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RIO GRANDE DO NORTE

Fátima (PT) garante interesses de empresários e pastores enquanto a saúde colapsa no RN

No sábado, 23, muitas pessoas questionavam Fátima Bezerra, governadora do PT do Rio Grande do Norte, nas redes sociais porque ela atende os e interesses empresariais, enquanto uma parcela ampla da população trabalhadora potiguar que a elegeu está morrendo nas filas do SUS e o isolamento social diminui.

segunda-feira 25 de maio| Edição do dia

O Rio Grande do Norte registrou 191 novos casos confirmados e mais três mortes por coronavírus em 24 horas e chegou a 4.251 infectados nesta sexta-feira, 22. O Estado agora tem 181 mortes confirmadas e outras 47 em investigação. Os dados estão no boletim epidemiológico mais recente da Secretaria de Estado de Saúde Pública, Sesap.

Segundo dados da plataforma Regula RN, no dia 22 a Região Metropolitana de Natal possuía 96% dos leitos da rede pública ocupados. Sem dados mais atualizados, a rede privada possuía cerca de 40% dos seus leitos de UTI ocupados no dia 15 de maio.

Ao mesmo tempo, o Estado do Rio Grande do Norte tem o pior índice de cumprimento do isolamento social entre os estados do Nordeste. Segundo o In Loco, o estado potiguar ocupa a 5ª posição do Brasil entre os que menos têm adotado as medidas de afastamento necessárias para conter a curva de contágio da doença.

Taxa de isolamento social no RN chega a 39% no fim de semana; estado tem pior índice do NE — Foto: Reprodução/In Loco

Além disso, não houve garantia de testes massivos que permitissem cientificamente localizar por onde anda o vírus, isolar essas áreas e garantir áreas adequadas de isolamento, como poderia ter sido feito com os inúmeros hotéis ociosos com a baixa do turismo.

O colapso da saúde pública do RN já estava sendo prevista pela Sesap e outros órgãos de vigilância desde que os primeiros decretos de isolamento, e vem sendo denunciada por trabalhadores dos hospitais e unidades de saúde. Enquanto esse cenário se aproxima, além de não terem levado a cabo um plano emergencial que de fato pudesse armar a população para enfrentar a doença, as prefeituras e o governo estadual de Fátima Bezerra vem cedendo cada vez mais à pressão patronal pela abertura econômica.

A pressão empresarial pela união de Bolsonaro com os governos estaduais tem apoio de Fátima

Bolsonaro prova a cada dia que não vai abrir mão de atacar as medidas de isolamento social pelo país, deixando um sonoro “e daí” para o recordismo brasileiro em número de contaminação e de mortes pelo coronavírus. É a cara mais nefasta do capachismo do Estado brasileiro, que atende aos interesses de setores empresariais como o véio da Havan, Madero, e outros que davam declarações odiosas de que devíamos aceitar milhares de mortes para que não perdessem mercado.

No vídeo da reunião ministerial revelado nessa sexta-feira, para além das inúmeras declarações racistas e golpistas de seus ministros, vimos claramente o comando dos militares sobre seu governo, assim como o general Braga Netto em diálogo com o então ministro da Saúde, Nelson Teich, sobre o planejamento do fim do isolamento social no país. Nenhuma palavra dita sobre as mortes, sobre a falta de leitos, respiradores ou testes, apenas sobre como garantir segurança para o agronegócio, indústria e comércio do país “não perderem mercado” e para os investimentos imperialistas no país no seu plano Pró-Brasil.

Falaram em conter o medo da população em meio a pandemia, sabendo que o medo é também ódio de classe em potencial. Ou seja, os militares assumem o governo Bolsonaro para salvar os negócios capitalistas no país da crise, administrando as valas das massas pobres, negras e trabalhadoras, cuidando para que não ocorram explosões sociais. Percebem que elas estão por vir com os protestos nos hospitais, de trabalhadores de aplicativo em SP, mas também pelo mundo: ocorrem no Chile, Bolívia, Costa Rica, Argentina, México, também em Hong Kong, Líbano, nos estados imperialistas da Itália, Estados Unidos, Alemanha, e tantos outros.

Sabendo disso que devemos olhar para a reunião dos governadores com Bolsonaro na última quinta-feira, 21, marcado por um tom de unidade pela abertura econômica e por ajustes fiscais que incluem o congelamento do salário dos servidores públicos até 2022, mostrando uma pressão patronal pelo disciplinamento do conflito entre poderes em prol dos seus interesses.

