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SEMANÁRIO

[FRANÇA] A determinação dos grevistas merece um plano para vencer

Juan Chingo

Tradução de Marie Reisner.
Ilustração de Juan Atacho.

[FRANÇA] A determinação dos grevistas merece um plano para vencer

Juan Chingo

Entrando no décimo primeiro dia da greve [1], a determinação dos grevistas é exemplar. Já tem no seu saldo o grande mérito histórico de reabilitar, nas condições de fragmentação da classe operária do século XXI e depois de anos de ofensiva neoliberal, o método da greve. E ainda que com mais dificuldades, e acompanhando a situação anterior, diferentes tipos de piquete de greve, alguns mais duros, outros de convencimento, em muitos casos com a ajuda externa, como de estudantes e professores.

O apoio da população, por sua vez, apesar das enormes dificuldades de deslocamento, também é surpreendente. É que a grande maioria das pessoas divide o mesmo rechaço ou preocupação que os grevistas sobre a regressão da aposentadoria, ou estão cansados de Macron e sua insuportável arrogância de classe. Já o levantamento dos Gilets Jaunes (Coletes Amarelos) havia mostrado o mesmo fenômeno desmentindo jornalistas do regime que, como quem opina nos programa de televisão, afirmavam com certeza que o aumento da violência do movimento ia diminuir o apoio e a simpatia. Sábado atrás de sábado foram quebrando a cabeça contra a parede, mas agora frente aos grandes incômodos causados pela greve entram na sua nova campanha sobre a necessidade de uma trégua pelo natal, fazendo eco com as pressões do governo. Este tem recebido a ajuda de sua principal inimiga da extrema direita, Marine Le Pen, que até agora apoiava a palavra da greve, diferentemente de outros conflitos do movimento operário onde que opunha frontalmente com o objetivo de aproveitar sua capitalização após águas turbulentas. Mas o falso apoio de Le Pen para o natal já era excessivo [2].

O ponto mais débil dos setores em greve, no momento, é a debilidade da auto organização. Ainda que existam diferentes assembleias interprofissionais pelas cidades que geralmente fazem atividades de apoio à greve, assim como assembleias de grevistas nos locais de trabalho, as tentativas de coordenação são débeis. Existe de fato uma insubordinação da base que mostra sua força, em especial na RATP [empresa de transporte urbano de Paris], que é a vanguarda indiscutível da greve pela sua combatividade, que tem confiança nas suas forças e na potencialidade da greve mas, salvo algumas exceções, isso não os empurra para dar um salto na organização de inclusive realizar assembleias soberanas em muitos lugares e tampouco para dar passos na organização.

As direções sindicais: entre negociar às costas dos trabalhadores e colocar obstáculos para a concretização da greve geral

As direções sindicais por sua vez que, por enquanto mantém o controle do movimento, estão bastante por trás da radicalidade e da determinação demonstrada pelos grevistas. A provocação governamental da última quarta-feira custou a Macron perder o apoio da CFDT, a central abertamente colaboracionista que sustentava abertamente a aposentadoria por pontos. Essa provocação consistiu no aumento da idade mínima para 64 anos para receber uma aposentadoria plena, que se aplicará aos trabalhadores progressivamente a partir de 2022 e que implica de fato um alongamento dos anos de trabalho necessários para se aposentar. Uma situação já difícil frente ao movimento de protesto em curso, desde quarta-feira é muito complicada, o que explica o chamado de Laurent Berger, seu secretário geral, a marchar na próxima terça-feira junto aos que se opõe ao conjunto da reforma. Como resume Raymond Soubie, presidente do grupo, assessor de estratégia social da Alixio e ex conselheiro oficial da presidência de Sarkozy: “La CFDT não quer aparecer como aliada do governo”. Para Soubie, a posição da central “não é fácil de manter, particularmente porque em 2018 tinha assinado um acordo que estabelecia um mecanismo comparável ao da idade de equilíbrio no regime de aposentadorias (pensões) complementares do regime privado Agirc-Arrco”. O Sr. Berger caminha sob uma crista muito estreita, e ademais está exposto, como outros dirigentes sindicais, à pressão da sua base.

