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Entrevista com diretores do longa documental Muribeca: um sensível testemunho da resistência criativa da coletividade

Gabriel "Biro"

Imagem: Alcione Ferreira

Entrevista com diretores do longa documental Muribeca: um sensível testemunho da resistência criativa da coletividade

Gabriel "Biro"

Muribeca, dirigido por Alcione Ferreira e Camilo Soares, é um longa documental sobre o despejo forçado de uma comunidade homônima, na periferia de Jaboatão dos Guararapes, em Pernambuco. O documentário foi produzido de forma independente, sem dinheiro de empresas ou de instituições governamentais. A equipe completa de produção é formada por 14 pessoas. Atualmente o filme está em exibição nos festivais de cinema.

Muribeca é o nome do longa documental dirigido por Alcione Ferreira e Camilo Soares. Produzido ao longo de três anos (2017 - 2019), sendo a primeira obra autoral destes artistas. Muribeca conta, com enorme sensibilidade e envolvimento, a história da comunidade homônima que fica em Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana de Recife (PE). Muribeca, em tupi-guarani, significa “mosca importuna”, e assim era esta comunidade aos olhos da Caixa Econômica Federal e das autoridades políticas regionais, tamanha foi sua teimosia e resistência contra o despejo ao qual foram autoritariamente submetidos.

Durante anos a comunidade se organizou e se mobilizou contra a expropriação, pelo direito de permanecerem no local, onde famílias e amigos construíram e entrelaçaram suas vidas, onde floresceram artistas, músicos, poetas e lideranças. “A comunidade era vibrante", comentava Alcione para o Esquerda Diário durante a entrevista que poderá ser conferida nesta matéria. E é assim que nos mostra o documentário destes produtores independentes: uma comunidade viva e unida, que fez com suas mãos e mentes aquilo que o poder público negligenciava. Muribeca construiu suas próprias praças, seus eventos semanais, suas festividades e suas regras de convívio, criou atividades de lazer e aprendizado para crianças e tinha sua própria rádio comunitária, perseguida pela instituição pública.

Imagem de Shilton Araújo

Qualquer desculpa para a remoção forçada dos moradores de Muribeca se torna vazia e sem sentido perante o revelador potencial aglutinador e subversivo de uma comunidade que se constrói através da auto organização. Ainda mais se tratando da Região Metropolitana de Recife, que vive a guerra permanente da especulação imobiliária contra seus habitantes, com exemplos como Brasília Teimosa desfilando na cara da elite do Pina e de Boa Viagem.

Toda esta auto atividade, esse potencial coletivo e humano, é sensivelmente nos apresentado no documentário através da direção de fotografia de Alcione Ferreira e Camilo Soares, como se estivéssemos revendo um videotape antigo de nossa própria infância, recordando uma história de um lugar familiar, um lugar, que infelizmente já não existe mais, não como antes.

As imagens registradas pelos próprios moradores do dia a dia da comunidade são expostas durante o filme intercaladas em contraste com as silenciosas paisagens de abandono dos prédios após o despejo. Os longos planos estáticos de concreto tomados pela solidão revelam o que uma das moradoras chama de um “cemitério de pessoas vivas”, que foram expulsas de suas casas, da proximidade de seus amigos e de suas próprias histórias. As lágrimas dos espectadores são testadas inúmeras vezes, mas especialmente quando recebemos os relatos de pessoas idosas que faleceram ao verem seus colegas e familiares obrigados a irem para longe durante o processo de despejo.

As cenas e diálogos do documentário Muribeca são inevitavelmente atravessados por uma profunda melancolia e um sentimento de perda, não de um objeto caro e seu valor em dinheiro, pois as habitações eram tão simples quanto qualquer outra Cohab, nada ali se tratava de riqueza material. Mas o documentário também traz consigo a ousadia e a resistência das pessoas, que seguem, até hoje, se chamando com orgulho de moradores de Muribeca. E também seguem lutando por um direito que a tantos outros é negado todos os dias, o direito de morarmos onde nascemos e crescemos, o direito de vivermos próximo de quem amamos, o direito de estar onde está também os nossos afetos, o pleno direito à moradia.

Entrevista com Alcione Ferreira e Camilo Soares, diretores de Muribeca

Esquerda Diário: O estado alega que todos os prédios estavam condenados. Mas isso chegou a ser comprovado de fato? Um dos representantes da comunidade fala de interesses da especulação imobiliária, a comunidade identifica esse fator político na ação do estado?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: O conjunto habitacional foi construído em 1980, através da Cohab. Com a falência da instituição os imóveis passaram a ser de responsabilidade da Caixa Econômica Federal. Ainda na segunda metade da década de 90 um dos blocos apresentou rachadura mas foi tratado como um caso isolado.

Anos depois, na primeira metade dos anos 2000, mais blocos apresentaram problemas. E daí em diante a Caixa Econômica queria fazer a desapropriação. Porém, ainda no período do governo Dilma, o governo federal assinou uma ordem de serviço para que a Caixa Econômica reconstruísse o conjunto no mesmo local, preservando o território e a comunidade.

Porém a Caixa recorreu na justiça e iniciou-se um imbróglio jurídico que se estendeu até 2019, quando a Justiça determinou que a Caixa poderia demolir os blocos e indenizar a população, mas sem o compromisso de reconstruir os imóveis no mesmo local, preservando a comunidade.

