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INDÚSTRIA AUTOMOTIVA

Greve da Nissan: Uma luta testemunho de que trabalhadores e patronal não "remam na mesma direção"

A greve por tempo indeterminado frente aos ares de fechamento da fábrica revela o que pode ser a ponta do iceberg da crise do setor automotivo, com centenas de milhares de demissões em todo Estado espanhol. Nissan e Renault: linhas de montagem globais em crise, possíveis realocações e medidas protecionistas. Um debate sobre que tipo de nacionalização deve ser levada adiante: sem indenização e sob controle operário.

Cynthia Lub

Barcelona | @LubCynthia

Federico Grom

Barcelona

quinta-feira 28 de maio| Edição do dia

Foto: Xavi Ariza / ID.es

Desde o último 4 de maio, trabalhadores e trabalhadoras da Nissan convocaram uma greve por tempo indeterminado: “Nós colocamos nossas armas em cima da mesa, que no momento é a greve e será de caráter indefinido até que não se defina nosso futuro. Se a Direção pensa que, por estarmos confinados, vamos ficar quietos e eles poderão fazer o que quiserem, se equivocam e muito”, declaravam.

Greve por tempo indeterminado frente aos ares de fechamento sobre a fábrica: um conflito gestado antes da pandemia

O conflito estava se gestando antes da crise da pandemia. Desde fevereiro, nuvens negras de fechamento se aproximavam da fábrica da Nissan em Barcelona e os trabalhadores se manifestavam nas ruas, denunciando que a direção da marca japonesa não colocava sobre a mesa um plano de viabilidade para as diferentes fábricas.

Após o coronavírus, a crise se acelerou, quebrando a cadeia de produção devido à falta de componentes vindos da China. A empresa Nissan, junto da SEAT, aproveitou e lançou uma ofensiva contra a fábrica, implementando um ERTE [Expediente de Regularização Temporário de Emprego] nos 3.000 trabalhadores e trabalhadoras regulares no final de março, firmado em acordo com as sindicais CCOO e a UGT.

Enquanto isso, a empresa anunciou o início de uma linha de produção para montar um pedido de vans para a marca Mercedes, exigindo apenas 30% dos trabalhadores da fábrica, que, no final, voltariam a ficaria sem trabalho, enquanto o restante permanece no ERTE - sem data de retorno.

Em 4 de maio, a atividade devia ser retomada. Mas o Comitê da empresa e os trabalhadores rechaçaram esse plano da patronal, iniciando assim uma greve por tempo indeterminado na fábrica de Montcada, que afeta as outras fábricas de Barcelona, de Zona Franca e Sant Andreu.

"Não estamos dispostos a que nos usem para produzir o que lhes interessa, para cumprir seus contratos e depois nos deixar atirados. Não se pode permitir que uma multinacional como essa, que juntamente com a Renault forma a aliança economicamente mais poderosa do setor automobilístico, use a catástrofe de uma pandemia para deixar milhares de famílias desempregadas", declaram os trabalhadores.

O vazamento de más notícias desde a multinacional japonesa e a falta de resposta da direção da empresa, que segundo dizem não chegará até setembro, aumenta as incertezas entre os funcionários. Da gigante Nissan dependem 4.200 funcionários diretos das fábricas do Estado espanhol na Catalunha, Ávila e Cantábria.

Eis a crise no setor automotivo: 300.000 empregos diretos e 2 milhões de postos indiretos estão em risco no Estado espanhol. As consequências do possível fechamento de fábricas da Nissan na Catalunha não passariam despercebidas, implicariam quase 3.000 demissões de trabalhadores diretamente contratados pela empresa e 25.000 pertencer a empresas externas vinculadas ao setor; além das demais fábricas do país. Esses números são um reflexo do que aconteceria se a crise causada ou acelerada pelo coronavírus afetasse totalmente o setor automotivo (incluindo distribuição e atividades relacionadas).

