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Homens e mulheres de aço: a greve da CSN que escancarou os limites do pacto conciliador em 1988

Bianca Rozalia Junius

Homens e mulheres de aço: a greve da CSN que escancarou os limites do pacto conciliador em 1988

Bianca Rozalia Junius

Em 1988, os homens e mulheres de aço da CSN de Volta Redonda (RJ) protagonizaram uma forte greve, que escancarou os limites do pacto conciliador que estabeleceu a Constituinte de 88 e, assim, ameaçou desestruturar a consolidação da “redemocratização” pactuada com os militares. Hoje, 34 anos depois, os trabalhadores buscam retomar essa tradição. Conheça essa história.

Imagem: @macacodosul

Nas últimas semanas, as trabalhadoras e trabalhadores da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) têm se enfrentado com a intransigência dessa empresa, que além de se negar a conceder um reajuste salarial de 25%, PLR e outros benefícios que são de direito desses trabalhadores, ainda demitiu dezenas, buscando reprimir o movimento de paralisações que estava se desencadeando em diversos setores. Essas paralisações têm se dado mesmo que o sindicato, que é dirigido pela Força Sindical, esteja do lado da patronal buscando de todas as formas frear a luta dos trabalhadores. Os trabalhadores têm buscado se articular enquanto oposição a essa direção do sindicato, formando uma comissão escolhida pelos próprios trabalhadores. Esse é um movimento histórico em uma das maiores siderúrgicas da América Latina, que tem peso estratégico, com mais de 10 mil trabalhadores hoje, e um histórico de luta muito importante para a história do movimento operário brasileiro.

Há 34 anos, em 1988, os homens e mulheres de aço da CSN de Volta Redonda (RJ) protagonizaram uma forte greve, que escancarou os limites do pacto conciliador que estabeleceu a Constituinte de 88 e, assim, ameaçou desestruturar a dinâmica a consolidação da redemocratização pactuada com os militares. Neste artigo, pretendemos recuperar essa história, e para isso nos basearemos no excelente documentário de Eduardo Coutinho, chamado Memórias da Greve - Volta Redonda, na emocionante crônica de Ernesto Germano Parés (que era funcionário do sindicato na época) e também na segunda aula do novo curso de história do Brasil do campus virtual do Esquerda Diário, chamada “A Transição Pactuada: Diretas e Constituinte”.

Para entendermos a totalidade deste processo, é preciso recuperar o cenário político da década de 80. As greves metalúrgicas que ocorreram 10 anos antes de 1988 no ABC, São Paulo e região de 78 a 80 marcaram uma importante inflexão no regime ditatorial. A ditadura já vinha em crise e, depois desse ascenso operário, precisou acelerar e mudar alguns termos da transição "lenta, gradual e segura" para a democracia que queriam os militares, buscando não perder o controle do forte movimento operário.

Conforme discutimos aqui, esse forte movimento operário foi desviado por ação da direção política das greves que estava nas mãos dos “Autênticos”, liderados por Lula, que tiveram a política de desgastar as greves até as últimas forças dos metalúrgicos do ABC isolados, sem buscar articular em um movimento grevista nacional, que se baseasse na autoorganização por comissões de fábrica, comitês regionais e hegemonizando os outros movimentos sociais que se desataram neste momento, articulando isso politicamente com um partido que fosse uma alternativa para a tomada do poder político pelos trabalhadores. Esse recuo nas greves do ABC e SP, porém, não significou o fim da onda grevista no Brasil, pelo contrário.

Toda a década de 80 foi marcada pelo maior número de greves em diversas categorias desde a ditadura, em especial nos serviços públicos, como era o caso da CSN, que até aquele momento era uma empresa estatal. Em 1983, uma chapa de oposição sindical ligada à CUT consegue tirar da diretoria do Sindicato de Metalúrgicos de Volta Redonda uma chapa que se perpetuava com o apoio dos militares e da direita da região, vencendo as eleições sindicais. Essa chapa de oposição contava com apoio desde setores ligados ao “trabalhismo” como PTB, até setores da igreja católica, como a Pastoral Operária (e no segundo turno, da Ação Católica Operária), além de correntes de orientação trotskista, como a Convergência Socialista (hoje o PSTU).

