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Em carta cínica e mentirosa, Reitor da USP esconde situação do HU, CRUSP e terceirizadas

Publicamos aqui uma resposta ao "Quinto comunicado à comunidade uspiana", uma carta cínica e mentirosa do Reitor da USP, Vahan Agropyan, escondendo a situação que deixa quem trabalha no Hospital Universitário, os moradores do CRUSP e trabalhadores terceirizados da USP.

quarta-feira 8 de abril| Edição do dia

Na última segunda-feira os estudantes e toda a comunidade universitária receberam o "quinto comunicado" do Reitor da USP, Vahan Agropyan. A carta do Reitor é revoltante, cínica de seu início ao fim, se gabando da "USP funcionamento normal". O que o Reitor esquece de dizer é que isso hoje significa terceirizados ainda sendo obrigados a trabalhar, estudantes do CRUSP em condições ultra precárias, e trabalhadores da saúde num dia a dia de enfrentamento ao coronavírus sem nem a garantia dos EPIs básicos para proteção dos trabalhadores.

Para além de cínico, é mentiroso. Esconde a verdadeira situação, não só do Hospital Universitário (HU), mas do Conjunto Residencial da USP (CRUSP), de diversos funcionários e funcionárias, e do uso do Ensino a Distância.

Vamos então, destrinchar, ponto a ponto, as falácias e o cinismo do reitor Vahan Agopyan:

O Hospital Universitário frente a COVID-19: Faltam segurança para trabalhar e condições para atender

Dentre um dos elementos que Vahan, reitor da USP, descreve como que funcionando às mil maravilhas, está o Hospital Universitário. O mesmo que há anos vem sendo sucateado por essa mesma reitoria, com cortes no quadro de funcionários, falta de leitos e a diminuição do tempo de atendimento no pronto socorro. Segundo Vahan, o HU é um dos lugares nos quais as universidades agora “mais do que nunca (...) estão demonstrando sua importância para a sociedade”. De fato, toda a situação do Hospital na pandemia está demonstrando a importância que esta instituição tem, mas não pela excelência nas condições para atender à população, como tenta pintar Vahan nesta carta, e sim pelo contrário, pelo quão prejudiciais são para a população os saldos da brutal precarização do HU proporcionada pela reitoria e pelo Governo do Estado nos últimos anos.

“A USP é um exemplo de instrumento de enfrentamento à pandemia por suas pesquisas nos diferentes laboratórios, pelo desenvolvimento de novas técnicas e equipamentos e pela atuação direta e ininterrupta nos hospitais e postos, cuidando da saúde da população”, diz a carta do reitor.

Mas qual o cenário real dentro do Hospital Universitário, que de fato está numa atuação ininterrupta? Barbara Dellatorre, trabalhadora do HU, e parte do Movimento Nossa Classe, responde:

"A reitoria está conscientemente arriscando a vida dos trabalhadores do HU ao não liberar os que estão no grupo de risco, pois se forem infectados terão mais dificuldade de se recuperar podendo perder suas vidas. Vahan esteve junto com Zago [ex-reitor] aplicando o plano de demissão voluntária que resultou no fechamento do PS infantil e adulto e de diversos atendimentos que eram feitos à população. Tudo isso por falta de funcionários. Essa é a condição que o HU chega na pandemia. E a reitoria continua dizendo que não irá contratar funcionários para atender a demanda por internações que a epidemia vai impor a todos os hospitais. Os 2200 leitos de hospitais de campanha e o HC não serão suficientes para atender toda a demanda, vão encaminhar ao HU. A Universidade e o HU poderiam cumprir um verdadeiro papel de contribuir para sociedade enfrentar esta epidemia, mas não acontecerá ou só de forma muito limitada por causa da política da reitoria e de Doria de privatizar e retirar verba da saúde. Pelo combate a epidemia também é irracional não testar os funcionários que estão adoecendo, pois sem saber que estão infectados podem contaminar pacientes, outros trabalhadores e seus familiares. Por isso no HU estamos exigindo que todos os funcionários que queiram sejam testados, que a superintendência garanta EPIs para todos e que faça contratação emergencial para liberar os trabalhadores do grupo de risco e podermos atender a população evitando as mortes."

A situação no Hospital está bastante distante da que o Reitor tenta montar em sua carta. Em meio a pandemia do COVID-19, cresce mais ainda a importância do HU para as comunidades ao redor da universidade, como a São Remo, que divide muros com a USP, que neste último domingo, 05, fez uma ação de conscientização da necessidade de cuidados com o vírus, distribuindo materiais de higienização nas casas. Membros das gestões do Centro Acadêmico da Letras (CAELL) e da Faculdade de Educação (CAPPF), participaram da ação, junto a moradores e trabalhadores da São Remo.

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A situação descrita por Bárbara só mostra também a importância da testagem massiva, que há semanas martelamos aqui no Esquerda Diário. Enquanto Vahan coloca a USP como um polo de contribuições à sociedade, o hospital que atende a maior parte dos trabalhadores e trabalhadoras que vivem na região, está mandando pessoas que provavelmente estão contaminadas para casa sem testes, por falta de condições, enquanto mantém médicos, enfermeiros e enfermeiras em risco pela falta de EPIs.

