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Extrema esquerda | França: mais de 450 pessoas no lançamento da candidatura operária de Anasse Kazib às presidenciais

Com mais de 450 pessoas, o Révolution Permanente lançou a campanha de Anasse Kazib 2022 em Paris, durante uma reunião excepcional que abriu caminho para o surgimento de uma nova extrema esquerda francesa.

quinta-feira 21 de outubro | Edição do dia

Ontem à noite, o salão estava indiscutivelmente lotado às 19h no Espace MAS. Mais de 450 pessoas vieram participar deste encontro de lançamento da campanha e assistir aos discursos dos numerosos convidados. Mas mais do que o número, foi a composição da sala que imediatamente chamou a atenção. Na tribuna, Elsa Marcel, militante do Révolution Permanente e apresentadora da noite, enunciou a longa lista de setores presentes a modo de introdução.

"Estamos orgulhosos de ver delegações de diferentes setores de trabalhadores que mantiveram a empresa funcionando durante a pandemia. Os trabalhadores da Neuhauser que forçaram seu chefe a redistribuir alimentos durante a pandemia, os grevistas da Transdev, os funcionários da Infrapôle que estão em greve há 7 meses, os trabalhadores da SKF em Avallon lutando contra as demissões, as trabalhadoras da limpeza da terceirizadora Onet, os ativistas da CSP Montreuil que foram recentemente reprimidos", ela explica, à luz dos aplausos da sala. "Ao seu lado estão dezenas de trabalhadores da RATP [transporte metropolitano parisiense], da SNCF [ferroviários], trabalhadores das refinarias de petróleo, professores, estudantes de Paris 1, Paris 5, Paris 8, Nanterre, assim como vários familiares de vítimas de violência policial. Queremos uma campanha que reflita a imagem desta sala", acrescentou ela antes de concluir com slogans cantados a partir da sala.

No público, as pessoas estão tão surpresas quanto entusiasmadas com esta composição diversa no encontro. "Normalmente em reuniões revolucionárias você tem que contar os jovens, mas aqui é ao contrário, você tem que contar os idosos", diz um ativista de extrema esquerda na sala com diversão. Outro disse nunca ter visto uma reunião tão "cosmopolita". É Assa Traoré quem provavelmente explicará melhor o "mistério" desta composição. "Conheço Anasse há cinco anos e ele tem sido um ativista conosco. Milito há cinco anos, desde a morte de meu irmãozinho, e são cinco anos de rostos e cinco anos de luta que vejo hoje", disse a ativista anti-racista durante seu discurso.

Defendendo um candidato revolucionário e operário diante da radicalização da direita

Durante toda a noite, os discursos se sucederam para defender a candidatura de Anasse Kazib e um projeto revolucionário, anti-racista, ecologista e feminista diante da radicalização do campo político à direita. Em cada intervenção, abundam as consignas, cantadas da sala, evocando a memória de cada uma das lutas das quais vieram: "Zyed, Bouna, Théo e Adama, não esquecemos, não perdoamos", "a força dos trabalhadores é a greve", "todo mundo odeia a polícia", "o capitalismo destrói o planeta, destruamos o capitalismo". A atmosfera é elétrica, a temperatura elevada, o entusiasmo e a determinação são palpáveis.

"Porque há uma alta taxa de abstenção entre os jovens, as pessoas gostariam de acreditar que não estão interessadas na política", aponta Philomène Rozan, estudante da Universidade de Paris e militante do Révolution Permanente, antes de descrever as lutas nas quais os jovens participaram, o choque da pandemia e a repugnância que causa uma certa "esquerda" que se adaptou ao discurso securitário do governo e às políticas islamofóbicas. Adrien Cornet, dirigente da greve dos petroleiros na refinaria parisiense de Grandpuits, pinta um quadro dramático da crise ecológica, que é ofuscada pelos ultrajes racistas de Eric Zemmour [candidato da extrema direita, racista e xenófobo, NdT]. Confrontado com o greenwashing da empresa petrolífera Total, o trabalhador de Grandpuits desmantela o esquema do "capitalismo verde" das multinacionais. Ambos defendem o programa do Révolution Permanente: uma renda estudantil equivalente ao salário mínimo, a expropriação de setores estratégicos da economia para planejar uma alternativa aos combustíveis fósseis...

Sasha Yaropolskaya, ativista transfeminista e refugiada política russa, passa em revista sua jornada e fala sobre a articulação necessária entre a luta contra a transfobia estatal e a luta contra o capitalismo e todas as opressões. Com humor ela descreve o dramático estado político do país: "As coisas estão ruins na França. E quando um russo lhe diz que as coisas estão ruins politicamente, é porque as coisas estão realmente muito ruins. A extrema-direita monopolizou completamente o discurso político e tem rédea livre em todos os meios de comunicação nacionais, que são de propriedade dos bilionários". Diante desta situação, ela explica: "Tenho orgulho de dizer que apoio a candidatura de Anasse Kazib, mas também o partido dos trabalhadores, estudantes e ativistas que vejo constantemente no terreno da luta, em manifestações, nos piquetes de greve".

Assa Traoré, por sua vez, desenvolve a história das lutas que ela compartilhou com Anasse Kazib. "Eu me uni à luta porque meu irmãozinho foi morto. Há cinco anos compartilhamos nossas lutas com Anasse Kazib. Você sempre esteve ao nosso lado", disse a ativista anti-racista, antes de aplaudir as trabalhadoras da Onet, presentes na sala, cuja greve foi a ocasião de um verdadeiro encontro com o trabalhador ferroviário Anasse. "Adama nunca mais voltará. Mas nós somos as vozes vivas daqueles que morreram às mãos da polícia, daqueles que estão na prisão, daqueles que vivem na precariedade. Anasse é uma dessas vozes vivas e nós o apoiaremos até o fim", concluiu seu discurso, convidando os coletivos de outras vítimas a subirem ao palco.

