Sociedade

TRIBUNA ABERTA

Geraldo Alckmin e suas aulas sobre “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel

Tome, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com a intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente considerada e lida, Vossa Magnificência conhecerá o meu extremo desejo: que vossa Magnificência alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma grande e contínua má sorte. NICOLAU MAQUIAVEL. Carta a Lorenzo de Médici em “O Príncipe”.

sexta-feira 11 de dezembro de 2015| Edição do dia

Obra clássica das áreas de Administração, Economia, Direito e Ciências Sociais, “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel é de indispensável leitura para aqueles que buscam compreender como funcionam os meandros das ações políticas estatais. Escrito em 1513, “O Príncipe” surpreende pela atualidade. Todos os governos acatam, esporádica ou persistentemente, as recomendações feitas por Maquiavel para a manutenção da governabilidade – leia-se status quo.

Geraldo Alckmin (PSDB-SP), por exemplo, vem dando uma aula prática digna das melhores pós-graduações em Ciência Política sobre a aplicabilidade da teoria de Maquiavel. O governador de São Paulo tem demonstrado ser profundo conhecedor da teoria política do pensador renascentista. Seguem abaixo algumas evidências disto:

A manutenção do poder

De acordo com Nicolau Maquiavel, “a dificuldade de se manter Estados herdados cujos súditos são habituados a uma família reinante é muito menor do que a oferecida pelas monarquias novas”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 30). Maquiavel nosensina que os súditos se “habituam” ao domínio da mesma estirpe de governantes, o que facilita o seu controle e submissão.

O PSDB de Geraldo Alckmin está no governo do Estado de São Paulo há vinte anos(2). O império psdbista em São Paulo foi iniciado com Mário Covas, que governou dois mandatos (1995-1999 e 1999-2001), falecendo sem concluir o segundo. Quem assumiu em 2001 foi o então vice-governador Geraldo Alckmin que foi eleito governador no ano seguinte, mas não concluiu o mandato já que renuncioupara concorrer às eleições presidenciais de 2006.

Em 2007 José Serra foi eleito mas, assim como seu antecessor, não concluiu o mandato, tendo renunciado para também concorrer às eleições presidenciais de 2010. Ao que tudo indica, era uma necessidade peremptória expandir o império psdbista. Maquiavel já alertara que “o desejo de conquista é algo muito natural e comum; aqueles que obtêm êxito na conquista são sempre louvados e jamais censurados; os que não têm condições de conquistar, mas querem fazê-lo a qualquer custo, cometem um erro que merece ser recriminado”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 40).

Repetindo-se na história, o governador que renunciou para alçar voos maiores não obteve êxito em sua empreita, sendo derrotado por Dilma Rousseff em 2010.
Perdoado pelos eleitores paulistas pelo abandono do cargo, Geraldo Alckmin foi novamente eleito – em primeiro turno – em 2011 com 50,63% dos votos válidos.

Alckmin encerrou este mandato em meio a maior crise hídrica da história do Estado e de graves escândalos de desvio de verbas nas obras do metrô da cidade de São Paulo e, ainda assim, foi reeleito – novamente em primeiro turno – no final de 2014. Desde então, o governo se esforça para manter-se ratificado pela população paulista que, não obstante aos recorrentes escândalos e denúncias, demonstra ter se habituado a sua casta governante.

Parece haver entre o eleitorado paulista e o partido do poder uma relação, em termos weberianos, de dominação tradicional (3). No Estado de São Paulo, a forma típica de dominação estatal transfigurou-se da dominação racional-legal para aquela baseada nos costumes, nas tradições e na irracionalidade.

Cercando-se de bons ministros

No mandato iniciado em 2015, Geraldo Alckmin manteve Herman Voorwald na pasta da Educação, cargo ocupado por ele desde 2011. Herman Voorwald já era figura bastante conhecida entre os educadores paulistas por ter estado na reitoria da Universidade Estadual Paulista –UNESP- entre os anos de 2005 a 2012 (primeiro como vice-reitor e posteriormente como reitor) e por ter assumido durante este período duras posições com relação às manifestações, greves e ocupações da UNESP.

