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Guerra comercial Estados Unidos e China: um acelerador da nova recessão global?

Os abalos nas Bolsas de Valores ao redor do globo trouxeram à tona indícios mais fortes de uma possível nova recessão mundial. Os mercados financeiros foram golpeados pelos temores de que a guerra comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China – um fator semi-estrutural no panorama internacional – já tenham introduzido danos significativos na economia mundial.

André Acier

Natal | @AcierAndy

quinta-feira 15 de agosto| Edição do dia

Os abalos nas Bolsas de Valores ao redor do globo trouxeram à tona indícios mais fortes de uma possível nova recessão mundial. Os mercados financeiros foram golpeados pelos temores de que a guerra comercial e tecnológica entre Estados Unidos e China – um fator semi-estrutural no panorama internacional – já tenham introduzido danos significativos na economia mundial. As quedas registradas na produção industrial de três colossos, da Alemanha, da China e dos Estados Unidos – que indica estar chegando ao limite do mais longo ciclo de crescimento econômico de sua história – soaram alarmes sentidos ao redor do mundo.

As ações bursáteis caíram nos mercados da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos, nessa quarta-feira (14). As Bolsas em Wall Street foram as mais deterioradas. O índice S&P 500 caíu 2.93%, e o índice Nasdaq, que concentra as ações nas empresas de alta tecnologia dos EUA, caiu mais de 3%. O índice Nikkei japonês teve queda de 1,6%. No Brasil nenhuma ação do Ibovespa fechou em alta, e o dólar passou de R$4.

Mais importante foi o efeito nas taxas de rendimento dos títulos do Tesouro norte-americano. Tipicamente estáveis, os títulos de longo prazo dos Estados Unidos registraram queda de rendimento abrupto, com a taxa de rendimento dos títulos de 10 anos caindo para 1.58%, e os de 30 anos caindo para um pouco mais de 2%, os mais baixos desde a década de 1970 (títulos da dívida de prazo similar na Inglaterra tiveram queda de rendimento para menos de 1%). Os títulos de longo prazo do Tesouro normalmente conferem taxas de rendimento maiores, justamente pelo risco maior que há em reter dívidas estatais por tão longo tempo. Mas dessa vez, a queda no rendimento dos títulos de 10 anos o colocou abaixo do rendimento dos títulos de 2 anos, tornando mais rentáveis os de curto prazo que os de longo prazo. Este fenômeno, que ocorreu pela última vez em 2007, é chamado pelos economistas de “inversão na curva de rendimento”, e no caso dos Estados Unidos é o indicador mais fiel desde a década de 1960 de que uma recessão no país está próxima.

A chefe de economia norte-americana do Bank of America Merrill Lynch, Michelle Meyer, disse que “os dados da economia enviam sinais crescentemente recessivos, particularmente no segmento industrial; o comércio constitui uma grande parte desse problema”.

Esses movimentos indicam que os investidores preveem um crescimento débil e uma inflação mais baixa nos próximos anos, e não não pretendem acumular capital (investir na produção) em larga escala, preservando o cenário de “estancamento secular”, conceito utilizado pelo ex-secretário do Tesouro dos EUA, Larry Summers, para explicar o contexto de baixas taxas de empréstimo para investimento na produção mesmo com baixíssimas taxas de juros disponíveis.

Esses problemas podem indicar que chegaram ao fim as taxas trimestrais de crescimento econômico superiores a 3% nos Estados Unidos, uma das principais bases sobre as quais Donald Trump se apoiava. O setor da indústria, em particular, acompanha as dificuldades comuns de outros países. O setor industrial dos EUA se contraiu pelos dois últimos trimestres consecutivos, segundo o Federal Reserve: caiu 1.9% no primeiro trimestre de 2019, e no segundo trimestre caiu 1.2%, em comparação com o mesmo período de 2018. A situação se torna mais complexa quando combinada com dados estruturais. Megan Greene, economista da Universidade de Harvard, apresenta dados que mostram a queda da produção industrial norte-americana no último ciclo: há 50 anos atrás a produção industrial compunha 25% do PIB dos EUA; hoje compõe apenas 11% do PIB, e 8% do emprego. Em 1998, os investimentos capitalistas à implementação industrial compunham 50% dos investimentos totais, enquanto 30% se direcionavam ao processamento de dados e propriedade intelectual: agora, os números se revertem.

