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Editorial MRT | Lições do 2 de outubro e a necessária unidade da esquerda socialista

Contrariando as previsões dos organizadores, as manifestações do dia 2 de outubro foram menores mesmo com a presença ostensiva da direita. É preciso tirar algumas lições deste dia e debater, também, a necessidade de unificar iniciativas da esquerda socialista e revolucionária para apontar um caminho classista para enfrentar os ataques em curso.

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 4 de outubro | Edição do dia

Em todo o país vimos atos de rua em rechaço ao governo Bolsonaro. Estes atos ocorrem após a demonstração de forças da extrema-direita no dia 7 de setembro reunindo algumas centenas de milhares pelo país, do recuo de Bolsonaro com a “carta Temer” e dos atos fracassados da chamada “terceira via” no dia 12 de setembro. A novidade destas manifestações do 2 de outubro foi a confluência entre os setores que compõem a Campanha Fora Bolsonaro (Frente Brasil Popular, Frente Povo Sem Medo, PT, PCdoB, PSOL, UP, PCB, PSTU, PCO) com partidos burgueses e organizações da direita liberal, como o MBL. Os organizadores passaram toda a semana anunciando atos muito maiores que os anteriores por conta da “amplitude” de alianças. Mas por que os atos foram menores com mais forças políticas atuando? É a matemática da política: a depender do conteúdo político dessas forças isso termina enfraquecendo a luta. Acreditamos que há, portanto, ao menos três lições para tirar desta última manifestação:

1) Os partidos burgueses e da direita liberal estão a favor dos ataques implementados pelo governo Bolsonaro: este foi um elemento marcante nas manifestações. Como colocou Marcello Pablito em sua fala no Bloco da CSP-Conlutas em São Paulo, a presença dessas forças políticas impedem que as demandas da nossa classe estivessem no centro da manifestação. Isso porque enquanto falam em palavras que querem “Fora Bolsonaro” os partidos burgueses e da direita liberal estão apenas buscando qual a via capaz de garantir que os lucros capitalistas não sejam afetados e que seja a nossa classe que continue pagando pela crise. Enquanto isso, estouram escândalos como o da Pandora Papers envolvendo justamente os grandes nomes do sistema financeiro no país como Paulo Guedes, Ministro da Economia e Roberto Campos Neto, presidente do Banco Central, com sonegação de impostos e lavagem de dinheiro movimentando trilhões, enquanto os trabalhadores passam fome, sofrem com a inflação e os baixos salários e o desemprego, além de todos os ataques que atingem os indígenas em nosso país.

2) A “amplitude” necessária não é buscando apoio em setores dissidentes entre as classes dominantes, e sim ampliando a mobilização dos trabalhadores e seus aliados oprimidos, movimentos sociais e juventude: Na realidade, o que chamam de “amplo” é a adesão de partidos e figuras políticas “por cima” a fim de conquistar alguma maioria no Congresso que pudesse encaminhar o pedido de impeachment. Vale lembrar que todos que defendem isso também dizem que consideram irrealizável o impeachment agora: Bolsonaro demonstrou forças, depois recuou, mas não está fraco o suficiente para cair. Sendo assim, a aposta desses setores é desgastar o governo até 2022, tentando fortalecer uma "terceira via". A única forma de romper esse script seria ampliar as forças da nossa classe, dos movimentos sociais e da juventude. Isso significa potencializar as lutas parciais em curso, a mobilização dos indígenas agora com a juventude à frente, unificando cada uma dessas iniciativas em uma luta comum que busque enfrentar os ataques e o governo Bolsonaro-Mourão, bem como todas as instituições de um regime que nos ataca permanentemente. Essa é a força social que pode questionar o equilíbrio instável que mantém Bolsonaro no poder.

