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AGRONEGÓCIO | Goiás: produção agropecuária recorde em 2020, mas 10% da população vive com R$ 10/dia

Irracionalidade capitalista é refletida na situação dos goianos: 6,07 milhões de hectares plantados, 7,2% a mais que a safra anterior, mas o estado tem cerca de 10% da sua população vivendo hoje com cerca de 10 reais diários.

Cris LibertadProfessora da rede estadual em Anápolis - GO.

sábado 15 de maio | Edição do dia

Foto: Mais Goiás

Já são mais de 420 mil mortos por covid-19 e já faz cerca de dois meses que a média mortis diária no país está acima de 2 mil. Entretanto, os números referentes aos lucros obtidos pelos capitalistas não param de sair e são números expressivos, recordes em um cenário em que milhões entraram na linha da miséria no país.
Seguindo a corrente da crise capitalista e sanitária do país – descarregada nas costas do povo trabalhador e pobre – Goiás já se aproxima da marca de 16 mil mortos e quase 569 mil casos em um estado que tem aproximadamente 7,1 milhões de habitantes.

São números alarmantes. O governador Ronaldo Caiado (DEM) e prefeitos como Rogério Cruz (REPUBLICANOS/Goiânia), Gustavo Mendanha (MDB/Aparecida de Goiânia) e Roberto Naves (PP/Anápolis) são os responsáveis, pois a "política de enfrentamento" à epidemia em Goiás se traduziu na abertura de poucos leitos e decretos ineficientes no fechamento de atividades comerciais, que colocaram o estado dentre os que estavam com os índices mais baixos de isolamento social, expondo os trabalhadores à condições insalubres de trabalho. No início da pandemia chegou a ocupar o último lugar no ranking de isolamento no país, com menos de 38%, este ano não chegou a 33%, dados que escancaram que os inúmeros decretos publicados em Goiás só vieram a prejudicar os trabalhadores. Notou-se isso com a arbitrária imposição no transporte coletivo na região metropolitana de Goiânia, limitando o acesso do público que não consiga comprovar que é "trabalhador de serviços essenciais" durante os horários de pico. O panorama dos decretos em Goiás, foi de dificultar as vidas dos trabalhadores e de aumento da força policial nas ruas, que se voltam contra a juventude pobre e negra das periferias e aos demais trabalhadores e trabalhadoras. Tal contextualização vem para situar o leitor que Goiás, assim como o restante do país, não possui políticas de enfretamento ao vírus e que sua população também vem sendo duramente atingida pelos efeitos da pandemia.

É notória a reentrada do país no mapa da fome e os números elevados de pessoas que se encontram em insegurança alimentar. O que chama a atenção no que se refere ao estado de Goiás é o tamanho de sua produção agrícola e pecuária em consonante com a quantidade de goianos que entraram na linha da pobreza neste mais de um ano da pandemia. A safra 2019/2020 em Goiás, atingiu índices históricos. Foram cerca de 6,07 milhões de hectares plantados, 7,2% a mais que a safra anterior e uma produtividade de mais de 4500 quilos por hectare. No período em que o arroz e o feijão pesam nos bolsos dos trabalhadores com alta de mais de 60% em 2020 – e aumentando! - Goiás expandiu sua produção nessas culturas em mais de 7% para o arroz e mais de 9% em feijão. Na criação de animais, o abate de frangos foi o maior da história goiana em 2020. Esses são apenas alguns dos superlativos da produção agropecuária em Goiás que apresenta previsão de alta em 2021, assim como o de número de goianos na linha da pobreza e da fome, além também do desmatamento do Cerrado, que vem sendo massacrado em nome da produção agrícola e pecuária.

Fonte: Wenderson Araujo/CNA

Mas nada disso impediu que a situação de pobreza atingisse em cheio os goianos. No município de Aparecida de Goiânia, localizado na região metropolitana de Goiânia, capital de Goiás e com a estimativa de 590 mil habitantes, cerca de 169 mil receberam ao menos uma parcela do Auxílio Emergencial em 2020. Os dados apontam que a quantidade de pessoas dependentes de benefícios reflete o aumento da pobreza na região. Deve-se destacar que o número pode ser bem maior, tendo em vista que os mais vulneráveis, passam por uma situação de invisibilidade e que não conseguem alcançar esses benefícios pífios do governo.

Dados levantados pela Cufa (Central Única das Favelas), dão conta que Goiás desde o início da pandemia viu cerca de 10% de sua população passar a viver na linha abaixo da pobreza, sobrevivendo com cerca ou menos de R$ 10 por dia. É uma realidade alarmante em um dos estados com as maiores produções agropecuárias do país.

Epidemia, fome, desalento e destruição ambiental: Quais são as soluções?

A produção irracional do capitalismo impede que se possa reverter esse cenário de fome que se alastra não apenas em Goiás e no Brasil, mas no mundo inteiro. A crise capitalista não é um sintoma direto da pandemia, ela já estava em curso antes disso, mas claramente foi aprofundada pela crise sanitária que o capitalismo não conseguiu deter e que leva centenas de milhares à morte todos os dias desde o princípio de 2020. Os capitalistas por sua vez, veem seus lucros aumentando paulatinamente, e o restrito clube de bilionários cresceu. Contudo, os Estados atuam para que o povo pobre e trabalhador pague pelos prejuízos de 2020/2021, mas os movimentos de resistência estão por todos os lados e inclusive se apresentam no Brasil. Ao vermos o avanço do Black Lives Matter, após o assassinato de George Floyd pela polícia racista do império estadunidense, vê-se uma série de outros movimentos pelo mundo, em que as pessoas demonstram que a luta maior deve ser contra o sistema que trouxe essa crise – inclusive as condições de proliferação do vírus – para a humanidade.

