14J NA USP

Lições do 14 de Junho na USP: qual é a estratégia para os trabalhadores vencerem a reforma da previdência e Bolsonaro

quinta-feira 27 de junho| Edição do dia

UM BALANÇO ALTERNATIVO AO APRESENTADO NO BOLETIM DO SINTUSP

O dia 14 de junho foi um dia de luta dos trabalhadores, com paralisações, manifestações e protestos por todo o país, mostrando energia e disposição de luta dos trabalhadores para enfrentar Bolsonaro e a reforma da previdência. Os atos e paralisações abrangeram mais de 100 cidades em todos os 26 estados e Distrito Federal. Houve paralisações importantes de rodoviários no DF e em Salvador, e de metroviários em SP e BH, além de 10 das 12 refinarias do país, polo Petroquímico de Camaçari, no ABC a Volks, Mercedes e diversas fábricas menores, Randon em Caxias do Sul (RS), além de outras estruturas importantes.

Mas não foi uma jornada muito mais forte por conta da traição orquestrada pelas centrais sindicais, a começar pela UGT, que já na madrugada desmontou a paralisação em rodoviários em vários lugares e em SP organizou junto à CUT também o recuo na CPTM, acompanhada pela Força Sindical e com a conivência da CUT e da CTB que fizeram campanha para que os trabalhadores ficassem em casa, ao invés de construir uma greve ativa e nas ruas. Dessa forma, o 14 de Junho foi um dia bastante controlado pelas centrais sindicais cujo objetivo não era derrotar integralmente a reforma da previdência, mas utilizar a força de nossa mobilização para obter uma proposta alternativa de reforma da previdência e um acordo a partir da queda da MP 873 que ataca o financiamento dos sindicatos (e ao mesmo tempo os privilégios dessas burocracias), como vinham há meses negociando com Rodrigo Maia e o Centrão em reuniões públicas e de bastidores. Foram meses de trégua das centrais ao governo Bolsonaro, optaram por não unificar a luta dos trabalhadores com a juventude que tomou as ruas nos dia 15 e 30 de maio e se isso já não fosse o bastante, a UGT declarou que estavam contra a greve geral e Paulinho da Força (que é deputado de um dos partidos do Centrão) disse no 1º de Maio que seu objetivo não era barrar, mas "desidratar" a reforma da previdência, que seu partido votou para aprovar na CCJ da câmara. E para coroar, as centrais escancararam sua traição ao tomar conhecimento no dia anterior ao 14J da proposta "alternativa" de reforma apresentada por Samuel Moreira (PSDB). Enquanto isso, PT e PCdoB (que dirigem a CUT e a CTB) deram sua benção à reforma da previdência com seus governadores publicando uma carta de apoio à reforma e se articulando com Maia para que a reforma federal valha para seus Estados.

Nós, do Movimento Nossa Classe, viemos alertando sobre a intenção escancarada das direções das centrais sindicais de negociar a retirada dos nossos direitos e apontando a necessidade dos trabalhadores se organizarem em assembleias de base para impor a mais ampla frente única operaria, única forma de derrotar Bolsonaro e a reforma da previdência e avançar para superar essas direções. Por isso, defendemos insistentemente em todos os espaços de nosso sindicato (diretoria, CDB e assembleias) que, além do SINTUSP se posicionar contrário a qualquer projeto de reforma da previdência, era preciso exigir que as centrais sindicais parassem imediatamente de negociar nossa aposentadoria com Guedes, Maia e o Centrão (denunciando também os governadores do PT e PCdoB que vinham acenando seu apoio à reforma) e construíssem pela base um verdadeiro plano de luta, que unificasse nossas forças com a juventude para derrotar Bolsonaro, Maia, a reforma da previdência e os cortes na educação. Foi também como parte dessa batalha que propusemos um chamado à formação de um Comando Nacional de Mobilização com delegados eleitos nos locais de trabalho e de estudo para os trabalhadores tomarem a luta em suas mãos; e que a CSP-CONLUTAS, a INTERSINDICAL (PSOL), os parlamentares do PSOL e Guilherme Boulos parassem de falar em unidade acrítica e conformassem um polo de independência de classe. No Sintusp, batalhamos para expressar fortemente essa unidade com a juventude com os trabalhadores tomando a defesa da educação como parte de sua luta.

Por que fazer um balanço do papel das centrais sindicais no dia 14 de Junho?

Demos toda essa batalha para que o SINTUSP mantivesse como centro nos seus materiais, boletins e faixas a denúncia desse papel traidor das centrais sindicais a contragosto da ala majoritária da Diretoria do Sintusp (composta pelo grupo Coletivo Piqueteiros e Lutadores) e das demais correntes que compõem a diretoria do sindicato como o PSTU (que dirige a CSP-Conlutas) e a TS ou que atuam na oposição à direção do sindicato como o Movimento de Esquerda Socialista (PSOL). Lamentavelmente esses grupos se recusaram tanto no Sintusp, como na CSP-Conlutas, a alertar os trabalhadores sobre esse objetivo da cúpula das centrais, encobrindo sua política em nome da unidade e, por essa via, facilitando o trabalho para que continuem negociando nosso futuro entre quatro paredes com Maia e o Centrão que estão avançando na tramitação da reforma. Política à qual a CSP-Conlutas e a Intersindical se adaptaram absolutamente.

