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CORONAVÍRUS

Entrevista com Gerson Salvador, médico infectologista da USP: “Que nenhum ser humano do mundo seja privado do direito à saúde”

O Esquerda Diário entrevistou o médico infectologista Gerson Salvador que atua no Hospital Universitário da USP a respeito do novo coronavírus e o impacto da pandemia na saúde.

terça-feira 7 de abril| Edição do dia

ED: Você poderia falar sobre o coronavírus, suas características que permitiram se espalhar tão rapidamente pelo mundo?

GS: Os coronavírus são agentes comuns de infecção em seres humanos. Sabemos desde a década de 60 que coronavírus pode infectar seres humanos. Os quatro primeiros tipos que a gente conheceu dão resfriados, diarreia simples. Porém, neste século, conhecemos três coronavírus que podem causar infecções graves em seres humanos. O vírus da SARS, na primeira década de 2000 chegou a acometer pouco mais de 8000 pessoas e tinha uma letalidade de 10%. Na década de 2010 o MERS, que acometeu pouco mais de 3000 pessoas, mas com a letalidade de 33%. E agora, na última semana de 2019, um novo coronavírus, que tem causado a pandemia atual, que foi nomeado pela organização mundial da saúde como COVID-19. A taxa de transmissão dele é por volta de 6 pessoas sendo infectadas, ou seja, cada pessoa infectada transmite para mais 6. Isso pode gerar uma progressão geométrica de casos, porque de 1 multiplica para 6, de 6 se multiplica para 36 e vai fazendo uma curva. Ele pode ser transmitido de pessoa a pessoa por contato próximo, por secreção respiratória, ou indiretamente a partir de superfícies contaminadas.

ED: O governo decretou a quarentena no Estado e vem sendo bastante elogiado por ter tomado essa iniciativa precocemente, quando comparado à Itália, por exemplo. Ao mesmo tempo, observamos que uma parte grande dos trabalhadores não estão tendo essa mesma possibilidade, desde os que estão em empresas prestadoras de serviços de limpeza e segurança, até os trabalhadores informais e por aplicativos. Além disso, o governo está criando cerca de 2mil leitos em hospitais provisórios, os hospitais de campanha do Anhembi e do Pacaembu, e reorganizando o HC da USP para contar com mais 900 vagas. Você acha que é suficiente essas medidas?

GS: Em relação ao enfrentamento do COVID-19, o governo do estado tem acertado mais do que errado na minha opinião, principalmente pelas medidas de distanciamento social, que são absolutamente necessárias. Então, nesse quesito o governador acerta. O governador acertou também, na minha opinião, quando a portaria afasta os trabalhadores do próprio governo do estado, coloca em condição de teletrabalho as pessoas que têm risco maior de ter doenças graves, como, por exemplo, as pessoas que tem mais de 60 anos, cardiopatas, portadores de doenças pulmonares crônicas, imunodeprimidas. Nesse sentido há um acerto do governo. Também há um acerto em relação a aumentar a capacidade de resposta, de internação para os casos graves e tentar provisionar leitos de UTI. Então, começo falando no que o governo acertou. Agora, tem muitos problemas também. Um dos problemas em relação ao afastamento dos profissionais é que o governador tirou dessa lista os profissionais de saúde e os profissionais de segurança pública, que estão entre as pessoas mais expostas, com maior contato com o público. Nesse sentido, o governador erra ao colocar o trabalhador de saúde com maior risco – lembrando que cerca de 10% dos casos na Itália são de profissionais de saúde, 2% dos casos na Espanha são de profissionais de saúde . E entre as pessoas idosas, com doenças cardíacas e doenças pulmonares crônicas, a taxa de letalidade é muito alta, passa de 10%, chega a 17% em alguns grupos. Então, é bastante temerário, na minha opinião isso e deveria ser uniforme por parte do governo do estado. Agora, em relação à oferta de leitos, acho que tem que ter hospital de campanha sim! Só que existe uma capacidade instalada, que é maior ainda, por conta de haver muitos leitos ociosos no Estado de São Paulo, por conta de um sucateamento que o SUS veio sofrendo nos últimos anos, inclusive por parte desse governo que aí está, mesmo grupo político.