O presidente da chapa era Juarez Antunes, que era de um setor que se dizia independente, depois acabou por se filiar ao PT, e, mais tarde, ao PTB. Segundo Gandra (2009), alguns elementos facilitam que Juarez consiga se tornar liderança do movimento. Ele vinha de uma trajetória política em sua cidade natal, no interior de Minas Gerais, onde havia tentado se eleger prefeito em 1976. Outro aspecto é que seu setor na aciaria da CSN foi praticamente desativado por uma reestruturação produtiva, assim tinha mais tempo de circular pela fábrica distribuindo boletim da oposição.

Em 1984 ocorre uma primeira greve na Companhia, que dentre as 45 reivindicações dos funcionários, a principal era a equiparação salarial com os metalúrgicos da Cosipa (Companhia Siderúrgica Paulista), que ganhavam o dobro. Já nesta greve ocorreram rachas na diretoria do sindicato, e o grupo de ativistas mais radicalizados, ligados ao trotskismo e à Pastoral Operária são expulsos do sindicato por Juarez Antunes e seus apoiadores, e demitidos da CSN (Pereira, 2008).

Após a greve, o movimento consegue se reerguer com força 4 anos depois, em 7 de novembro de 1988, quando os metalúrgicos ocuparam as unidades de produção da usina. Eles reivindicavam o pagamento da URP (Unidade de Referência de Preços) de julho com correção, uma reposição salarial de 26%, a implantação do turno de trabalho de seis horas e readmissão dos demitidos. De acordo com Parés, parte das reivindicações dos trabalhadores eram justamente uma exigência de que fossem cumpridas as condições previstas na constituição de 1988, aprovada um mês antes da greve:

“Em outubro, no dia 05, era promulgada a nova Constituição Federal. Isto dava novo fôlego ao movimento porque a Constituição garantia dois direitos que já eram motivo de reivindicações dos metalúrgicos há muito tempo: turno de 6 horas para os trabalhadores em regime de revezamento (eram 8 horas) e readmissão dos trabalhadores demitidos por motivos de greves ou políticos.”

Em 1988, o Brasil estava vivendo o que foi chamado de primeiro “governo civil pós-ditadura”, com Sarney à frente do governo. Não era um militar à frente da presidência, porém não havia sido eleito por eleições diretas e era um governo completamente tutelado por um triunvirato militar à testa do governo, constituído pelos generais Bayma Denis, Ivan Mends e Leônidas Pires Gonçalves, que fizeram de tudo para que o processo constituinte que culminou na promulgação da Constituição de 88 fosse absolutamente controlado e mantivesse na constituição os interesses da burguesia.

O processo constituinte não foi tarefa fácil para os militares, por todo o cenário convulsivo de greves que estava ocorrendo na década de 80, como já citamos. Entretanto, conseguiram conter e manter essas greves isoladas umas das outras, sem que se articulassem em um movimento comum que questionasse o poder político, afinal a liderança majoritária dessas mobilizações estava nas mãos dos “Autênticos”, de Lula, que não buscaram fazer essa articulação. Assim, promulga-se a “Constituição de 88” sendo celebrada como a “Constituição Cidadã” e vendida como uma fórmula mágica que resolveria os problemas mais estruturais.

Apesar de terem se consolidado avanços importantes que hoje são cada vez mais atacados (jornada máxima de 44 horas, seguro-desemprego, SUS…), a constituição por outro lado deixou intactas as desigualdades estruturantes do capitalismo no Brasil, garantindo, por exemplo, a continuidade da subordinação ao pagamento da enorme dívida externa, uma política de reforma agrária extremamente restrita e o famoso “artigo 142” que abre brecha para um novo golpe. A constituinte votou que todas leis anteriores a ela seguiriam válidas, inclusive a Lei de Segurança Nacional utilizada para colocar os tanques de guerra na Usina Presidente Vargas contra a greve de Volta Redonda, como vamos ver.