Mas, nos bastidores, este fim de semana as trocas telefônicas e as decisões entre Bercy [o Ministro de Economia e Finanças], Matignon [a residência do Primeiro Ministro] e o Elíseo [a presidência] por um lado, e os líderes das confederações reformistas pelo outro, se multiplicaram. O Executivo busca febrilmente caminhos para ter a oportunidade de desbloquear a situação, ao menos parcialmente. Na SNCF [empresa nacional de ferrovias] e na RATP, Matignon convidou gerentes das empresas a explorar caminhos para as diferentes categorias que “suavizarão” um pouco mais a transição ao novo regime de previdência. Finalmente, o governo sempre tem a esperança de “desenganchar” os professores das fileiras de oposição à reforma, os quais proporcionam grandes batalhões, tratando de limitar a greve somente aos trabalhadores do transporte.

As direções que se dizem combativas, por sua parte, como explicamos na semana passada no “A perspectiva concreta da greve geral na França e seus adversários”, continuam na sua linha de canalizar a raiva. Em vez de declarar e estabelecer um plano efetivo para concretizar a greve geral, estas se contentam com os chamados a executar “momentos fortes” como a próxima jornada de greve e mobilização no dia 17 de dezembro. No entanto, sem nos negarmos aproveitar estas jornadas de ação, o que verdadeiramente precisamos é de um plano para vencer.

A mensagem do primeiro ministro Édouard Philippe foi totalmente clara: o governo está decidido a não ceder em nada do essencial. Com uma política demagógica para com os setores mais precarizados da classe, ao passo que apresenta uma série de falsas concessões para confundir os opositores da reforma, busca desmoralizar os grevistas atrás de uma demonstração de firmeza que busca convencê-los de que seus esforços e sacrifícios são em vão. É certo que com esta atitude de teimosia oculta sua preocupação e debilidade frente ao crescente isolamento na população, onde a mensagem de Édouard Philippe não foi aprovada e que sua aparência de valentia pode ser o prelúdio ao ceder, como vimos com Juppé em 1995.

Mas desde essa época a burguesia francesa tirou lições deste retrocesso parcial na luta de classes, ao passo que se radicalizou na sua determinação contra revolucionária depois da crise de 2008, apesar das suas debilidades estruturais e hegemônicas tanto nas suas bases de apoio social como na efetividade do seu discurso neoliberal. Sua credibilidade política está em jogo, em especial frente ao eleitorado mais reacionário que Macron prefere conservar para as presidenciais de 2022. Como diz Cécile Cornudet em "Quando Macron joga sua mão direita até o limite”:

Emmanuel Macron, debilitado pela crise dos Coletes Amarelos, não quer correr o risco de perder sua última base, a dos votantes de direita. Se renuncia a sua ambição, será deixado. Se danifica o que fica da sua imagem positiva, pode renascer uma alternativa entre ele e Le Pen. Esta aposta é muito arriscada socialmente. Basta ver as reações dos sindicatos na quarta-feira: estamos ao ponto de ver acontecer nas ruas uma enorme batalha. Pode sacudir a maioria parlamentar, que durante muito tempo acreditou que o segundo ato se aproximaria com a pata esquerda” do macronismo [3]. Mas o macronismo tem seguido precisamente o caminho da reforma das previdências.

Mostrando sua satisfação frente às decisões governamentais, a patronal da MEDEF, por sua vez, coloca em evidência como essa reforma é central para a grande burguesia francesa: além da redução orçamentária que deve ser feita às custas dos trabalhadores, procura desenvolver a médio prazo o suculento mercado da aposentadoria por capitalização. Tendo em vista o tanto que está em jogo para o governo e para a patronal, isto não cederá se a perspectiva da generalização da greve para outros setores não se concretiza, ou seja, sem que a greve se transforme em uma verdadeira greve geral política, em uma GREVE GERAL que abra uma crise de regime, ou seja, uma crise revolucionária.