Ao problema de conteúdo se soma ainda um problema de método, na medida em que o setor majoritário da diretoria (composto pelo Coletivo Piqueteiros e Lutadores) reiteradas vezes sequer expressa nos boletins do sindicato as posições políticas aprovadas nos fóruns da categoria quando estas posições não são convergentes com as suas, como se evidenciou nos boletins nº46 e nº47 que precederam a paralisação nacional, sem expressar nenhuma das exigências e denúncias às centrais sindicais, repetindo que elas estariam convocando "a maior Greve Geral da história". Isso quando não impõem diretamente sua própria visão e posição política sem pautar nas instâncias do próprio sindicato (nem mesmo na diretoria), como ocorreu mais escandalosamente no boletim nº48, após o dia 14 de junho, em que é apresentado um balanço escrito pelo Coletivo Piqueteiros e Lutadores em nome do SINTUSP.

No boletim nº 48 escrito pelo Coletivo Piqueteiros e Lutadores em nome do SINTUSP, mesmo frente à traição das centrais é apresentada uma visão extremamente alegre e acrítica do que foi a paralisação nacional do dia 14 de junho deixando-se mais uma vez de debater abertamente com a categoria porque é necessário combater e ultrapassar a política de traição e controle das direções das centrais sindicais que boicotaram a força que poderia ter esse dia na luta contra a reforma da previdência. Inclusive, em relação a postura escandalosa da UGT, o boletim cita brevemente, mas ainda assim tentando justificar essa traição como sendo reflexo das ameaças de multas judiciais, e não das negociações que vinham acontecendo com o congresso e o governo. No boletim seguinte, nº49, até mesmo essa referência desaparece, e se diz somente que "a Greve Geral de 14 de Junho segundo avaliação paralisou 45 milhões de trabalhadores em todo o país". Segundo avaliação de quem? O que não se diz é que essa avaliação que o boletim do Sintusp divulga não foi feita em nenhum fórum do sindicato, mas sim em uma nota das mesmas centrais sindicais que traíram e fizeram com que o 14J ficasse muito aquém do que poderia e seria necessário, assinada em comum por todas as centrais, da UGT à CSP-Conlutas!

Esse balanço continua servindo unicamente para encobrir a política traidora das centrais e demonstra que nenhuma lição séria foi tirada pelo Coletivo Piqueteiros do significado do dia 14 de junho, do papel dessas centrais e das tarefas que a classe trabalhadora tem pela frente. Na mesma linha segue a CSP-Conlutas, dirigida pelo PSTU, que assina essa carta de balanço unificado em comum com as demais centrais sindicais (inclusive a golpista e traidora UGT) dizendo que a greve foi "muito positiva (...) resultado da unidade de ação do movimento sindical" e que o próximo passo será a ampliação (sic!) dessa unidade, a entrega de um abaixo-assinado e o acompanhamento da tramitação da reforma no Congresso.

Dessa forma, mesmo em meio à crise da Lava jato, com revelações das conversas de Moro e dos procuradores de Curitiba que confirmam o que viemos denunciando pelo Esquerda Diário e debatendo na categoria em relação às arbitrariedades da prisão do Lula, mesmo em meio a essa crise, as centrais sindicais e seus respectivos partidos conseguiram manter o 14J sob controle para utilizar a força de nossa mobilização não para barrar mas para negociar pelas nossas costas meras modificações na proposta de reforma da previdência de Bolsonaro, sem tocar no aumento da idade mínima e tempo de contribuição que nos farão trabalhar até morrer, em conluio com o centrão e com Rodrigo Maia, chegando a permitir que a burguesia possa ter a expectativa de aprová-la ainda neste semestre.

A USP no 14 de junho: um balanço necessário sobre vanguardismo e cegueira política

Neste mesmo boletim nº48 escrito pelo Coletivo Piqueteiros e Lutadores em nome do SINTUSP está colocada a orientação de “seguir e aprofundar a radicalização”. Frente a isso, vemos como necessário fazer uma discussão com a categoria. Os trabalhadores da USP e o Sintusp carregam uma trajetória de muitas lutas, da qual nos orgulhamos de ser parte e que durante décadas vem impondo importantes limites aos planos neoliberais da reitoria da USP, do governo e dos patrões. Justamente por isso se tornou um sindicato perseguido com dezenas de ativistas e diretores processados e inclusive demitidos como Brandão, Alexandre e Givanildo. Mas para derrotar os ataques de Bolsonaro e dos patrões que querem descarregar a crise capitalista em nossas costas não basta apenas lutar, repetindo aleatoriamente acertos e muitos erros do passado ou improvisando, é necessário ter uma estratégia para vencer e para isso é preciso tirar lições dos erros para evitar outros ainda piores e mais graves que podem liquidar setores inteiros dessa vanguarda!

