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II Feira Antropofágica de Opinião – Dia 1 – algumas impressões

Até o dia 7 de junho ocorre no Memorial da América Latina a II Feira Antropofágica de Opinião, evento que reúne 40 grupos de teatro, músicos, artistas plásticos, cineastas, para debater a questão: o que é para você o Brasil de hoje. Leia alguns comentários sobre o primeiro dia do evento.

Fernando Pardal

@fepardal

sexta-feira 5 de junho de 2015| Edição do dia

A primeira coisa que chama a atenção na segunda edição da Feira Antropofágica de Opiniãoé a sua estrutura: muito maior, mais organizada, mais profissional do que a da primeira edição. Isso, por incrível que pareça, aparentemente já levantou objeções entre alguns de seus frequentadores. Seria, na visão desses críticos, um possível primeiro passo para a “capitulação” da Cia. Antropofágica diante da indústria cultural, do mainstream, do mercado... do “teatrão”, nas palavras de Iná Camargo.

Uma observação bastante infundada. A Cia. Antropofágica colocou de pé essa estrutura com dois ingredientes: uma verba pública conseguida por meio do ProAC – um programa do estado de São Paulo de fomento à cultura, ou seja, uma dessas pequenas migalhas que o Estado concede e que cabe a nós utilizar contra ele –; e um trabalho duro, militante e abnegado de seus integrantes, que não recebem com isso um centavo de remuneração, não obtém nenhum lucro. Não há nada “vendido” ali, mas sim a empreitada militante de reunir uma ampla gama, de todas as cores e gostos, do teatro de esquerda, engajado, que há atualmente. Talvez seja o imenso profissionalismo com que está sendo organizada a Feira que tenha suscitado observações tão levianas. Mas a Cia. Antropofágica sabe, como aqueles que se deram ao desafio de colocar de pé o Esquerda Diário, que precisamos nos dar grandes tarefas e desafios se queremos enfrentar nossos inimigos, eles mesmos muito grandes e bem organizados.

O primeiro dia contou com a abertura feita por Cecília Boal, retomando alguns dos debates colocados pela Feira Paulista de Opinião de 1968, as experiências de Boal e do Teatro Arena. Em seguida, ocorreram apresentações dos grupos Estudo de Cena, Fraternal Companhia de Arte e Malas-Artes, Núcleo Bartolomeu de Depoimentos, Teatro dos Ventos, Núcleo Sem Drama, Kiwi, Pessoal do Faroeste, Folias D’Arte e Grupo Rima Fatal da Leste, além da intervenção do Grupo OPNI (Objeto Pixador Não-Identificado), do músico Wanderley Martins e um trecho de um dos debates preparativos para a feira.

Impossível aqui tratar de maneira exaustiva as oito horas desse dia, mas vale dizer algo para que se ressalte o convite a participação nos demais dias. A iniciativa da Cia. Antropofágica é digna de seu nome, procurando criar um ambiente onde se crie um verdadeiro caldeirão de opiniões, em que cada grupo traga seu repertório e, junto ao público, lance suas reflexões para que elas fermentem em algo maior.

É fundamental notar que a forma como os grupos abordam, de forma praticamente unânime a questão colocada para eles, “O que pensa você do Brasil de hoje?”, com uma resposta crítica, mas pessimista. Alguns procuraram pegar temas específicos que expressassem o peso retrógrado que a classe dominante impõe sobre os ombros dos explorados; assim foi, por exemplo, com o Teatro dos Ventos, que abordou a questão das Igrejas Evangélicas, a teologia da prosperidade e seu peso ideológico e político hoje. Já o Núcleo Sem Drama partiu da especulação imobiliária como o ponto de partida desde onde olhar o aterrador cenário.


Núcleo Sem Drama

É curioso também que seja justamente nesses dois grupos que os debates mais ligados à política nacional tenham se dado justamente em torno da polarização PT e PSDB, deixando a classe trabalhadora ou os explorados em geral no papel sempre de espectadores, de vítimas dos engodos da burguesia. No caso do Teatro dos Ventos, há uma defesa acrítica e indireta do governo do PT, já que toda o mordaz sarcasmo contra as igrejas as vincula às posições direitistas do PSDB. Como se não houvesse uma expressiva parte dos líderes dessas igrejas em conluio com as posições petistas, e que obtivesse seus favores contra os direitos das mulheres e LGBTT, por exemplo. Já o Núcleo sem Drama, seguindo o mesmo rumo, a certa altura da cena faz um “mea culpa”, e diz: “Pera lá que isso aqui está ficando muito governista”, e após isso destila uma ou duas críticas aos petistas, sem, contudo, mudar a lógica da apresentação do cenário político como a polarização entre esses partidos da ordem.


Teatro dos Ventos

A única cena em que se critica abertamente o governo Dilma foi na da Estudo de Cena, em que o governo petista aparece figurado como simultaneamente cooptador e repressor dos movimentos sociais. Não parece mera coincidência, portanto, que tenha sido também a única apresentação a colocar protagonistas dos próprios explorados, que se colocam como protagonistas na luta por sua liberdade, com independência em relação à polarização PT e PSDB.


Cia. Estudo de Cena

Outros grupos, com apresentações espetaculares, como o Núcleo Bartolomeu de Depoimentos ou a Kiwi, abordaram questões mais estruturais da barbárie brasileira, sem entrar tão concretamente em questões políticas atuais.


Cia. Kiwi

Esse primeiro dia da Feira parece confirmar não apenas a importância histórica desse evento, mas também que os debates que ali se gestam podem ter, a depender da consequência que se dê a eles – tanto estética quanto política – um futuro promissor. Podem ser um ponto de partida fundamental para uma reorganização dos trabalhadores da cultura, quem sabe. Pode ser que essa seja uma avaliação muito otimista, feita de supetão, pois a reorganização de uma categoria depende muito de circunstâncias materiais e um circuito mais amplo de ideias e atuações. E, sem dúvida, hoje o movimento dos trabalhadores do teatro se encontra muito mais disperso, fragmentário, inerte do que há alguns anos. Mas, seja qual for o resultado que daqui surja, não se pode colocar em dúvida que a Cia. Antropofágica está efetivamente militando para que esses trabalhadores voltem a cumprir o papel social que são capazes.

Convidamos todos a participar da Feira, que irá até domingo e ocorre das 14h às 22h no Memorial da América Latina.




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