O laudo de que os blocos estavam com problemas estruturais devido veio da própria Caixa Econômica, que afirma não ser possível fazer construções habitacionais no tipo de solo daquela região . Os moradores contestam esse laudo.

A área fica próxima a saída de acesso para as praias do litoral sul, o que poderia interessar às megas construtoras que atuam de forma predatória em Pernambuco. Os moradores também alegam que a região é bastante valorizada para construção de grandes pólos industriais, a cidade de Jaboatão, naquela área tem essa característica.

O centro de distribuição da Walmart, Maxxi e Bompreço foi construído bem próximo, o que invalida o argumento de que o terreno é impróprio. Mostramos o caso a um professor da USP de engenharia que afirmou que, conforme a tecnologia atual, não haveria qualquer problema na construção de prédios populares, sem elevador, de até seis andares, mesmo em terrenos porosos ou molhados. O que percebermos é que a comunidade pagou pela má construção dos prédios, pela falta de controle urbano das autoridades e pela falta de interesse político e econômico de manter aquelas pessoas no lugar que transformaram em lar ao longo de décadas.

Esquerda Diário: Como está o local hoje?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: Todos os blocos foram demolidos. E as casas que foram construídas por perto dos blocos ao longo de seus 40 anos, e também foram ameaçadas, ficaram preservadas. Ainda há moradores naquela região que garantiram a posse do terreno das casas. Eram 69 blocos com 32 apartamentos cada. Era uma área bem populosa e vibrante. Como contam os moradores.

Esquerda Diário: E hoje a comunidade segue se mobilizando e se comunicando, mesmo aqueles que perderam suas casas? Ainda tem ativismo?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: Tem sim. Existem dois canais que são bem ativos e que conectam a comunidade: @somostodosmuribeca e o @muribecaelogoali. A comunidade sempre teve uma característica muito forte na comunicação. Nessas duas páginas eles mantêm todas/os informados. A organização comunitária permanece viva. O Somos Todos Muribeca, por exemplo, funciona fisicamente na Muribeca.

Esquerda Diário: Vocês se apresentaram no festival do CINEPE como artistas independentes. O que isso significa para vocês? Atuar como produtores independentes foi uma escolha? Da onde arrecadaram os recursos para realizar o filme?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: Nós não tivemos incentivo e/ou patrocínio público ou privado para a realização do filme. Os recursos foram dos próprios realizadores (Camilo e Alcione). Tivemos a equipe como parceiros em todos os sentidos. É um filme de custo baixo.

Esquerda Diário: De onde surgiu a motivação de realizar um filme documental de Muribeca? E o que representa Muribeca para vocês?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: A ideia surgiu de verificarmos a situação da comunidade e podermos contribuir para a preservação da memória do lugar. Muribeca representa para nós um símbolo de luta e resistência, de amor e força comunitária.

Esquerda Diário: Qual importância vocês veem no filme que vocês produziram para a comunidade de Muribeca e sua mobilização de resistência?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: Poder contribuir humildemente com a preservação da memória da comunidade. Para que muitas outras pessoas possam conhecer essa história de afeto. Achamos que a comunidade merece ser lembrada e que suas lembranças devam reverberar para que a história não se repita em outros lugares.

Esquerda Diário: Qual o papel que vocês veem do cinema e da arte na relação com movimentos de lutas populares?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: O cinema, assim como as artes visuais, vão contribuir para visibilizar questões sociais e para a amplificação dessas vozes e lutas, no sentido de inserir outras formas de narrativa que ajudem a sensibilizar para as temáticas sociais. O que encontramos comumente nessas situações são narrativas pseudo-progressistas e desenvolvimentistas que tentam justificar o sacrifício de populações pobres. Acreditamos que o cinema pode ser uma ferramenta importante na luta contra tais narrativas que estimulam não apenas a destruição física, mas o esquecimento, que é a morte subjetiva de um coletivo. Um filme pode pelo menos mudar sensibilidades sobre o assunto e abrir o espaço para outras visões e discursos.

Esquerda Diário: O tema de Muribeca é claramente um tema político e uma luta na qual vocês estão engajados. Enquanto artistas como vocês vêem essa relação ativista com a produção artística de vocês?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: A arte historicamente sempre teve esse viés. E é importante fortalecer essa dimensão humana. A nossa produção artística é a nossa forma de nos colocarmos politicamente no mundo também.

Esquerda Diário: Como vocês pensaram a produção estética e a forma do filme para expressar o conteúdo e a mensagem que queriam?

Alcione Ferreira e Camilo Soares: Pensamos muito na estética visual que trouxesse a visualidade frontal para o espectador. A fotografia funciona numa dimensão de tensão entre o que é uma imagem em movimento e uma imagem estática. É uma forma de se pensar a oralidade dos personagens trazendo essa movimentação para as imagens, como se fossem álbuns de família. A ideia de longos planos com a câmera parada reflete ao mesmo tempo um diálogo com a imersão do olhar pelos detalhes daquelas paisagens assim como a reconstrução das mesmas, seja através dos sons daqueles ambientes ou com o som das narrativas trazidas nas vozes dos personagens.

Imagem de Alcione Ferreira

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