Em 2007 os estudantes universitários paulistas travaram uma intensa mobilização contra decretos do governo do Estado que feriam gravemente a autonomia das Universidades. Na ocasião, as três universidades paulistas e os três segmentos universitários (estudantes, professores e funcionários) aderiram maciçamente às greves e ocupações das diretorias e reitorias. Derrotado, o governo de José Serra revogou os decretos mas não sem antes realizar – via Polícia Militar – as truculentas ações de reintegração de posse solicitadas pelas diretorias e reitorias(4).

Percebe-se que há uma tradição dos governos do PSDB no que tange à forma de lidar com as políticas educacionais e com as mobilizações e reivindicações estudantis e do professorado. Quaisquer manifestações que se oponham às medidas unilaterais tomadas pelo governo são respondidas com desproporcional truculência policial. Não nos faltam exemplos da inexistência de disposição em dialogar e manter-se aberto às reivindicações populares, sobretudo às relativas à educação (5): forte indicativo de que tais medidas compõem propriamente uma política de Estado levada a cabo, no caso, pelo Secretário da Educação.

Maquiavel já indicava a função dos ministros e qual deveria ser a medida de sua relação com o Príncipe. Segundo o autor, “... os Príncipes devem delegar para outras pessoas as tarefas como os julgamentos, e conceder os favores pessoalmente”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 114).Afirmava também que os ministros são reflexos do Príncipe, ao entender que “a escolha dos ministros por parte de um príncipe não é coisa de pouca importância: os ministros serão bons ou maus, de acordo com a prudência que o príncipe demonstrar”. E ainda:

A primeira impressão que se tem de um governante e da sua inteligência é dada pelos homens que o cercam. Quando estes são eficientes e fiéis, pode-se sempre considerar o príncipe sábio, pois foi capaz de reconhecer a capacidade e de manter fidelidade. Mas quando a situação é oposta pode-se sempre fazer dele mau juízo, porque seu primeiro erro terá sido cometido ao escolher os assessores. (MAQUIAVEL, 2006. p. 136).

Geraldo Alckmin anunciou em novembro de 2015 um “plano de reorganização” da rede estadual de ensino (6). Mesmo em meio a intensas mobilizações, manifestações e com cerca de 200 escolas ocupadas pelos estudantes em forma de protesto, o governador deu continuidade ao plano de reorganização com a promulgaçãodo primeiro decreto-lei que regulamentaria a remoção dos professores: primeira medida de efetivação da nova política educacional tucana. Política educacional esta que em teoria preconiza o “melhor aproveitamento” escolar dos estudantes ao instituir ciclos únicos, mas que na prática é um magnífico exemplo do chamado “choque de gestão”: política psdbista inaugurada por Aécio Neves no governo de Minas Gerais e já consagrada por seus correligionários.

... o príncipe que quer conservar seu domínio é forçado às vezes a praticar o mal, pois quando o partido cujo apoio lhe seja necessário para manter sua posição é corrupto – seja do povo, dos soldados ou dos nobres -, precisa amoldar-se a ele e satisfazê-lo, e nesse caso as boas obras serão inconvenientes. (MAQUIAVEL, 2006. p. 116).

O governador do Paraná, Beto Richa (PSDB-MG), anunciou a reorganização da rede estadual nos moldes do governo Alckmin, mas, sob forte pressão popular, recuou. Por sua vez, o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB-GO), aproveitando-se do recesso escolar anunciou “que começou o processo de transferência da administração de 200 escolas estaduais para as Organizações Sociais” (7), que foram convidadas pelo governo goiano a gerir as escolas da rede estadual, tratando-se, no limite, da privatização da rede (8). Percebe-se com clareza que todas estas políticas educacionais possuem o mesmo fundamento: redução de gastos, otimização financeira e completa displicência com relação aos fundamentos e preocupações pedagógicas, compondo a aplicação em âmbito nacional do choque de gestão mineiro.