O CRUSP, as e os trabalhadores terceirizados: ausentes na carta e nas políticas da reitoria

Enquanto o reitor escreve despudoradamente que as atividades letivas e culturais estão tendo continuidade “sem nunca descuidar da segurança de seus servidores e estudantes”, ou que no momento em que vários grupos direcionam suas pesquisas para temas relacionados a Covid-19 “isso está sendo feito simultaneamente ao aumento das atividades assistenciais nos hospitais, centros de saúde e nos internatos estudantis e residências”, os alunos do CRUSP recebem marmitas com frutas podres e com pedaços de plástico, ficaram há pouco tempo dias sem água, têm ineficiente assistência à alimentação e ausência de um agente de saúde no local para a disponibilização de testes ao Coronavírus.

Situações como estas e também ainda a falta de fogões, utensílios para o preparo de alimentos e bolsa auxílio para a compra destes, se somam ao recente corte do passe-livre estudantil dos moradores e ao “Parâmetro de Sustentabilidade”, aprovado pelo Conselho Universitário da USP em 2017, que congela as verbas para contratação da universidade por 5 anos. Tudo isto contrasta com o mar de solidariedade e união pintados por Vahan em seu e-mail, que faz sombra nos problemas cotidianos, reais e concretos dos moradores do CRUSP, os quais são estudantes de baixa renda, em sua maioria negros, parcela precarizada e esquecida daqueles que conseguiram romper o filtro social do vestibular e que a reitoria faz tanta questão de esquecer.

Isso sem contar a situação que já virou denúncia em alguns jornais, que vivem as mães do CRUSP. Existem 12 famílias com mães solo, no Bloco das Mães, vivendo em situação de extrema vulnerabilidade. Crianças com asma e pneumonia não receberam nenhuma orientação da assistência estudantil e vivem em apartamentos de 25m². Essa situação, somada à falta de testes suficientes disponíveis, faz com que mães que apresentam os sintomas tenham que viver com seus filhos em apartamentos minúsculos, muitas vezes tendo dificuldade de alimentar suas crianças, já que não são disponibilizadas marmitas suficientes, e sendo obrigadas a fazer atividades online avaliativas, prática permitida e incentivada pela reitoria.

Na semana passada, O CAPPF lançou um vídeo, sobre a situação dos moradores do CRUSP, para denunciar a situação. Veja o vídeo aqui. Além disso, CAELL e CAPPF divulgaram um pedido emergencial de dinheiro feito pela Comissão de Mães do CRUSP. Veja aqui também, relatos de moradores do CRUSP publicados por ambos os Centros Acadêmicos em suas páginas.

No comunicado da reitoria também não falam nada sobre sobre a situação na qual a USP deixa as trabalhadoras e trabalhadores terceirizados largados à própria sorte, em diversas unidades do campus. Os terceirizados, que são em sua maioria mulheres e negras, moram muitas vezes em lugares com condições precárias, e seguem obrigados a trabalhar em horário integral, a não ser os trabalhadores que são grupo de risco, estes foram colocados em férias forçadas, que obviamente será descontado no futuro.

Em depoimento anônimo, uma trabalhadora terceirizada do CRUSP, conta que as chefias dizem as funcionárias para comprarem os próprios materiais de segurança. “Ela falou pra nós comprarmos as máscaras porque a empresa não tem pra fornecer pra nós, se eles estão exigindo eles têm que dar máscara, a luva, a gente tem luva... passa duas semanas, três, com uma luva só, vai pedir outra luva, a encarregada fica enchendo o saco. Então eu acho que eles têm que fornecer luva o suficiente e máscara pra gente, e até um álcool em gel que era o necessário também”, diz ela.

As terceirizadas são obrigadas a trabalhar sem receber da reitoria nenhum EPI ou medida que evite a contaminação. Todos estes fatos revelam o quão absurdo é o descaso das empresas que as contratam, que estão preocupadas somente com seus lucros, em detrimento da vida destas trabalhadoras, descaso este que a reitoria é cúmplice, não somente ao terceirizar cada vez mais espaços da USP, como também ao deixá-los nessas condições em meio à essa crise, e ignorar estes trabalhadores em seus comunicados, ignorando sua realidade cotidiana e suas condições de trabalho.

Ensino a Distância: a reitoria atua para precarizar nosso ensino mesmo em tempos de coronavírus

Para os estudantes que estão nestas últimas semanas se opondo fervorosamente contra a cobrança de atividades, avaliações e presenças via método EaD, a carta da reitoria definitivamente é revoltante também. Seja pelo que significa a abertura de espaço para esse método que precariza as condições de educação da universidade, seja pela situação onde moradores do crusp e diversos estudantes que estão em quarentena em suas casas não tenham acesso a internet para que possa se acompanhar qualquer conteúdo que seja.