Na Alemanha, o governo anunciou que a economia se contraiu 0,1% entre abril e junho, e o Deutsche Bank prevê que a contração econômica seguirá no próximo trimestre, abrindo caminho para a possibilidade de uma recessão na maior economia da União Europeia. A economia alemã é particularmente vulnerável à guerra comercial entre EUA e China, pois sua produção industrial é altamente dependente das exportações aos dois países. Os resultados negativos da indústria alemã (queda de 2% em abril) fizeram com que a Alemanha tivesse a pior performance econômica entre todas as nações da eurozona no segundo trimestre (pior que a Itália, que teve 0% de crescimento).

A China, por sua vez, que vem administrando de maneira estável os efeitos da guerra comercial, também apresentou, no entanto, queda superior à projetada na produção industrial: caiu para 4,8%, a taxa mais baixa desde 2002. Levando-se em conta que o crescimento do PIB chinês (6,2%) é o mais baixo em 30 anos – ainda que os fundamentos para essa redução tenham natureza específica, relacionadas à alteração do padrão de acumulação chinês – trata-se de mais um alerta das incertezas no panorama econômico mundial.

Assim, vistas em um quadro composto, a erosão das Bolsas internacionais foram precedidas pelos dados de contração do comércio e da produção industrial das principais potências do mundo. Além dos Estados Unidos, as pesquisas de atividade industrial na China, Japão, Alemanha e Inglaterra – a segunda, terceira, quarta e quinta maiores economias do mundo – registraram contração.

Ao buscar a razão dessa inesperada queda, é inevitável observar a guerra comercial movida por Trump, que contribuiu para enfraquecer a demanda interna chinesa e abalar as cadeias globais de valor num cenário de contração do comércio internacional. O movimento mais recente nesse conflito foi executado por Trump: impôs 10% sobre os restantes US$300 bilhões de exportações da China (ainda que algumas tarifas ficaram para ser aplicadas posteriormente, depois da temporada de compras nos EUA), que se adicionam aos 25% já existentes sobre US$250 bilhões de exportações chinesas. A China, a modo de retaliação, desvalorizou sua moeda, o renminbi, atravessando o patamar de Rmb7 para cada dólar, abrindo a proecupação de uma possível guerra monetária entre as duas potências.

O que começa a desenhar no horizonte é o laço orgânico entre a guerra comercial Estados Unidos-China, e uma nova recessão sincronizada nas principais economias do globo. Já compõem uma tropa considerável os economistas que, como Nouriel Roubini ou Larry Summers, consideram que o mundo vivenciará uma nova recessão generalizada até 2020.

Essas previsões, entretanto, passam ao largo do fundamento estrutural – e não só conjuntural – que explica o estágio de debilidade endêmica da economia mundial: recoloca um problema estratégico ao capitalismo, a inexistência de novos espaços para a acumulação, sem os quais o investimento permanecerá débil, e os declinantes índices de crescimento da produtividade do trabalho, como aponta corretamente a economista argentina Paula Bach. Esses são fatores que obstaculizam – no modo de produção capitalista – a incoporação de novas invenções num grau de reprodução ampliada que permita uma expressão vigorosa da economia capitalista.

Um conflito para enfraquecer a Alemanha?

Nesta tríade de colossos da produção capitalista, a Alemanha é o país mais dependente das exportações. Segundo dados do Banco Mundial, enquanto as exportações compõem apenas 12% do PIB dos Estados Unidos, e 25% do PIB da China, elas alcançam 50% do PIB da Alemanha. Com a contração do comércio mundial, os países são afetados em escalas distintas.

No caso alemão, o abalo é maior, em geral e em particular: o país tem 5000 empresas na China, e um Investimento Estrangeiro Direto (IED) de 76 bilhões de euros anuais. As cadeias de produção alemãs são muito interligadas com as exportações à China, o que dá um caráter sui generis à relação dos dois. Monopólios automotrizes alemães como Volkswagen, Daimler e BMW – que compõem o coração da indústria exportadora teutônica – tem pelo menos um terço dos seus lucros extraídos da China, em que as vendas de carro com motor a combustão estão sendo substituídos, ademais, por veículos elétricos.

Do lado de suas relações com os Estados Unidos, não surgem dados favoráveis: Trump já ameaçou taxar a exportação de veículos da Alemanha, e já impôs tarifas ao alumínio e ao aço da União Europeia, afetando gigantes alemãs como a ThyssenKrupp.