O automóvel é um dos principais setores da economia do Estado espanhol, junto ao turismo, representando 10% do PIB e o segundo maior fabricante de automóveis na Europa e oitavo a nível mundial. Segundo a entidade publico-empresarial ICEX-Espanha, o setor "gera 300.000 empregos diretos e 2 milhões de postos de trabalho no total estão ligados ao setor" e contra com 17 plantas de fabricação, "1.000 empresas fabricantes de componentes e equipamentos integram a cadeia de fornecimento para a indústria" e “82% dos veículos fabricados na Espanha são exportados para mais de 100 países. 5,4 milhões de veículos são transportados todos os anos pelo território espanhol”.

Lucro multimilionário, enquanto as novas perdas vão para os trabalhadores

Não há dúvida de que a crise do coronavírus afetou enormemente a indústria automotiva em todo o mundo, frente a uma produção automobilística altamente internacionalizada com cadeias de montagem globais.

Agora, também é preciso dizer que os lucros dos anos anteriores foram multimilionários. No Estado espanhol, entre 2012 e 2018, a fabricação de veículos havia se recuperado aos níveis anteriores à crise, com um aumento na produção de 42,5%. A capacidade de produção estimada é de 3 milhões de veículos e, durante 2018, 2.819.565 saíram das fábricas. Uma média de 4 bilhões de euros foi investida na ampliação e modernização das plantas como um todo - construtoras e setor de fornecedores de automação.

Por outro lado, o peso da venda está no volume de exportações. Em 2018, com 82% indo para mais de 100 países. Cerca de dois milhões se destinam a países da UE, mas com um crescimento de 43% nas exportações para países da África e América Latina, com os quais a indústria automotiva gerou um superávit comercial de €10,6 bilhões.

Atualmente, em todo o Estado, as perdas na produção de veículos estimadas no último mês são de 451.833 milhões de euros. Parece, então, que os lucros patronais milionários dos anos anteriores não são suficientes para cobrir essas novas perdas; portanto, todos os seus planos visam que os trabalhadores é que paguem. E os fundos públicos.

Nissan e Renault: linhas de montagem globais em crise, possíveis realocações e medidas protecionistas

O caso da Nissan antecipa uma realidade que vai além dessa marca, afeta o conjunto do setor. As medidas protecionistas de distintos Estados europeus vêm complicando um panorama pouco favorável para a indústria automobilística.

As multinacionais de automóveis com fábricas na Europa exigem da União Europeia um plano extraordinário de ajuda pública ao setor. O próprio governo do PSOE-Unidas Podemos exigirá que a UE concentre 10% dos fundos europeus para reconstrução pós-covid neste setor.

Nesse contexto, um dos fatores que podem afetar a indústria do Estado espanhol é que o Estado francês tem parte das ações do grupo PSA (15%) - das marcas Peugeot, Critrôen, Opel, entre outras - e do Grupo Renault (6%). A crise atual afetou ambos grupos e a Renault pediu ao Estado uma injeção de 5 bilhões de euros. Diante disso, o ministro da Economia e Finanças, Bruno Le Maire, anunciou sua intenção de realocar a produção dos veículos do grupo e estabeleceu como condição transferir a produção para a França para conceder ajuda pública às empresas.

Um informe de El Salto explicava que “das 17 fábricas de automóveis existentes na Espanha, sete pertencem aos dois grandes consórcios franceses. Atualmente, o grupo PSA possui três fábricas, uma em Vigo, uma em Figueruelas e uma em Madri, enquanto a Renault tem quatro fábricas, duas em Valladolid, uma em Palencia e outra em Sevilha”.

No caso da japonesa Nissan, sua aliança empresarial com a Renault está em risco. Em 14 de maio, vazou pelo jornal japonês Nikkei que o plano de reestruturação poderia levar ao fechamento das fábricas de Barcelona para transferir a produção para as fábricas da Renault. Le Marie pressiona para repatriar e investir em tecnologia de veículos elétricos, enquanto a patronal faz as contas para definir o que será mais rentável em custos e benefícios.

