Cultura

TROPICÁLIA

José Agrippino de Paula - Tropicalismo e Miséria no Terceiro Mundo

Meu objetivo aqui é apresentar alguns elementos do livro PanAmérica (1967) e do filme Hitler III Mundo (1968) do escritor, dramaturgo e cineasta paulistano José Agrippino de Paula (1937-2007), um dos nomes fundamentais da Tropicália e da contracultura no Brasil dos anos 1970 que conheceu o isolamento e a pobreza a partir dos anos 1980.

terça-feira 24 de novembro de 2015| Edição do dia

PanAmérica: epopeia pop tropicalista

1967. Explode no Brasil uma série de manifestações estéticas mais ou menos espontâneas produzidas no calor de uma época de guerrilhas, rebeliões estudantis, psicodelia e rock n roll. Dentre as inúmeras obras que surgiram neste ano singular para a arte no país, destacamos a peça o Rei da Vela do Teatro Oficina, o filme Terra em Transe de Glauber Rocha, a arte ambiental Tropicália de Hélio Oiticica, Alegria, Alegria de Caetano Veloso, Domingo no Parque de Gilberto Gil e o livro PanAmérica de José Agrippino de Paula.

Estas experiências, e principalmente a produção musical de Gil e Caetano foram batizadas logo depois de tropicalismo pelo jornalismo oficial. Seguindo esta lógica-logística dos rótulos que a grande mídia usa para enquadrar explosões, PanAmérica, segundo livro de José Agrippino, seria a expressão literária da Tropicália ou do tropicalismo. Alguns críticos, pensando na forte presença da Pop Art (Andy Warhol e Cia) nesta obra, vão usar o termo pop tropicalista ou pop terceiro-mundista para tentar definir esta epopeia contemporânea descrita por um narrador multifacetado recheada de estrelas de Hollywood, atletas, políticos, agentes da repressão, cantores, peixes, macacos, lagartixas, leões e automóveis. Com irreverência mordaz, o autor se apropria dos mitos contemporâneos como Marilyn Monroe e das modernas técnicas da propaganda e do cinema para apresentar numa tela fantástica o avesso da Sociedade do Espetáculo.

Agrippino inicia este experimento literário com o narrador (no início do livro um diretor de Hollywood) sobrevoando uma praia de gelatina verde que irá servir de cenário para a sua adaptação cinematográfica da Bíblia. O helicóptero passa sobre um caminhão de gasolina onde um operário negro da indústria cinematográfica experimenta um lança-chamas que será usado numa das cenas do filme. Ele aponta para o piloto o caminhão de gasolina e o helicóptero faz uma manobra sobre o caminhão tanque e pousa alguns metros adiante. O narrador, espécie de Homero com sua Ilíada Eletrônica na Semi-Colonia, salta da aeronave e pergunta ao operário negro como está o lança chamas para funcionar como uma coluna de fogo. O operário diz que está tudo ok! E Burt? pergunta o narrador. O funcionário da fábrica de sonhos não sabe do paradeiro do ator Burt Lancaster, contratado para fazer o papel de Anjo do Senhor nesta montagem bíblica caótica imaginada por Agrippino. Neste instante o narrador vê surgir do fundo de um edifício um caminhão trazendo Burt Lancaster com duas enormes asas brancas sobre os ombros. Imóvel sobre a carroceria do caminhão, o astro de Hollywood se queixa do excesso de peso das enormes asas, coloca em xeque a resistência dos fios de nylon que o prendem ao helicóptero numa das cenas e se lamenta dizendo que é perigoso permanecer pendurado no topo da coluna de fogo produzida pelo lança chamas. Irritado, o famoso diretor afirma estar tudo sob controle.

Trombetas e tambores tocam e no fundo do túnel Joe DiMaggio (famoso jogador de beisebol) aparece sendo carregado num palanque por dez homens negros eunucos. A multidão se levanta e todos cantam o hino da chegada de Di Maggio. O herói-atleta, com seu capatece dourado, levanta sua foice de prata e a sua capa de seda vermelha. O jogador abaixa a foice de prata e as trombetas e os tambores cessam e em seguida a multidão finaliza o hino e dá um hurra. DiMaggio sorri de seu palanque, ordena que os eunucos depositem o palanque no chão, ele desce lentamente as escadas cobertas de veludo, agita sua capa de seda vermelha e toca com os pés no solo do campo de beisebol. Os fotógrafos correm para o centro do campo, estouram os seus flashes e as câmeras de tv e cinema fixam dentro de suas cabinas a imagem do mito americano.