ED: O SUS vem de anos de subfinanciamento e desmonte. Uma série de hospitais foram obrigados a desativar setores ou andares inteiros por falta de funcionários. As equipes da Saúde da Família foram reduzidas e a atenção primária, que tem como um foco importante a prevenção, ficou bastante prejudica. Como essa condição do nosso sistema de saúde dificulta lidar com essa pandemia?

GS: O governo do Estado de São Paulo, nos últimos anos, abandonou o sistema único de saúde, permitiu que diversos hospitais fechassem leitos. A política de recursos humanos da Secretaria Estadual da Saúde é muito ruim, porque as pessoas se aposentam e acabam não sendo repostas. São anos, se não me engano, são sete ou oito anos, que não tem nenhum reajuste dos salários dos profissionais de saúde. E aí os profissionais de saúde da rede, muitas vezes, abandonam o serviço público por falta de condições e por não terem condições de remuneração. Pessoas competentes, que tem bastante experiência, acabam indo para o setor privado. Se não houvesse essa situação caótica no Estado, a gente precisaria fazer menos estruturas improvisadas nesse momento. Agora não é uma competência propriamente do governo do Estado, é uma competência federal que precisa dar suporte para diversos outros profissionais, principalmente um contingente muito grande que trabalham em situações precárias, que são chamados autônomos, empreendedores, se dá muitos nomes, mas na verdade são trabalhadores precarizados e que neste momento não têm nenhuma renda. O congresso nacional, à revelia do presidente da república, aprovou uma ajuda emergencial para as pessoas nessas condições, mas infelizmente não foi implementada até o presente momento. Existe responsabilidade por parte desses governos por terem desmontado uma estrutura que já precisaria de melhorias, mas desmontou uma estrutura do SUS, uma estrutura de proteção social, inclusive de proteção do trabalho. A conta dessa fatura está na mesa agora e a crise é mais grave por conta dessas atitudes que vêm sendo tomadas no Brasil, sobretudo nos últimos anos, sobretudo a partir de 2016 para cá.

“A conta dessa fatura está na mesa agora e a crise é mais grave por conta dessas atitudes que vêm sendo tomadas no Brasil, sobretudo nos últimos anos, sobretudo a partir de 2016 para cá.”

ED: Ainda sobre a estratégia do governo, me parece que está privilegiando criar uma estrutura provisória para enfrentar a crise, ao invés de reverter o desmonte do SUS, uma vez que não aproveita a estrutura já montada de hospitais, como o Sorocabano que tem 7 andares fechados, e faz contratação de trabalhadores da saúde de forma temporária por 3 meses. Como você vê isso?

GS: O que acrescentar para a pergunta é o seguinte, existe um déficit de leitos de internação na cidade de São Paulo também e no Estado de São Paulo como um todo. E além de ter leitos bloqueados em diversos hospitais, a gente tem hospitais inteiros que estão fechados. Na Zona Oeste de São Paulo temos dois: o Samaritano e o Panamericano. São dois hospitais inteiros, que são do poder público, atualmente o Samaritano com o município e o Panamericano com o estado de São Paulo , que estão fechados! Deveriam ser reformados e abertos com estrutura permanente para atender às pessoas. Quando o Estado, ao invés de fazer estruturas permanentes, faz estruturas provisórias, certamente não está se comprometendo com a saúde do povo, com deixar uma estrutura permanente para continuar atendendo a saúde da população.
Por fim, os hospitais de campanha devem ser necessários nesse momento e não é uma coisa ou outra, na minha opinião. Tem que ter hospitais de campanha para aumentar a provisoriamente a capacidade de atendimento e também ampliar a rede de atendimento, ampliar a rede de leitos de terapia intensiva. Em São Paulo há uma oferta de leitos de terapia intensiva alta, comparado com outras regiões do país e até mesmo com países da Europa, pois proporcionalmente, São Paulo tem um número confortável de leitos de terapia intensiva – claro que não nesse momento de pandemia, mas para oferta ordinária. Porém, eles estão concentrados na rede privada. Um paciente do SUS que é admitido em uma unidade da periferia na grande São Paulo ou no interior, tem muita dificuldade para acessar um leito de terapia intensiva, às vezes fica na emergência por dias ou semanas esperando regulação. Então, é preciso ampliar a estrutura permanente, porque as pessoas não morrem só de coronavírus.

