Política

IMPEACHMENT

FIESP põe anúncio pró-impeachment em 14 páginas do Estadão

Junto a centenas de entidades da burguesia, a FIESP estampou no jornal paulista “O Estado de S. Paulo” dessa terça-feira (29) um anúncio de sua campanha pró-impeachment, ocupando cerca de um terço de cada uma das 14 páginas pelas quais se espalhava.

Fernando Pardal

@fepardal

quarta-feira 30 de março de 2016| Edição do dia

O título da propaganda comprada pela entidade patronal num dos jornais de maior circulação no país dizia: “Somos milhões de empregos e bilhões de reais em impostos”, e abaixo seguia o seguinte texto: “Representamos famílias, homens, mulheres e jovens. Vemos que o país está à deriva. A hora de mudança é agora. Dizer SIM ao impeachment, dentro dos parâmetros constitucionais, é dizer NÃO ao descontrole econômico, ao descaso com as empresas, com o emprego e, principalmente com você. Chega de pagar o pato. O Brasil tem jeito.” Todo o restante das páginas trazia as assinaturas das entidades que subscrevem essa proposta, e que podem ser conferidas aqui.

Basta uma rápida passada de olhos pela lista de assinantes da hipócrita propaganda para constatarmos que são 90% ou mais de entidades patronais, como associações de industrias e comércios. Quanto às organizações políticas, expressam a direita organizada que desde o ano passado procura a via do golpe institucional do impeachment para derrubar o impopular governo do PT. Entre eles encontramos o Movimento Brasil Livre (MBL), Revoltados On Line, Vem Pra Rua, entre outras menos em destaque, mas cujo nome já deixa claro seu teor elitista e reacionário, como a Resistência Paulista ou Avança Brasil Maçons.

Enquanto cortam milhares de empregos na indústria, rebaixam salários, atacam direitos dos seus empregados e procuram a todo modo descarregar os custos de sua crise sobre os ombros dos trabalhadores e do povo pobre, essas entidades gastam uma quantidade exorbitante de dinheiro para estampar sua campanha nas páginas de um dos jornais que, também em seus editoriais, procura endossar a derrubada do governo pelas mãos de um congresso corrupto, com uma comissão de impeachment que apresenta nomes como Collor e Maluf. Isso sem falar nos cinco mil patos que colocaram na esplanada do Congresso ou o pato de 20 metros de altura que prometem para os próximos dias. Tudo pago pelo dinheiro “ganho honestamente” por esses empresários à custa do suor dos trabalhadores.

Afirmam representar jovens, mas as estatísticas dos atos do dia 13 de março mostram quão mentirosa é essa afirmação. Os “milhões de empregos” que eles afirmam defender são os mesmos que eles têm cortado, gerando fechamentos de fábrica e um desemprego que chega a 20% na juventude, em nome de salvaguardar seus lucros milionários. Os “bilhões de reais em impostos” são os mesmos que a mesma campanha cínica da FIESP denominada “não vou pagar o pato” procura combater, também para garantir que seus lucros se mantenham.

A verdade é que o interesse dessas entidades é de retirar o governo do PT porque, por mais que esse venha implementando cortes na educação, em programas sociais, atacando direitos dos trabalhadores, ele não o faz no mesmo ritmo que exige a sede de manter seus privilégios que têm esses grupos patronais. Querem um governo que combata o que chamam na sua propaganda de “descontrole econômico”, ou seja, que corte mais orçamento das áreas sociais para poder ter mais dinheiro para pagar a dívida pública e salvar os empresários. O “descaso com as empresas” é realmente o que incomoda a FIESP, pois eles não admitem que, em uma situação de crise econômica, o governo petista ainda busque implementar seus ataques sobre os trabalhadores no ritmo de seus acordos com os burocratas que mantém nos sindicatos, que por sua vez tem que fingir aos trabalhadores que ainda estão fazendo algo para defender seus interesses. Enquanto CUT, CTB e outras centrais governistas dizem que estão lutando em defesa dos trabalhadores, não mexem um dedo para combater demissões e lay offs, mas se mobilizaram para ir ao ato comício do dia 18 bater palmas para Lula quando esse diz em alto e bom som que os empresários e banqueiros nunca ganharam tanto dinheiro quanto em seu governo.

O fato é que o PT, nos tempos de vacas gordas, pôde dar lucros recordes aos capitalistas e ainda uma ou outra mínima concessão aos trabalhadores; contudo, agora no tempo de vacas magras mostra que vai atacar aos trabalhadores para garantir os lucros dos empresários, só que para isso precisa fazer de forma cautelosa e em acordo com seus aliados no movimento sindical, sob o risco de perder uma importante base de sustentação de seu governo. Os burocratas dos sindicatos, que há anos não põem o pé na fábrica para trabalhar, precisam fazer o jogo dos patrões para garantir seus privilégios, mas também precisam conter suas bases para mostrar aos empresários que estão “fazendo sua parte”. Por isso é que os trabalhadores, enquanto lutam contra a saída reacionária do impeachment, cujo propósito é apenas implementar os ataque mais rapidamente, precisam exigir dos sindicatos um plano de lutas concreto para barrar demissões, lay offs, fechamento de plantas ou qualquer ataque que os patrões queiram fazer sob o pretexto da crise. Os sindicatos devem ser ferramentas para lutar por nossos direitos, e não para bater palmas pro PT e “amaciar” o caminho pros seus ajustes que atacam nossos direitos.

A FIESP, procurando combater a ideia já assimilada por grande parte dos trabalhadores e jovens que – mesmo sem apoiar o PT são contra o impeachment – de que se trata de um golpe promovido pelos setores mais reacionários da burguesia, afirma que esse deve ser feito “dentro dos parâmetros constitucionais”. Essa mesma constituição que não respeita os poucos direitos que reserva aos trabalhadores, como o direito de greve, firmemente atacado pela mesma FIESP e pelo judiciário constantemente, ou que é papel molhado com os milhares de assassinatos de jovens negros nas periferias pelas mãos da polícia todos os dias. Se não bastasse outras demonstrações, a nota no Estadão é mais uma evidência de que esse impeachment é dos patrões, e não dos trabalhadores.




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