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ENEM | Entenda porque as notas de corte do SISU estão altas, excluindo milhares das universidades

Ocorre hoje (9) o último dia de inscrição no SISU (Sistema de Seleção Unificada) que está sendo marcado por um grande aumento nas notas de cortes e pelo sentimento de indecisão e insegurança dos participantes. No ano em que a pandemia agravou a situação dos estudantes na preparação para o ENEM, a metodologia do SISU, responsável pelo grande aumento das notas de corte em 2021, acentua as dificuldades na decisão a ser tomada e escancara como esse processo é um filtro social para a entrada nas universidades.

Elisa CamposCoordenadora do CAFCA-UFMG

sexta-feira 9 de abril | Edição do dia

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

O vestibular sempre foi um filtro social que impediu milhões, sobretudo da população pobre e negra, a acessarem o ensino superior. O direito à educação, assim como todos os direitos democráticos no capitalismo que a constituição não consegue garantir, é negado à classe trabalhadora e seus filhos. O vestibular privilegia uma minoria branca e rica, que possui condições materiais durante toda a vida, a entrar nas universidades públicas, enquanto os mais pobres, que não conseguem furar esse filtro social, ou desistem de cursar um ensino superior ou acabam se endividando em faculdades particulares.

As cotas foram uma importante conquista da luta do movimento negro, e devem ser ampliadas para serem proporcionais à população negra e indígena de cada estado, e defendidas de qualquer ataque da direita que as questionam. A situação estrutural da exclusão racial, entretanto, permanece e é vivida por todos os que precisam se submeter ao trabalho precário da entrega por app’s ou do telemarketing por não terem o direito do acesso ao ensino superior público.

Leia mais sobre:Vestibular: o filtro social e racial que impede os filhos da classe trabalhadora de estudar

Nesse último ano, a pandemia acentuou ainda mais o caráter elitista do vestibular. Com a impossibilidade da realização de aulas presenciais, a imposição do ensino remoto excluiu milhões de estudantes. A falta de acesso à internet os impediu de frequentarem as aulas e terem um mínimo de preparação. Além disso, as contradições provocadas pelo sistema capitalista, que é responsável pela miséria vivida pela maior parte da população, foram aprofundadas pela pandemia com o protagonismo do governo negacionista de Bolsonaro e Mourão. Estes aproveitaram a crise sanitária para ampliar seus ataques à classe trabalhadora e gerar uma tragédia que já era anunciada. O medo da pandemia, a falta de um auxílio suficiente para garantir o isolamento e a segurança alimentar e, ainda, as mortes pela Covid-19, que teve como principal alvo os mais pobres, são partes dessa tragédia que agravaram a precarização do ensino nesse último ano. Assim, a enorme desigualdade entre o ensino público e o particular já existente, agora se tornou um abismo.

Com todas essas adversidades, o ENEM 2020, realizado em janeiro de 2021, ocorreu contando com o maior número de abstenções em sua história, com ausência de mais de 50% dos inscritos, e agora ocorre o SISU. O Sistema de Seleção Unificada foi criado em 2010 pelo Ministério da Educação para que os estudantes que realizem o ENEM se inscrevam com suas notas em instituições públicas de ensino superior. O sistema permite que os alunos, durante um período, a cada dia, testem suas notas em dois cursos nas centenas de instituições públicas brasileiras, sendo disponibilizado no dia seguinte uma simulação de qual seria a nota de corte dos cursos escolhidos e a sua classificação. Assim, no último dia de inscrição, o estudante pode ter uma ideia de qual instituição terá maior chance de ser aprovado.

Desde sua criação, o SISU já provocava dificuldades e gerava barreiras para grande parte dos estudantes, que não entendiam o funcionamento devido a falta de instrução e certa complexidade do sistema. No entanto, desde o SISU 2020, o ex-ministro da educação Abraham Weintraub modificou a metodologia implantada para a simulação do ranking classificatório, o que dificultou ainda mais a utilização do sistema. Antes, o candidato possuía duas opções de curso, sendo a primeira prioritária, e caso fosse aprovado nela, a segunda opção era desconsiderada no ranking. Assim, a nota de corte calculada na simulação era semelhante ao corte real do final do SISU. A partir do ano passado, passou a ser considerada no ranking classificatório as duas opções, o que faz com que ocorra uma “classificação fantasma’’, o que aumentou as notas de corte da maioria dos cursos. Ou seja, estudantes que possuem notas suficientes para as duas opções são considerados duas vezes, sendo que no final do processo ele pode escolher somente uma opção. Além de não mostrar uma relação real das notas, esse mecanismo imposto pelo governo Bolsonaro torna o processo ainda mais excludente, gerando incerteza e desespero nos estudantes.

Esse processo confuso, que mais parece uma aposta na loteria, é responsável por acabar com os sonhos de milhares de jovens. Mesmo aqueles que conseguem driblar todas as adversidades impostas pelo sistema capitalista (ataques às condições de vida pelo governo Bolsonaro fruto do golpismo, pandemia, e tantos outros fatores) e conseguem ter um bom desempenho no ENEM, devido ao vestibular, e no caso, ao SISU, são impedidos de entrar no ensino superior e fazer o curso sonhado.

Isso escancara ainda mais o caráter excludente do vestibular, que não se vale do mérito ou da vontade de ninguém, e sim se estrutura a partir da desigualdade de condições e oportunidades. Por isso, o fim do vestibular com o ingresso direto no ensino superior, assim como é no ensino básico, é o que pode realmente garantir o acesso democrático às universidades públicas por todos que queiram estudar. Longe de ser algo utópico, visto que existem países como a Argentina onde não existe vestibular, é a única maneira de permitir que as universidades públicas sejam tomadas nas mãos de toda a população pobre, trabalhadora, negra e indígena. Para haver vagas a todos, as universidades privadas devem ser estatizadas e controladas pelos estudantes e profissionais da educação. Devemos defender as cotas raciais, mas devemos também ir além, para que não somente alguns consigam furar esse filtro social, mas para que seja assegurado o direito real à educação para os filhos da classe trabalhadora e que, assim, as universidades estejam a serviço da maioria da população.

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