“Na parte de ensino, tenho a satisfação de constatar que quase 90% das disciplinas de graduação com abordagem teórica ou teórico-prática estão sendo oferecidas, utilizando-se da tecnologia e da criatividade de professores e estudantes. “

A declaração de Vahan deveria ser amplamente repudiada por toda a comunidade universitária. A reitoria abertamente comemora que está mantendo quase 100% das disciplinas com “abordagem teórica ou teórico-prática”, o que constitui parte grande e fundamental das atividades acadêmicas na maioria dos cursos, enquanto centenas, talvez milhares de estudantes não possuem condições e estrutura para acompanhar nenhum tipo de atividade, mesmo que não sejam avaliativas, ou que os professores tomem a decisão de não contar como “matéria dada”, ou aplicar qualquer tipo de avaliação, o que seria um absurdo maior ainda, e um ataque maior ainda a uma enorme camada de estudantes.

“Enquanto a reitoria se gaba e elogia que 90% das disciplinas obrigatórias estão sendo oferecidas neste momento de quarentena, existem milhares de estudantes da universidade que estão perdendo seus semestres porque não tem acesso a wi-fi, e qualquer tipo de internet e a computadores em suas casas”, é o que diz, Giovana Maria, diretora do CAPPF, o centro acadêmico da Faculdade de Educação. “ Essa é inclusive a realidade dos estudantes da moradia estudantil, do CRUSP, por que a reitoria se gaba disso, mas sequer oferece wi-fi para que os moradores do CRUSP possam ter acesso a atividades que acontecem online em diversos cursos. Por isso a gente nos Centros Acadêmicos, da FEUSP, e também no CAELL, Centro Acadêmico de Letras, tem se colocado contra as atividades avaliativas e obrigatórias online, porque representam uma enorme injustiça e discriminação com os estudantes pobres que não tem acesso a internet em suas casas.”

Pedro Pequini, diretor do CAELL, o Centro Acadêmico do curso de Letras, essa posição da reitoria vai também para além desse ponto: “A reitoria faz tanta questão de levantar esses números e colocar como ‘a universidade está funcionando normalmente’ por que quer avançar para implantar o Ensino a Distância para além do período da quarentena e para além do período do isolamento, e precarizar ainda mais a Educação. O objetivo de Vahan é conseguir, em um momento de mais ‘normalização’ conseguir avançar e implantar o EaD, como acontece em outras universidades, e que representa uma enorme precarização do nosso ensino.

Mas… em meio a pandemia, para quem está servindo todo o conhecimento produzido na USP?

Vahan diz que a USP está atuante para “resolver os problemas graves da sociedade”. Mas quando olhamos para o quadro de forma mais ampla, e arrancando o véu deste mundo de contos de fadas que o reitor pinta em sua carta, vemos que não, o conhecimento produzido na universidade ainda está longe de estar a serviço de “resolver os problemas graves da sociedade”.

Como já mostramos acima, no Hospital Universitário faltam dedos para contar as denúncias de falta de EPIs e materiais necessários para cuidar dos pacientes. E se nem dos moradores da Universidade, que passam fome, e recebem comida estragada, conseguem implementar respostas aos problemas, como consegue Vahan dizer que a USP está a serviço de resolver os principais problemas da população?

Não é de hoje que o conhecimento da USP, e das universidades públicas ao redor do país, não está a serviço dos interesses da maioria da população. E isso só se agrava e fica mais claro em meio à pandemia do coronavírus. As universidades são, historicamente um espaço de disputa do mercado, onde grandes empresas se utilizam da estrutura pública das universidades, seus laboratórios, materiais, pesquisadores, professores, etc., para patentear pesquisas em nome de lucros. Por exemplo, no início de 2019 publicamos aqui uma nota sobre os contratos que passavam do R$ 56 mi somente com a Escola Politécnica, para barateamento nos custos de produção para Brumadinho, Mariana, e diversas outras cidades.

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A USP poderia estar cumprindo um enorme papel, voltando seus pesquisadores, técnicos e laboratórios para a produção de insumos necessários para o combate da COVID-19, seguindo o exemplo que a Faculdade de Farmácia tem dado na produção de álcool em gel para o Hospital Universitário. Em diversas universidades existem pequenos exemplos disso. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), está sendo realizada uma ação conjunta entre o Instituto de Química, Escola de Química e Coppe para produzir álcool 70% destinadas às suas unidades hospitalares e a residência estudantil, além da futura produção de álcool gel com a participação da Faculdade de Farmácia. Em outras se pesquisa meios de produzir respiradores de forma mais barata, ou materiais de higienização.

O papel das universidades deveria ser produzir conhecimento e tecnologia em função da necessidade da população. A criminosa indústria farmacêutica, por exemplo, não deveria ter um peso tão grande na orientação de pesquisas de medicamentos. A crise do coronavírus mostra, por exemplo, o grande papel que a pesquisa farmacêutica poderia cumprir em criação de vacinas, antivirais e antibióticos que pudessem combater o vírus e salvar vidas. Se é verdade que esses exemplos são fundamentais e devem ser seguidos por outras universidades, é verdade também que é preciso repensar toda a produção de conhecimento da USP e de todas as universidades a fim de tirá-la das amarras dos lucros e orientá-la de acordo com a necessidade da maioria da população.




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