natureza e a dialética na sociedade. Trotski utiliza aquela idéia (da “unidade diferenciada”) na sua análise das ciências. E “argumenta que a psicologia repousa na fisiologia que por sua vez repousa na química e assim por diante. Mas ele vai além afirmando que ´a química não é substituto para a fisiologia´. Na verdade, ´a química tem suas próprias chaves´ que devem ser estudadas separadamente utilizando ´uma abordagem especial, uma técnica de pesquisa especial, hipóteses especiais e métodos também´. E ele conclui que ´cada ciência repousa sobre as leis de outras ciências apenas na assim chamada ´última instância´. Esta compreensão previne Trotski de aplicar simplesmente leis naturais à sociedade. Ele adverte que seria um ´erro fundamental´ qualquer tentativa de transplantar para a sociedade humana ´os métodos e avanços da química ou da fisiologia, violando as fronteiras entre as ciências´. É verdade, argumenta ele, que ´a sociedade humana está cercada por todos os lados por processos químicos´. No entanto, ´a vida pública nem é um processo químico e nem fisiológico, mas um processo social formatado por suas próprias leis” (p. 277 de The algebra of revolution – The dialectic and the classical marxist tradition, de John Rees, 1998, London: Routledge). Grifo do autor.




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