3) O PT quer conduzir toda nossa revolta para a via eleitoral impedindo, através do seu peso na CUT, que os trabalhadores entrem em cena: Se a força social que pode de fato enfrentar este governo é a da classe trabalhadora organizada, atraindo o conjunto das massas oprimidas ao seu redor, é preciso ter claro que as grandes centrais sindicais, em especial a CUT e a CTB, vêm cumprindo um papel de domesticar qualquer processo de luta, mantendo isoladas essas lutas e impedindo qualquer forma de coordenação. Querem dissolver os trabalhadores em manifestações “cidadãs” com a direita em calendários espaçados sem qualquer plano de luta real.

Não é difícil imaginar a diferença que faria nossa classe entrando em cena: imaginemos uma forte paralisação nacional, construída na base dos grandes bastiões da classe operária brasileira, chamando a juventude a atuar lado a lado e na mesma semana em que ocorreu o acampamento indígena com mais de 10 mil em Brasília? É uma imagem potente da aliança que é necessária, mas nestes moldes não cabe a direita liberal que considera os métodos da classe operária “baderna”. Entretanto este caminho poderia significar uma perda de controle por parte do PT e destas direções que, no fundo, querem apenas desgastar o governo Bolsonaro para criar melhores condições para a entrada de Lula em 2022, que diga-se de passagem será um governo sem as condições econômicos do ciclo de crescimento dos primeiros governos do PT.

Diante destas lições, consideramos que se atualiza ainda mais a necessidade de unificar iniciativas da esquerda socialista e revolucionária no Brasil, independente de nossas diferenças políticas que nós do MRT já viemos expressando em relação a presença da direita nos atos, a convivência pacífica com as burocracias sindicais e o programa político para enfrentar o governo, uma vez que defendemos a necessidade de uma nova Constituinte Livre e Soberana imposta pela força da mobilização. Porém, estas divergências que precisamos seguir debatendo não podem ser impeditivos para avançar em pontos que tenhamos acordo e por isso queremos debater com todas as correntes que se reivindicam socialistas e revolucionárias. O último Congresso do PSOL votou lamentavelmente, e desde já, uma subordinação política do partido ao PT expressando que as crises nesta organização devem aumentar. Os setores da Oposição de Esquerda do PSOL e do Movimento Esquerda Radical, ainda que programaticamente estejam unificados com a ala majoritária, questionam esta adaptação ao PT.

Entretanto esse questionamento precisaria avançar no sentido de debater estes limites que as manifestações, tais como têm ocorrido, estão impondo para nossa classe e para todo o povo pobre. Ao mesmo tempo, o PSTU e ativistas lançaram um chamado à construção de um Polo Socialista e Revolucionário que nós do MRT respondemos positivamente nos propondo a ser parte e estar na Plenária de Lançamento do Manifesto no próximo dia 7. Acreditamos que esta iniciativa é necessária para unir e reagrupar os setores de vanguarda da esquerda socialista em uma situação de enorme fragmentação da esquerda e quanto as tarefas que estão colocadas e é urgente para enfrentar os ataques em curso. Em nossa visão, um Polo neste sentido deveria ter como tarefa central potencializar a intervenção unificada dos socialistas na luta de classes. Queremos debater, também, propostas e iniciativas de outras correntes, como o PCB que vem propondo a defesa de um Encontro Nacional da Classe Trabalhadora, iniciativa que consideramos que poderia ser favorável à organização dos trabalhadores nesta situação.

Algumas das correntes internas do PSOL inclusive são parte hoje da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores - Unidade, como a CST (organização irmã da Izquierda Socialista) e a Alternativa Socialista (que integra a LIS e é organização irmã do MST argentino), que é um exemplo de uma frente de independência de classe que se apresenta nas eleições mas sempre buscando ter uma intervenção em comum na luta de classes. Nesta Frente também estão companheiros do PSTU que puderam apresentar suas candidaturas. A FIT é um exemplo de que a independência de classe pode atuar em vários terrenos sem necessidade de buscar atalhos com a conciliação de classes ou com a força da direita liberal. Hoje, no Brasil, é urgente reagrupar e unificar os setores da esquerda socialista pra diante da grave crise econômica e social do país, onde o agronegócio e os grandes empresários exploram os trabalhadores e o povo pobre, e levantarmos em comum um programa para que sejam os capitalistas que paguem pela crise.




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