Política

ELEIÇÕES RIO 2020

Eleições no Rio: qual caminho para que os capitalistas paguem pela crise?

Frente ao cenário eleitoral de 2020 queremos debater com todos que buscam uma alternativa contra Crivella e os candidatos da direita e extrema direita para a prefeitura do Rio.

Carolina Cacau

Carolina Cacau é professora e pré-candidata a vereadora do MRT na capital do Rio de Janeiro em 2020.

sexta-feira 7 de agosto| Edição do dia

Imagem: Alexandre Alves

O Estado do Rio de Janeiro já chega a mais de 174 mil casos e quase 14 mil mortes pela Covid-19. As favelas têm os maiores índices de letalidade e os negros e pobres são os que mais morreram na pandemia. Witzel e Crivella junto a política criminosa do Governo Bolsonaro são os responsáveis por essas mortes. A pandemia no Rio foi agravada pela precarização na saúde, com escândalos de corrupção e trabalhadores sem salários, o aumento da fome causada pelo aumento do desemprego e da informalidade. E também pelos recordes de mortes pelas balas da polícia.

A Covid-19 intensificou a crise que se arrastava nos últimos anos e já atingia em cheio os trabalhadores, principalmente os negros e pobres. Cerca de 23% da população, ou 1,5 milhão de pessoas, recebeu o auxílio emergencial, 30% dos bares e restaurantes já fecharam e há toda uma nova leva de trabalhadores informais morando nas ruas na capital fluminense. Cerca de 22% dos moradores do Rio estão em favelas e segundo o Departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da UERJ só 35% do esgoto da cidade é tratado. A expectativa de vida é de 10 anos a menos para os negros, estando entre as 10 metrópoles mais desiguais do mundo. A classe trabalhadora carioca hoje está espremida entre a violência da polícia, a pandemia, o desemprego e a fome.

Frente ao cenário eleitoral de 2020 queremos debater com todos que buscam uma alternativa contra Crivella e os candidatos da direita e extrema direita para a prefeitura do Rio.

O cenário eleitoral da direita e extrema-direita no Rio de Janeiro

Crivella busca a reeleição depois de uma gestão catastrófica, em que governou para as igrejas e empresários. Sua gestão é marcada pelos cortes de mais de R$800 milhões na saúde, fechando Clinicas da Família, demitindo mais de 5 mil funcionários e com atrasos sistemáticos de salários. Durante a pandemia fez demagogia para melhorar sua aprovação, que em dezembro de 2019, segundo o Datafolha, tinha 72% de reprovação como ruim ou péssimo. O Republicanos, seu partido, se transformou na legenda de Flavio e Carlos Bolsonaro, em uma negociação pelo apoio da reacionária ultradireita para as eleições deste ano.

Na esteira do descontentamento com Crivella, Eduardo Paes (DEM) tem despontado como favorito. Com um discurso de “bom” gestor municipal referenciando-se na economia aquecida de quando foi prefeito e aliado do PT e de Sérgio Cabral, esconde que aquela situação se deu em base às Olimpíadas e Copa do Mundo, que enriqueceu fortemente as empreiteiras e os empresários em esquemas de corrupção. Paes tentará roubar os votos bolsonaristas de Crivella, centrando-se nos temas relativos à cidade evitando se pronunciar contra Bolsonaro. Paes tem potencial para ser o candidato da Globo, contra Crivella, o candidato da Record e da Universal. Dois representantes dos monopólios capitalistas, da “velha política” carioca que só produz desigualdade, desemprego, enriquecendo um punhado de capitalistas. Tanto Crivella quanto Paes representam as portas abertas do Rio de Janeiro para Bolsonaro.

A extrema direita tende a ir dividida para a campanha. O PSL tem como pré-candidato o deputado estadual Rodrigo Amorim, conhecido por ter quebrado a placa em homenagem à vereadora assassinada Marielle Franco e por querer acabar com as cotas raciais em 2019. Há ainda o indicado de Dória, empresário Paulo Marinho, ex-financiador da campanha de Bolsonaro que tentará trazer o modelo Doria de governar para o Rio de Janeiro, com perseguição aos servidores, ataques à cultura em prol dos empresários. Há também a possibilidade da reacionária Cristiane Brasil, do PTB, filha de Roberto Jefferson e envolvida em diversos escândalos, bolsonarista de carteirinha que participou dos atos pelo fechamento do Congresso e do STF. Esta representa a velha corrupção que anda de braços dados com o autoritarismo e a ditadura militar.

