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Juventude | Entre a disposição de luta e a conciliação eleitoral, por que o 9J não foi um tsunami da educação?

Ontem, 9 de junho, aconteceram atos contra os cortes na educação em diversas cidades do país, expressando uma vanguarda jovem disposta a ir para às ruas lutar pelos seus direitos, com destaque para estudantes dos Institutos Federais e os secundaristas.

Odete AssisMestranda em Literatura Brasileira na UFMG

sexta-feira 10 de junho | Edição do dia

Foto: APUBH

Mas diante da gravidade dos ataques, porque os atos nem chegaram perto dos milhares que saíram às ruas contra os cortes na educação em 2019 ou as marchas do ano passado pelo Fora Bolsonaro? É preciso debater como organizarmos nossa luta para barrar os cortes, arrancar justiça por Genivaldo e todas as vítimas das chacinas policiais, construindo a força necessária para derrotar o bolsonarismo com a nossa luta.

Milhares saíram às ruas contra os cortes na educação nesta quinta-feira, como viemos debatendo no Esquerda Diário e em diversas universidades do país com a Faísca Revolucionária, é urgente nos organizarmos para derrotar com a força da nossa luta cada ataque que Bolsonaro, os militares e o centrão tenta nos empurrar goela abaixo. Eles promovem cortes bilionários na educação e saúde, destroem o meio ambiente e desaparecem com ativistas como Bruno Araújo e Dom Phillips, a polícia promove chacinas, faz uma câmara de gás a luz do dia para assinar negros, e tentam avançar para tornar crime mesmo os casos em que a lei garante o direito ao aborto, por tudo isso nós precisamos nos organizar.

Foi muito importante que tenha se mostrado ontem uma vanguarda jovem com disposição de ir às ruas se manifestar. Mas os atos não conseguiram ter a dimensão necessária para mostrar uma força social organizada nas ruas a altura de derrotar os ataques e isso também se deve a política das direções do movimento estudantil e sindical em nosso país. Os milhares que saíram às ruas ontem também possuem muita expectativa eleitoral em Lula, é fato, mas estavam dispostos a se mobilizar e não somente seguir a paralisia eleitoral que as burocracias sindicais e estudantis estão mantendo há meses. Essa própria expectativa de que as eleições vão resolver grande parte dos problemas se deve não somente a forte conjuntura eleitoral instalada no país, mas em especial a política das direções da UNE, em particular de organizações como a UJS, as juventudes do PT, o Levante Popular da Juventude e o Afronte, que desde a preparação desse dia, em diversas assembleias que aconteciam buscavam canalizar qualquer disposição de mobilização para a construção da campanha Lula-Alckmin, tentando calar qualquer voz crítica que se colocasse contra essa política de conciliação com nossos inimigos.

Canalizar as forças da mobilização em expectativas eleitorais e institucionais foi o que a UJS fez em 2019 com o Tsunami da Educação, ao negociar com Rodrigo Maia aceitando a chantagem de Guedes e separando a luta contra os cortes da luta contra a reforma da previdência, permitindo com que esse grande ataque pudesse ser aprovado um dia antes de começar o congresso da UNE. Da mesma forma foi ano passado, quando praticamente todas as organizações apostavam todas as fichas no pedido de impeachment que não só confiava no congresso, mas colocava reacionários como o MBL e Kim Kataguiri como possíveis aliados contra Bolsonaro. O resultado foi a desmoralização e desarticulação da luta. A aliança com a direita e a estratégia de confiar nas instituições desse regime ao invés de ampliar a força para derrotar Bolsonaro e Mourão, levou a que os atos diminuíssem cada vez mais. Agora tentam novamente repetir essa fórmula da conciliação com Lula-Alckmin, mas se hoje a extrema direita e os militares tem tanta força foi justamente porque Lula e o PT abriram o caminho para que os setores mais reacionários da nossa sociedade pudessem se fortalecer, muito longe de qualquer enfrentamento com o agronegócio, as forças repressivas e conservadoras da sociedade, a política de conciliação só os fortaleceu.

Por isso, foi tão importante que nas assembleias da UFMG, UFRN, UFRGS, UFPE, do IFCH-Unicamp e no Serviço Social da UnB tenha se aprovado um chamado a que a UNE buscasse organizar esse dia desde a base, construindo uma paralisação nacional nas universidades para que pudesse ser muito mais forte a força que se expressaria nas ruas. A paralisação aprovada pelos três setores da UFMG foi fundamental para que essa universidade pudesse estar na vanguarda das federais, com um forte bloco de estudantes, professores e técnicos administrativos, que também estão em greve pelo piso salarial. No entanto, essa paralisação ainda não conseguiu articular uma organização ativa des estudantes em aliança com professores e trabalhadores que fosse além de ir para o ato.

Ainda temos como desafio conseguir fazer com que es estudantes sejam sujeitos de suas demandas, organizando debates e discussões políticas em suas universidades, buscando políticas de unidade com os trabalhadores, preparando um plano de lutas no qual seu papel não é somente ir a um ato ouvir as falas de representantes políticos e de organizações, que são importantes e devem acontecer, mas não são suficientes para construir uma luta que de fato tenha a força necessária para derrotar o bolsonarismo. Uma luta que não se resume a votar em outubro, pois em cada movimento os bolsonaristas deixam claro que não vão deixar de ser um ator político mesmo que percam as eleições, e não vai ser de braços dados com figuras que sempre atacaram nossos direitos, como Alckmin, Marina Silva e os empresários que vamos conseguir barrar novos ataques e muito menos reverter o teto de gastos, os cortes e fazer justiça pelas vítimas da polícia, como Genivaldo.