Por uma lista de reivindicações do movimento operário para estender a greve

O Executivo é bem consciente da potencialidade revolucionária, ainda que não o diga com estas palavras, da luta das aposentadorias. Assim como conta a editora da Les Echos antes citada, o governo está em estado de alerta:

“O problema da reforma das aposentadorias não deveria provocar uma crise do setor público, porque já que o imposto às emissões de carbono incendiou em seu momento os Coletes Amarelos no que poderia ser chamada de uma crise do setor privado”, disse outra fonte próxima. Nos três setores identificados, a questão não é tanto a aposentadoria, mas sim as condições de trabalho, que se deterioraram consideravelmente nos últimos anos. Ainda que rapidamente deixou de lado suas ambições de uma reforma de grande alcance do setor público, a equipe de Macron sabe que, a médio prazo, lhes custou muito tempo para perceber a magnitude do mal-estar. Como não tinha visto a perda de poder aquisitivo e o sentimento de abandono das classes médias em torno das rotatórias.

Mas enquanto o governo faz tudo que está ao seu alcance para “descoagular” as diferentes raivas, as direções sindicais miram mais uma vez para o outro lado. Se limitar a defender a suspensão da reforma e propor o debate de outra nova, como o defende a direção da CGT, não pode ser um programa que entusiasme o conjunto dos setores do movimento operário. Os trabalhadores mais precarizados não vão se jogar em greves prolongadas que implicam enormes sacrifícios e riscos importantes se não vêem a perspectiva de ganhar. Os trabalhadores mais jovens por sua vez, titubeiam em se mobilizar por um problema que alguns vêem distante, sobretudo quando sua realidade cotidiana está cheia de carências e condições de superexploração, que é o que esconde o trabalho precário.

A realidade é que em um contexto de ofensiva capitalista e regressão social generalizada, como é a realidade do capitalismo contemporâneo, agradava depois de 2008, a luta contra tal ou qual reforma é insuficiente para melhorar a sua realidade, que já é dura. Somente um programa que partindo do defensivo abra a perspectiva para passar à ofensiva poderia ganhar a simpatia das camadas mais amplas da classe operária. Um programa que inclua a demanda de aumento de salários e do poder aquisitivo levantado pelo movimento dos Coletes Amarelos. Um programa de desenvolvimento dos serviços públicos e de um plano de obras públicas para as zonas periféricas aumentando a quantidade e a qualidade dos serviços, ao passo que a construção massiva de moradias sociais nas banlieues que possam sacar as mesmas da situação de “gueto social” às quais estão condenadas. Ao mesmo tempo, para criar emprego para milhares de trabalhadores desempregados, aos quais a reforma do seguro de desemprego 2019 (reforma Macron), a qual as direções sindicais deixaram passar sem luta, impôs maiores condições para conseguir o seguro desemprego. Outra parte do programa deve ser a criação massiva de emprego público, o aumento dos salários congelados durante anos e o fim de toda terceirização, assim como a revogação das leis trabalhistas de Hollande e Macron que precarizaram o emprego e aumentaram sua dureza na grande maioria das fábricas ou serviços do setor privado que sejam grandes, médias ou pequenas empresas. Obviamente, este programa também deveria requerer a anulação da reforma atual, o aumento das pensões, aposentadorias e da “velhice mínima”, que não deveriam ser inferiores a 1.800 euros, assim como o retorno das anualidades de 37,5 cotizados e o direito de se aposentar com 60 anos, tanto no setor público, como no privado.

A nivelação das conquistas sociais desde cima deve ser a demanda de todo o movimento operário, algo oposto pelo vértice à lógica de precarização, baixa do nível de vida dos ativos e passivos, assim como a deterioração das condições de trabalho, ou seja, de um avanço da superexploração que busca a ofensiva neoliberal, que quer voltar o máximo possível às condições de trabalho do século XIX obrigada pela desenfreada competição internacional. Somente um programa deste tipo poderia fazer real a demanda de “Macron dimisión”, que desde os últimos dias começa a ser retomada de há pouco, apesar do controle das direções sindicais e suas marchas festivas e pouco combativas.