Hoje a secretaria da educação [de São Paulo] vem recebendo apoio de grandes fundações empresariais através do programa “Compromisso São Paulo” que já contratou “na faixa” a consultoria Mckinsey para assessorar a Secretaria. A mesma que deu assessoria para vários governos estaduais em reformas semelhantes no início dos anos 2000 nos EUA. Agora essa consultoria saiu para dar lugar a empresa FALCONI – a mesma que já ajudou o Governo de Minas a implantar o programa “Choque de Gestão” nos Governos Aécio Neves e Anastasia. Esse choque de gestão foi nefasto para a educação em Minas. É a Falconi que está hoje por trás dessa reorganização em São Paulo, contratada pelas Fundações Empresariais. Com esse pessoal à frente dessa proposta, tendo a considerar, ao contrário do que tem defendido a secretaria, tratar-se de um projeto essencialmente gerencial. Não tem nada de pedagógico.(Evaldo Piolli, professor da UNICAMP) (9)

Em toada sempre crescente, a luta secundarista pelo cancelamento da reorganização escolarpaulista ganhou as ruas. Os estudantes decidiram mudar de tática e coadunar as ocupações à interdição de vias públicas, principalmente na capital. A resposta do governo foi aquela já conhecida: truculência policial (desta vez sobre estudantes menores de idade).

Melhor ser temido que amado

Pai da ciência política, Nicolau Maquiavel asseverava que o Príncipe deveria fazer o máximo para conseguir ser tanto amado quanto temido, mas alertava ainda que a conciliação de ambas as coisas é de extrema dificuldade. Sendo assim, os Príncipes acabarão por se confrontarem com a necessidade de optarem por um destes sentimentos por parte de seus súditos, chegando à conclusão de que “é muito mais seguro ser temido, se for preciso optar”, pois “os homens têm menos escrúpulos em ofender quem se faz amar do que quem se faz temer, pois o amor é mantido por vínculos de gratidão que se rompem quando deixam de ser necessários, já que os homens são egoístas; mas o temor é mantido pelo medo do castigo, que nunca falha”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 103).

Ainda segundo Maquiavel, “... a natureza dos povos é lábil: é fácil persuadi-los de uma coisa, mas é difícil que mantenham sua opinião. Por isso convém ordenar tudo de modo que, quando não mais acreditarem, se lhes possa fazer crer pela força”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 42).

Sabendo ser impossível enamorar os estudantes com sua retórica persuasiva, convencê-los das boas intenções pedagógicas do projeto de reorganização escolar ou dissuadi-los de sua luta, o governo do Estado de São Paulo abriu mão de ser amado. Utilizando seus altos representantes nas Diretorias de Ensino e, sobretudo, o seu braço armado, o governo estadual enveredou pelo caminho do convencimento à força e pelo caminho do temor.

Diversos casos de Diretores e Diretoras que ameaçaram, chantagearam e intimidaram alunos nas ocupações foram divulgados pela imprensa alternativa (10) . Ocorreram casos de “telefonemas de diretores aos pais dos alunos. Na conversa, desde ameaças de o aluno perder o ano até informações de que a polícia entrará na escola armada, usando bombas de efeito moral” (11). Maquiavel já alertava que “... o príncipe precisará sempre do favor dos habitantes de um território para poder dominá-lo, por mais poderoso que seja seu exército”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 32-33). E de favores ao Príncipe têm vivido as Diretorias de Ensino do Estado de São Paulo.
Um caso que ganhou grande repercussão foi a reunião convocada por Fernando Padula Novaes, braço direito do Secretário Herman, com os 40 Diretores de Ensino da rede paulista. Ocorrida no dia 29/11, a referida reunião teve sua gravação em áudio vazada (12). No áudio ouve-se com clareza as orientações de Padula em nome do governo do Estado: a situação se trata de uma guerra na qual “a gente vai brigar até o fim e vamos ganhar e vamos desmoralizar [quem está lutando contra a reorganização]” (13). A estratégia consistiria em desmoralizar a luta e a mobilização estudantil fazendo-a parecer ser instrumentalizada pelos partidos e sindicatos da oposição, isolar os focos mais hostis e neutralizar os focos menos organizados, fazendo parecer que a hostilidade e a recusa ao diálogo residiriam no movimento estudantil.