Essa é uma conclusão fundamental que precisa ser tirada do dia de ontem. A de que as entidades estudantis precisam ser retomadas como ferramentas de auto-organização, que o movimento estudantil precisa resgatar sua capacidade de organizar desde a base de forma independente dos governos e das reitorias, revalorizando os espaços de debates políticos das diferentes posições que se expressam, construindo desde essas discussões pela base a unidade necessária para enfrentar os ataques. Não uma unidade cega e acrítica a conciliação eleitoral como querem as direções majoritárias da UJS e PT, na qual o PSOL, em particular o Afronte, está totalmente diluído e adaptado. Mas forjando uma unidade na luta, construindo um comando nacional para que essa vanguarda que tomou às ruas ontem possa votar seus representantes para debater como podemos seguir e ampliar as mobilizações, com um plano de lutas real, envolvendo assembleias, plenárias, reuniões e organização em cada universidade, Instituto Federal e escola do nosso país. Buscando uma aliança com os trabalhadores e seus sindicatos, com os movimentos sociais. Unificando as pautas, pois se trata de uma mesma luta contra o bolsonarismo, mas também contra os atores desse regime do golpe institucional de 2016, como o congresso e o STF que estão junto com Bolsonaro para atacar nossas lutas, como foi com a suspensão da conquista da greve da educação em Minas Gerais.

Contra os cortes e todos os ataques é urgente a defesa de mais verba para a educação a partir da revogação do teto de gastos e o não pagamento da dívida pública, assim como a revogação de todas as reformas que precarizam a vida da juventude e dos trabalhadores, como a da previdência e trabalhista. Contra a demagogia de Kim Kataguiri, MBL e toda direita de um suposto "combate à desigualdade" com a reacionária PEC 206, defendemos um verdadeiro combate à desigualdade no ensino superior público: pela radicalização do acesso às universidades públicas através da defesa intransigente das cotas rumo o fim do vestibular, e estatização das universidades particulares sob controle des trabalhadores, para que todes possam ter o direito de estudar e sem pagar! Essa luta só pode ser levada adiante através da luta unificada entre estudantes e trabalhadores.

Aos setores que se colocam como oposição da política de conciliação e falam sobre a necessidade de entidades de lutas, nós fazemos um chamado a que defendam conosco essa batalha por um comando nacional que articule um plano de lutas desde a base. Fazemos esse chamado mesmo com nossas diferenças políticas, como se expressou nas eleições do DCE da USP, onde nenhum outro setor da oposição se somou a nossa proposta de adiantar as eleições para que todas as chapas em disputas pudessem estar construindo o 9 de junho com muita força também nesta universidade. Inclusive na USP, a chapa para as eleições de DCE composta por Juntos, Correnteza e MUP contraditoriamente falava sobre ser contra a conciliação, mas reivindicava que seus integrantes fazem campanha para as chapas de Lula-Alckmin, Sofia Manzano e Leonardo Péricles.

Outro exemplo é como PT e a UP são parte da coligação que elegeu Edmilson Rodrigues do PSOL para prefeitura de Belém com apoio também do PCB, mas não se pronunciaram sobre o absurdo que foi o prefeito ter utilizado métodos burgueses como o corte de ponto dos trabalhadores para encerrar uma greve na educação. Além disso, essas organizações foram contra unificar a luta contra os cortes por justiça a Genivaldo e as vítimas das enchentes em PE e AL, e se recusaram a se solidarizar com os trabalhadores em assembleia como na UFRN. Mesmo com as diferenças políticas importantes que temos, nós reforçamos nosso chamado para batalharmos em comum pela auto-organização des estudantes e defender o comando nacional, um chamado que fazemos a todos os setores da oposição de esquerda da UNE, em particular aos companheiros que constroem conosco o Polo socialista revolucionário, como as juventudes Rebeldia-PSTU e Vamos à Luta-CST.

Tirar as conclusões desse dia de luta e seguir na batalha para que nossas entidades sejam ferramentas da nossa organização independente é algo que nós da juventude Faísca Revolucionária seguiremos fazendo em cada universidade e local de trabalho que estamos. Discutindo com todes sobre a necessidade de combatermos o bolsonarismo e seus ataques com a nossa luta, sem conciliar com a direita que também nos ataca, pois essa é a única forma de derrotarmos os cortes, revertermos as reformas, as privatizações e arrancarmos justiça para Genivaldo e todas as vítimas da violência policial.

Estamos lado a lado com todes que querem derrotar o bolsonarismo e justamente por isso queremos ampliar os espaços de debates e discussões, para que possamos ser sujeitos da nossa luta e para que nossas entidades rompam com a política burocrática de passividade eleitoral e sejam de fato ferramentas para impulsionar nossa auto-organização. Batalhamos por uma universidade radicalmente diferente, onde todes possam ter acesso amplo e irrestrito, e que inclusive superar estrutura de poder antidemocrática e autoritária das Reitorias e Conselhos, impondo uma estatuinte livre e soberana que defina os rumos de uma universidade, onde todo seu potencial de pesquisa, ensino e extensão estejam à serviço das reais necessidades da classe trabalhadora e sociedade, e não dos lucros capitalistas.

Todas essas batalhas estão totalmente vinculadas com nossa luta por uma revolução social que abra caminho para a construção de uma outra sociedade onde nossa vida não se resuma a estudar e trabalhar, ou então sequer a ter o direito de estudar, porque o capitalismo suga todas as nossas energias com os trabalhos precários e retira nosso direito a educação. Nossa luta é por construir uma sociedade socialista desde a base, onde todas as nossas potencialidades possam estar a serviço do desenvolvimento pleno das nossas necessidades sociais e subjetivas, numa relação harmônica entre os setores humanos e a natureza. Uma sociedade livre de classes e do Estado, o comunismo.




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