As diferenças políticas que se expressaram em vários momentos com grupos como o setor majoritário na direção do SINTUSP, o Coletivo Piqueteiros e Lutadores, e também o PSTU e a Transição Socialista (TS), que mesmo após as evidências assumidas por Moro de intervenção direta pela via da Lava-jato sobre o regime democrático burguês brasileiro, seguem defendendo direta ou envergonhadamente o golpe institucional (que veio para atacar os trabalhadores mais rápida e intensamente do que o PT já vinha fazendo), legitimando o avanço do autoritarismo do judiciário e a prisão arbitrária de Lula se expressam mais uma vez no terreno e na orientação da luta de classes.

Essa miopia política na leitura sobre a realidade do país leva a que esses grupos, sobretudo o grupo Piqueteiros e Lutadores, sigam defendendo ações aventureiras e atuando no cotidiano de maneira rotineira, ignorando a relação de forças, subestimando nossos inimigos e se recusando a reconhecer que após o golpe institucional não se abriu uma situação mais favorável à luta dos trabalhadores como vinham defendendo. Quando está cada vez mais claro que a preocupação tem que ser fortalecer o sindicato e a organização dos trabalhadores para enfrentar uma situação mais difícil, pensando as ações para que envolvam uma parcela maior dos trabalhadores, para que elas sejam mais fortes e eficazes e para que a vanguarda se ligue à base e não fique exposta, seguem sempre com essa defesa de "aprofundar a radicalização", sem se preocupar se será de poucos (e cada vez menos, de forma cada vez mais inofensiva). Assim, seguem atuando como se a relação de forças entre os trabalhadores e os patrões se mantivesse a mesma, independente de se vivemos sob um governo de extrema direita, herdeiro do golpe, inspirado no governo de Trump, apoiado pelas forças armadas e os setores mais reacionários da sociedade como é Bolsonaro, igualando-o a Temer (um governo que tinha 3% de aprovação), Dilma ou Lula (que também atacaram os trabalhadores, mas eram obrigados a enfrentar a contradição de se enfrentar com sua própria base social de trabalhadores e estudantes dirigidos pela CUT, CTB, UNE, UBES); independente se os poderes judiciário e militar estejam cada vez mais influentes na política e fechando autoritariamente o regime e, tomando medidas muito mais autoritárias contra a organização sindical e política dos trabalhadores. Na paralisação nacional, os governadores do PSDB em SP e RS, João Dória e Eduardo Leite, encorajados pelo governo Bolsonaro, adotaram uma política repressiva com prisões e demissões de trabalhadores nas categorias que tiveram forte participação, como metroviários em SP, condutores em Guarulhos e RS.

Batalhamos em vários momentos (como nas greves de 2016 e de 2018) para mostrar que esta visão completamente equivocada da realidade nacional, que ignora as mudanças na relação de forças onde atuamos, somada a uma orientação que recorrentemente leva a ações em que a vanguarda se separa do conjunto dos trabalhadores, é não apenas ineficaz e inofensiva aos nossos inimigos como termina expondo completamente a vanguarda à ação repressiva do Estado e da classe dominante, o que frente a atual situação nacional só pode levar os trabalhadores à derrota.

Essa visão alegre e iludida com a democracia burguesa, para não dizer completamente deturpada da realidade, misturada com uma estratégia que descola a vanguarda da massa orientada pela ideia de que um punhado de pessoas fazendo ações radicalizadas (sem qualquer avaliação da relação de forças, de como estão nossos aliados, nossos inimigos e sem objetivos políticos claros e debatidos democraticamente com os trabalhadores) podem substituir o papel de sujeito das massas trabalhadoras, cobrou seu preço com a derrota da greve de 2016 e poderia ter cobrado um preço ainda maior durante a paralisação do dia 14 de junho. Por isso é ainda mais crucial não desvincular os métodos de luta da nossa classe dos seus objetivos e de seu conteúdo político, pois se mostrou mais uma vez que métodos radicais, quando ligados a uma política de adaptação às centrais sindicais, só servem para encobrir e fazer parecer mais combativa a política de traição desses burocratas da UGT, CUT, Força Sindical e CTB, ao custo de expor a vanguarda e seu sindicato que já é bastante perseguido.

Nesse sentido achamos que é fundamental que possamos debater esses assuntos nos fóruns da categoria, desde a diretoria do sindicato ao CDB e assembleia, para extrairmos profundamente essas lições e podermos organizar a categoria de trabalhadores da USP com uma estratégia para vencer e não orientar nossas ações por "golpes de efeito". Nós, do Movimento Nossa Classe, como minoria da Diretoria do SINTUSP, temos cobrado a necessidade de uma reunião de Diretoria esta semana e uma assembleia urgente na próxima semana para podermos debater democraticamente um balanço do dia 14 de junho, tirar as lições desse dia, de nossos erros e acertos e podermos organizar a categoria para os próximos passos diante dessa traição escancarada das centrais sindicais, da luta contra toda a forma de repressão e contra a reforma da previdência.

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