Todavia, a situação mais amplamente divulgada e debatida foi a extrema e desproporcional violência com a qual a Polícia Militar lidou com as manifestações estudantis ocorridas nas ruas. Segundo o Portal R7, no dia 01 de dezembro, “os alunos bloquearam por quase três horas as duas pistas da avenida 9 de Julho, na região central de São Paulo. Por volta das 21h, quando a polícia tentou liberar o trânsito na avenida, houve confusão. Os policiais jogaram spray de pimenta e bombas de efeito moral contra os manifestantes” (14). Dezenas de fotos e vídeos comprovam o uso desproporcional da força pelos policiais que algemaram, desferiram socos e fortes empurrões, deram gravatas e prenderam os estudantes (15).

Ações truculentas dentro das escolas também foram relatadas:

Lilith Cristina tem 13 anos e é uma das porta-vozes da escola. Enquanto ela tentava chamar a atenção dos demais ocupantes sobre o que acontecia utilizando um microfone ligado a uma caixa de som, tomou um tapa na cara – segundo ela dado pelo diretor – e teve o equipamento tomado. Outros alunos foram agredidos pela PM. Alan levou uma gravata e quase desmaiou. Ao cair no chão levou chutes e foi pisado no peito pelo policial que alegava ter sido empurrado pelo estudante. “Eu tomei spray de pimenta na cara, não estava enxergando nada e esbarrei em alguém. Daí ele me agarrou e comecei a apanhar”, falou o adolescente que apresentava forte vergão no pescoço e andava mancando. (16)

Um relatório sobre os abusos do governo Alckmin contra os estudantes está sendo encaminhado a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) no qual se detalham casos de assédio moral, assédio sexual, privação de liberdade, cárcere privado, limitação do direito à livre manifestação e agressão física. (17)

Vão-se os anéis, ficam os dedos: a deposição dos ministros para a manutenção do poder do Príncipe

Polícia batendo em adolescentes que lutam para a manutenção das suas escolas não costuma ser do agrado da opinião pública e do eleitorado – mesmo do eleitorado paulista, que recorrentemente ratifica os impropérios de sua casta governante. No final de novembro de 2015, a popularidade do governador Geraldo Alckmin atingiu o menor índice da história de sua vida política: 28%(18)
.
Alguém precisaria responder pelas políticas educacionais tão mal aceitas pela população. Alguém precisaria responder pelos estudantes que, apanhando, transformavam-se em ícones políticos. Alguém precisaria assumir a responsabilidade do que ocorria e salvar a candidatura à presidência de Geraldo Alckmin.
Referindo-se à Romanha, Maquiavel relata:

A província era vítima de roubos, assaltos e todo tipo de desordem. O duque julgou necessário dar-lhe um bom governo, que a pacificasse, fazendo-a obediente ao seu domínio. Com esse fim nomeou Ramiro de Lorque, homem capaz e cruel, a quem delegou os mais completos poderes. Em pouco tempo, ele impôs ordem e unidade, alcançando por isso grande fama. Depois disso, o duque, considerando já desnecessária tão excessiva autoridade, para não tornar-se odiado nomeou um tribunal de justiça civil, no centro da província, sob a direção de um excelente presidente e junto ao qual cada cidade designou um advogado que a representava. Como sabia que o rigor aplicado no passado tinha criado um certo ódio, a fim de purgar o espírito do povo e conquistar inteiramente sua simpatia decidiu mostrar que não era responsável pelas ações cruéis que haviam sido praticadas, atribuindo-as à dureza do governador. E na primeira oportunidade mandou matá-lo, cortá-lo pelo meio e colocá-lo, certa manhã, na praça pública de Cesena, tendo ao lado um pedaço de madeira e uma faca ensanguentada. A ferocidade do espetáculo causou espanto e satisfação ao povo”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 59).

