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Favor, Dependência e Classe em Machado de Assis

Pedro Pequini

Favor, Dependência e Classe em Machado de Assis

Pedro Pequini

Por Machado de Assis, bruxo alusivo e zombeteiro, em suas obras, ter conseguido extrair do Brasil o sulco que estruturava as relações de exploração e opressão de seu tempo, desnudou o véu da ideologia e nos mostrou os fios que controlam os fantoches. Nessas linhas, buscarei demonstrar como nas obras Iaiá Garcia, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Esaú e Jacó, tal movimento foi se consolidando e chegando em sua síntese mais acabada.

Iaiá Garcia, último romance da primeira fase machadiana, é marcado, nas palavras de Roberto Schwarz, por desencanto e carrega uma posição mais adulta e sem humor. Aqui, veremos como praticamente todos os elementos que marcarão a fase madura de Machado, cujo expoente será Memórias Póstumas de Brás Cubas, já estão presentes nesta obra ainda demasiadamente romântica, seja pela negativa, seja pela positiva.

Estela, uma mulher branca, livre e não proprietária de escravos, não narra o romance em primeira pessoa como fará posteriormente Brás. No entanto, o narrador em terceira pessoa apresenta uma simpatia importante com essa personagem central. No seguinte fragmento, Estela acabara de receber a notícia de que Valeria, aristocrata que a criou como filha e que, para combater o romance entre ela e seu primogênito, Jorge, mandou-o para lutar na guerra do Paraguai, havia a arranjado com Luís Garcia, um trabalhador liberal do mesmo estrato de classe de Estela:

Não alegrou nada. Nunca lhe pesara tanto a fatalidade da posição. Depois do episódio da Tijuca, parecia-lhe aquele favor uma espécie de perdas e danos que a mãe de Jorge liberalmente lhe pagava, uma água virtuosa que lhe lavaria os lábios dos beijos que ela forcejava por extinguir, como lady Macbeth a sua mancha de sangue. Out, damned spot! Este era o seu conceito;

(ASSIS, Machado de, 1988, p. 60).

Logo no início, podemos ver as duas principais palavras deste romance: posição e favor representam aqui as diretrizes que irão guiar as relações entre as personagens das diferentes classes sociais.

Roberto S., no capítulo A Sorte dos pobres, de sua obra Um mestre na periferia do capitalismo, constata:

Não sendo proprietários nem escravos, estas personagens (como Estela e Sr. Garcia) não formam entre os elementos básicos da sociedade, que lhes prepara uma situação ideológica desconcertante. O seu acesso aos bens da civilização, dada a dimensão marginal do trabalho livre, se efetiva somente através da benevolência eventual e discricionária de indivíduos da classe abonada. Assim, se não alcançam alguma espécie de proteção, os homens pobres vivem ao deus-dará, sobretudo cortados da esfera material e institucional do mundo contemporâneo. Este por sua vez, padronizado nos países clássicos da Revolução burguesa, é programaticamente contrário àquela mesma proteção que, no Brasil, é o bilhete de ingresso em seu recinto. Noutras palavras, a participação do homem pobre na cultura moderna dava-se ao preço de uma concessão ideológico-moral de monta, que ele pode elaborar de muitos modos, mas sem lhe escapar.

(SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. 2008, p. 57)

Esta profunda dependência, na qual estão submetidas as personagens comumente designadas como agregadas, explica-se, portanto, por ocuparem uma posição social que está entre o proprietário e o escravizado. Estes dois últimos protagonizam a relação de exploração mais fortemente, colocando os brancos livres e não proprietários num limbo, primando a não possibilidade e a dependência em relação ao favor dos proprietários, para assim poderem usufruir dos restos e sobras da aristocracia.

A comparação com a figura feminina, lady Macbeth, da tragédia de Shakespeare, é marcada também pelo contraste, na medida em que a nobre personifica a potência, a realização e a possibilidade, e Estela representa justamente o oposto. Na peça teatral, lady Macbeth instiga seu marido a cometer assassinatos, na luta pelo poder, o que a leva ao suicídio, corrompida pelo remorso e numa tentativa de se livrar da culpa. A mancha significa a própria marca dos crimes. Para Estela, no seu drama urbano de classe média carioca, presa à rígida moral do século XIX e a um caráter marcado por extremo orgulho, sua mancha é a lembrança do beijo que Jorge lhe dera.

O ângulo da narrativa de Iaiá Garcia, portanto, parte da perspectiva dos dependentes, e para tanto, Schwarz escreveu em Ao vencedor as batatas:

Em Iaiá no entanto (as personagens subordinadas) aparecem como exorbitâncias caricatas, que não se levam a sério. Digamos que Machado tentara analisar o arbitrário paternalista na perspectiva dos dependentes, a fim de livrá-los dele, o que o levara a excluí-lo do bom-tom. Mais tarde, pelo contrário, ele o assumiria inteiramente, como faz aqui o agregado Antunes, para lhe acompanhar e estudar o movimento, e trazê-lo ao primeiro plano, em lugar de o ocultar. É claro que esta nova posição é compreensível somente se o arbitrário não for sentido como humilhação. De fato, Machado completava a sua ascensão social. Em seus romances maduros o arbitrário será encarado com a intimidade humorística de quem se confessa praticante, e já não tem o que temer. O ponto de vista passou a ser o de cima.

(SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 2007, p. 231)

A fim de captar essa mudança de ângulo, partirei diretamente para Memórias Póstumas de Brás Cubas. No seguinte trecho, Brás está narrando como funcionavam os encontros adúlteros entre ele e Virgínia, ambos de uma origem de classe abastada, na casa da agregada Dona Plácida:

Note-se que, longe de termos horror ao método, era nosso costume convidá-lo, na pessoa de Dona Plácida, a sentar-se conosco à mesa; mas Dona Plácida não aceitava nunca.
− Você parece que não gosta mais de mim, disse-lhe um dia Virgília.
− Virgem Nossa Senhora! exclamou a boa dama alçando as mãos para o teto. Não gosto de Iaiá! Mas então de quem é que eu gostaria neste mundo?
E, pegando-lhe nas mãos, olhou-a fixamente, fixamente, fixamente, até molharem-lhe os olhos, de tão fixo que era. Virgília acariciou-a muito; eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido.

(Machado de Assis. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p. 164).

O que aqui inicial e aparentemente se desenha, é uma cena tocante e sensível entre as duas mulheres de distintos estratos sociais que compartilhariam de uma fidelidade pura e genuína. A última oração (eu deixei-lhe uma pratinha na algibeira do vestido), todavia, além de escancarar a lógica do favor, quando é explicitado que o que estava em jogo ali era a dependência material e financeira de Dona Plácida em relação ao Brás Cubas, e então todas as declarações de amor não passavam de um teatro de interesses e necessidades, também subverte todo o falso sublime anterior. O tom elevado se desmancha e torna-se cômico e caricato.

Esse estilo de contar, o qual lembra o andar dos ébrios, carrega um importante traço machadiano, que já aqui se encontra em sua forma mais acabada. Ele pode ser explicado como uma constante brincadeira de dizer e desdizer, na qual peças são pregadas no leitor e as informações significam, na maior parte das vezes, o exato oposto do que aparentemente significavam.

Já em Esaú e Jacó, tal estilo também aparece de maneira acabada e sofisticada. A mudança formal do Império para a República e as disputas entre os monarquistas e os liberais são alegoricamente representadas pelo triângulo amoroso de Pedro, Paulo e Flora. John Gledson, em seu capítulo sobre Esaú e Jacó, afirma o seguinte:

Esta questão complexa é melhor abordada por uma interpretação da alegoria, o que nos dará uma visão mais clara do período histórico em si (ou da visão que dele tinha Machado) e assim, em última instância, dos motivos para que esse período tenha “produzido” um romance desses. Podemos começar com a mais óbvia e constante alegoria do livro, a relação que existe entre os gêmeos, Pedro e Paulo, e o Império e a República; respectivamente. Nenhum leitor poderia questionar essa identificação, mas é aqui que começam nossos problemas. O que o Império e a República representam por sua vez? Não é o ancien régime e o amanhecer da democracia: conhecemos Machado bem demais para imaginar tal simplicidade. Para começo de conversa, claro, os gêmeos permanecem gêmeos também neste nível: poderemos dizer que os dois regimes representam a mesma oligarquia, sob diferentes disfarces? Talvez, e neste caso, será que a alegoria simplesmente repete o absurdo e a monotonia do enredo que a contém como foi sugerido?

(GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. 1986, p. 170)

Em uma passagem desta obra, Flora, filha do político oportunista Batista e de Dª Cláudia, apresenta aos leitores um importante conflito interno que é plasmado na inveja que sente da imperatriz devido ao seu anseio por independência:

“De uma vez alguém lhe disse, como para lhe dar força: "Toda alma livre é imperatriz!"
Não foi outra voz, semelhante à das feiticeiras do pai nem às que falavam interiormente a Natividade, acerca dos filhos. Não; seria pôr aqui muitas vozes de mistério, coisa que, além do fastio da repetição, mentiria à realidade dos fatos. A voz que falou a Flora saiu da boca do velho Aires, que se fora sentar ao pé dela e lhe perguntara:
— Em que é que está pensando?
— Em nada, respondeu Flora.
Ora, o conselheiro tinha visto no rosto da moça a expressão de alguma coisa e insistia por ela. Flora disse como pôde a inveja que lhe metia a vista da princesa, não para brilhar um dia, mas para fugir ao brilho e ao mando, sempre que quisesse ficar súbdita de si mesma. Foi então que ele lhe murmurou, como acima:
— Toda alma livre é imperatriz.
A frase era boa, sonora, parecia conter a maior soma de verdade que há na terra e nos planetas. Valia por uma página de Plutarco. Se algum político a ouvisse poderia guardá-la para os seus dias de oposição ao governo, quando viesse o terceiro reinado.

(Machado de Assis. Esaú e Jacó. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, pp. 133-135)

A frase motivacional, que hoje facilmente poderia ser ouvida através da boca de algum coaching, “Toda alma livre é imperatriz”, já é apresentada anteriormente como falsa: “Não; seria pôr aqui muitas vozes de mistério, coisa que, além do fastio da repetição, mentiria à realidade dos fatos.” O que de fato está expresso, é justamente a autopercepção, por parte de Flora, de sua posição de dependência e seu desejo por ser “súbdita de si mesma”.

Logo, fica claro que as questões de classe, e as consequentes relações de dependência e favor, atravessam estes três romances de Machado de Assis, sendo ele um escritor que captou e formalizou as estruturas do Brasil do século XIX como ninguém, mantendo assim sua obra ainda atual, uma vez que muitas delas, infelizmente, se mantém até os dias de hoje.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: Garnier, 1988
ASSIS, Machado de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Globo, 2008, p. 164
ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Companhia das Letras, 2012, pp. 133-135
SCHWARZ, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo. 2008, p. 57
SCHWARZ, Roberto. Ao vencedor as batatas. 2007, p. 231
GLEDSON, John. Machado de Assis: ficção e história. 1986, p. 170

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