Mundo Operário

RELATO DE UM TRABALHADOR

Trabalho na Era do Coronavírus: vivendo na beira de um penhasco nos EUA

Para muitos, ganhar a vida nos Estados Unidos significa contrair dívidas substanciais e trabalhar longas horas em mais de um emprego precário. Um trabalhador da educação e dramaturgo fala sobre como o coronavírus exacerbou tensões que existiam antes da crise.

quinta-feira 26 de março| Edição do dia

Este texto foi originalmente publicado no Left Voice, portal da rede internacional Esquerda Diário. Tradução para o português: Rodrigo Delgado

Eu tenho vivido na beira de um penhasco desde que eu era criança. Eu sempre tinha dinheiro para pegar uma janta barata ou um filme ruim na zona rural de Ohio, mas embaixo da superfície, minha família estava sempre um momento longe do colapso financeiro. Isso aconteceu inúmeras vezes, mas nós fomos sortudos o suficiente para voltar delas. 

Quando eu escolhi a dramaturgia e educação, eu sabia as dificuldades que enfrentaria: dívida estudantil, estar constantemente apressado, estágios de baixo pagamento, múltiplos empregos, viver em uma igreja até que eu estivesse financeiramente estável, e o constante medo de que eu voltar para Ohio sem dinheiro algum e a cidade me olhar como um fracasso. Uma pessoa que escapou, mas falhou. Alguém que agora volta com o rabo entre as pernas e vai se tornar um funcionário comum no Wal-Mart. 

Mas tudo mudou. Eu tenho trabalhado pra caramba. Consegui trabalhar para pessoas de influência e ganhar dinheiro para sobreviver. Só nas últimas quatro semanas, eu tinha duas casas de sucesso consecutivas, ingressos esgotados para uma oficina da minha primeira peça, e o mais importante, um emprego estável em educação que estava pagando as contas, me dando liberdade financeira, e pela primeira vez em 8 anos, a possibilidade de finalmente ter um seguro de saúde. 

Daí esse vírus chegou…

Eles fecharam a escola sem avisar.

Eles não estão informando para nenhum dos funcionários se eles vão ser pagos pelas horas que não estão trabalhando.

Eles não estão nos oferecendo outros caminhos para ganhar dinheiro.

E eu deveria saber…

Isso não é novidade. 

Um empregador descontou do meu pagamento por um dia de trabalho quando minha parceira foi enviada ao pronto-socorro. Ela estava assustada. Ela não tinha família na região. Eu precisava estar lá. 

Um empregador me ofereceu para pegar um avião para casa após meu pai quase ter morrido pela primeira vez, porque eu não podia pagar pela passagem em função da falta de pagamentos que estávamos recebendo. No dia posterior me disseram que eu precisava montar um plano de pagamento com eles por causa da passagem. Eu não vi meu pai até 4 meses depois do acidente. Depois de eu ter economizado dinheiro e um amigo da família me ajudado a pagar a passagem.

Esse trabalho atual: Um trabalho onde crianças ricas falam que não vão me ouvir porque não sou a mãe delas. Um trabalho onde meus colegas constantemente ainda fazem o uso equivocado de pronomes quando se referem a mim depois de 6 meses. Um trabalho onde crianças indisciplinadas gritam com a gente por quererem usar seus telefones. Um trabalho onde, apesar de tudo, eu amo essas crianças e vou ajudá-las não importa o que aconteça. Esse trabalho agiu como se a morte do meu pai fosse um inconveniente. Como você consegue tirar uma folga? Você sabe o quanto de dinheiro você está perdendo?”

Eu trabalhei no dia de Ação de Graças, nos dias de folga, durante o primeiro leito potencial de morte do meu pai. Fiz turnos quando outras pessoas ficaram bêbadas porque eu achei que isso ajudaria na minha posição. Isso iria me alavancar para o sucesso. E agora esse vírus aparece e você se dá conta que tudo se trata de dinheiro. Quando você trabalha de por hora, você é dispensável até você não ser. Você é forçado a viver na beira de um penhasco, até cair ou ter permissão para seguir em frente.  

Só o que peço é um pouco de respeito...




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