Na década de 1930, quando os efeitos da Grande Depressão se fizeram sentir na França e antes da onda de greves que conduziu às ocupações de fábricas e ao começo de um processo revolucionário, Leon Trotsky criticou a lógica sindicalista e corporativista da direção de então do Partido Comunista Francês (PCF), uma lógica muito similar à das direções sindicais contestatárias de hoje em dia. Ao sinalizar o limite desta orientação, Trotsky enfatizava como

A enunciação das reivindicações imediatas é feita de forma muito geral: defesa dos salários, melhoria dos serviços sociais, contratos coletivos, “contra a carestia”, etc. Não se diz uma palavra sobre o caráter que pode e deve tomar a luta por essas reivindicações nas condições da atual crise social. Apesar disso, todo operário compreende que, com dois milhões de desempregados ou semi-empregados, a luta sindical pelos contratos coletivos é uma utopia. Nas condições atuais, para obrigar os capitalistas a fazerem concessões sérias, é necessário quebrar sua vontade; e não se pode chegar a isso senão através de uma ofensiva revolucionária. Mas uma ofensiva revolucionária que opõe uma classe a outra não pode se desenvolver unicamente sob consignas econômicas parciais. Cai-se em um círculo vicioso. Aqui está a principal causa da paralisia da Frente Única. A tese marxista geral - as reformas sociais são apenas subprodutos da luta revolucionária - em época de declínio capitalista, tem a importância mais candente e imediata. Os capitalistas apenas podem ceder alguma coisa aos operários quando estão ameaçados pelo perigo de perder tudo. Mas inclusive as maiores “concessões” de que o capitalismo contemporâneo é capaz (se encurralando a si mesmo em um beco sem saída) seguirão sendo absolutamente insignificantes em comparação à miséria das massas e a profundidade da crise social. Eis porque a mais imediata de todas as reivindicações deve ser a consigna da expropriação dos capitalistas e a nacionalização (socialização) dos meios de produção. Esta reivindicação é irrealizável sob o domínio da burguesa? Evidentemente. Por isso é necessário conquistar o poder. (Uma vez mais, aonde vai a França?).

Mas, apesar da determinação dos setores que já estão em greve, as direções sindicais chamadas contestatórias não mostram uma perspectiva, uma determinação e uma estratégia para ganhar contra Macron e seu plano neoliberal. A direção da CGT se opõe radicalmente a dar uma orientação ofensiva ao movimento; é que teme como se fosse a peste que se desencadeie uma luta de caráter revolucionário como em 1936 ou 1968. Não é outro o significado de que tenham abandonado o terreno do “diálogo” com o governo, a comédia da “democracia social” durante 18 meses. Por isso a tarefa de que os grevistas tomem o controle da greve e se auto organizem é vital, como á defendemos no artigo anterior.

Que defendamos uma estratégia de auto determinação dos grevistas e um programa que unifique as diferentes camadas dos trabalhadores e ao conjunto dos explorados não significa que pensemos que marchando nesta direção a vitória está segura. A combatividade das massas só pode ser verificada da própria luta. Mas para conquistar uma vitória não é possível seguir outro caminho. O que está claro é que a política das direções sindicais constituem um sério obstáculo para um salto da mobilização em curso. É necessário e urgente impor uma viagem: os trabalhadores ferroviários, os da RATP, os professores e os trabalhadores das refinarias não poderiam resistir indefinidamente. Ou se juntam rápida e massivamente outros setores, ou o governo ganhará esta batalha.

Por uma “nova ordem” frente à crise e à desordem capitalista

O movimento atual constitui, sem sombra de dúvidas, o movimento de greve mais importante desde 1995. No entanto, diferentemente daquele, as condições sociais e sobretudo políticas são qualitativamente diferentes: a França operária e popular, a França de baixo, não acredita mais na França de cima. O velho jornalista alinhado ao regime Alain Duhamel a chama de “Uma greve por suspeita”, para diferenciá-la da definição com a qual o politólogo Stéphane Rozès havia batizado “greve por delegação” ao que constituía o mais grande movimento social depois de maio de 1968 até então. Duhamel diz: “A greve de dezembro de 2019 sublinha o repentino descenso da palavra politica, esta é a grande diferença com o movimento social de 1995”.