Fátima terminou a reunião parabenizado esse sentimento de “união” e que, apesar de ter sido o único governo a criticar o ataque aos servidores, defendeu a autonomia dos estados para tomar essa medida, mostrando que aceita passivamente essa pressão patronal e a chantagem de Bolsonaro para liberar recursos e negociar a dívida dos estados (que setores do capital financeiro já está contestando).

É isso que explica a regulamentação da atividade das Igrejas no Rio Grande do Norte, que ainda que não tenha sido uma flexibilização total, atende aos interesses das cúpulas evangélicas no estado. Uma medida que acompanha decretos anteriores do governo permitindo a liberação do comércio, da indústria e da construção civil, que incluía permissão a repressão à manifestações de rua.

A cara popular de Fátima não é mais que uma falácia, que adota o mesmo discurso de Bolsonaro de que é preciso defender as empresas para salvar os empregos. Nada mais longe da realidade em um estado onde somente no mês de abril cresceu em 29,5% os pedidos de seguro-desemprego, que tem provocado filas enormes no Sine-RN, resultado de um aumento de 46 mil desocupados no estado, chegando a 15,4% da população economicamente ativa e 36% só na juventude, segundo dados do IBGE.

Veja também: 200 pessoas em fila para seguro-desemprego em Natal, por que Fátima não proíbe as demissões?

O baixo índice de isolamento social no estado tem a ver com isso, pois Fátima é conivente com o fato da população ter mais medo de morrer de fome do que do coronavírus, saindo às ruas de forma desesperada para encontrar alguma forma de colocar comida na mesa.

Enquanto isso, o sistema de saúde das principais cidades do estado, Natal e Mossoró, que atendem a população dos anteriores, está entrando em colapso. O governo e as prefeituras sabiam que esse momento ia chegar e tomaram medidas, no mínimo, limitadas para impedir que ocorresse.

Expressão disso é que, foram abertos 152 leitos privados em fevereiro e apenas 5 no SUS. Embora estejam sendo abertos 40 novos leitos, são insuficientes para a demanda, já que ao menos vinte pessoas aguardam respiradores com urgência e não são divulgadas medidas que estruturem a saúde do estado conforme o necessário. Um relato do Sindsaúde-RN mostra que foi fechado o pronto-socorro do Hospital Giselda Trigueiro na segunda-feira (18), cujos pacientes internados com outras doenças foram transferidos para o Hospital Universitário Onofre Lopes.

Os servidores da saúde trabalham sob condições precárias, com unidades em más condições físicas e sem insumos. O vídeo abaixo retrata que os trabalhadores da saúde estão no front do combate a pandemia com equipamentos básicos de proteção (EPIs) inadequados e insuficientes. Relatam que trabalhadores estão adoecendo, levando a que um maqueiro terceirizado do HUOL tenha morrido pelo COVID-19. Por falta de respiradores, ou por falha dos que existem, pacientes estão morrendo em suas mãos.

Enquanto isso ocorre, Fátima assinou um documento junto a governadores reacionários como Dória, Witzel e Zema pedindo ao Supremo Tribunal Federal para que não fosse autorizado uma fila única do SUS, que unificasse leitos públicos e privados, deixando a população mais pobre morrendo nas filas por leitos e respiradores. Mais uma vez mostra que defende que os monopólios da saúde como Unimed, Amil do estado sigam lucrando com nossas vidas.

Prova de que nos vidas só estarão seguras quando os que estão na linha de frente dos hospitais, UPAs e UBS, que melhor sabem dizer o que é necessário fazer para vencer essa pandemia, assumirem o comando do sistema de saúde. Batalhando pela garantia de EPIs, testes, e outros insumos básicos, que vem sendo negados pelo governo Bolsonaro, Fátima e as prefeituras, devem se embandeirar do seu direito de decidir sobre uma filha única do SUS, negando qualquer forma de indenização para os tubarões da rede privada.

Lockdown e um plano emergencial de combate a pandemia

No sábado, os questionamentos para Fátima estavam em torno de questionar porquê ela atende os e interesses empresariais, quando uma parcela ampla da população trabalhadora potiguar que a elegeu está morrendo nas filas do SUS.