Não é impensável que a guerra comercial entre Estados Unidos e China seja manipulada por Trump e por Xi Jinping, de certo ponto de vista, direta ou indiretamente, para enfraquecer economicamente o imperialismo alemão e agravar os problemas políticos em Berlim, que já se vê constrangido pela caótica crise do Brexit no Reino Unido. De fato, o governo da chanceler Angela Merkel, em declínio desde que seu partido perdeu eleições regionais em seus bastiões (Hesse e Bavaria) fruto da crise migratória de 2015, está agora sendo pressionado a investir na economia e relaxar a política fiscal.

As turbulências não estão longe de Washington e Pequim

Entretanto, seria errôneo considerar que Trump e Xi Jinping podem seguir o conflito comercial-tecnológico sem serem pegos pelo tornado da economia mundial, de um lado, e pelos eventos da luta de classes, por outro.

Trump teve um poderoso aliado na guerra comercial com Pequim, desde que a lançou em abril de 2018: a economia norte-americana. O conflito coincidiu durante toda sua duração com ótimas performances na economia estadunidense, que crescia a uma média de 3,5% a nível trimestral segundo o The New York Times. Esse fator é um dos principais pilares para a campanha de reeleição de Trump em 2020, com uma das taxas de desemprego mais baixas da história, 3,7%, e o aumento dos índices de consumo das famílias.

Mas o ritmo de crescimento está diminuindo, atingindo 2,1% no último trimestre, caminhando ao lado das dificuldades industriais. Se a economia deixa de ser um auxiliar de Trump – e uma eventual recessão mundial tomaria os EUA pelo pescoço, já que efeitos recessivos na Alemanha e especialmente na China gerariam convulsões no mundo todo – a propaganda “triunfalista” da Casa Branca sobre a guerra comercial pode ter menos apelo do que tem hoje.

A China vive tensões mais exasperantes no domínio da política (que, nunca é demais lembrar junto a Lênin, é “economia concentrada”). A crise em Hong Kong ameaça ter um desenlace militar, com a ordem de Xi Jinping para que o Exército chinês adense suas tropas em Shenzhen, na fronteira com o território da antiga colônia britânica. O embaixador da China em Londres, Liu Xiaoming, disse em coletiva de imprensa publicada no Financial Times que “se a situação em Hong Kong seguir se deteriorando, o governo chinês não irá cruzar os braços e ficar assistindo”. Apesar de possuir tropas do Exército de Libertação Popular na fronteira, uma das hipóteses é que Pequim utilize as forças policiais, para evitar analogias com o massacre da Praça Tiananmen em 1989.


Tropas chinesas se concentram na fronteira com Hong Kong

Os protestos contra a lei de extradição promovida por Carrie Lam, governadora de Hong Kong indicada por Pequim, se converteram em manifestações anti-governamentais que desafiam o autoritarismo dee Xi Jinping e do Partido Comunista Chinês. O conflito é parte do tabuleiro de disputas entre EUA e China, ao ponto de que Trump fez um tweet sugerindo que “haveria espaço para um compromisso na guerra comercial, dependendo de quão humanamente se comportarão em Hong Kong”. Uma hipocrisia deslavada que mostra a importância de não cair na armadilha da política imperialista, ao se combater o autoritarismo chinês.

Todos esses componentes são múltiplas determinações que fundamentam os sinais recessivos no horizonte de curto prazo, e é plausível identificar na guerra comercial um dos principais fatores, ainda que não o único. O impacto sobre as economias possui diferentes gradações, e por ora colocam a União Europeia, e em particular a Alemanha, numa situação mais difícil que os dois lados diretos da contenda. Acima de tudo, o que se encontra de fundo são os efeitos não solucionados da Grande Recessão de 2008, que deram origem a processos de “crise orgânica” nos termos do marxista italiano Antonio Gramsci (ou crises de autoridade estatal e dos partidos tradicionais da burguesia) nas principais potências do mundo.

A direita neoliberal e a extrema direita, para além da retórica, estão provando que não conseguem fazer a economia mundial recuperar tração; não por outro motivo fenômenos como a derrota estrepitosa de Macri na Argentina voltam a ocorrer, mostrando que o giro à direita na política global (particularmente no Cone Sul da América Latina) tem claros limites. Bolsonaro vislumbra a economia brasileira à beira da recessão, num cenário internacional desfavorável. Em base a isso, as novas formas de pensar e sentir, produto da crise orgânica, podem também dar saídas em outra direção.




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