Cultura

MARX E A LITERATURA

Karl Marx poderia ter sido também um grande romancista

Sabemos que o Materialismo Histórico Dialético é a filosofia que explica o movimento da história, acabando por apresentar o papel político revolucionário do proletariado enquanto coveiro do capitalismo. Mas ainda pouco estudado é o fato do formulador desta concepção filosófica, ter sido um escritor de mão cheia: a prosa satírica de Karl Marx, abrange um legado estilístico que funciona como armadura literária para se discorrer sobre História e Economia Política.

Afonso Machado

Campinas

sexta-feira 15 de março| Edição do dia

Antes de enveredar pelos caminhos teóricos em que o tripé de Hegel, Feuerbach e da Economia Política inglesa acabaria por fornecer as bases do seu pensamento, Marx ambicionava ser poeta, dramaturgo e ficcionista. O excelente trabalho que a Editora Boitempo tem realizado em torno publicação e divulgação da obra de Marx e Engels, não para de apresentar deliciosas surpresas, reveladoras inclusive do talento literário dos pais do socialismo científico. No ano passado, por exemplo, a referida editora publicou KARL MARX: ESCRITOS FICCIONAIS. A edição apresenta um romance satírico inacabado que levou o título de ESCORPIÃO E FÉLIX, e uma peça teatral intitulada OULANEM. Como explica Carlos Eduardo Ornelas Berriel, são escritos anteriores ao Marx que conhecemos: estamos diante de um garoto de 19 anos aspirante a escritor, que no sexagésimo aniversário de seu pai lhe dedica estas pequenas obras.

O romance ESCORPIÃO E FÉLIX e a peça OULANEM foram escritos em 1837 e redescobertos em 1929. Segundo consta estes escritos de juventude não despertaram muito interesse nos meios literários marxistas: aquela altura, ou seja a virada dos anos de 1920 para os anos de 1930, escritores de esquerda debatiam intensamente a questão da literatura proletária, sendo que os enredos que não apresentassem chaminés e operários adquiriam declarado desprezo . Tendo em mente a burocratização estética em torno do Realismo Socialista, não seria forçoso especular se a miopia literária/política dos stalinistas encarou os experimentos literários de Marx como “ pequeno burgueses “. Todavia estes escritos revelam em seu desrespeito às tradições literárias do período, um autêntico quadro satírico que não poupa o pedantismo, a mentalidade burguesa, o conservadorismo e o academicismo tão em voga na Alemanha do jovem estudante Marx.

Os escritos literários que Marx compõe no final da sua adolescência, sugerem a presença de um autor que logo irá sair do casulo romântico para tomar de assalto o pensamento europeu: o realismo científico do Materialismo Histórico iria fotografar com palavras cada palmo do edifício capitalista, revelando seus crimes em todos os andares. Enquanto leitor da prosa de Laurence Sterne e da poesia de Heinrich Heine, o jovem Marx começou a trilhar os caminhos contestadores da sua escrita que fulminaria as divagações espirituais da literatura idealista, acabando por atravessar a cultura com a impiedosa análise materialista das sociedades humanas. É o embrião da prosa em que a sátira aliada ao rigor científico da análise, mostraria aos leitores , anos mais tarde, a forma e o conteúdo do modo de produção capitalista.

Seria um equívoco supor que houve um cisão entre o jovem escritor e o amadurecido teórico revolucionário: os exercícios literários e jornalísticos de Marx, araram o terreno da escrita para voos filosóficos mais ambiciosos, que culminariam na crítica demolidora da civilização burguesa. Logo o caráter científico da obra que Marx desenvolve em parceria com Engels, é comunicado por uma prosa realista e vibrante em que metáforas, alegorias e zombarias lhes atribuem nítidas qualidades literárias.

Entre seus escritos juvenis e suas densas obras de viés histórico, econômico e filosófico, Marx apresenta constantemente uma vigorosa energia literária que nos leva a seguinte hipótese: Marx poderia ter sido um dos maiores romancistas do século XIX. Quando o conjunto da sua obra é encarado sob o ponto de vista estilístico, é possível imaginar o que Marx poderia ter realizado em termos de ficção. Certamente ele não ficaria atrás de um Balzac, de um Flaubert ou de um Zola. Marx, um apaixonado pela literatura e pelo teatro, também deve ser entendido como um notável escritor.




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