Diante dos baixos índices de isolamento e do colapso da saúde dos estados, muitos setores tem comentado a necessidade de um lockdown urgente no estado. O Sindsaúde-RN entrou com uma ação na justiça pedindo o decreto de lockdown como medida de distanciamento social radical. Várias associações, federações e sindicatos patronais se manifestaram na ação contrárias ao pedido de lockdown, incluindo representações da elite de médicos do estado: Associação dos Empresários do Alecrim, Associação das Empresas dos Pólos Industriais do RN (Aspirn), Federação das Câmara de Dirigentes Lojistas do RN (FCDL RN), a Câmara de Dirigente Lojistas de Natal (CDL Natal), CDL Jovem Natal, Federação das Associações Comerciais (Facern) e Associação Comercial Empresarial do Rio Grande do Norte (ACRN), Sindicato dos Médicos e Sindicato da Indústria da Construção Civul (Sinduscon). A Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio RN) e o Sindicato do Comércio Varejista de Mossoró, em conjunto com a Fiern, Faern, Fetronor, Sebrae RN, Sinduscon Mossoró e Sindicato dos Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares do RN.

Certamente que não é o momento de flexibilizar as medidas de isolamento como Fátima vem fazendo atendendo a pressão desses setores, sendo inaceitável que se abra o comércio nesse momento. É importante ressaltar, contudo, que o pedido de lockdown não pode levar ao que aconteceu em diversos países, tal como China, Itália, Alemanha, onde foram feitos investimentos pesados em repressão, para fortalecer as polícias militares, ambientais e demais forças repressivas e de vigilância do estado Legitimadas por uma falsa de ideia de que estariam garantindo a proteção social, o lockdown foi usado para preparar a repressão qualquer expressão de revolta social contra a sua gestão da pandemia. Não podemos dar aval para um fortalecimento das mesmas instituições responsáveis pela morte de jovens como João Pedro e muitos outros assassinados na coleta de cestas básicas das favelas cariocas. Já estamos vendo cenas absurdas de repressão dos moradores de rua por parte da polícia em meio a pandemia, conforme vídeo de um caso em Ponta Negra:

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Com mais de dois meses fazendo trabalho voluntário com nossos amigos irmãos da Orla de Ponta Negra com ajuda de vocês e de voluntários doando todos os dias o café da manhã , café da tarde e sopa . Muito cansada emocionalmente e fisicamente mas sempre feliz de poder estar ajudando próximo , hoje logo depois da nossa oração do café da manhã recebemos a visita da SEMURB onde nem se quer os fiscais se identificaram e quando perguntávamos os nomes deles não respondiam como está aí na gravação . Chegaram escoltados por 6 polícias da guarda municipal . Comunicaram que iam levar tudo ! ( um sonho e uma missão interrompida 😭😭😭) arrancaram plantas 🌱 árvores frutíferas, flores ...que iniciamos juntos o trabalho e carinho pra deixar nossa orla mais verde .Nossa tenda onde uma pessoa nos EMPRESTOU temporariamente pra que pudéssemos servir nossas refeições que nos “protegia” sol e chuva , um altar onde os moradores fizeram para orar para dias melhores e agradecer. E falaram vão voltar para apagar as artes que os moradores fizeram com tanto amor com palavras de carinho e positividade numa fase ser humano está tão triste , sem vibração. Gente infelizmente minhas forças estão acabando , minha tristeza e profunda e q sensação q tenho e que tive pesadelo. E que todos trabalho que tive até agora foi em vão .Peco pra todos vcs orem , rezem por todos nós 🙏❤️

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Ao invés de investir em policiamento, multas a quem saia na rua, com equipamentos de repressão caríssimos diga-se de passagem, se investisse massivamente em testes para racionalmente localizar por onde anda o vírus, isolar essas áreas e encaminhar os infectados para quarentenas adequadas. Para isso, hotéis, resorts e pousadas poderiam ser requisitados, que estão ociosos aqui por conta da pandemia e poderiam abrigar setores vulneráveis, que inclusive estão sofrendo não só com a pandemia, mas perdendo casas e ficando sem água em Natal por conta das chuvas, com a Zona Norte da capital potiguar como epicentro da pandemia no estado.

Medidas repressivas como essa foram usadas no Piauí, no Maranhão e no Ceará apenas para acobertar a falência desses governos em realizar um plano emergencial para combater a pandemia, no Ceará provocando recordes de mortes por “intervenção” policial no mês de maio, ou seja, é a juventude negra e pobre que paga com suas vidas no Nordeste também.. Sequer houve um aumento significativo no distanciamento social em meio ao lockdown nesses estados, no melhor dos casos, o Ceará, chegou ao máximo de 60% de isolamento, enquanto mantinham suas indústrias produzindo normalmente, com trabalhadores sendo infectados todos os dias. No Rio de Janeiro, Witzel faz uso de medidas de exceção para prender trabalhadores da saúde que denunciam a situação dos hospitais.

