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Editorial | Enfrentar ameaças golpistas no 7/9 ocupando as ruas com as organizações dos trabalhadores e a esquerda

Nenhum passo atrás frente às ameaças, todos às ruas exigindo que as centrais sindicais deixem a paralisia e construam um plano de luta imediato!

Diana AssunçãoSão Paulo | @dianaassuncaoED

segunda-feira 6 de setembro | Edição do dia

O Brasil está nos holofotes da política internacional não somente pela interrupção das eliminatórias da Copa do Mundo no jogo Brasil X Argentina, mas porque no próximo 7 de setembro o bolsonarismo e sua retórica golpista vão querer fazer uma demonstração de força nas ruas enquanto o PT e as centrais sindicais, seguidos por grande parte da esquerda, permanecem sem apresentar um plano de luta efetivo para enfrentar essa situação.

Como viemos analisando, desde o refluxo dos atos massivos de rua contra Bolsonaro, este retomou sua ofensiva com a política do voto impresso e a marcha militar em Brasília, sentindo-se fortalecido para jorrar sua retórica golpista. Isso, no entanto, não significa que essa seja uma expressão de fortaleza, mas sim uma mostra também das debilidades do seu governo diante da importante crise política, econômica e social que o país atravessa e a proximidade das eleições de 2022, que por ora indicam um embate entre Lula e Bolsonaro como atores fundamentais, no qual o segundo sairia derrotado.

É diante desse cenário que Bolsonaro articula seus discursos golpistas com ajuda dos militares para manter sua base dura ativa. Mobilizando policiais, uma parcela de caminhoneiros (onde parece mobilizar essencialmente setores patronais), setores evangélicos reacionários e toda sua base dura para as manifestações do dia 7 de setembro. Seu objetivo é fortalecer uma base ativa de extrema-direita, como parte de tentar se defender de maiores ofensivas de outros setores do regime e de criar melhores condições pra se posicionar eleitoralmente. Conseguiram unificar a base bolsonarista e decidiram concentrar em algumas capitais, como São Paulo e Brasília, para fazer uma demonstração de forças mais contundente. Como um "esquenta" para esse dia já começaram algumas manifestações chamadas "motociatas". As previsões de ônibus para São Paulo e Brasília são altas e há uma lotação de hotéis no Distrito Federal, o que mostra que há um forte empenho para que o dia 7 seja marcado pela extrema-direita, e tudo isso com muito dinheiro de setores empresariais e do agronegócio.

Parte das contradições que tem Bolsonaro para conseguir levar adiante sua sanha golpista são as divisões dentro da própria burguesia sobre isso. É o que vimos no caso da Fiesp e da Febraban recentemente e de outros setores empresariais. A crise econômica aceleradamente em curso atinge também a base bolsonarista. Dentre os setores populares, é difícil a adesão massiva aos atos devido à alta dos combustíveis, a inflação dos alimentos, a conta de luz em valores exorbitantes, o desemprego, a precarização do trabalho, a fome - são todos elementos que aumentam o descontentamento social. Por tudo isso que a política do PT e das grandes centrais sindicais, como a CUT e a CTB, é ainda mais criminosa diante de tamanhas ameaças às liberdades democráticas que o bolsonarismo está levando adiante.

Mesmo frente à radicalidade bolsonarista, o próprio PT, mas também o PSOL e PCdoB, reiteradas vezes alentam a ideia de uma "oposição" ao bolsonarismo no interior do próprio regime. Esses "salvadores" seriam o STF, o Congresso Nacional, a CPI da Covid, a maioria dos governadores. Porém o que estamos vendo é que estes setores estão nesse momentos unificados com o próprio governo em pontos fundamentais, protagonizando uma das maiores ondas de ataques aos trabalhadores e ao povo pobre dos últimos tempos. As reformas e retiradas de direitos são todas avalizadas por estes setores. Enquanto isso, Lula esteve em caravana eleitoral, encontrando-se com figuras do Centrão, entre outros setores reacionários, ao mesmo tempo que Bolsonaro fortalecia a construção de suas manifestações. A CUT e a CTB passaram a semana inteira praticamente de férias sem construir assembleias nos locais de trabalho.