Em menos de um ano, o corpo social francês se revuelca de novo: há pouco os Coletes Amarelos, agora o quente dezembro francês de 2019. A crise orgânica do capitalismo francês está dando sacudidas sociais recorrentes que começam a revelar novas formas de pensar das classes subalternas. Assim, de outro ângulo, diferente da jornalista antes citada, Marc Abélès, antropólogo político, diretor de estudos da Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHESS), afirma que: "O movimiento social de 2019 não é só uma extensão de 1995. É mais profundo, questiona um futuro angustiante, entre os Coletes Amaremos e as ameaças ambientais”. E adiciona:

No entanto, se olhamos de mais perto, é necessário levar em consideração que a referência sobre 1995 não reflete as características da mobilização de 2019. Mais bem, deve ser lido no contexto do movimento dos Coletes Amarelos e o alcance das angústias que tem se expressado, longe de se reduzir a demandas categóricas. Os Coletes Amarelos atacavam a injustiça fiscal; neste caso, o que está em jogo é o fato de que o sistema de aposentadoria, longe de beneficiar a parte inferior da escala, beneficiará uma vez mais os mais acomodados. As referências à “sobrevivência” entre os manifestantes devem ser levadas à sério, já que são o centro de todas as revoltas atuais. Angústia no fim do mês e o fantasma do fim do mundo: não faz muito tempo, alguns diziam que eram capazes de articular as duas frentes. O certo é que a magnitude das manifestações que mobilizaram várias gerações de trabalhadores públicos e privados, precários e em branco, reflete uma consciência muito mais ampla o que antes dos danos causados pela globalização neoliberal, tanto para o presente como para o futuro das pessoas. “Queremos viver, não apenas sobreviver”, disseram os Coletes Amarelos. Está é a questão colocada pela mudança no sistema de pensões. O que acontece no futuro, quando entraremos no último período de uma vida laboral que para muitos poderá ser vista perturbada por períodos de desemprego ou de trabalho precário? Se a reforma das pensões está gerando uma mobilização tão ampla é porque coloca fortemente a questão do futuro.

A este caráter mais amplo, político, da luta, totalmente oposto a toda a reivindicação corporativista, os trabalhadores de base o que expressam com suas próprias palavras; Quem não já escutou no conflito atual decidir eu luto não apenas por mim mesmo, sobretudo pelos meus filhos” ou “o que está em jogo é uma questão da sociedade”? É o rechaço visceral ao qual os jovens são sacrificados, de ali a negativa obstinada de toda saída setorial, como quer fazer passar o governo com suas “concessões”, mas além de que os grevistas ainda não sejam capazes de se articular em uma reivindicação de fundo, estes desejos profundos. Já no passado, processos de greve mais avançados que o atual tiveram esta dificuldade. Assim, o dirigente trotskista belga Ernest Mandel deu um exemplo paradigmático do que dizemos:

A greve geral é objetivamente política, porque impõe um enfrentamento com a burguesia de conjunto e com o Estado burguês, mas não é necessário que isso seja consciente desde o começo. Existe um grande exemplo histórico na Europa, talvez o maior até maio de ‘68 que o confirma, que é o exemplo de junho de ‘36, quando não se colocaram reivindicações políticas, onde os operários ocuparam fábricas e aparente somente formularam reivindicações de tipo econômico (redução das horas de trabalho, licenças pagas, etc, no limite do “controle operário”), mas onde o próprio Trotsky e todos aqueles que, com um pouco de honestidade, examinaram este movimento, eram muito conscientes do fato de que o que estes trabalhadores pediam, de fundo, era infinitamente mais profundo do que eram capazes de articular. E seria um erro muito grave julgar a natureza de uma greve se baseando na capacidade de expressão consciente daqueles que a levam adiante em um momento dado” (destaque nosso).

Nossa obrigação como revolucionários do século XXI é - sobretudo, depois do retrocesso da consciência dos trabalhadores pelos danos causados pelo stalinismo – ajudar a articular de forma consciente estas primeiras expressões profundas da nova geração operária que está nascendo. E esta transformação radical das condições de vida deve estar ligada às consequências da crise ecológica, pois como dizia um cartaz no 5 de dezembro: “Pra que serve a aposentadoria se não teremos mais planeta?”