O agente do DOPS subiu a escada seguido dos policiais que levavam as metralhadoras apontadas para cima. O narrador (agora um guerrilheiro latino-americano nada conservador sexualmente) foge, sai correndo entre os prédios suspensos pela coluna. Não há saída, somente uma parede úmida de concreto. Está encurralado e observa os dois agentes do Departamento de Ordem Política e Social. O pescoço de um dos agentes é artificial e feito de plástico transparente luminoso. Eles sorriem maliciosamente para o major encarregado do Inquérito Policial Militar. O narrador corre para a garagem do prédio e segue o macaco que saltava veloz os degraus da escada estreita. Tomam um ônibus, depois um táxi e andam mais alguns quilômetros debaixo do sol. Param num bar. Famílias sentadas tomam sorvete. Famílias fazem fila para tomar sorvete. Neste instante entra no bar o agente do DOPS e aponta o revólver para o narrador que saca sua arma e dispara contra o agente da repressão. Ele vê as balas atravessando o homem do Departamento de Ordem Política e Social. Tiros. As famílias correm e o narrador sente um furo no estômago e depois o sangue quente escorrer e manchar a camisa de vermelho. Os policiais o carregam entre as famílias que tomam sorvete e o jogam numa cela pequena e escura onde é castrado por um sargento. Não consegue gritar. É enviado para um hospital e depois para um manicômio. A epopeia da sociedade de consumo segue em ritmo de aventura alucinante até a explosão do planeta Terra.

Hitler III Mundo: Terror e Miséria no Brasil dos generais.

Em dezembro de 1968 é decretado o Ato Institucional n 5, o AI-5, quinto decreto da Ditadura que deu plenos poderes ao general Arthur da Costa e Silva para censurar, torturar e matar trabalhadores, militantes de esquerda, LGBT e artistas. A matança é institucionalizada nos porões da Ditadura. Os censores agora se instalam permanentemente nas redações de jornais e revistas. A censura prévia é terreno fértil para a autocensura. A explosão artística do começo dos anos 1960 no Brasil é abafada brutalmente. Muitos artistas são presos, torturados e exilados, outros, com medo ou interessados, passam a colaborar diretamente com o regime ou então se adaptam aos grandes meios de comunicação de massa. Neste clima de intensa repressão e censura José Agrippino escreve, dirige e produz o seu primeiro e único longa-metragem intitulado Hitler III Mundo. Rodado na clandestinidade em condições bastante precárias, o longa é um marco do Cinema Marginal brasileiro. Trata-se de um filme não-linear, sem um personagem principal e realizada a partir de improvisações mais ou menos organizadas. Assim como PanAmérica, Hitler III Mundo é uma experimentação estética radical.

Uma máquina de escrever gera os créditos do filme. O grupo de teatro Sonda, dirigido por Maria Esther Stockler e Agrippino de Paula apresenta: Hitler III Mundo. dfgjhjjjjjjjeedjhgf. Um filme de José Agrippino de Paula. Elenco: Jô Soares, José Ramalho, Eugênio Kusnet, Luiz Fernando de Rezende, Túlio de Lemos, Silvia Werneck, Maria Esther Stockler, Ruth Escobar, Jairo Salvini, Manoel Domingos Filho, Fernando Bennini, Dimas, Ivan de Almeida Medeiros Lima. Humberto Scheick. Fotografia e camêra: Jorge Bodanzky. Montagem: Rudá Andrade (filho de Patrícia Galvão e Oswald de Andrade) e Walter Luiz Rogério.

Começa o filme. Uma dona de casa branca e pequeno burguesa, mito da família tradicional brasileira, abre uma geladeira vazia. O marido, uma espécie de Nosferatu de terno e gravata, invade a cena com um grito abafado no ar. O pneu do Volkswagen do casal está furado. Ouve-se uma sessão de tortura. Ele puxa um cadáver pelos pés. Cientistas controlam seus equipamentos. Perfeito, o golpe de Estado será executado por um robô. Adolf Hitler ainda é um conservador democrata. Morte ao Primeiro Ministro. Fascismo Radical. A burguesia brasileira financiada pelos EUA institui a Ditadura no país. O Direito sob a mira de uma metralhadora fecha acordos na Central de Golpes Militar no III Mundo. Som das tropas marchando. O povo precisava de coisas diferentes. O povo procurava isso e então surgiu Adolf Hitler. O robô nazista quer matar Hitler. Uma jovem é assassinada. Outros jovens vão morrer neste filme. A juventude corre perigo pós o AI-5. Sons de galinha, elefante e porcos.