Longe de ser alternativa a extrema-direita, Paes junto a Cabral, governaram numa aliança nefasta pró-elite escravocrata e anti-trabalhadores e o povo negro. Ergueram um Rio para os ricos, dos gastos bilionários em megaeventos. Um governo com um legado de repressão, militarização das favelas, implementação das UPPs, com escândalos como a desaparição de Amarildo. Mais de 60 mil pessoas foram removidas de suas casas para as obras dos megaeventos. Paes privatizou e precarizou a Saúde. A empresa Iabas envolvida nos escândalos de corrupção de Witzel foi trazida por ele. Paes sempre fez demagogia com os garis pela importância da Comlurb no município, mas quando esses trabalhadores, na sua maioria negros, protagonizaram a greve histórica de 2014 contra a precarização, foram chamados por ele de "marginais", mandou demitir mais de 300 garis e ainda mandou a polícia para reprimir a greve. Por 8 anos, Paes mostrou o que é governar para a burguesia e agora quer retomar esse projeto, no qual os trabalhadores pagam pela crise. É um erro contra a barbárie da ultra-direita prestar voto útil em Paes.

As candidatas de “centro”: mais da “velha política” carioca

Disputando com a direita, duas candidatas mulheres tentam emplacar um discurso de forma mais moderada, de “centro”. Uma delas é a ex chefe da polícia civil Martha Rocha (PDT). A outra é Clarissa Garotinho (PROS), representante do conhecido clã familiar que já governou o Estado do Rio de Janeiro por três mandatos.

Deputada estadual pelo PDT, Martha Rocha tem com o vice o ex-presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello (Rede), com o apoio do PSB. Além de ser uma chapa com partidos burgueses, Martha Rocha não só reproduz a utopia reacionária de polícia mais eficiente, como diretamente foi chefe da Polícia Civil no governo Cabral, no auge da implementação das UPPs, em 2011. É parte do histórico de repressão, assassinatos dos negros e pobres e impunidade policial. Em uma das lives que participou defendeu o sistema carcerário racista do Brasil, que aprisiona centenas de milhares de negros sem julgamento, afirmando que “bandido bom é bandido preso”. O Brasil tem a 4ª maior população carcerária do mundo, composta na imensa maioria por negros e pobres.

Martha Rocha se coloca como a candidata da “limpeza moral” das polícias, atacando as milícias bolsonaristas, mas seu objetivo é pura e simplesmente renovar a confiança no aparelho repressivo do Estado, defendendo uma “polícia técnica” que tenha mais legitimidade para reprimir os negros, os trabalhadores e os mais pobres. Em abril de 2015 votou a favor da nomeação de Domingos Brazão, suspeito de integrar o Escritório do Crime, para o Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro. Em 2018, apoiou a intervenção federal militar no RJ e chamou de "bala de prata". Sua resposta para a crise econômica que assola o Rio de Janeiro, grande raiz da crise e violência social, não toca em nada nos interesses dos grandes capitalistas.

Já Clarissa Garotinho tenta despontar apoiada no legado de seu pai. Apoia-se no fato de ter votado contra o impeachment de Dilma Rousseff para tentar dialogar com setores progressistas. No entanto, representa as velhas oligarquias que já governaram o estado, como seu pai e sua mãe que por três mandato deram mínimas concessões aos mais pobres, enquanto fortaleceram os lucros dos capitalistas. Com dezenas de escândalos de corrupção nas costas dos pais, (como sua mãe, Rosinha, que está inelegível por abuso de poder econômico), Clarissa Garotinho só pode representar a volta de uma velha oligarquia ao poder, em uma política de alianças onde ganham todos menos os trabalhadores. Já conhecemos esta oligarquia que fecha acordos com quem quer que seja, deixando portas abertas para Bolsonaro, para os capitalistas, Witzel e até mesmo para Crivella e Paes. O eventual apoio deste clã a quem for ao segundo turno passará, diretamente, pelo velho método de troca de cargos e indicações em pastas governamentais.