Quando os operários e operárias da CSN entram em greve 1 mês após a promulgação da constituição, mandam um recado claro: não acreditamos nessa farsa de “Constituição Cidadã”. Assim, quando estoura a greve da CSN, o medo do governo Sarney e dos militares residia no fato de que uma mobilização nesta grande usina siderúrgica - um setor estratégico, a maior da América Latina, um forte símbolo da industrialização e do movimento operário do país na época - poderia ameaçar a retomada da dinâmica das greves metalúrgicas do ABC, SP e região que citamos, e poderia ajudar na unificação dessas inúmeras greves que aconteciam de forma esparsa nessa década.

Aquela greve, portanto, um mês depois da promulgação da constituição deixava evidente aquilo que os militares e a burguesia “democrática” faziam de tudo para esconder: que a mera promulgação da constituição de 1988 não resolveria todos os problemas, e que ainda havia disposição de luta da classe trabalhadora para ir até o fim na conquista de suas demandas. A expansão dessa greve para outros lugares poderia abalar o todo processo de fim da ditadura, que os militares e a burguesia pretendiam que se desse por uma saída conservadora e meramente eleitoral (pela via das “Diretas Já”). Caso o processo se expandisse nacionalmente, poderia se conformar uma outra saída, articulando um forte movimento nacional de trabalhadores, com seus métodos de autoorganização, tomando o poder das fábricas e locais de trabalho, e apontando para um caminho de derrubada da ditadura pelas mãos da nossa classe, como o que apontamos que poderia ter ocorrido também em 1978, caso as direções do movimento (Lula e os autênticos) o quisessem.

Esse era o maior receio da burguesia brasileira, ainda mais vendo o nível de apoio que os operários receberam da população da região, mostrando o caráter expansivo da greve. Isso porque a CSN era fonte de renda e sustento da chamada “Cidade do Aço” que era (e ainda é) Volta Redonda, e toda a região no entorno. Não por acaso, Eduardo Coutinho retrata de forma bastante sensível em seu documentário sobre essa greve a forte imbricação da fábrica com a vida da população da cidade: o documentário é marcado pela cena de um casamento, em que absolutamente todos os convidados (e até mesmo o padre!) são ou foram trabalhadores da CSN.

Esse é um elemento importante para entender a força que essa greve tomou. Mais de 10 mil trabalhadores ocuparam a fábrica e em pouco tempo milhares de pessoas da cidade inteira estavam em frente à usina prestando solidariedade aos grevistas. No documentário que citamos, é possível ver inclusive o papel que cumpriram as mulheres dos trabalhadores. Uma das entrevistadas afirma que a greve estava tão fortalecida e com tanto apoio da população da cidade, dos familiares e amigos dos operários, que nem era necessário piquete, uma vez que a própria esposa convencia o marido de não ir trabalhar, e em alguns casos até esvaziavam o pneu da kombi que os levava ao trabalho. De acordo com Parés, "(...)As associações de moradores e comunidades da Igreja Católica faziam acampamentos nas proximidades da Usina, com fogões e panelas. O cheiro de comida fresca era uma constante... sucos e refrigerantes atravessavam a cerca e desapareciam em segundos. Na entrada principal da CSN estavam permanentemente milhares de pessoas, mulheres e crianças, a família metalúrgica que se movimentava em apoio aos seus parentes."