Os Coletes Amarelos agitaram o grito “Macron dimisión” (“Fora Macron”). Na luta atual, esse grito começa a retornar. Porém, com a ausência de uma alternativa política, como era a esquerda no passado, os trabalhadores permanecem na defensiva: é que depois de Sarkozy, Hollande, e agora Macron, ninguém quer substituir este presidente odiado por outro político burguês, ou pior, pela extrema direita de Marine Le Pen. Necessitamos de outra coisa, necessitamos de uma “nova ordem”: uma ordem socialista que não tenha nada a ver com a caricatura burocrática que o stalinismo fez das primeiras revoluções operárias triunfantes da história. Necessitamos de um governo nosso, dos trabalhadores, dos jovens, da maioria da população, para pôr fim a todas as políticas que estão a serviço dos capitalistas, que a única coisa que nos garantem é uma sobrevivência infeliz, e às vezes nem isso, como mostram os suicídios no mundo do trabalho e de agricultores ou as tentativas de imolação de estudantes. Se, como dizem os grevistas, é uma questão de sociedade, devemos nos organizar para mudar essa sociedade e por fim a este sistema absurdo, este “grande corpo doente”, como Pierre Ducrozet o definiu. Em sua última crônica no Libération, ele disse:

O grande corpo doente do capitalismo mundial está se expondo de todos os lados. Está doído, machucado, sem fôlego. Trinta anos depois da queda do Muro [de Berlim] e do comunismo, essa é a grande notícia: o sistema que estava ganhando terreno e que nós acreditávamos que era impossível de afundar, está afundando. Seu coração está esmigalhado, seu fígado está afetado, suas pernas vacilam. Se mantém de pé, certamente, deglutindo como sempre o que se opõe a ele, porém repete as mesmas frases, gagueja, sua voz não funciona mais. Trinta anos depois do seu suposto triunfo, o grande corpo que se dizia imbatível, levou o planeta à beira do caos. Talvez seja hora dele partir, deve-se fazer reverência.

Se deve-se terminar de lhe fazer reverência, é tempo de construir um verdadeiro partido revolucionário que defenda a verdadeira derrubada do capitalismo e sua substituição pelo socialismo. Seus componentes se encontram já nos trabalhadores em greve, no mais avançado dos Coletes Amarelos, nos jovens que lutam contra a violência policial e o racismo do Estado nos bairros, e que é o mesmo Estado policial e bonapartista que reprimiu os coletes amarelos, e agora reprime os piquetes dos grevistas. Necessitamos de nosso Estado, um Estado dos trabalhadores e das trabalhadoras, que erga uma “nova ordem” [4] na França e na Europa. Um Estado baseado na mais ampla democracia da classe trabalhadora e do povo trabalhador, como um meio para nosso objetivo estratégico que é acabar com as classes sociais e com o Estado, ou seja, avançar para uma sociedade comunista.

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FOOTNOTES

[1Matéria originalmente publicada em 15 de dezembro. Hoje, a França encontra-se em seu décimo oitavo dia da greve

[2Reafirmando sua oposição à reforma do governo, ela defendeu que “deve haver uma trégua para o Natal. O Natal é uma época bastante importante para nossos compatriotas. É um momento familiar. Muitos se encontram em situações difíceis, e muitos já prepararam suas viagens, compraram passagens de trem que geralmente são caras”.

[3Refere-se ao segundo momento da presidência de Macron, depois da revolta dos Coletes Amarelos. Com pata esquerda, faz alusão aos componentes mais socialdemocratas deste partido que define a si mesmo como “nem de direita, nem de esquerda”, embora na crise atual esta separação volte a aparecer.

[4Essa “nova ordem”, que era como se chamava o órgão de imprensa dos comunistas revolucionários na Itália no biênio vermelho (onda de ocupações de fábrica que transtornaram o norte da Itália em 1919/20), estava de alguma maneira pré-anunciada, para seu principal dirigente Antonio Gramsci, nos conselhos operários, como “germes” ou embrião do futuro Estado operário. Dizia Gramsci: “O Estado socialista exista já potencialmente nas instituições da vida social características da classe operária explorada. Relacionar essas instituições entre elas, coordená-las e subordiná-las em uma hierarquia de competências e poderes, concentra-las intensamente, ainda que respeitando a autonomia e articulações necessárias, significa criar desde agora uma verdadeira e própria democracia operária em contraposição eficiente e ativa com o Estado burguês, preparada para substituir o Estado burguês em todas as suas funções essenciais de gestão e de domínio do patrimônio nacional”.
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