No entanto, tudo isso são apenas notícias não oficiais que chegam à fábrica da Nissan em seu piquete de greve através da imprensa, pois há um silêncio absoluto por parte da empresa.

Trabalhadores e patronais não "remam na mesma direção"

As patronais não têm outro plano senão defender seus lucros, seja realocando, repatriando ou continuando a manter a produção a baixo custo em qualquer continente. Os governos central e regionais já estão mostrando planos de emergência a seu favor diante da pandemia. Eles sempre remam juntos, mas contra a classe trabalhadora.

Javier Pacheco, Secretário Geral da CCOO da Catalunha, e Miguel Ángel Boiz, Secretário Geral da Seção Sindical da CCOO da Nissan, fazem propostas para as fábricas da Nissan em um artigo publicado em La vanguardia, onde deixam claro que a estratégia da CCOO se concentra mais em apontar para a patronal as possíveis vias de negócio que a realidade atual oferece, do que em defender os direitos dos trabalhadores da fábrica e os empregos.

Eles veem no veículo elétrico e na reconversão "uma aposta estratégica para o benefício da empresa e para o restante da cadeia de valor do setor". Desde o comitê de trabalhadores da Nissan, afirmam que "tanto administrações como trabalhadores/as temos que criar uma frente comum para conseguir a continuidade da atividade industrial da NISSAN na Catalunha e na Espanha", e apresentaram um projeto em conjunto o Industry and Department da empresa para isso.

Mas a administração, ou seja, o governo da Generalitat e do Estado, a única coisa que garantem são os negócios das patronais, e assim o fariam no caso de um "novo plano industrial" ser configurado. Por um lado, com injeções milionárias de dinheiro público.

Por outro lado, com cortes, demissões ou "convites" de aposentadoria antecipada; e para os trabalhadores que sobrevivam a eles, novas e piores condições de trabalho, flexibilização, duplas tabelas de salários com maior jornada de trabalho etc. Nada diferente do que foi vivido todos esses anos, mas sob as nuvens de crise após o coronavírus, se avizinham mais golpes à classe trabalhadora.

E toda essa "nova empresa" conta com a ajuda das burocracias sindicais. A direção da CCOO propõe um programa de plano industrial no qual o futuro dos trabalhadores e trabalhadoras da Nissan está vinculado aos bons negócios da empresa. Já vimos no início da crise a velocidade com que eles concordaram com o CEOE e o Governo em ERTEs expressos a custo zero para as patronais. O que também implicou um corte de 30% na receita para dezenas de milhares. E agora a possibilidade demissões pós-ERTE.

As ilusões de que trabalhadores e patronais podem "remar juntos na mesma direção" não podem vir dos sindicatos, que hoje mais do que nunca devem funcionar como verdadeiras ferramentas de luta e organização em combate contra todas as ilusões utópicas de um possível "plano" industrial ”da mão de empresários e governos.

Uma ilusão reacionária que concentra esforços na busca de alianças com as administrações institucionais, não com outros coletivos como as trabalhadoras da saúde, a juventude que retorna às ruas contra a crise e a repressão, entre outros, para gerar uma rede de solidariedade ativa que atue como uma verdadeira fortaleza de combate. Essa perspectiva não ajuda a se preparar para um fechamento que, se realizado, será duríssimo para a vida das famílias dos trabalhadores.

Também não é compreensível que sindicatos de esquerda como a CGT, que faz parte do conselho de trabalhadores da Nissan - formado por Sigen-USOC, CCOO, UGT e CGT - não proponham um programa alternativo. A unidade necessária, sempre para lutar pelos postos de trabalho, não pode ser confundida com a assimilação a um sindicalismo pró-patronal.