Naquela época, estima-se que a fábrica contasse com 21 mil trabalhadores, em que 80% eram sindicalizados. Em uma cidade que contava com 320 mil habitantes, é um número muito expressivo de envolvimento da população com a fábrica. O governo Sarney e seus militares de gabinete, vendo esse nível de apoio, entenderam rapidamente a panela de pressão que estava explodindo ali, ameaçando a pacificação social que se pretendeu criar com a promulgação da Constituinte de 1988. Além disso, temiam que a mobilização fugisse do controle pois sabiam o histórico de luta que os operários dessa usina tinham antes do golpe de 1964, conforme conta Parés:

“Antes do golpe militar de 64, Volta Redonda foi um forte reduto de comunistas e o sindicato tinha participação ativa nas mobilizações operárias do período. A tal ponto que, no dia do golpe, a sede foi cercada por tropas armadas e a diretoria foi arrancada do prédio diretamente para o quartel onde muitos permaneceram por longos anos e foram violentamente torturados.”

Foi temendo a força desse movimento operário que, no dia seguinte da ocupação da usina, chegam as tropas do exército para sitiar a cidade de Volta Redonda. Aliás, Florestan Fernandes (importante intelectual que analisa esse período) coloca como a decisão de enviar as tropas para a cidade foi tomada diretamente pelo tal “triunvirato” militar (mais especificamente pelo general Leônidas) que se escondia por detrás de Sarney, mostrando justamente a farsa e os limites desse governo “civil” e da redemocratização tutelada pelos militares.

A chegada do exército na cidade, porém, não intimidou os trabalhadores. Em imagens do documentário de Coutinho, se vê arrepiantes cenas dos trabalhadores gritando “sutis” palavras de ordem como “1, 2,3, 4, 5, 1000, eu quero que o exército vá para a p* que pariu”. Mantiveram-se ocupando a fábrica, até no próximo dia o exército decidir invadir a usina e retirar os trabalhadores. A intervenção dos militares foi absolutamente violenta, tanto fora da fábrica (onde reprimiram a população que apoiava e quebraram comércios para tentar incriminar o movimento), como dentro.

Os trabalhadores resistiram bravamente, mas de forma absolutamente covarde os militares tiraram a vida de três operários: Willian, Valmir e Barroso. Após horas de batalha, o sindicato e o bispo da região conseguem negociar um cessar fogo com exército, e os trabalhadores desocupam a fábrica. Mas em vez de saírem derrotados, os vídeos que registraram a desocupação (presentes no documentário de Coutinho) mostram um outro cenário: os trabalhadores saem com punhos em riste, cantando palavras de ordem e jurando continuar a greve e vingar a morte de seus companheiros. "Durante três dias estiveram na Usina, ficaram toda uma noite sem alimentos, sem água e sob fogo dos soldados, mas saíam de cabeça levantada e cantavam ’a greve continua... na Usina ou na Rua... a greve continua’!", diz Parés.

E a greve efetivamente continuou, e se fortaleceu, assim como o apoio da população da região. No dia 13, ocorre uma histórica missa campal em memória dos três operários assassinados, que contou com mais de 20 mil pessoas, como descreve Pares:

"Sob uma chuva fina, um grupo de metalúrgicos uniformizados vinha caminhando pela rua e carregando uma enorme cruz de madeira onde estava presa, ainda suja de sangue, a camisa do uniforme de um dos companheiros mortos. Com palmas compassadas, o povo acompanhava o som do tambor que marcava os passos dos metalúrgicos que, chegando perto do palanque, ergueram a cruz em meio ao mais absoluto silêncio".

Enquanto isso, os soldados permaneciam dentro da usina sem saber o que fazer ali, uma vez que não entendiam nada de siderurgia. A patronal apostava que após a desocupação os trabalhadores suspenderiam a greve, e por isso a empresa religou de forma irresponsável o Alto Forno, que havia sido abafado pelos operários de forma a proteger o equipamento que não pode ser desligado por completo, caso contrário, quebra. O Alto Forno é o coração da usina, e a usina era o coração da cidade, por isso não era do interesse dos trabalhadores que esse equipamento quebrasse. Os trabalhadores se dispuseram a entrar para salvar o Alto Forno, com a condição de que não houvesse nenhum soldado por perto. A patronal então teve que ceder e retirar as tropas para que uma comissão de operários entrasse:

"A cidade permaneceu em alerta. Todos sabiam que dependiam, direta ou indiretamente, do Alto Forno e da CSN. Se a siderúrgica acabasse a cidade também acabaria... E, no final da tarde, toda a área próxima da entrada da Usina e do Escritório Central da Companhia estava tomada pelo povo de Volta Redonda. (...) Pouco depois das duas da madrugada, eu estava cochilando dentro do carro de som quando acordei com gritos e comemorações. Esfreguei o olho e vi aquele mar de gente, trabalhadores, crianças, homens, mulheres, idosos... todos se abraçavam e cantavam como se fosse uma radiosa manhã de carnaval! Antes de sair do carro para me informar melhor, eu quase adivinhava as palavras do Juarez logo que me viu:

- O Alto Forno está salvo e operando. Acabaram de fazer a corrida, está tudo perfeito e vão começar o novo abafamento porque a greve continua!"

A greve seguiu e ainda contou com importantes demonstrações de apoio. No dia 20 ocorreu o "abraço na usina". Essa ação contou com mais de 70 mil pessoas, que deram as mãos dando a volta nos mais de 12 quilômetros da CSN. Além disso, um grupo de artistas composto por Chico Buarque de Holanda, Fagner, Lobão, Elba Ramalho entre outros se prontificaram a fazer um show em apoio à greve e se apresentaram diante de dezenas de milhares de metalúrgicos e seus familiares no show que foi chamado “A Volta por Cima”. Em meio a isso tudo, ocorrem ainda as eleições municipais, em que Juarez Antunes, presidente do sindicato, consegue se eleger como prefeito de Volta Redonda pelo PDT.

Diante da força desses homens e mulheres de aço, a patronal e o governo Sarney não tiveram outra alternativa senão ceder. É assim que, no dia 23 de novembro, depois de 17 dias de greve, o sindicato é chamado para uma reunião, em que a CSN anuncia que aceitaria todas as reivindicações, marcando uma vitória para o movimento. Os trabalhadores assim votam o fim da greve e voltam ao trabalho. "No portão da empresa, os demais companheiros e a população de Volta Redonda aplaudiam os que entravam e gritavam o nome de William, Valmir e Barroso", relata Parés.

Com essa vitória em suas demandas, termina a greve que fez tremer o pacto conciliador firmado na constituinte de 88, e escancarou os limites dela. Como afirmamos em diversas passagens, esse processo poderia ter ido além e inclusive ter sido o estopim de um movimento nacional que questionasse mais de fundo os problemas estruturais (que se mantinham com a “redemocratização”), e isso era o que mais temia a burguesia e os militares. A necessária queda da ditadura por uma via de independência de classe dos trabalhadores, não se deu, por conta da estratégia conciliadora das lideranças do movimento operário (como Lula e a majoritária da CUT, e também o PDT de Juarez Antunes) que, como já abordamos anteriormente, não estavam com uma orientação de expandir as lutas e construir um partido dos trabalhadores que rompesse com a conciliação impossível entre os patrões e os trabalhadores.

A orientação desses partidos acabou se tornando meramente parlamentar. Utilizaram a repercussão do massacre dos militares à greve e o repúdio enorme que gerou na população para alçarem suas candidaturas nas eleições para prefeitura em 88, em que Juarez (PDT) vence como prefeito de Volta Redonda. Muitos apontam também como o caso da CSN influenciou a vitória de vários candidatos petistas pelo Brasil, como o caso de Erundina (PT) em São Paulo.

Essa visão sobre os rumos do movimento corrobora com o que Florestan Fernandes já alertava em 1989 analisando o processo constituinte conservador e os desvios parlamentaristas dos partidos de esquerda, conforme ele e outros intelectuais denunciam nesta entrevista:

“PDB [Paulo Douglas Barsotti] — Se os operários de Volta Redonda resistiram com firmeza à repressão militar, lamentavelmente o movimento sindical e popular não esteve à altura das necessidades do episódio. Parece-me claro que, mais uma vez, a luta operária foi subordinada aos interesses das campanhas municipais, que ocorriam exatamente naquele momento. Volta Redonda ficou isolada, sem base de apoio social.