Álvaro Dias (PSDB) em Natal, a ex-governadora Rosalba Ciarlini (PP) em Mossoró, e também Fátima Bezerra (PT) amarraram as suas mãos com as dos empresários e os coronéis do estado, e não tocam nos seus lucros e riquezas, na produção do estado, para por de pé um plano de guerra contra a pandemia.

Nós do Esquerda Diário e do MRT defendemos que as principais medidas de garantia de isolamento social que protejam também as condições de vida dos trabalhadores são a liberação de todos os setores não essenciais, grupos de risco, com garantia de remuneração. Contra as suspensões e demissões da MP da Morte de Bolsonaro, defendemos a urgência da proibição das demissões com salários de quarentena a todos os setores informais, dos aplicativos, ambulantes, que seja de no mínimo R$ 2000, para que não tenham que encontrar bicos para se sustentar com os miseráveis 600 reais de Bolsonaro, que muitos apesar de aprovados, seguem sem receber. Para os pequenos comerciantes, trabalhadores por conta própria, autônomos e outros que pararam de receber renda, também exigimos subsídios do Estado, perdão das dívidas e crédito barato.

Defendemos o não pagamento da dívida pública do estado e da União com o capital financeiro, assim como a cobrança da dívida ativa de R$ 8 bilhões dos grandes empresários do estado e a taxação das grandes fortunas como de Flávio Rocha e seus lucros com a exploração de trabalhadores da Guararapes, e também os ganhos capitalistas chineses, europeus e norte-americanos que vem abrindo negócios no Rio Grande do Norte. Dessa forma será possível romper de fato com seus interesses no estado e garantir os testes massivos, a ampliação de leitos de UTI, respiradores, EPIs, contratação de enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos, efetivar os trabalhadores da limpeza, maqueiros.

Basta de confiar naqueles que negociam com as nossas vidas à serviço dos lucros

A indignação da juventude com Fátima se expressou no último sábado nas redes sociais, um dia após a escalada na crise política nacional com a disputa autoritária entre o STF e os militares, com exigências de entrega de celular de Bolsonaro e ameaças de Augusto Heleno e a posterior divulgação do vídeo da reacionária reunião ministerial.

Nós do Esquerda Diário defendemos que para poder enfrentar Bolsonaro e Mourão precisamos confiar e ser parte de construir as forças organizadas da classe trabalhadora, juventude e setores oprimidos. Por sua vez o PT está se prostrando ao lado de Maia, do STF e dos governadores e da Globo, chamando uma aliança com os setores golpistas para avançar com o impeachment ou renúncia de Bolsonaro. Mas é importante dizer que o impeachment, além de levar Mourão ou Maia à presidência, apenas fortalece esse regime golpista e não irá impedir que os militares sigam se colocando como os "guardiões" da Constituição, aumentando sua força autoritária.

Além disso, se trata de uma medida que é incapaz de reverter a condução desastrosa para os trabalhadores e o povo pobre por parte da aliança Bolsonaro-militar da pandemia, da abertura econômica e dos ajustes fiscais.

Questionamos que setores da própria esquerda socialista que corretamente defendem o Fora Bolsonaro e Mourão, como o Bloco de Esquerda do PSOL e PSTU, estejam defendendo a política de impeachment, pois coloca no colo dessa Frente Ampla com a direita e nas forças golpistas do regime o destino da maioria da população. A unidade que pode derrotar Bolsonaro, os militares e avançar contra esse regime pós-golpe institucional é com a organização da maioria trabalhadora, de mulheres, negros, indígenas e LGBTs e convidamos todos os nossos leitores potiguares e nordestinos a dividirem esta batalha conosco. Para nós, a bandeira da Assembleia Constituinte Livre e Soberana aponta o caminho de não só mudar o governo, mas todo esse regime golpista, abrindo a possibilidade de avançar com o plano emergencial de combate a pandemia, salvar os empregos e as condições de vida da população.

Será necessário romper com a resistência dos capitalistas, por isso essa proposta precisa da mais ampla unidade dos setores socialistas com a classe trabalhadora em cada local de trabalho e estudo, apontando para a sua verdadeira emancipação dos séculos de luta contra a escravidão dos colonos, coronéis e capitalistas.




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