“Quando o Estado, ao invés de fazer estruturas permanentes, faz estruturas provisórias, certamente não está se comprometendo com a saúde do povo, com deixar uma estrutura permanente para continuar atendendo a saúde da população.”

ED: Os números de contaminados e de mortes são bem assustadores na Europa. Aqui no Brasil, onde temos 31 milhões de pessoas sem água e 74 milhões vivem em áreas sem esgoto, a maioria dessas casas são em favelas. Como essa condição de vida da população pode interferir na expansão da contaminação e no número de mortes?

GS: A condição sanitária no Brasil faz com que a gente tenha um elevado número de pessoas com hanseníase, com tuberculose, com doenças de transmissão por água, numa condição que não dá para comparar com a maioria dos países europeus ou com os EUA ou com Canadá.
A grande parte da população brasileira vive em condições de absoluto subdesenvolvimento. O Brasil é um país rico, mas a riqueza está concentrada e o acesso à água, saneamento básico, infelizmente é muito precário para um contingente importante da nossa população. Em relação a doenças de transmissão respiratória, está aí a tuberculose matando a população mais pobre, sobretudo as pessoas que vivem em situação de rua, a população carcerária, as pessoas que vivem com HIV e os indígenas. Se essas pessoas são as pessoas que mais morrem de tuberculose, é possível que elas também sejam vulneráveis a contrair COVID-19. Principalmente nas aglomerações, da população carcerária, das periferias e das favelas. 12% da população brasileira vive em favelas, o impacto do coronavírus nessa população, a gente não tem nenhum modelo no mundo que nos permita dimensionar, é um caso à parte e preocupa bastante.

ED: Alguns setores, chamados de essenciais, não podem parar. Um deles são os trabalhadores da saúde que além de continuarem a trabalhar estão na linha de frente no combate aos efeitos dessa pandemia e justamente por isso correm mais risco de serem contaminados. Na Espanha os trabalhadores da saúde infectados correspondem a 14% do total de contaminados (5400). Na Itália, foram 5mil médicos contaminados. Aqui no Brasil, foi noticiado que o HC afastou 125 trabalhadores sendo que pra 108 já tem a confirmação positiva para o coronavírus, e em SP já são mais de 600 afastados. Como esse risco poderia ser reduzido? Pode nos contar um pouco da sua experiência nos hospitais que você trabalha?

GS: Existem medidas imediatas que devem ser tomadas para proteger as pessoas da infecção por coronavírus. Uma delas é tirar da linha de frente as pessoas idosas, com mais de 60 anos, e pessoas com doenças cardíacas, pulmonares crônicas ou imunodepressão, pessoas mais vulneráveis, que podem ter doenças mais graves. Segundo ponto, tem que ter equipamentos de proteção individual em quantidade suficiente. E não basta só fornecer os EPIs, tem que treinar os trabalhadores para usá-los corretamente. Então, o EPI e tirar da linha de frente os mais vulneráveis são medidas imediatas. Mas é importante lembrar que existem condições que já cronificaram, que têm a ver com jornada de trabalho excessivas, sem momentos de descanso durante a jornada de trabalho. Um trabalhador que muitas vezes trabalha em regime de 12h por 36h, como os profissionais de enfermagem e que, muitas vezes, saem de um trabalho em um dia, vão para outro trabalho no outro dia, acabam sendo pessoas que, muitas vezes, não têm nenhum dia de folga. Numa situação dessa jornada de trabalho – dei o exemplo da enfermagem, mas isso se aplica à medicina e a muitas outras profissões da área da saúde – a gente tem que repensar o modelo de trabalho na saúde como um todo. Porque, hoje em dia, estar em uma situação para cuidar dos outros. Mas, os profissionais também têm adoecido. Os trabalhadores da saúde sofrem inclusive com problemas recorrentes de saúde mental , o que, além de produzir sofrimento, acaba tirando esses profissionais de saúde da linha de assistência muitas vezes. Precisamos pensar em um cuidado sempre com essas pessoas e, também, os cuidados imediatos, específicos em relação à pandemia.