É essencial que as organizações da esquerda anticapitalista e revolucionária, sindicatos combativos e setores de trabalhadores todo o mundo apoiemos ativamente essa greve que é um testemunho para toda a classe trabalhadora. Esse apoio ativo é tão necessário quanto uma proposta alternativa: a ocupação e nacionalização sem indenização, sob controle dos trabalhadores.

Ocupação e nacionalização: sem indenização e sob controle dos trabalhadores

Em 15 de maio, estávamos nos piquetes de Montcada. Perguntamos a Eduardo, um grevista da Nissan, se ele achava possível ocupar a fábrica para produzir sob o controle dos trabalhadores e reconverter a produção de acordo com as necessidades atuais da covid-19, para que todos os postos de trabalho pudessem ser mantidos. E ele nos respondeu: “Claro, nós poderíamos fazer isso. Somos muito bem treinados, recebemos muitos prêmios de qualidade, conseguiríamos. Já existem equipes de trabalho voluntário na Zona Franca que fabricam respiradores, aventais e essas necessidades que temos agora para a covid-19”.

A ideia de nacionalização estamos levantando em muitas organizações. Mas é necessário abrir o debate de como e com que perspectiva. No comunicado da Esquerda Independentista e reproduzido pela CUP, propõe-se uma nacionalização na qual deixa a janela aberta para compra pelo Estado a preço de mercado. Ou seja, não como uma medida de expropriação na qual seria essencial colocar o controle dos trabalhadores no centro; algo elementar para que qualquer reconversão não seja um novo resgate estatal para um futuro acionista.

Não será a primeira vez que um Estado burguês, salvando os capitalistas da falência, compensa o valor das empresas nacionalizadas aos seus proprietários, inclusive deixando essas empresas nacionalizadas sob direção de seus proprietários anteriores. Em muitos casos, após serem sanitizadas ou reconvertidas com o investimento às custas do Estado, são novamente transferidas para mãos privadas com saldo lucrativo.

A CUP, no mesmo comunicado, levanta como exigência ao Governo do Estado "que, diante de um possível fechamento sem alternativas ocupacionais, proíba toda atividade comercial da marca Nissan e de sua aliada Renault"; uma medida muito questionável, pois implicaria que as fábricas da Renault não possam produzir ou abrir concessionárias, deixando milhares na rua.

Desde a esquerda política e sindical que afirma ser anticapitalista e de classe, diante da ameaça de fechamento e demissões em massa, o único programa eficaz para proteger o maquinário, impedir que seja levado embora e proteger os empregos é a ocupação das fábricas pelos trabalhadores e trabalhadoras. E o primeiro passo para fazer isso é chamar que a solidariedade de toda a população cerque a fábrica, para exigir que as plantas industriais sejam nacionalizadas, sem qualquer indenização e sob controle dos trabalhadores.

Este programa não é impossível de levar a cabo. Desde o grupo parlamentar da CUP poderia ser apresentado um projeto de lei de nacionalização, sem remuneração e sob o controle dos trabalhadores da Nissan e das empresas que fechem. Um projeto de lei como parte da campanha de solidariedade e que receba amplo apoio de milhares de pessoas que vêem seus empregos ameaçados.

Uma nacionalização que, ademais, também coloca os interesses dos trabalhadores à frente dos negócios dos patrões e a fábrica a serviço das necessidades sociais, sob a implementação de uma verdadeira reconversão da indústria automobilística.

Uma grande fábrica de automóveis como a Nissan pode não apenas produzir respiradores artificiais, outros equipamentos hospitalares ou camas articuladas para lidar com a pandemia de Covid-19, mas também produzir em massa veículos coletivos verdes para reduzir as emissões de gases poluentes e combater as causas das mudanças climáticas e transformar o modelo de mobilidade de nossas cidades. Uma reconversão da indústria, focada não nos interesses capitalistas, mas nas necessidades da comunidade.

Artigo publicado originalmente em Izquierda Diario.es
Tradução para o Esquerda Diário: Caio Reis




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