Herman Voorwald e Fernando Padula foram demitidos de seus cargos - o primeiro tendo assinado uma suposta “renúncia” logo após a revogação do decreto-lei que disciplinava a remoção dos professores. “A saída decorre da avaliação de que ele [Herman] não soube conduzir a discussão em torno do projeto, que acabou se transformando no maior desgaste político do governador em 2015. (...) O secretário não teria conseguido emplacar a tese de que o movimento era político e partidário”. (19)

O Príncipe não precisa ser bom, precisa parecer bom

Após a extensa e negativa repercussão do decreto-lei do dia 30 de novembro, Geraldo Alckmin surpreendeu ao revogá-lo no dia 05 de dezembro. Atitude ancorada não em uma súbita tomada de consciência ou em uma complacente disposição em atender às reivindicações dos estudantes. A revogação do decreto-lei que trata da remoção de pessoal apenas ocorreu devido à intervenção do Ministério Público e da Defensoria Pública de São Paulo que no dia 3 de dezembro “entraram com uma ação civil pública na Justiça pedindo a suspensão da reorganização escolar proposta pelo governo paulista” (20)

Após esta retumbante derrota, Geraldo Alckmin foi forçado a recuar e publicou novo decreto revogando o anterior. Em um dos seus poucos pronunciamentos sobre o tema, afirmou:

Recebi a mensagem e respeito a mensagem (sic) dos estudantes e dos seus familiares com as suas dúvidas e preocupações em relação à reorganização das escolas aqui do nosso Estado de São Paulo. Por isso, nós decidimos adiar a reorganização e rediscuti-la, escola por escola, com a comunidade, com os estudantes e, em especial, com os pais dos alunos. Nós já temos hoje no Estado de São Paulo 1.500 escolas em ciclo único. (...) Essas escolas de ciclo único que já são hoje 1.500 escolas, elas têm um resultado melhor no IDESP, geralmente quase 15% acima da média, são mais focadas, e não mistura (sic) crianças de 6 anos com aluno de 17 anos de idade. Por isso a nossa convicçãodos benefícios que a reorganização traz para a qualidade da escola pública em São Paulo. (...) Mas entendemos que nós devemos aprofundar o diálogo que estamos fazendo há meses, acreditamos nos benefícios da reorganização, isso fecha um ciclo porque permite a gente ajudar (sic) também no ensino infantil (só na cidade de São Paulo faltam 150 mil vagas em creche – fora (sic) a pré-escola), então vamos dialogar escola por escola. Então o ano de 2016, que ia ser o ano de implantação será o ano de aprofundarmos este diálogo. (...) Me permitam aqui ler uma frase que gosto muito do Papa Francisco, que diz o seguinte: “Sempre que perguntado entre a indiferença egoísta e o protesto violento, há uma opção sempre possível: o diálogo”. (21)

Em nenhum momento de sua fala, Alckmin informa ao seu eleitorado que a decisão de adiar a reorganização está diretamente ligada à ação civil publica movida pelo Ministério Público. Em nenhum momento o governador diz que se antecipou ao julgamento da ação civil pública para não ser obrigado a cumprir liminar, o que seria motivo de uma desestabilização ainda maior para o seu mandato (tiro que saiu pela culatra tendo em vista que o Ministério Público manteve a ação contra o governo (22) ).

Em contrapartida, Alckmin afirma repetidas vezes que vai abrir diálogo e que inclusive vem dialogando há meses com as comunidades e escolas, o que é facilmente passível de contestação. Alckmin determina que 2016 seja um “ano de diálogo”, mas afirma categoricamente sua convicção de que a reorganização é a melhor política educacional a ser implantada, deixando nítido o quão infrutíferos serão os diálogos a serem travados no ano que virá. O governador parece ignorar completamente a reivindicação estudantil: os estudantes não querem dialogar a proposta de reorganização escolar, eles não querem “compreendê-la melhor”. Eles já entenderam perfeitamente bem o que é a reorganização da rede estadual de ensino e eles exigem que tal medida seja cancelada.

Em sua fala, Alckmin em nenhum momento disse a palavra “cancelamento”: o governador se refere ao adiamento da reorganização. Todavia, com a cooperação da mídia televisiva e virtual, disseminou-se a falsa informação de que a reorganização da rede de ensino havia sido revogada - confusão gerada pela revogação do decreto-lei que tratava da remoção dos professores no dia 05/12. Propositalmente fez-se uma identificação entre coisas que não são idênticas: o plano de reorganização e o decreto-lei que regulamenta uma fase desta reorganização. O portal G1, ainda no dia 05/12, fez o seguinte anúncio “Alckmin oficializa revogação da reorganização escolar em São Paulo” em letras garrafais, seguido pelo esclarecimento de que “o decreto que revoga a transferência dos funcionários da Secretaria da Educação foi publicado no Diário Oficial”(23).

