Teoria

TEORIA

Ideologia: o que se esconde por trás dessa palavra? [Parte II]

Segunda parte do texto publicado no sábado, 3 de outubro.

Gilson Dantas

Brasília

sábado 10 de outubro de 2015| Edição do dia

Primeira Parte

Continuando. O operário pode assimilar e se for bem inconsciente ou alienado, pode até defender o pensamento social do patrão (que não passa de uma ideologia que justifica a desigualdade social e tenta ocultar a exploração de classe), mas isso só irá nos mostrar o quanto é forte o pensamento social dominante. É um pensamento reproduzido o tempo todo – organicamente e a custa de muita grana - pelas escolas, igrejas, meios de comunicação, pelos políticos da ordem e é passado para a criança, por assim dizer, pelo leite materno, ou seja, pelo discurso e comportamento dos pais que absorvem o discurso dominante. [Neste caso estaríamos, supostamente, em um ambiente de luta de classes de baixa intensidade, onde as pessoas questionam pouco].

Mas a essa altura cabe a pergunta: de onde vem a força da ideologia? Vem daquela disseminada reiteração pelos “aparatos ideológicos” do tipo mídia e igreja? Deita suas raízes na esfera da propaganda?

Ora, ficar restrito a essa esfera da explicação seria mais ou menos como conceber a origem da ideologia como um processo de natureza cultural. E assim sendo, seria um problema de educação de propaganda (contrapropaganda, no caso). Sua mais decisiva matriz e fonte de realimentação, no entanto, provém das relações sociais de produção. Nas quais o produtor é alienado (pelo detentor dos meios de produção) do seu produto. Este fato, de que a classe trabalhadora esteja desapropriada econômica e politicamente da sua condição natural de sujeito da produção é a base incontornável da ideologia dominante.

Da mesma forma – e por isso mesmo - que vai ser pela ação política, na condição de sujeito político e revolucionário, na esfera da luta de classes (da assim chamada práxis), que o proletariado ativamente vai poder encontrar as condições e a chance de se desalienar. Nesta esfera, o proletariado se funde ao marxismo. Ele deixa de se enxergar como mercadoria força de trabalho, como subalterno, e pode implodir com sua velha consciência burguesa, idealista, com a ideologia. Tomar as fábricas e as empresas sob a forma de coletivos de trabalhadores e seus aliados pobres, eis a base da revolução ideológica e eis a revolução socialista e cultural em marcha (Este elemento, digamos seminal, não é suficientemente compreendido por autores como os aqui citados Konder, Ubaldo, Chauí e Guareschi). No entanto é inescapável: não basta a propaganda antiideológica, é fundamental revolucionar as relações reais, sociais, capitalistas, de produção. A luta social e política, de natureza prática portanto, é a dinâmica crucial que pode implodir a alienação ideológica.

Um papel essencial da ideologia dominante é o de esconder as diferenças sociais, a expropriação dos produtores (trabalhadores), ocultar a desigualdade social detrás de um discurso unificador ou universal do tipo todos somos mulheres, todos somos estudantes, todos podemos vencer, rico é a pessoa que soube poupar, todos somos iguais e o pobre só é pobre porque é preguiçoso... esse discurso vai longe, é repisado em toda oportunidade pelos ideólogos e intelectuais da ordem ou pela pessoa comum, inconsciente/ alienada.

É próprio da ideologia da classe dominante a valorização da pessoa pelo que ela aparenta ter, pelo que ela tem de riqueza, pela sua “posição” social. Por essa razão a mídia prestigia cotidianamente o burguês “bem-sucedido”, o empresário “empreendedor” promove também a ideologia do consumismo, a ditadura do individualismo, de “levar vantagem” em tudo, da corpolatria, da beleza cinematográfica, do estilo de vida das celebridades e assim por diante.

Nas últimas décadas, nas quais o sistema capitalista se sentiu forte (com a queda do bloco de países autoproclamados comunistas, na verdade ditaduras burocráticas; e também pelas derrotas políticas dos trabalhadores, com o avanço neoliberal e a destruição de direitos trabalhistas) as classes dominantes promoveram ao máximo o individualismo, o cada-um-por-si e o consumo desenfreado de mercadorias, passando certa ideia de que consumir é o que dá sentido à própria vida, que preenche vazios. E de que os templos, de consumo (como os shoppings), de ideologia (como as igrejas), estão em primeiro plano.

Também passaram a pregar o “fim da história” e naturalmente o “fim das ideologias”. Quem saiu ganhando com isso? Os ricos, que acumularam capital e privilégios como nunca.

Por isso essa ideologia do consumismo é funcional para a classe dominante. Ela procura esconder que a qualidade de vida da juventude trabalhadora vai de mal a pior, nos bairros, no trânsito, no trabalho, nas favelas da juventude perdida, nas escolas em decadência e nos hospitais cujas filas e abandono estão cada dia mais difícil de esconder.