FF [Florestan Fernandes] — Teve resposta, mas foi pequena. Houve agora uma nova provocação, com a condecoração dos militares envolvidos, e o que vimos foi que a indignação ficou restrita às vítimas mais diretas da ocorrência. Além disso não houve nada. Todo o aparato sindical brasileiro, todos os partidos de esquerda fizeram protestos retóricos nas tribunas — para isso servem os parlamentos! — e o episódio foi encerrado.”

Com essas traições das direções sindicais, a vitória de Collor nas eleições diretas, o impacto de um giro internacional mais à direita e avanço das medidas neoliberais, nos anos 90 o movimento sindical da região se desarticula, abrindo brecha para a privatização da Companhia. A morte de Juarez Antunes em 1989 foi um importante baque para o movimento também, mostrando a debilidade de sua política na direção do sindicato, que era pautada em uma atuação personalista (que o colocava como grande herói), dava pouco peso para a atuação de base, e se opunha à ideia de comissões de fábrica que não fossem atreladas diretamente ao sindicato, o que o aproximava da política dos Autênticos, ainda que ele não fosse do PT, mas sim do PDT (Gandra, 2009).

Ocorrem eleições sindicais em 1989, em que ganha a chapa de Vagner Barcelos (apoiada pela Convergência Socialista, parte da “CUT pela Base”), se opondo a essa política de Juarez, mas já contando com menos força dos trabalhadores e também menos apoio da própria CUT, afinal Vagner era de um setor de esquerda desta, que se opunha à direção majoritária burocrática dos Autênticos. Em 1990 ocorre mais uma greve, dessa vez contra a privatização da empresa, que estava em voga pelo Plano Nacional de Desestatização (PND) de Collor. Mas, dessa vez, os operários sofrem uma dura derrota em meio a um cenário nacional de acachapante avanço neoliberal, além de maiores divisões entre os setores da CUT (uma vez que se consolidava cada vez mais a atuação traidora da ala majoritária), em um cenário muito mais desfavorável do que os anos 80.

Se apoiando nessa derrota e nas divisões da CUT, uma chapa ligada à Força Sindical consegue se fortalecer para as eleições sindicais de 1993, conseguindo apoio da própria patronal, já que a chapa estava defendendo a proposta da privatização. A Força consegue se eleger com um discurso mentiroso de que a privatização era a única forma de barrar o fechamento da empresa. Além disso, se apoiavam no fato de que as lideranças da chapa da Força eram relações próximas de Juarez Antunes, como se fossem uma “continuidade do imaginário de 88”, o que não passava de uma bravata. Desde então, até hoje a Força Sindical segue à frente do sindicato, com base em fraudes eleitorais e colaboração com a patronal. É contra essa tradição sindical traidora que os operários da CSN estão se embatendo agora, e para isso é preciso retomar todas essas lições de 88, buscando construir um futuro em que não sejam os trabalhadores que paguem pela crise criada pelos patrões.

Referências bibliográficas

Flamé, Thiago; Rozalia, Bianca. [CURSO] Uma visão marxista do Brasil: a classe operária contra a ditadura

Urbano, Edison; Gimenes, Italo. [CURSO] Uma visão marxista do Brasil: A Transição Pactuada: Diretas e Constituinte

Gandra, Marcos Aurélio Ramalho. Cidade “vermelha” do Aço: greves, controle operário e poder popular em Volta Redonda (1988-1989). Niterói, 2009.

Parés, Ernesto. Volta redonda - Nove de Novembro de 1988.

Pereira, Sérgio Martins. Sindicalismo e privatização: o caso da Companhia Siderúrgica Nacional. Caxambu, 2008.


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Equipe do podcast Peão 4.0 e militante do MRT
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