Nos chamados para as manifestações do dia 7 partem de convocar as instituições do próprio regime político para "tomar a dianteira do país", e as convocatórias dessas direções para os ato pelo Fora Bolsonaro são fracas e dispersas e contam com a desmobilização de figuras como Marcelo Freixo que, assumindo a política do medo de Bolsonaro, clama pra que o país não entre em uma "guerra" e que ninguém saia às ruas. Vale ressaltar que a última semana foi marcada por lutas de resistência que mostram disposição de luta de setores de trabalhadores contra a carestia de vida e os ataques, mas que não contaram com o apoio efetivo nem mesmo da esquerda, que poderia transformar em pequenos exemplos de como unificar e generalizar a resistência em uma luta unificada contra Bolsonaro, Mourão e todos os ataques.

Diante disso, é preciso debater qual a política que deve ter a esquerda que se reivindica revolucionária e as tarefas da vanguarda dos trabalhadores para enfrentar as ameaças golpistas do bolsonarismo. Seria necessário estar com todo eixo na luta não somente por ocupar as ruas neste 7 de setembro, mas cobrindo de solidariedade cada luta que surge e batalhar por um plano de luta efetivo contra os ataques e batalhando por sua unificação na luta contra Bolsonaro e os golpistas. Mas infelizmente é preciso reafirmar mais uma vez que a maioria das correntes do PSOL se mantém subordinada à política petista de desgaste eleitoral de Bolsonaro sem nenhum tipo de organização na base. O ponto mais alto dessa adaptação é a corrente Resistência e seu bloco político junto à maioria do partido, que tem como orientação central aconselhar Lula a não se aliar com a direita, quando este é o eixo central de sua política em 2022 e por isso esbanja fotos com as figuras mais grotescas da velha política oligárquica nacional.

Enquanto a esquerda seguir com esta orientação terminará sendo apenas um apêndice da política de Lula, ainda que busque cobrir pela esquerda com "sua leitura" da teoria marxista, distorcendo-a, mesmo que usando verborragia de esquerda. O PSTU, como viemos apontando, mantém como orientação central sua unidade com as centrais sindicais sem nenhum tipo de diferenciação a ponto de assinarem através da central sindical que dirigem, a CSP-Conlutas, a carta que clamava para que o STF, o Congresso Nacional e os governadores assumissem as rédeas do país. A UP fala de greve geral como pura propaganda quando não vemos essa organização dar peso em nenhuma dessas lutas de vanguarda de trabalhadores que estão ocorrendo como a MRV, Carris, Rede TV, Sae Towers e a dos próprios indígenas .

Neste sentido, consideramos que é fundamental batalhar por uma política de independência de classe. Isso significa em primeiro lugar superar a bandeira que viemos alertando que seria transformada num desvio e que hoje foi assumida por setores da direita, como o MBL, que levanta Fora Bolsonaro e impeachment e que inclusive vão se manifestar no 12 de setembro. Mas também o próprio PSDB que mais uma vez em São Paulo declarou sua participação nos atos, o que é clamado por setores da esquerda. Seguimos defendendo fortemente que nossa luta tem que ser por Fora Bolsonaro, Mourão e os militares. Para isso é preciso que a esquerda através do seu peso nos sindicatos e no parlamento articulem um polo anti-burocrático que coloque no centro a exigência às centrais sindicais para organizar um plano de luta efetivo que possa coordenar os focos de resistência em curso e possibilitar que entre em ação a única força capaz de derrotar Bolsonaro e toda sua retórica e ameaça golpista. Quem de fato tem essa força social são os trabalhadores aliados com a juventude e os movimentos sociais, que precisam urgentemente entrar em cena.

