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TRIBUNA ABERTA

Ir ou não aos protestos de amanhã, eis a questão

Ir ou não aos protestos de amanhã, eis a questão. E que questão legítima essa. Uma questão sobre a qual realmente vale refletir sobre.

sábado 6 de junho| Edição do dia

Desde o assassinato cruel de George Floyd o mundo vem sendo sacudido, revirado, colocado em chamas — não só pela morte de George, mas pelo genocídio do povo negro como um todo, fato que perdura há tantos e tantos séculos. As ruas vêm sendo tomadas pelo povo, sempre com os negros na linha de frente, fazendo com que suas vozes ecoem exigindo justiça.

Entretanto, vivemos um contexto atípico, no qual enfrentamos uma pandemia que adoece e mata milhares de pessoas por dia. Os números são alarmantes, as perdas são irreparáveis e o povo negro, mesmo sem ter escolhido isso, também está nessa linha de frente, enfrentando o coronavírus. Isso porque a população mais afetada pelo vírus é a mais pobre e, majoritariamente, negra.

A população negra estatisticamente é aquela que menos têm acesso, seja à educação, saúde ou mesmo saneamento básico de qualidade — ou seja, acesso à água potável e um sistema de esgoto eficiente, que não coloque a saúde das pessoas em risco. Somado a isso há outras questões como as condições precárias de moradia, que favorecem doenças como a tuberculose, e uma alimentação inadequada, que acaba por favorecer doenças como hipertensão e diabetes. Sendo assim, a qualidade de vida da população negra, em geral, é extremamente precária, o quê fica ainda mais evidente em meio a pandemia, já que nada foi feito pelo governo com o intuito de assegurar a saúde da população mais pobre.

Contudo, existe uma outra questão, igualmente ameaçadora da sobrevivência negra: a violência policial. Isso porque a polícia é a parte do Estado responsável por defender a propriedade privada e assassinar, brutalmente, a população negra.

Mesmo em meio a pandemia, a chamada "guerra às drogas" não deixou de existir, e a polícia não deixou de subir as favelas e invadir as periferias e violentar e assassinar pessoas negras, não poupando nem mesmo crianças brincando dentro de casa.

Por essas questões, entre tantas e tantas outras — também ligadas ao racismo visto que ele é um sistema inteligente, sempre se reinventando, tal qual as empresas capitalistas — que o povo negro tem tomado às ruas, mesmo em meio a uma pandemia. Se morremos pelo vírus e morremos nas mãos das polícias, então, que diferença faz, afinal? Ficar em casa, apenas, sem o direito a testes, EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) e renda, não estamos seguros. Tomar as ruas de um país construído por nossos antepassados é nosso direito, e iremos fazê-los. Tomar as ruas nesse momento não é ser irresponsável, é declarar que nosso silêncio jamais se perpetuará enquanto existirmos.

Ir as ruas amanhã é um ato de solidariedade por todas as vidas perdidas, inclusive as dos negros e negras que lá estarão, porque a morte não é só física e literal, também é subjetiva, emocional, mental. Ir as ruas amanhã é mostrar que basta. Ir as ruas amanhã será só o começo.

Contudo, cada um deve levar em consideração as próprias limitações e entender o papel que pode desempenhar mesmo possuindo tais limitações. Nem todos poderão ocupar as ruas amanhã, e nem todos devem — principalmente aqueles que são ou convivem com pessoas que fazem parte do grupo de risco —, mas podem se manter informados e compartilhar o máximo de informações possíveis. Precisamos garantir que o impacto da luta antirracista seja cada vez maior.




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