Paes, Crivella, Martha Rocha, Clarissa Garotinho, Cristiane Brasil, Paulo Marinho e Rodrigo Amorim são todos variantes de projetos burgueses. Cada qual à sua maneira defendem abertamente projetos contrários aos interesses da classe trabalhadora, dos negros e dos mais pobres.

A candidatura do PT segue a mesma receita fracassada da conciliação de classes

No campo progressista e da esquerda as candidaturas, a princípio, também saem separadas, com o PT trazendo Benedita da Silva, e o PSOL, Renata Souza. Quem assiste Benedita falando dos governos do PT ou mesmo do período em quem ela governou o estado do Rio de Janeiro (2002), pode se perguntar de que lugar ela está falando, já que parece o paraíso sem pobreza, violência ou exploração capitalista. Se baseia em questões como a implantação, durante sua gestão, da lei de cotas no RJ. Mas também houveram ataques. Ela foi vice-governadora de Garotinho, e assumiu sua gestão quando esse se candidatou para a presidência em 2002. O PT integrou o governo Cabral com Benedita à frente da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos de 2007 a 2010.

Foi no seu governo que a polícia voltou a bater recorde de mortes de jovens negros e do povo pobre, com 900 pessoas assassinadas pelo estado, quase o dobro do ano anterior, segundo o ISP, mostrando que para combater o racismo não basta uma mulher negra no poder. Benedita manteve uma coalizão com a burguesia racista da casa grande que não resolveu nenhum problema estrutural do Rio, a mesma burguesia que depois realizaria um golpe institucional contra o PT e abriu caminho a Bolsonaro.

Benedita fala criticamente de Eduardo Paes, como se o PT não tivesse apoiado e participado do seu governo, saindo dele só em 2016 para concorrer eleições, tendo sido parte fundamental do projeto de país aplicado no Rio de Janeiro. Foi na política de alianças do PT com o PMDB de Paes, Cabral e Pezão, que se coroou empreiteiros e o mercado imobiliário enquanto 60 mil pobres eram removidos de suas casas. Nem falar que foi no governo Dilma a ocupação do exército na favela da Maré. Não é possível expressar um projeto de cidade contra o racismo e a violência sem dizer que o PT também é responsável por esse legado repressivo.

E o balanço não é só do passado. Benedita fala do governo Bolsonaro como se o PT não governasse vários estados importantes, como se não dirigisse a principal central sindical do país, a CUT, que está numa enorme trégua, enquanto a classe trabalhadora está esmagada pelo desemprego, os ataques dos patrões e a pandemia. Os governadores do PT e do PCdoB no Nordeste aplicaram os ajustes dos patrões como a reforma da previdência. Na pandemia não garantiram testes massivos, leitos e até mesmo reprimiram atos antirracistas, como na Bahia. Já temos várias mostras de como são os governos do PT em meio ao Brasil de Bolsonaro. Sem um programa que faça com que os capitalistas paguem pela crise, serão os negros e trabalhadores que seguirão sendo os alvos da crise capitalista.

Um debate com o PSOL e a candidatura de Renata Souza

Em pelo menos seis capitais ou importantes cidades do país o PSOL e o PT saíram em chapas comuns, ou se apoiaram, como em Recife e Campinas. Antes do anúncio das pré candidaturas, Marcelo Freixo, Boulos e outras figuras do PSOL, assinaram manifestos como o “Estamos Juntos”, “Somos 70%” e “Direitos Já”, impulsionados por figuras da direita, golpistas, empresários como FHC, Luciano Huck, Neca Setúbal (uma das donas do Itaú). Não é possível defender os trabalhadores junto com quem sempre impôs ataques neoliberais. Também não há saídas com frentes como as Janelas pela Democracia, formadas pelo PDT, REDE, PV, PSB, PCdoB e PT, que buscam transformar a indignação contra o reacionário governo Bolsonaro em ações de pedido de impeachment, que na prática, seriam Mourão e os militares governando.

No Rio de Janeiro, Renata Souza é pré-candidata à prefeitura pelo PSOL. Sua candidatura foi anunciada depois da desistência de Freixo. Freixo desistiu de sua candidatura, que seria forte no Rio de Janeiro hoje, pois a Frente Ampla eleitoral do PT, PCdoB e PSOL, com partidos burgueses, como PDT, PSB e REDE que não se deu. Uma desistência com a qual debatemos aqui.