ED: Além dos trabalhadores da saúde, os do transporte e muitas fábricas não pararam. Como estes trabalhadores poderiam ser proteger?

GS: O risco de adquirir uma infecção respiratória, como o COVID-19, é tanto maior quanto maior for a exposição e o contato próximo com um grupo elevado de pessoas. Além dos profissionais de saúde, a gente tem os profissionais dos transportes, os profissionais de entregas, notadamente os entregadores de aplicativo, hoje em dia. A gente tem os profissionais de segurança pública, corpo de bombeiros, os profissionais de limpeza, as pessoas que trabalham nas recepções, enfim, eu dei aqui alguns exemplos, mas certamente há muitos outros. As pessoas que têm contato direto com um número grande de pessoas têm risco maior de adquirir infecções respiratórias, inclusive o COVID-19. A gente tem que usar medidas como tirar da linha de frente as pessoas que estão condição de maior vulnerabilidade e, em relação a um grande contingente que trabalha precarizado, o conjunto da sociedade e o Estado têm que garantir uma renda suficiente para as pessoas suprirem suas necessidades.

Para as pessoas que não podem deixar de circular, primeira conduta, higiene das mãos sempre, limpar as mãos com álcool gel de 20 a 30 segundos ou com água e sabão de 40 a 60 segundos. Segunda coisa, etiqueta respiratória, se tossir cobrir a boca com a região do cotovelo, se assoar o nariz jogar o lenço fora e higienizar a mão imediatamente depois. Próxima coisa, ter um certo distanciamento, manter a distância de um metro das outras pessoas. Evitar cumprimentos, se cumprimentar com os olhos, com joia, enfim, evitar beijinho e abraço neste momento. Acho que é isso, tentar estar o mais distante possível e evitar circular quando não for extremamente necessário.

ED: Gerson, agradecemos muito por você conceder essa entrevista que nos ajuda a aprofundar esse debate com milhares de trabalhadores e jovens que acessam a Rede Internacional de notícias da qual o Esquerda Diário faz parte. Você gostaria de fazer mais alguma consideração?

GS: Nesse momento estamos em uma pandemia, em uma grave crise sanitária. A gente não pode minimizá-la. Mas, é importante que se diga que uma parte da gravidade, da incapacidade de resposta, tem a ver com o desmantelamento que vem acontecendo nos serviços públicos, de saúde em particular, dos ataques que a universidade vêm recebendo, os institutos de pesquisa, os funcionários públicos. E a resposta mais qualificada à pandemia está vindo desses setores, que vêm sendo tão atacados cada vez mais nos últimos anos.

A outra coisa que eu gostaria de pontuar é que a pandemia nos permite uma reflexão, um de debate ético. Neste momento, o conjunto da humanidade se sente vulnerável e precisou ter uma pandemia para a gente alertar que morre gente sem terapia intensiva, por exemplo. Isso não é novidade, as pessoas mais pobres, sem acesso a serviços privados de saúde, morrem por falta de assistência adequada e não é de hoje.

Precisou ter uma pandemia para a gente entender que as pessoas não podem ficar aglomeradas em albergues sem ventilação, sem condições dignas, falando especificamente das pessoas em situação de rua, e que é preciso ter uma saída, uma solução. Assim como as pessoas que vivem aglomeradas nas favelas, sem infraestrutura urbana e um contingente enorme de pessoas que não tem acesso à água e ao saneamento básico. Esses absurdos cotidianos agora estão expostos, explícitos, para o conjunto da sociedade e nos permitem um momento de reflexão e repactuação.

Que essa nova pactuação seja em defesa da vida e que seja em defesa de uma estrutura de Estado e organização da sociedade em que todas as pessoas tenham acesso à saúde, à educação, à moradia, e que isso não seja privilégio de alguns segmentos minoritários. Que esses direitos sociais estejam disponíveis para o conjunto da população. Não só no Brasil, mas em patamar internacional.

Que nenhum ser humano do mundo seja privado do direito à saúde. Então, essa é a reflexão que está imposta, que está na ordem do dia, e espero que a gente tenha competência para fazê-la. Que esse momento gere uma reflexão sobre como nós gostaríamos de viver como sociedade, como a gente gostaria de viver nos próximos momentos, que estão a seguir




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