O exemplo do povo de Myanmar que luta contra o golpe; dos trabalhadores de Grandpuits na França contra a gigante do petróleo Total para manutenção de seus empregos, através da auto-organização e do apoio massivo da sociedade; a vitória das trabalhadoras da saúde em Neuquén na Patagônia Argentina, em que através da greve, luta e apoio de diferentes categorias, conseguiu um aumento salarial para todo o funcionalismo público na província. E mesmo a luta do povo colombiano que saí nas ruas contra o ultra-direitista Ívan Duque e sua polícia assassina, contra as reformas e anos de neoliberalismo que conduziram a sua população à pobreza e à fome. São lutas empreendidas pelas as e os trabalhadores, a juventude e demais minorias que não abaixam a cabeça para a exploração e as opressões que esse sistema caduco, irracional e injusto impõe. Esses exemplos são estratégicos para que não nos deixemos abater nesse momento reacionário em que o Brasil está. São exemplos do que devemos fazer para enfrentar a fome, o desalento e a destruição ambiental que nosso país está sendo vítima.

Aqui no Brasil, devemos tomar esses exemplos e estar atuando junto às lutas que estão em curso no país, como os professores que em diversos estados lutam contra o retorno inseguro das aulas; as trabalhadoras terceirizadas da LG, que estão em greve para não ficarem desempregadas em plena pandemia; os vários movimentos de metroviários e rodoviários pelo país – DF, SP e outros -, por vacinação e melhores condições de trabalho, além de restituição de direitos. E agora, ao lado dos familiares dos mortos em Jacarezinho, no RJ por justiça e pelo fim dessa polícia assassina. Mas, para isso, é fundamental que as grandes centrais sindicais como a CUT e a CTB rompam de sua paralisia e organizem um plano nacional de lutas, pela base, para enfrentar esse regime - que tem o agronegócio racista como um de seus principais apoiadores. Que a UNE e demais entidades estudantis também se mobilizem junto aos trabalhadores e o povo pobre. Todas essas entidades são dirigidas pelo PT e PCdoB, partidos que administraram o capitalismo e negociaram junto do agronegócio por décadas, pavimentando o caminho para o golpe institucional com sua conciliação de classe.

Nesse sentido, nossa mobilização precisa ser pela luta por uma saída independente da classe operária, sem nenhuma confiança no regime golpista, nos inspirando em Myanmar, Colômbia e tantos outros. Por uma reforma agrária radical, com a expropriação de todo o latifúndio sem nenhuma indenização aos barões; nacionalização de todo o solo do país, com a redistribuição de terra para todos os que desejem e assegurando as terras dos camponeses pobres que nela trabalham; da mesma forma, é preciso defender a demarcação para todas as nações indígenas de seu território, bem como do pleno direito à auto-determinação dos povos indígenas e quilombolas.

Além, disso, é necessária a imediata estatização sob controle operário das indústrias alimentícias, bem como o congelamento do preço dos alimentos nos níveis anteriores à pandemia. A Vigor Alimentos, por exemplo, que fechou sua planta em Anápolis, é o exemplo do que os capitalistas querem: menos despesas, mais mão de obra barata e mais lucro. Para preservar emprego, renda e alimentar o povo, é fundamental que essas fábricas sejam estatizadas sob controle operário, ao mesmo tempo que seria possível construir uma aliança com as universidades, o movimento camponês e indígena a fim de produzir alimentos em larga escala e de qualidade para toda a população - não de forma predatória em relação ao meio-ambiente e com trabalho análogo à escravidão como nas lavouras de corte de Abadiânia/GO.

Para conquistarmos essas demandas, é preciso luta e uma aliança da classe operária com os camponeses pobres, os povos originários e todos os oprimidos! Enquanto os barões do agronegócio chamam ato em prol de Bolsonaro, é fundamental que a classe operária e os oprimidos digam: aqui não vai passar a boiada! Portanto, não dá para esperar por 2022 - Bolsonaro, Mourão, o Judiciário e esse parlamento corrupto e nada democrático que temos no Brasil não irão resolver os nossos problemas. O impeachment de Bolsonaro, só traria para a presidência o saudosista da ditadura no lugar do genocida. Portanto, se faz urgente mais um chamado, que a esquerda que se reivindica revolucionária, deixe de alimentar ilusões com o impeachment, de se sentar com o que há de mais pobre na direita desse país e de andar de braços dados com o PT que na figura de Lula acena para os golpistas, capital financeiro e o próprio agronegócio. Somente a mobilização das trabalhadoras negras que movem esse país, de todos os trabalhadores, do povo pobre com a juventude, que podemos enfrentar esse regime que nos empurra à fome e à morte. Na luta contra esse regime autoritário, é preciso batalhar por uma resposta independente de todos os atores do golpe, pela imposição de uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana - que possa acabar, sem tutela de nenhum poder, com todas as medidas que ataquem os problemas do campo, do desemprego, e da pandemia - avançando assim na luta por um governo de trabalhadores em ruptura com o capitalismo.

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