A manifestação e o acampamento indígena em Brasília, combinada com cortes de rodovias por todo o país, foi um grande exemplo de resistência. Imaginemos um acampamento com milhares de indígenas em Brasília no mesmo dia de uma forte paralisação nacional com o programa de revogação das reformas, privatizações e ataques? Unir os sindicatos e os indígenas poderia mostrar uma força explosiva. Mas porque as centrais sindicais não levam essa política adiante? Porque estão subordinadas à política eleitoral do PT que não quer que a luta de classes ecloda no país, e sim quer o desgaste eleitoral de Bolsonaro para que, junto com setores da direita neoliberal, possa voltar ao governo e administrar a obra econômica do golpe institucional. Quando a população passa fome em filas do osso e depois das quase 600 mil mortes por Covid, esse plano é uma pura traição aos trabalhadores.

É por isso que a vanguarda dos trabalhadores não pode ficar por detrás de nenhuma variante burguesa e deve buscar uma articulação defensiva de uma frente única entre todas as organizações e instituições de massas da classe trabalhadora, unindo suas fileiras para defender com um só punho seus direitos contra os capitalistas, impondo medidas emergenciais para responder ao problema da fome, do desemprego e da crise sanitária, como por exemplo um auxílio emergencial no valor de pelo menos um salário minimo, mas no marco da luta para resolver estes problemas estruturalmente; nessa articulação, defendemos um programa contra os ataques se opondo não somente ao governo Bolsonaro, mas a todas as instituições que sustentam esses ataques.

Neste caminho, em nossa visão, os trabalhadores em luta podem ser ponta de lança pra mostrar que a resistência dos que estão sendo atacados é fundamental pra fazer os capitalistas pagarem pela crise. O aumento da carestia de vida em meio a uma crise econômica que aponta menor recuperação pode abrir espaço pra mais lutas reivindicativas que deveriam encontrar na esquerda um contraponto à política das centrais sindicais que só sabem dividir, fragmentar e isolar as lutas. A atuação do MRT e do Esquerda Diário em greves como da MRV em Campinas, Carris em Porto Alegre, Sae Tower em Betim e Rede TV em São Paulo são, em pequeno, uma mostra da diferença que a esquerda poderia fazer em processos desse tipo, generalizando e contribuindo para que unificados passem a mirar sua força contra o governo de conjunto.

Neste caminho nós consideramos que os trabalhadores precisam defender uma alternativa política para a crise no país que não pode ser a defesa do impeachment que colocaria o general Mourão no poder, já aventado por alguns analistas como possível "terceira via" e nem mesmo se subordinar a política de distintos setores do regime como por exemplo João Doria em São Paulo que quis proibir as manifestações contra Bolsonaro, mostrando sua verdadeira faceta "BolsoDoria".

Os trabalhadores precisam lutar para que sejam os capitalistas que paguem a crise, defendendo pela força da luta das massas uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que revogue todas as reformas e debata os grandes problemas do país como a reforma agrária radical que garanta também o direito à autodeterminação na demarcação das terras indígenas, e o urgente não pagamento da dívida pública pra enfrentar a ingerência imperialista no país. Medidas como essa, para avançarem, vão exigir uma forte auto-organização das massas para enfrentar a resistência do Estado capitalista em defesa dos seus privilégios e neste caminho os trabalhadores precisarão colocar de pé seus próprios organismos de luta, o que possibilitará que o enfrentamento ao governo e aos capitalistas abra espaço a uma luta revolucionária por um governo de trabalhadores de ruptura com o capitalismo.

Para defender essa política convidamos você a se somar ao MRT e o Esquerda Diário nas manifestações do 7 de setembro em todo o país, atuar junto com a juventude Faísca Anticapitalista e Revolucionária na aliança operária e estudantil em apoio às greves em curso e a construir o Esquerda Diário.




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