Referindo-se a Lorenzo de Médici, déspota italiano, Maquiavel ironicamente assevera: “Há em nossos dias um certo príncipe, que é melhor não nomear que só faz pregar a paz e a boa-fé, embora na verdade seja um inimigo visceral de ambas as coisas; se observasse uma ou outra, teria em muitas oportunidades perdido seus domínios ou a reputação”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 109). De acordo com Nicolau Maquiavel não é necessário que um príncipe possua todas as qualidades prezadas pelos seus súditos, mas é fundamental “que as aparente todas”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 108).

Sob esta perspectiva, é interessante notar como um “erro editorial” como o do Portal G1 pode ser benéfico ao governo na medida em que dá a entender que não há mais pelo o que lutar e incentiva, assim, a desmobilização estudantil. Todavia, o Príncipe Paulista está tão desmoralizado ao ponto de que os secundaristas, atentos às artimanhas políticas, divulgaram uma nota estadual oficial na qual afirmam:"não acreditamos na palavra do governador, não podemos baixar a guarda, nossa luta definitivamente não acabou. Não desocuparemos as escolas enquanto Geraldo Alckmin não revogar oficialmente a sua proposta de reorganização e de fechamento das nossas escolas", além disso os estudantes exigem a investigação e responsabilização dos policiais que agrediram os estudantes e a não criminalização de nenhum manifestante (24).

Sobre o uso da crueldade

Um dos mais famosos ensinamentos de Nicolau Maquiavel, n’O Príncipe, diz respeito à medida necessária de crueldade para manutenção do governo. Cético e inadvertido às sensibilidadescomo um típico estatista, Maquiavel afirma que o uso da crueldade não é, em si, repreensível. Muito pelo contrário. Na máxima “os fins justificam os meios” o autor valida o uso “bem empregado” da crueldade.Segundo ele a crueldade pontual (ou individual) que vise a garantia do “bem comum” deve ser empregada de forma não titubeante pelo Príncipe. O bem coletivo ou, no limite, a manutenção da governabilidade justificariam o emprego de meios e atitudes cruéis.

Todavia, Maquiavel é enfático ao sinalizar que o uso da crueldade deve ser esporádico, caso contrário pode causar o ódio dos súditos. O temor e o ódio não são, portanto, sentimentos equivalentes. Um Príncipe nunca consegue manter-se no poder sendo odiado pelos súditos pois o temor provoca a inércia, enquanto o ódio provoca a ação.

As crueldades mal empregadas são as que, sendo a princípio poucas, crescem com o tempo, em vez de diminuir. (...) As injúrias devem ser cometidas todas ao mesmo tempo, de modo que, sendo sentidas por menos tempo, ofendam menos. Os benefícios, por sua vez, devem ser concedidos gradualmente, de forma que sejam mais bem apreciados”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 69).

Eis o erro do governador Geraldo Alckmin. Há tempos a população paulista vem sendo diuturnamente submetida à degradação de suas condições de vida por parte do governo. Ainda que aparente ser grande leitor de Maquiavel, Geraldo Alckmin parece ter pulado o capítulo d’O Príncipe no qual fica claro que os súditos não suportam crueldades prolongadas, no qual fica claro que a garantia da governabilidade é não sentir-se sistematicamente espoliado. Ainda segundo o renascentista, “conclui-se, portanto, que quando a disposição do povo lhe é propícia, o soberano tem pouco a temer com as conspirações; mas quando os súditos são hostis e o odeiam, precisa temer a todos e a cada um”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 113).