A questão, ao mesmo tempo, é que mesmo sendo uma ideologia funcional, de toda forma, não se pode imaginar a destruição dessa ideologia apenas pela palavra. Chauí explica porque é assim:

“(...) o que faz da ideologia uma força quase impossível de ser destruída é o fato de que a dominação real é justamente aquilo que a ideologia tem por finalidade ocultar. Em outras palavras, a ideologia nasce para fazer com que os homens creiam que suas vidas são o que são em decorrência da ação de certas entidades (a natureza, os deuses ou Deus, a Razão ou a Ciência, a Sociedade, o Estado) que existem em si e por si e às quais é legítimo e legal que se submetam. Ora como, a ex-periência vivida imediata e a alienação confirmam tais ideias, a ideologia simplesmente cristaliza em ´verdades´ a visão in¬vertida do real. Seu papel é fazer com que no lugar dos domi¬nantes apareçam ideias ´verdadeiras´. Seu papel também é o de fazer com que os homens creiam que tais ideias representam efetivamente a realidade. (...) Quando se diz que ´o trabalho dignifica o homem´ e não se analisam as condições reais de trabalho, que brutalizam, entorpecem, exploram certos homens em benefício de uns poucos, estamos diante da ideia de trabalho e não diante da realidade histórico-social do trabalho.

(...) Todos podem realmente escolher o que desejarem? O nordestino, vítima da seca e do proprietário das terras, realmente ´escolhe´ vir para o sul do país? Escolhe viver na favela? O peão metalúrgico ´escolheu´ livremente fazer horas-extras depois de 12 horas de trabalho? A menina grávida que teme as sanções da família que teme as da sociedade ´escolhe´ fazer um aborto? A definição da liberdade como igual direito à escolha é a ideia burguesa da liberdade e não a realidade histórico-social da liberdade”.

Quando Obama fala que está preocupado com a democracia no Oriente Médio e apoia ao mesmo tempo o Estado ditatorial e genocida de Israel, os bombardeios da Arábia Saudita (coligada com os USA) contra mulheres e crianças no Iêmen ou os massacres contra o povo sírio, egípcio, nem é preciso pensar muito para se perceber nesse pensamento a mais grosseira ideologia, a mais evidente inversão da realidade. E assim por diante.

Quando se argumenta que ideologia é uma consciência distorcida (ou invertida) da realidade, certamente se está imaginando que deve existir uma consciência mais ´correta´ ou mais próxima da realidade, ou um pensamento social que não inverta a realidade.

Mas aí estamos de volta à questão: como reconhecer a natureza ideológica de um pensamento social (principalmente se considerarmos que o agente social que defende uma opinião ideológica está sinceramente convencido de que fala a verdade, de que seu pensamento é correto e representa a realidade)?

E também como reconhecer a ideologia se ela aparece encoberta, contraditória, obscurecida?

Diante da fala ou proposta ideológica, a sugestão de Ribeiro, é a de que “podemos endereçar a ela umas tantas perguntas. Que consequências concretas (muitas vezes não explícitas, ou mesmo ocultadas pelo autor da proposição) tem a aceitação dessa maneira de pensar ou dessa opinião? De que depende, para ser válida? A quem, em última análise, interessa? De quem é esta “verdade”? [...] Se “reduzirmos” bem, chegaremos com frequência a ver, por trás da afirmação, mesmo que o seu autor alegue ou julgue sinceramente o contrário, a raiz ideológica básica, a ligação com a nossa dicotomia”.

As pessoas que argumentam dentro da lógica de que ´quem estuda vence´ evidentemente não estão sendo fiéis à lógica da coisa, à lógica da realidade social do ensino brasileiro, por exemplo.

Um político pode se declarar contra o neoliberalismo, pode se achar um pós-neoliberal e, na prática, executar e apoiar medidas neoliberais, por exemplo. O caso típico é o do PT e seus governos.

O dirigente político pode se declarar socialista e aprovar genocídios executados contra seu próprio povo, como foi o caso de governos declarados socialistas, como o de Stalin, Pol Pot e outros.

Em suma: é crucial que se faça o exame crítico contra qualquer rótulo, qualquer proposta, qualquer argumento.

Esse exame crítico do real, ou tomada de consciência, por sua vez, é um processo necessariamente gerador de paixões, explicitador que é de contradições e conflitos. Mas é a única forma de tentarmos ser sujeitos da nossa vida e da mudança social. Desde que jamais deixemos de lado a ideia de Marx de que as armas da crítica não são substituto e sim preparação para a crítica das armas, isto é, que o problema ideológico só se supera na prática da luta de classes, no engajamento de classe, onde os trabalhadores se exercitem como sujeito das mudanças práticas, sociais, e da revolução social. O educador que se educa na marcha.

Até porque o papel prático dos ideólogos, dos intelectuais da ordem, em geral muito bem pagos para isso, é apassivar, neutralizar, desviar o espírito crítico dos trabalhadores e mistificar seu legítimo e real mal-estar com relação ao sistema.