Finalmente, Wynnessa Merabet, sindicalista do depósito da Transdev em Vaux-le-Pénil, fechou a rodada das intervenções. "Se viajamos 40 km para a reunião com meus colegas quando estamos exaustos e estamos em greve há 7 semanas, é porque Anasse é um pilar para nossa greve na Transdev. Ele me liga todos os dias, me dá conselhos. Estamos com Anasse e estaremos até o fim", explica ela. Outros grevistas se juntam a ela no palco antes de dar lugar a Anasse Kazib.

Anasse Kazib 2022: uma candidatura operária e revolucionária

Os cânticos "Anasse presidente" não deixam de surgir quando o trabalhador ferroviário chega à tribuna. Anasse Kazib diz: "participar de um acontecimento tão antidemocrático quanto as eleições presidenciais é um enorme desafio para uma organização totalmente nova como a nossa. E apresentar um jovem proletário, negro e de origem imigrante como eu, em uma eleição presidencial que é particularmente marcada por discursos racistas e xenófobos pode parecer um pouco subversivo demais...". Mas é exatamente por isso que ele está concorrendo. Fazer existir outra voz, contra o discurso reacionário hegemônico, como uma antítese absoluta de Zemmour.

"Nossa França não é a França dos reis e dos grandes homens, idealizada por Zemmour, mas a França dos sans-culottes, dos communards [participantes da Comuna de Paris de 1871], dos escravos insurretos do Haiti, das grandes greves de 1936 ou da greve geral de 1968, processos de luta que Sarkozy ou Zemmour gostaria de apagar da história", afirma Anasse, ao contrário de qualquer romance nacional, antes de desenvolver a campanha política que pretende liderar: revolucionária, operária, feminista, ecologista, anti-racista.

"Enquanto na pandemia víamos membros de nossas famílias em terapia intensiva, às vezes morrendo, enquanto nós e nossos colegas continuávamos a trabalhar para manter a humanidade andando, muitas vezes com o coração pesado, eles se escondiam e acumulavam riqueza sem mexer um dedo". Com humor, ele retrata Pierre Mestre, o chefe da Orquestra, que liquidou sua empresa endividada durante a crise antes de comprá-la de volta, demitindo centenas de funcionários no processo. Diante da crise climática, da crise sanitária, das monstruosas desigualdades e da minoria que delas se beneficia, Anasse Kazib exaltou a força dos trabalhadores, da primeira e segunda linha, e de todos os oprimidos, assim como sua capacidade de mudar o mundo.

Hong Kong, Líbano, Argélia, Chile, Equador, Colômbia, Palestina, Sudão, Líbano e, mais recentemente, os Estados Unidos com uma onda histórica de greve: o trabalhador ferroviário enumerou os países que viveram grandes lutas nos últimos anos como parte de um novo ciclo de luta de classes. Na França, Anasse relembrou a luta contra a reforma trabalhista em 2016, o movimento contra a privatização da empresa pública ferroviária, os Coletes Amarelos, que foram aplaudidos intensamente pelo público, e à greve dos transportes contra a reforma da previdência.

"É para dividir a força que representamos que os reacionários como Macron, Le Pen e Zemmour estão lá. Porque eles sabem que a juventude e a classe trabalhadora de hoje é formada por trabalhadores brancos, mas também por trabalhadores de origem imigrante como eu. E os enlouquece quando um trabalhador ferroviário chamado Anasse, que cresceu na Cidade Rosa em Sarcelles, que é neto de um atirador marroquino, vem pra defender os jovens e os proletários de toda a França que estão sendo explorados por Emmanuel, Édouard, Marlène ou Jean-Baptiste", explicou ele antes de desenvolver o programa que levará adiante.

Anasse propõe um salário mínimo de 1800 euros líquidos, a revogação de todas as leis de segurança e liberticidas, um verdadeiro plano contra a violência contra as mulheres, a libertação imediata de Georges Ibrahim Abdallah, mandatos revogáveis a todos os políticos e juízes (que devem passar a ser eleitos), a dissolução de todas as forças policiais especiais, a abertura das fronteiras e a liberdade de domicílio na França, com todos os direitos civis e trabalhistas garantidos... Um programa anticapitalista e revolucionário que enfrente todas as variantes da burguesia, tanto a direita e a extrema direita nefasta de Zemmour/Le Pen, mas também os social-imperialistas do Partido Socialista e seu apêndice, Mélenchon.

Mas para que esta voz seja ouvida, existe um grande obstáculo: as 500 assinaturas de prefeitos, necessárias para alguém poder se postular à presidência. No palco, Anasse anunciou que havia coletado 100 assinaturas até o momento. Mas para obter as 400 restantes, será necessário o apoio de todos para chegar lá. "Nós os convidamos calorosamente a tornar esta campanha uma realidade, a criar um comitê de campanha onde você está, a organizar reuniões públicas, a participar da busca de assinaturas, fazendo uma doação, ou qualquer outra ajuda que você acha que pode oferecer. Ninguém espera que sejamos bem sucedidos, vamos surpreendê-los!".

A participação na reunião, bem como a rica diversidade dos convidados, demonstraram que a candidatura de Anasse Kazib é capaz de dialogar amplamente com diferentes setores da população, trabalhadores, jovens explorados e oprimidos, imigrantes, o movimento negro e das mulheres, no âmbito das eleições presidenciais de 2022. "Eles só falam de Zemmour na mídia, Anasse é o anti-Zemmour total", disse um participante no final da reunião. "É por isso que ele tem que ser um candidato, é também por isso que eles não querem que ele seja".




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