O governador de São Paulo parece querer instrumentalizar as indicações maquiavélicas a respeito da manutenção do poderapenas a fim de saciar um interesse narcisista, soberbo e autoritário pela chefia do Executivo Estadual. Sua ausência de virtúfica nítida ao manter-se intransigente e irredutível com relação à manutenção do plano de reorganização da rede estadual de ensino, mesmo enfrentando ferrenha oposição que tem mantido uma toada crescente de fortalecimento, expansão e organização.Diversas entidades já declararam publicamente seu apoio à luta secundarista e seu repúdio ao plano de reorganização psdbista: a Faculdade de Educação da USP, a Faculdade de Ciências e Letras da UNESP de Araraquara, o Departamento de Educação da UNIFESP, a Universidade Federal de São Carlos, a Faculdade de Educação da UNICAMP, o Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da UNESP de Marília, a Faculdade de Filosofia e Ciências da UNESP de Marília, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação (ANPED), a Associação de Política e Administração da Educação (ANPAE), a Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) e a Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (FINEDUCA)(25).

Tal postura por parte do governo estadual contraria a necessidade indicada por Maquiavel de que os governantes tenham “a mente apta a se modificar conforme os ventos sopram, seguindo as variações da sorte”. (MAQUIAVEL, 2006. p. 108).
De fato, Geraldo Alckmin está muito aquém da grandiosidade do pensamento de Nicolau Maquiavel, entendido por diferentes autores como um grande republicano.Em O Príncipe, o intuito primordial de Maquiavel estaria em desmascarar os governantes, sobretudo, os tiranos. Segundo Rubens Pinto Lyra, “o pensador florentino foi um revolucionário porque nos ajudou a perceber, com translúcida nitidez, a sociedade e a política do seu tempo – como elas efetivamente eram”. (LYRA, 2010. p. 270).

É possível perceber n’O Príncipe o intento de instruir e fomentar a organização popular através do profundo conhecimento sobre o funcionamento da política, tese corroborada com a leitura de “Comentários sobre a Primeira Década de Tito Lívio”, também de autoria de Maquiavel. Neste texto o autor demonstra com clareza sua predileção pela ordem política republicana, inserindo-se, assim, “na corrente histórica dos grandes pensadores que, desde a Antiguidade, contribuíram, com suas reflexões, para a construção dos ideais de liberdade e de democracia”. (LYRA, 2010. p. 269).
[...] se as monarquias têm durado muitos séculos, o mesmo acontece com as repúblicas. Mas umas e outras precisam ser governadas por meio de leis. O Príncipe que se pode conceder todos os caprichos geralmente é um insensato; e o povo que pode fazer tudo o que deseja comete muitas vezes erros imprudentes. No caso de um Príncipe ou um povo submetido a leis, o povo terá virtudes superiores às do Príncipe. E se considerarmos os dois como igualmente livres de qualquer restrição, veremos que os erros do povo são menos freqüentes, menos graves e mais fáceis de corrigir (MAQUIAVEL,1994, p. 181-182. Apud: LYRA, 2010. p. 269).

Tal qual os tiranos descritos por Maquiavel, Geraldo Alckmin se mostra incapaz de abrir mão de seu projeto, mesmo que isso implique em enormes custos políticos. Pois então, que se cumpra o intuito maquiavélico: que os estudantes e a população paulista conheçam o funcionamento da política psdbista; que estes militantes por uma educação de qualidade não se deixem ludibriar pelas artimanhas de recuo/suspensão/ataque do Príncipe e de seus lacaios; que se trave a contenda; que as ruas e, sobretudo, as escolas ocupadas se configurem como os novos centros de política popular; que se forme este novo bloco histórico e se trave uma nova luta hegemônica popular, democrática e animada pelo espírito inconformado e pueril da juventude paulista!

#NãoTemArrego

#DaMinhaEscolaNinguémVaiMeTirar

#PrimaveraEstudantil

1.- Natalia Scartezini é socióloga e professora.

2.- https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_governadores_de_S%C3%A3o_Paulo

3.- “Os tipos de dominação são em número de três: racional, tradicional e carismática. A tipologia se fundamenta portanto no caráter próprio da motivação que comanda a obediência. Racional é a dominação baseada na crença na legalidade da ordem e dos títulos dos que exercem a dominação. Tradicional é a dominação fundamentada na crença do caráter sagrado das tradições antigas, e na legitimidade dos que são chamados pela tradição a exercer a autoridade. Carismática é a dominação que se baseia no devotamento fora do cotidiano, justificado pelo caráter sagrado ou pela força heroica de uma pessoa e da ordem revelada ou criada por ela”. (ARON, 2008. p. 811).