O papel da ideologia é fazer, por exemplo, com que o trabalhador explorado naturalize as condições de exploração, as aceite como racionais, “normais”, assim como naturalize o fato de que uma classe vive da exploração, da dominação e do parasitismo sobre as outras, as que, de fato, produzem a riqueza. A ideologia serve para ocultar a realidade de fundo de que onde existe a propriedade privada dos meios de produção não pode haver interesse comum. E é funcional para reforçar aquela alienação básica, orgânica, antagônica, fundada nas relações de produção, de todo tipo de ideologia.

Uma ilustração disso podemos ver novamente no argumento de Chauí:

“(...) faz parte da ideologia burguesa afirmar que a educação é um direito de todos os homens. Ora, na realidade sabemos que isto não ocorre. Nossa tendência, então, será a de dizer que há uma contradição entre a ideia de educação e a realidade. Na verdade, porém, essa contradição existe porque simplesmente exprime, sem saber, uma outra: a contradição entre os que produzem a riqueza material e cultural com seu trabalho e aqueles que usufruem dessas riquezas, excluindo delas os produtores. Porque estes se encontram excluídos do direito de usufruir dos bens que produzem, estão excluídos da educação, que é um desses bens.

Em geral, o pedreiro que faz a escola, o marceneiro que faz as carteiras, mesas e lousas, são analfabetos e não têm condições de enviar seus filhos para a escola que foi por eles produzida. Essa é a contradição real, da qual a contradição entre a ideia de ‘direito de todos à educação’ e uma sociedade de maioria analfabeta é apenas o efeito ou a consequência.”

Na verdade, a contradição mais profunda vem do fato, de classe, de que o produtor não controla o que produz.

O campo da ideologia envolve interesse em esconder uma ideia, ou melhor, envolve a defesa de uma ideia distorcida sobre a realidade mesmo diante de fatos que provam o contrário, mesmo diante dos argumentos que mostram que aquela ideia está invertida. O problema não é, portanto, de argumento.

Os estudiosos acadêmicos frequentemente praticam aquelas distorções em nome da “imparcialidade” acadêmica. Eles costumam se considerar “neutros” e defendem sua “objetividade acadêmica”; também defendem que se pode, numa sociedade de classe, separar ciência de ideologia. Vão longe na mistificação institucionalizada, das chamadas “ciências sociais” academicistas, parcializadas. E chegam até a imaginar, como diz Mészàros, que “ ideologia não é mais do que uma ideia supersticiosa, religiosa: mera “ilusão”, a ser permanentemente descartada pelo bom trabalho da “objetividade científica” e pela aceitação dos procedimentos intelectuais adequados e “axiologicamente neutros”. Enganam-se. “Na verdade, a ideologia não é ilusão nem superstição religiosa de indivíduos mal-orientados, mas uma forma específica de consciência social, materialmente ancorada e sustentada. Como tal, não pode ser superada nas sociedades de classe”. E muito menos pelo academicismo e o reducionismo que lhe acompanha como uma sombra.

Na verdade, a base da superação é a luta revolucionária. A crítica da ideologia é inseparável da luta pela autonomia e emancipação como sujeito; e o motivo encontra-se no dilaceramento social real, de classe, gerador da opressão, da alienação e, organicamente, da própria ideologia. A libertação é um ato histórico, dizia Marx; é um ato que não pode ser resolvido dentro dos marcos da própria ideologia, portanto.

E isso é assim, porque como vem sendo insistentemente argumentado, não se trata de uma ideia que pode ser vencida por outra ideia. A não ser no caso de que esta nova ideia, crítica e revolucionária, transformada em programa, política e estratégia, seja apropriada pelos trabalhadores concretos em sua luta para derrubar o poder dos capitalistas e tomar em suas mãos as fábricas e todos os meios de produção para levantar uma sociedade fundada na democracia proletária de base, rumo ao socialismo. Aqui e somente aqui a ideologia burguesa começa a ser vencida. De fato.

[Por conta do espaço, nos limitaremos aqui a esta abordagem bem elementar para uma questão – a ideologia – que é muitíssimo mais complexa. Como abordagem inicial e básica, esperamos ter lançado elementos para que a reflexão crítica; e que o bom debate não se detenha neste nível mais introdutório e portanto sujeito a lacunas e imprecisões].

Citados no texto - O que é política, 1986, J.Ubaldo Ribeiro/O poder da ideologia, 2004. I. Mészàros/ O que é ideologia, 1995. Marilena Chauí.

[Este texto e outros correlacionados constam do livro Brevíssima introdução à sociologia crítica, organizado por G Dantas, Leandro Ventura e Marcelo Tupinambá, 2013, Editora Iskra, São Paulo. Ver no site: http://centelhacultural.com.br/index.php?route=product/product&product_id=80 ]




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