Queremos dialogar com todos e todas que veem na Renata Souza, uma mulher, negra e da Maré, vinda do mandato de Marielle, uma alternativa nas eleições desse ano. Defendemos que a campanha do PSOL do Rio de Janeiro deveria ser um contraponto à política de frentes e manifestos de conciliação de classes com o PT e com partidos burgueses, o que significa ser contrário ao que tem sido defendido inclusive por Freixo.

A crise econômica mostra que capitalistas e trabalhadores estão de lado opostos. Um dos dois pagará a conta da crise. E a tarefa da esquerda é preparar os trabalhadores para que impeça com os métodos da luta de classes, que sejamos nós mais uma vez os que pagam a conta. Por isso já polemizamos diversas vezes, contra a defesa da polícia e pelo discurso de que seria possível “governar para todos” que tem se expressado também nas posições de Renata Souza.

Em meio a forte luta antirracista que defende abolir a polícia nos EUA, o PSOL e várias outras organizações de esquerda, na contramão, defendem a ilusão de uma polícia mais humana. Negam que a polícia não existe para zelar pela segurança das pessoas, mas pela propriedade privada dos grandes capitalistas. Insistem nessa posição mesmo em meio à pandemia, que teve 120 operações policiais com 129 assassinatos por violência policial só em maio, matando crianças como João Pedro e mais tantos jovens negros. Isso sem falar na proliferação da milícia, que cada vez menos é uma “aberração”, sendo parte orgânica da polícia sob Bolsonaro. É preciso combater o sistema capitalista e suas instituições, lutando contra os autos de resistência, fim dos tribunais especiais e militares para policiais, e júris populares compostos por organizações de direitos humanos, de favelas, da esquerda e entidades dos trabalhadores. Lutando também pela legalização das drogas, motivo utilizado pelos governos para atacarem diariamente as favelas.

E para atacar a violência e a desigualdade que o capitalismo gera, e é a base da violência social, é preciso dizer claramente que não é possível governar para todos. Devemos levantar um programa contraposto à miséria que os capitalistas querem impor aos trabalhadores, com o não pagamento da dívida pública e taxação progressiva das grandes fortunas, que financie planos de obras públicas, dando trabalho a todos que precisam. Essa é uma forma concreta de acabar com o desemprego e com a fome que assola o Rio. Precisamos da Petrobrás 100% estatal sob controle dos trabalhadores. É preciso combater a fome que já se alastra pelas favelas, por isso o auxílio emergencial precisa seguir sendo pago, mas com o valor de pelo menos R$ 2 mil reais, o salário médio do brasileiro antes da pandemia, além da aprovação de lei contra as demissões. Também é urgente uma reforma urbana radical que dê acesso à moradia digna e saneamento para todos os cariocas, como resposta aos graves problemas de déficit de moradias e a favelização. São medidas emergenciais que a classe capitalista não pode atender e que só a enfrentando é possível conquistar. Dessa maneira, o Rio de Janeiro poderia ser não o epicentro da crise, mas uma plataforma nacional de luta dos trabalhadores para todo o país, retomando e aprofundando exemplos como a greve dos garis de 2014.

Nós do MRT defendemos que a saída política só pode ser dada pelos trabalhadores. Acreditamos na força dos profissionais da saúde, dos entregadores de aplicativos que não puderam fazer quarentena, e mostraram sua força em paralisações fundamentais. Em todos os trabalhadores que aumentaram suas jornadas em home-office. Uma candidatura de esquerda deveria se basear nessa força e questionar o regime de conjunto, levantando a necessidade de lutar por Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, sem nenhuma confiança no Congresso e no STF, para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para que os trabalhadores possam fazer suas próprias leis, e que não sejamos nós que paguemos por essa crise. Chamamos a todos os que consideram votar em Renata Souza, ou ainda nos candidatos do PSTU ou do PCB, a construir um polo que lute por uma saída realmente revolucionária. Isso deve passar pelo debate programático, estratégico, mas também pela construção concreta, desde já, da força política dos trabalhadores contra os capitalistas, em suas lutas cotidiana contra as mortes durante a pandemia, o desemprego e a miséria dos trabalhadores. A força social que vota na esquerda nas eleições e não acredita nas figuras nefastas de Crivella e Eduardo Paes pode ser parte de construir uma alternativa que seja revolucionária, baseada numa estratégia de independência de classe.




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