4.-http://www.revistaforum.com.br/blog/2007/06/ocupacao-da-unesp-sofre-reintegracao-de-posse/

5.-http://limpinhoecheiroso.com/2012/06/15/gestao-tucana-video-mostra-truculencia-da-pm-contra-alunos-da-unifesp/ e http://www.pragmatismopolitico.com.br/2012/05/reitor-da-usp-manda-pro-paredao-51-estudantes-da-instituicao.html

6.-http://blogdaboitempo.com.br/2015/11/04/sobre-a-absurda-politica-educacional-do-estado-de-sao-paulo-pautada-no-fechamento-de-escolas/#more-13577

7.- http://www.goiasreal.com.br/noticia/2028/marconi-vai-transferir-200-escolas-para-os-durante-recesso

8.-http://www.sinprodf.org.br/estado-de-goias-prepara-terceirizacao-de-escolas-3/

9.- http://www.esquerdadiario.com.br/Professor-da-UNICAMP-fala-sobre-o-decreto-e-a-reoganizacao-escolar-do-governo-Alckmin?var_mode=calcul

10.-https://www.facebook.com/contrareorganizacaoaqa/?fref=nf

11.- http://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2015/11/abusos-do-governo-alckmin-contra-alunos-em-escolas-ocupadas-serao-denunciados-a-oea-5118.html

12.- http://www.radiopopular.org/audio-secretaria-de-educacao-prepara-guerra-contra-as-escolas-em-luta/

13.-http://cartacampinas.com.br/2015/11/vaza-audio-de-reuniao-em-governo-alckmin-declara-guerra-as-escolas-ocupadas/

14.- http://noticias.r7.com/sao-paulo/protesto-de-estudantes-termina-em-confronto-com-a-pm-02122015

15.-https://www.youtube.com/watch?v=C6RUIpAuZaU

16.- http://www.diariodocentrodomundo.com.br/o-1o-ato-da-guerra-da-pm-de-alckmin-contra-as-escolas-ocupadas-de-sp-por-mauro-donato/

17.- http://www.redebrasilatual.com.br/educacao/2015/11/abusos-do-governo-alckmin-contra-alunos-em-escolas-ocupadas-serao-denunciados-a-oea-5118.html

18.- http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2015/12/1714813-popularidade-de-alckmin-atinge-pior-marca-aponta-datafolha.shtml

19.- http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/12/secretario-da-educacao-deixa-cargo-apos-recuo-em-reorganizacao-de-escolas-em-sp-4922879.html

20.- http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2015/12/mp-e-defensoria-pedem-na-justica-suspensao-de-reorganizacao-escolar.html

21.- https://www.youtube.com/watch?v=uvGnyNVu4xM

22.- http://educacao.estadao.com.br/noticias/geral,promotoria-mantem-acao-contra-governo-alckmin-mesmo-apos-recuo,10000003938

23.- http://g1.globo.com/sao-paulo/escolas-ocupadas/noticia/2015/12/alckmin-oficializa-revogacao-da-reorganizacao-escolar-em-sao-paulo.html

24.- http://g1.globo.com/sao-paulo/escolas-ocupadas/noticia/2015/12/em-assembleia-alunos-decidem-seguir-em-escolas-ocupadas-em-sp.html

25.- http://www.esquerdadiario.com.br/As-universidades-publicas-de-Sao-Paulo-se-manifestam-contra-a-reorganizacao-escolar-proposta-por?var_mode=calcul

Referências

ARON, RAYMOND. As etapas do pensamento sociológico. 7ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2008.

LYRA, RUBENS PINTO. Maquiavel Republicano: precursor da democracia moderna.In: CRONOS. Revista do Programa de Pós Graduação em Ciências Sociais da UFRN. Natal/RN. V.11, n. 3, jul/ago, 2010. p. 255-273.

MAQUIAVEL, NICOLAU. O Príncipe. São Paulo: Editora Martin Claret, 2006.




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