Estúdio de TV. Programa de auditório do Silvio Santos. O empresário do entretenimento apresenta seu Concurso de mulheres: o cabelo comprido, a mulher mais baixa, a mulher mais alta, etc. É a mesma miséria de hoje, o mesmo tom, a mesma risada, o mesmo ódio racista, machista e homofóbico propagado pelos grandes meios de comunicação. Agrippino rasga o véu do entretenimento. Um samurai anda por uma favela de São Paulo. Nesta cena podemos ver a situação da classe trabalhadora brasileira no final dos anos 1960. Barracos de madeira, crianças pobres e negras descalças e o chão de terra compõem a geografia da fome. Soldados nazistas cumprimentam o Magistrado. Adolf Hitler entra no estúdio de um artista que pinta um Batman melancólico. O artista, o ditador alemão e o magistrado conversam. O artista mastiga um pedaço de carne. Os pés dos enforcados compõem a cena. Discursos no campo de futebol. O carrasco despe uma jovem. O magistrado a cobre com um plástico transparente enquanto ouvimos a canção do exílio Charles Anjo 45 de Jorge Bem. A jovem é assassinada pelo carrasco. No hospital, um enfermeiro carrega um defunto coberto por um lençol branco numa maca.

Tá na hora do pau! Mas O Coisa, ou o Homem de Pedra (Quarteto Fantástico-Marvel Comics) forte, ágil e com uma longevidade além das limitações humanas aparece desolado no longa-metragem de Agrippino. O herói de pedra está triste e fuma um charuto dentro de uma Kombi. O samurai traz uma bacia de alumínio cheia de folhas secas. Crianças e adolescentes pobres e negros estão confinados numa espécie de chiqueiro improvisado entre os barracos da favela. O samurai joga as folhas como se estivesse alimentando porcos. Uma mulher branca e burguesa toma café. Seu carro capota subjetivamente nas ruas ricas de São Paulo. Ela passa por um grupo de trabalhadores pobres. Corta. Hitler III Mundo e os EUA conversam numa cama. Adolf Hitler, pelado, escova os dentes com o pé apoiado no vaso sanitário enquanto os EUA toma banho. Cachorros latem. Alguém bate na porta do banheiro. Hitler vai atender. É a burguesa que vai pedir ajuda para livrar um jovem da tortura. Hitler diz que isso não é com ele, mas com o Departamento de Tortura. A mulher diz que já passou pelo Departamento de Tortura e disseram que só o Senhor da Guerra pode resolver. O ditador considera o caso grave porque se trata de um terrorista. A burguesa diz que é necessário uma solução. Hitler e os EUA confirmam que no domingo vão resolver este problema. O samurai aparece no banheiro e mata o ditador ao som de Jimi Hendrix.

Os ditadores tem um dia de descanso por semana.
Hitler almoça enquanto os EUA folheia a revista Fatos e Fotos. Eu sentei de pijama na varanda do meu palácio e não vi nada. Só carnaval, miséria e morte. Hitler III Mundo toma seu chá e diz amar os animais. Uma sessão de tortura é transformada num ritual macabro. O corpo estendido numa mesa recebe choque e uma espada introduzida no ânus. Fascista num Jeep segura a bandeira do Estado de São Paulo. O Coisa recebe o homem da TV em sua casa. Jogam cartas e conversam. Coisa vence a partida e o homem do entretenimento sai enfurecido. O herói de pedra sobe no topo de um edifício. Ele quer se matar. Policiais reais que aceitaram participar desta cena prendem o personagem da Marvel. O homem de pedra é levado para o camburão. Ator e câmera estão dentro de uma viatura pós AI-5 gravando uma cena de Hitler III Mundo. Jovens se amam ao som de rock psicodélico. O nu e o sexo aqui são transgressores e alegres, sem neurose, culpa ou penitências.

Corre a barca da polícia no governo do general Emílio Garrastazu Médici, um dos períodos de maior perseguição política na história do país. A casa de José Agrippino e de sua companheira, a bailarina Maria Esther Stockler era um ponto de curtição na Paulicéia Desvairada no começo dos anos 1970. A polícia vigia o casal, estão à procura de drogas. O autor de PanAmerica é preso e sua foto algemado estampa a capa do jornal Última Hora. Recebe ameaças de morte. Agrippino e Maria Esther fogem do Brasil em 1971. Vão para a África, Europa e EUA. Retornam ao Brasil no final da década de setenta. A vida segue aos trancos e barrancos.

Em 1980 Agrippino de Paula é diagnosticado esquizofrênico. Ele não tem um emprego fixo e não faz arte para ganhar dinheiro. O clima é dos piores. Apagado conscientemente da história oficial do tropicalismo, o autor de PanAmérica e diretor de Hitler III Mundo passou um tempo perambulando pelas ruas de São Paulo e com a ajuda de seu irmão foi viver numa pequena casa no município de Embu das Artes, na Grande São Paulo. Morreu em julho de 2007 em decorrência de um infarto.




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