DAVOS

Greta Thunberg vs Donald Trump: encontro em Davos 2020 contra a crise climática global

A jovem, referência na luta contra a emergência climática e o presidente dos EUA voltaram a se cruzar. Ele se comprometeu a “plantar árvores” mas para Greta isso “não é suficiente”.

terça-feira 21 de janeiro| Edição do dia

Era o encontro mais esperado do Fórum Mundial de Davos (Suíça): Greta Thunberg, símbolo das mobilizações contra a crise climática global, e o presidente estadunidense Donald Trump, negacionista climático declarado, estiveram presentes na Suíça para a edição número 50 do encontro que reúne os principais CEO e líderes políticos do mundo.

Não foi a primeira vez: em 2019 haviam se encontrado na ONU onde o olhar furioso de Greta para Trump se tornou icônica e viral. Este foro tampouco é o primeiro da jovem, já que, como afirmou nesta terça-feira, “faz um ano que vim a Davos e disse a todos que nossa casa está em chamas, disse que queria que entrassem em pânico”. Entretanto, a jovem ativista do Fridays For Future denunciou que seu ressonante discurso “não levou a nada”.

Donald Trump é, junto com Bolsonaro e outros políticos como Scott Morrison, primeiro ministro australiano, um reconhecido negacionista da crise climática. E não só isso, Trump converteu a Greta em foco dos seus ataques, chegando a sinalizar que a ativista tem um “problema de nervos” que “precisa relaxar”.

Um dos temas da cúpula de Davos parece dar razão à Greta: “como salvar o planeta”, destacando o aumento no nível dos oceanos, o aquecimento global e o derretimento das calotas polares. Porém, é ao menos curioso (ou digno do cine catástrofe dos americanos) que a elite global responsável por levar a humanidade e a Terra a uma crise que ameaça a sobrevivência se proponha ao desafio de “nos salvar”. Greta foi uma das oradoras para essa categoria. Assim como a zoóloga e antropóloga Jane Goodall, Al gore e Jennifer Morgan, presidenta do Greenpeace internacional.

Momentos antes do discurso de greta, Trump tinha feito um chamado a “rechaçar aos profetas da fatalidade” que reclamam ações contra o aquecimento global, acusando de “alarmistas” a quem, segundo ele, buscando controlar “cada aspecto” da vida dos demais. “Nunca deixaremos aos socialistas radicais destruir nossa economia ou erradicar nossa liberdade”, ampliou para que não restassem duvidas. Como se sabe, Trump defende a liberdade de espalhar a fome, fazer guerras, contaminar e destruir o planeta.

Cinicamente, o presidente norteamericano se comprometeu a plantar “um bilhão de árvores”, como propõe o Fórum Econômico de Davos, enquanto celebra que os Estados Unidos seja o maior produtor de petróleo e gás do mundo. Quer dizer, exatamente os fósseis responsáveis pelas emissões de dióxido de carbono que contribuem para o aquecimento global.

A resposta de Greta foi adequada: “plantar árvores está bem, claro, porém nem de longe se aproxima ao que devemos fazer”. Já não se trata de reduzir emissões de carbono, mas sim de acabar com elas para sempre se pretende alcançar o objetivo de impedir que a temperatura do planeta não se eleve em mais 1,5 graus, como projetou o IPCC (Painel Intergovernamental sobre mudanças Climáticas) da ONU, uma organização que não podemos qualificar de “socialista radical”. Nossas emissões devem parar se queremos ter a oportunidade de nos manter sob a meta de 1,5 graus, sinalizou Greta.

A diferença do “otimismo” ignorante e interessado de Trump, que rechaça inclusive as considerações de especialistas no clima do seu próprio país (e os financia), o discurso urgente de Greta Thunberg acusou aos líderes políticos e CEO de ter sobreposto os interesses econômicos imediatos à necessária transição ecológica. “Estou aqui para lhes dizer que, diferente de vocês, minha geração não se renderá sem ter lutado”.

Para Thunberg, é correto repudiar e sentir preocupação pelo abandono por parte dos Estados Unidos do Acordo de Paris, sendo uma das principais e mais importantes economias do mundo, porém, por sua vez assinala, como uma mensagem aos “capitalistas verdes” presentes, que o fato e que “todos estamos fracassando em cumprir os compromissos que vocês firmaram no acordo de paris não parece incomodar aos poderosos”. Com o fracasso ainda recente da última COP25, presidida pelo Chile e com sede em Madrid, mostra uma vez mais o erro de colocar expectativas nesses encontros diplomáticos de onde emergem “acordos formais” sem compromissos nem obrigações.

Em seu discurso, Greta Thunberg diz que “tanto direita, quanto esquerda, quanto centro” no poder fracassaram na luta contra a emergência climática, posto que somente lançaram “palavras vazias” e “promessas”. Falar sobre a crise climática e inclusive colocá-la como marco sem questionar profundamente ao sistema social e sua matriz produtiva e de consumo que a originou só pode levar ao fracasso. É o fim do mundo e o fim do capitalismo.

Mais cedo, a jovem sueca participou com outros jovens em um painel durante o fórum em que assinalou que “nada foi feito” na luta contra as mudanças climáticas nos últimos tempos. Enquanto os poderosos do mundo discutem hipocritamente em cúpulas sobre o inegável se esgota o tempo para evitar uma catástrofe ainda maior sobre as próximas gerações. A década que acaba de começar será fundamental: o desafio é reduzir as emissões de gases do efeito estufa (em nível global) em um mínimo de 45% para o ano de 2030. É urgente sem dúvidas nos enfrentar nas ruas contra Trump mas também com os “capitalistas verdes”.




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